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O encontro

O Labirinto da Carne e o Peso do Destino

A porta da cela, pesada e feita de um metal frio que parecia absorver a pouca luz do ambiente, permanecia entreaberta. O silêncio que se seguiu à saída de Katakuri era quase tão opressor quanto sua presença física. Miu deu um passo à frente, seus pés descalços tocando o chão úmido e gélido. A liberdade estava a poucos metros de distância, um corredor escuro que levava ao desconhecido, à chance de uma vida sem correntes.

No entanto, o movimento de seus músculos fez com que a dor residual da regeneração latejasse em seus pulsos e tornozelos. A dor não era apenas física; era um lembrete constante de sua utilidade, de sua maldição. Ela parou. O ar fugiu de seus pulmões enquanto uma percepção devastadora a atingia como um soco no estômago.

Lentamente, Miu recuou. Seus ombros bateram contra a parede de pedra áspera e ela escorregou até o chão, abraçando os próprios joelhos. A imagem da pequena vila costeira onde cresceu, com suas casas de telhados de palha e o cheiro de sal marinho, invadiu sua mente. Ela lembrou-se do sorriso da velha senhora que lhe dava pães doces e dos olhos esperançosos das crianças que ela tentava proteger.

— Eu não posso... — sussurrou ela, a voz quebrada pelo desespero.

Mesmo sem saber se Katakuri ainda estava por perto, escondido nas sombras ou observando através de algum espelho daquele mundo bizarro, Miu começou a falar em voz alta. Sua voz ecoava nas paredes de pedra, carregada de uma agonia que nenhuma regeneração física poderia curar.

— Katakuri-san! — chamou ela, fechando os olhos com força. — Eu sei que você ainda pode me ouvir. Por favor... volte.

O silêncio persistiu por alguns segundos, até que a pressão no ar mudou novamente. A figura imponente do comandante surgiu na penumbra do corredor, parando diante da porta aberta. Seus olhos afiados, cor de vinho, observavam a garota encolhida no canto, uma imagem de fragilidade absoluta que contrastava com a imortalidade de seu sangue.

— Eu lhe dei uma chance — disse Katakuri, sua voz profunda vibrando no peito. — Por que ainda está aqui?

Miu levantou o rosto, as lágrimas traçando caminhos brilhantes em suas bochechas pálidas. Seus olhos rosa-pastel estavam nublados por uma tristeza sem fim.

— Eu agradeço... do fundo do meu coração, eu agradeço pela sua misericórdia. Nunca imaginei que alguém como você teria compaixão por uma estranha — começou ela, soluçando. — Mas a liberdade que você me oferece é uma ilusão. Eu falhei na missão. Eu não levei Brûlée-san para eles.

Katakuri estreitou os olhos, permanecendo em silêncio, permitindo que ela continuasse.

— Aqueles homens... os piratas que me forçaram a vir aqui... eles não são como você. Eles não têm honra. Eles mantêm minha vila como refém. O acordo era claro: a vida deles pela captura de um membro da sua família. — Ela apertou as mãos contra o peito, onde o coração batia dolorosamente. — A essa altura, o tempo já se esgotou. Eles já devem ter percebido que eu não voltarei. Eles já devem ter... matado todos eles.

Ela baixou a cabeça, deixando que seus longos cabelos ondulados escondessem seu rosto.

— Eu não tenho mais para onde ir, Katakuri-san. Se eu fugir, viverei o resto da minha eternidade sabendo que sou a razão pela qual centenas de pessoas inocentes morreram. Eu não quero uma vida tranquila se o preço dela foi o sangue daqueles que eu amava.

Katakuri deu um passo para dentro da cela. A presença dele era esmagadora, mas Miu não sentia mais medo. O medo havia sido substituído por um vazio existencial que era muito mais assustador.

— O que você está pedindo, então? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta.

— Me mate — disse ela, com uma determinação fria que o surpreendeu. — Se você for capaz de destruir cada célula do meu corpo antes que eu possa me curar, faça isso. Ou... me entregue à sua mãe. Deixe que a Big Mom faça o que quiser comigo. Use-me como recurso, como a "Fábrica Humana" que todos dizem que eu sou. Pelo menos assim, minha existência terá algum propósito, mesmo que seja um propósito de dor.

Katakuri sentiu uma estranha irritação crescer em seu íntimo. Ele desprezava a fraqueza, mas o que via em Miu não era fraqueza de espírito; era o colapso de uma alma que havia sido esticada além de seu limite. Ele se lembrou de suas próprias cicatrizes, do peso de ser o "irmão perfeito", da responsabilidade de proteger uma família que muitas vezes era cruel.

— Você está desistindo — afirmou ele, sua voz soando como um julgamento.

— Eu não tenho mais propósito! — gritou ela, levantando-se subitamente, as correntes remanescentes tilintando. — Olhe para mim! Eu sou um erro da natureza! Meu corpo se reconstrói enquanto minha mente se estilhaça. Eu sinto cada nervo sendo costurado, cada osso voltando ao lugar... e para quê? Para ser usada por monstros? Se as pessoas que me davam um motivo para suportar essa dor se foram, então não há razão para continuar lutando contra o inevitável.

Ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros de seu peito maciço. Ela era tão pequena perto dele, uma boneca de porcelana diante de um titã.

— Por favor... eu imploro. Me entregue à Big Mom. Se eu vou ser uma prisioneira para sempre, que seja em um lugar onde eu não precise mais fingir que tenho esperança.

