O filho de archie andrews e Sabrina spellman
O Conselho de Guerra e o Pequeno Herdeiro
O porão da casa dos Andrews nunca esteve tão lotado. O cheiro de serragem e óleo de motor, marcas registradas de Archie, agora se misturava ao aroma de pergaminhos antigos e ao cheiro de enxofre que parecia seguir Ambrose Spellman por onde quer que ele fosse. Sentados em cadeiras dobráveis e caixotes de madeira, o grupo de elite de Riverdale — ou o que restava dele após anos de mistérios e crises — observava o garoto no centro da sala.
William, com seus cabelos ruivos vibrantes e a pele de mármore, estava sentado no chão, alheio à tensão dos adultos. À sua frente, dois gatos o observavam. Salem Saberhagen, o felino preto de Greendale, mantinha uma postura régia, enquanto Sebastian, o gato de Sabrina, tentava morder a ponta do cadarço do tênis do menino.
— Então... — Reggie Mantle quebrou o silêncio, cruzando os braços sobre a jaqueta dos Bulldogs. — Deixa eu ver se entendi. Andrews deu uma de herói, atravessou a fronteira de Greendale e voltou com um mini-Archie que pode fazer torradas voarem e, provavelmente, amaldiçoar minha linhagem até a quinta geração?
— Menos drama, Reggie — cortou Jughead Jones, ajustando sua touca icônica enquanto anotava algo em seu caderno de couro. — O ponto não é o que ele pode fazer, mas o que ele representa. William é uma anomalia estatística e mística. Ele é o ponto de convergência.
— Ele é uma criança, Jughead — disse Archie, postado defensivamente ao lado do filho. — E ele precisa de orientação. Não apenas da magia da Sabrina ou das tias, mas de algo que o mantenha com os pés no chão. No chão de Riverdale.
Ambrose Spellman, elegante em seu roupão de seda bordado que parecia deslocado naquele porão suburbano, soltou uma risada melodiosa enquanto acariciava o queixo.
— Meu primo tem razão, Archie. William tem o fogo dos Spellman, mas se não for temperado com a disciplina dos mortais, ele pode acabar transformando a prefeitura em um castelo de areia antes do jantar. Por isso chamei os reforços.
A porta do porão se abriu com um rangido pesado. Dois homens entraram, trazendo consigo uma aura de autoridade que fez até Moose Mason se empertigar. O Diretor Wanaabe, com seus óculos de aro fino e expressão de quem já viu de tudo, e o Sargento Patton Howitzer, um veterano cujas cicatrizes no rosto contavam histórias de batalhas que Riverdale preferia esquecer.
— Diretor? Sargento? — Chuck Clayton levantou uma sobrancelha. — O que os senhores estão fazendo aqui?
— Educação, Clayton — respondeu Wanaabe, limpando as lentes dos óculos. — A escola secundária de Riverdale não está preparada para um aluno que pode ler mentes, mas eu estou. Vou supervisionar o desenvolvimento intelectual de William. Ele precisa entender a história deste mundo antes de tentar mudar o próximo.
— E eu — rosnou o Sargento Howitzer, batendo com a bota de combate no chão de cimento — vou garantir que ele tenha a disciplina de um soldado. Magia é uma arma, garoto. E uma arma sem segurança é um perigo para quem a empunha.
William levantou os olhos do gato Sebastian e sorriu para o Sargento.
— O senhor tem uma mancha escura no ombro — disse o menino, sua voz tranquila ecoando no porão. — É uma sombra de medo de 1994. Quer que eu tire?
O silêncio que se seguiu foi gélido. O Sargento Howitzer empalideceu, mas não recuou.
— Viu só? — sussurrou Dilton Doiley, ajustando seus próprios óculos enquanto segurava um contador Geiger que emitia cliques erráticos. — A percepção sensorial dele está fora das escalas. Ele não vê apenas o físico, ele vê o trauma.
— William — Sabrina interveio, descendo os últimos degraus da escada —, o que dissemos sobre ler as pessoas sem permissão?
— Desculpe, mãe. É que a sombra estava fazendo barulho — William deu de ombros e voltou a brincar com Salem.
— Certo — disse Archie, tentando retomar o controle da situação. — Estamos todos aqui porque confiamos em vocês. Moose, Chuck, Reggie... vocês vão ajudar no treinamento físico. Dilton e Jughead, vocês cuidam da parte lógica e investigativa. Ambrose e as tias cuidam do... bom, do lado "Greendale".
— E eu? — perguntou Reggie com um sorriso torto. — O que eu ensino para o garoto prodígio?
— Você ensina ele a ser um Andrews — respondeu Archie com um meio sorriso. — Ensina ele a jogar, a ser rápido, a ter confiança. Ele precisa saber que, antes de ser um bruxo, ele é um garoto de Riverdale.
Moose se aproximou de William, agachando-se com sua massa muscular imponente.
— Ei, garoto. Quer aprender a lançar uma bola de futebol? Sem usar o vento ou telequinese?
William olhou para o pai, que assentiu, e depois para Moose.
— Tudo bem, Sr. Mason. Mas o Salem disse que sua técnica de ombro está errada.
Reggie explodiu em uma gargalhada, enquanto Moose olhava confuso para o gato preto.
— O gato fala? — perguntou Moose, chocado.
— Ele não fala — explicou Ambrose, piscando para o grupo. — Ele... projeta conceitos sarcásticos. William é apenas um excelente tradutor.
Nas semanas que se seguiram, o porão dos Andrews e o quintal da Mansão Spellman tornaram-se o campo de treinamento mais estranho da história das duas cidades.
Pela manhã, o Diretor Wanaabe sentava-se com William sob o carvalho antigo, ensinando-lhe latim e filosofia clássica.
— Veja bem, William — dizia Wanaabe —, o conhecimento é o único feitiço que não consome energia. É a fundação da civilização.
— Mas Diretor — questionava William, enquanto Sebastian dormitava em seu colo —, se os romanos eram tão espertos, por que não viram que os deuses deles eram apenas ecos de entidades que vivem no Vazio?
Wanaabe suspirava, anotando em seu relatório que o nível de compreensão teológica do menino era "preocupantemente avançado".
À tarde, o Sargento Howitzer assumia. Ele levava William para as matas entre as cidades, ensinando-lhe rastreamento, sobrevivência e combate corpo a corpo.
— Esqueça as mãos, garoto! — gritava o Sargento enquanto William tentava esquivar-se de um treinamento de agilidade. — Use os pés, sinta o equilíbrio. Se você depender da magia para cada soco, você morrerá no dia em que encontrar um campo de anulação.
William suava, o rosto ruivo ficando vermelho pelo esforço, mas não desistia. Ele possuía a tenacidade de Archie, aquela teimosia dos Andrews que os impedia de cair, não importava o quão forte fosse o golpe.
Enquanto isso, Jughead e Dilton monitoravam os efeitos colaterais. Eles montaram um laboratório improvisado na garagem.
— Os níveis de radiação ectoplasmática sobem toda vez que ele fica irritado — observou Dilton, apontando para um gráfico no monitor. — Mas o batimento cardíaco permanece estável. É como se o corpo dele fosse uma bateria infinita.
— O problema não é a bateria, Dilton — comentou Jughead, mastigando um hambúrguer do Pop's. — É o que acontece se a fiação der curto. Se William tiver uma birra de criança normal, ele pode acidentalmente apagar a rede elétrica da costa leste.
Uma tarde, enquanto o grupo descansava no Pop's Chock'lit Shoppe — que estava fechado para o "treinamento especial" —, um incidente ocorreu.
Chuck Clayton estava tentando ensinar William a desenhar perspectivas em um caderno, enquanto Salem observava criticamente do balcão.
— A linha de fuga, Will. É tudo sobre para onde o olho caminha — explicava Chuck.
De repente, a porta do Pop's se abriu com um estrondo. Não era um cliente comum. Eram três figuras encapuzadas, vestindo túnicas que pareciam absorver a luz do ambiente. O ar ficou subitamente frio, e o cheiro de ozônio preencheu o restaurante.
— O Herdeiro — sibilou a figura central. — O Conselho das Sombras exige sua presença em Greendale. O sangue não pode ser desperdiçado em uma lanchonete de mortais.
Archie levantou-se num salto, colocando-se à frente de William. Reggie e Moose pegaram tacos de beisebol que mantinham sob a mesa, e o Sargento Howitzer sacou uma pistola de sinalização modificada.
— Ele não vai a lugar nenhum — rosnou Archie.
— Vocês não entendem — disse o encapuzado, sua voz soando como folhas secas sendo esmagadas. — Ele é a chave para o portão. Ele pertence a nós.