Katakuri olhou para baixo, encontrando o olhar suplicante de Miu. Ele viu o futuro novamente. Viu o destino sombrio que a aguardava nos laboratórios de sua mãe, ou nas mãos de colecionadores de raridades. Viu a luz naqueles olhos rosa se apagar para sempre, restando apenas uma casca regenerativa que servia de alimento e medicina para os Piratas da Big Mom.

Mas ele também viu algo que não esperava. Viu um vislumbre de si mesmo.

— A Mama não teria piedade de você — disse ele, sua mão enluvada movendo-se para o cabo de sua lança, Mogura. — Ela a veria apenas como um ingrediente. Um objeto.

— Eu já sou um objeto — respondeu Miu, fechando os olhos e inclinando o pescoço, oferecendo-se ao sacrifício. — Pelo menos nas mãos dela, eu não terei que decidir mais nada.

Katakuri permaneceu imóvel por um longo tempo. O mundo dos espelhos parecia prender a respiração junto com ele. Ele pensou em Brûlée, que fora salva por ele tantas vezes, e pensou na garota à sua frente, que não tinha ninguém para salvá-la de si mesma.

— Se eu a entregar à Mama — disse ele, sua voz agora mais suave, quase um sussurro — você nunca mais verá a luz do sol. Você será mantida em uma câmara, e partes de você serão colhidas diariamente. Você sentirá essa dor que tanto odeia, repetidamente, por décadas, talvez séculos. É isso que você deseja?

Miu estremeceu. A descrição era vívida e terrível, mas o vazio em seu coração parecia maior do que qualquer medo da tortura física.

— Se for o meu destino... que assim seja.

Katakuri soltou um suspiro pesado, um som que raramente deixava seus lábios. Ele não a mataria. Não porque não pudesse, mas porque havia algo naquela garota que o incomodava profundamente. Era a ideia de que um poder tão magnífico e terrível estivesse sendo desperdiçado no desespero.

— Você diz que não tem propósito porque sua vila se foi — disse Katakuri, dando as costas para ela e caminhando em direção à saída. — Mas você ainda está respirando. E enquanto estiver respirando, sua vida pertence a você, não aos seus agressores e nem à minha mãe.

— Katakuri-san? — Miu chamou, confusa, enquanto o via se afastar.

— Eu não vou matá-la — declarou ele, sem olhar para trás. — E não vou entregá-la à Mama. Não agora. Se você quer tanto um propósito, então sobreviva a esta noite.

Ele parou na soleira da porta e, com um movimento rápido de seu braço transformado em mochi, lançou algo em direção a ela. Miu estendeu as mãos e pegou o objeto. Era um pequeno amuleto, um adorno que pertencia a Brûlée, que ela deve ter deixado cair durante a captura.

— Brûlée me contou o que você disse a ela — continuou Katakuri. — Sobre querer uma vida tranquila. Sobre não querer ferir ninguém. Se você se entregar à escuridão agora, estará provando que aqueles que a usaram estavam certos sobre você. Que você é apenas uma "fábrica".

Miu apertou o amuleto contra a palma da mão, sentindo o frio do metal.

— Se sua vila foi destruída, então torne-se a força que impedirá que isso aconteça com outros — disse ele, sua voz ecoando com uma autoridade final. — No meu mundo, o poder é uma maldição apenas para aqueles que não sabem como usá-lo. Aprenda a lutar com essa dor, Miu. Transforme sua regeneração em uma arma de resistência, não em uma prova de submissão.

— Mas... para onde eu irei? — perguntou ela, a voz fraca, mas agora tingida de uma dúvida que não era mais puro desespero.

— O navio de suprimentos ainda parte em duas horas — respondeu Katakuri. — Eu não direi nada à Mama. Para todos os efeitos, você desapareceu no mar. O que você fará com essa "segunda vida" é problema seu. Mas não ouse desperdiçar a misericórdia de um Charlotte.

Com essas palavras, ele desapareceu no corredor, sua presença desaparecendo como uma tempestade que se afasta.

Miu ficou sozinha na cela, mas o silêncio agora era diferente. Ela olhou para seus pulsos, onde a pele estava perfeitamente restaurada. Ela sentiu a dor, sim — uma dor que latejava em cada batida de seu coração —, mas pela primeira vez, ela a aceitou. Não como uma punição, mas como o preço de estar viva.

Ela se levantou lentamente. Suas pernas ainda tremiam, e o peso da perda de sua vila ainda era uma âncora em sua alma. No entanto, as palavras de Katakuri haviam plantado uma semente. Se o mundo era um mar de monstros, talvez fosse hora de a "Fábrica Humana" deixar de ser a matéria-prima e se tornar algo que os monstros temessem.

Ela não sabia se sua vila realmente havia sido destruída, ou se ainda havia alguém para salvar. Mas ela sabia que, se ficasse ali e se entregasse, ela morreria antes mesmo de seu corpo parar de se curar.

— Eu vou sobreviver — sussurrou ela para a cela vazia.

Miu caminhou em direção à porta aberta. A dor da regeneração ainda estava lá, mas agora ela a usaria como bússola. Cada pontada de sofrimento seria um lembrete do que ela havia perdido e do que precisava proteger.

Ela saiu para o corredor escuro, deixando para trás a garota frágil que implorava pela morte. O caminho à frente era incerto e perigoso, mas pela primeira vez em dezoito anos, os passos eram dela, e de mais ninguém.

Enquanto caminhava pelas sombras do Mundo dos Espelhos, Miu olhou uma última vez para trás. Ela não viu Katakuri, mas sentiu que, em algum lugar daquela ilha de doces e pesadelos, o homem que a chamara de resistente estava observando.

— Obrigada... por me ver como uma pessoa — murmurou ela, antes de desaparecer na escuridão, em busca de um destino que ela mesma escreveria.