Ambrose, que estava nos fundos bebendo um milkshake de morango, caminhou calmamente para a frente, seus olhos brilhando com uma luz violeta perigosa.
— Cavalheiros, vocês estão fora de sua jurisdição. E, francamente, estão interrompendo a aula de artes do meu sobrinho. Isso é falta de educação.
— Afaste-se, Spellman — ameaçou o bruxo. — Ou sofrerá as consequências.
Antes que Ambrose pudesse lançar um feitiço, ou que Archie pudesse avançar, William se levantou. Ele não parecia assustado. Pelo contrário, parecia curioso.
O garoto caminhou até os homens de capuz. Salem saltou do balcão e parou ao lado de seus pés, as costas arqueadas e os olhos brilhando em um amarelo intenso.
— Vocês cheiram a poeira e solidão — disse William, estendendo a mão pálida. — Meu pai disse que as pessoas de Greendale têm segredos. Mas o segredo de vocês é que vocês têm medo de ficar sozinhos no escuro, não é?
— Silêncio, criança! — O bruxo levantou a mão para agarrar William.
Nesse exato momento, Sebastian, o gato branco de Sabrina que até então parecia apenas um animal doméstico preguiçoso, soltou um rugido que não pertencia a um felino daquele tamanho. O chão do Pop's tremeu.
William não recuou. Uma aura de fogo azul, fria como o gelo, emanou de seu corpo, envolvendo-o como uma armadura. O cabelo ruivo parecia flutuar em uma gravidade inexistente.
— Eu não sou uma chave — disse William, sua voz subitamente profunda, carregando o peso de mil anos de linhagem Spellman. — Eu sou a porta. E eu decido quem entra.
Com um estalar de dedos, uma onda de choque invisível atingiu os encapuzados, lançando-os para fora do estabelecimento e fechando as portas duplas com tanta força que o vidro vibrou, mas não quebrou.
O silêncio no Pop's era absoluto. Todos olhavam para o menino, que agora voltava ao normal, o fogo azul desaparecendo e o cabelo assentando.
William olhou para Chuck.
— Desculpe, tio Chuck. Acho que borrei o desenho.
Reggie soltou o ar que estava prendendo.
— Ok... eu oficialmente não vou mais reclamar quando ele ganhar de mim no videogame.
O Diretor Wanaabe ajustou a gravata, sua mão tremendo levemente.
— Uma demonstração fascinante de controle emocional e projeção de energia. Nota dez, William. Mas ainda temos que terminar a lição sobre o Império Romano.
O Sargento Howitzer guardou sua arma, um olhar de respeito cruzando seu rosto endurecido.
— Ele tem o instinto. Ele não atacou para matar, atacou para repelir. Isso é liderança.
Archie aproximou-se do filho e colocou a mão em seu ombro. Ele sentiu o calor residual da magia, mas também sentiu o coração batendo forte do garoto. William ainda era seu filho. Ainda era o menino que amava hambúrgueres e queria aprender a tocar violão.
— Você está bem, Will? — perguntou Archie em voz baixa.
— Sim, pai — William sorriu, o brilho travesso voltando aos seus olhos. — Mas o Salem disse que aqueles caras eram "amadores de quinta categoria". O que é um amador de quinta categoria?
Ambrose riu alto, abraçando o primo e o sobrinho.
— Significa que eles não têm estilo, pequeno Will. E se há algo que um Spellman-Andrews deve ter, é estilo.
Naquela noite, enquanto Riverdale dormia sob a vigilância silenciosa de seus protetores improváveis, William Andrews Spellman sonhou com florestas de fogo e cidades de vidro. Ao seu lado, na cama, dois gatos montavam guarda.
Ele era o herdeiro de dois mundos, cercado por um grupo de humanos comuns e seres extraordinários que haviam decidido que, custasse o que custasse, aquela criança teria uma chance de ser algo que nenhum deles jamais foi: livre.
A educação de William estava apenas começando, e Riverdale, com todos os seus pecados e virtudes, era o único lugar no universo onde um bruxo ruivo poderia aprender a ser, acima de tudo, um homem de bom coração. E enquanto o Sargento Howitzer patrulhava o perímetro e o Diretor Wanaabe revisava seus planos de aula, Sabrina e Archie observavam o filho da varanda, sabendo que o futuro estava em boas mãos — mãos que podiam tanto segurar uma bola de beisebol quanto moldar o destino da própria realidade.