o impacto
A Variável Inesperada
O som do motor da moto de Gustavo ainda ecoava nos ouvidos de Ana Clara enquanto ela atravessava o portão da escola na manhã seguinte. A sensação de seus braços em volta da cintura dele e o gosto da chuva misturado ao beijo no mirante eram memórias que ela guardava como um segredo precioso, um amuleto contra a rotina cinzenta do terceiro ano. No entanto, o ambiente escolar tinha uma maneira cruel de trazer qualquer um de volta à terra.
Ao chegar ao corredor das salas de Farmácia, Ana percebeu que o clima estava mais pesado do que o habitual. Izadora e Thamires estavam paradas perto dos armários, e o olhar que Izadora lançou para Ana não era apenas de inveja, mas de um triunfo malicioso que fez o estômago de Ana dar um nó.
— Olha só, a nossa pequena química chegou — disse Izadora, aumentando o tom de voz para garantir que os alunos do 2A ADM que passavam, incluindo Cauã e Enzo, ouvissem. — Dormiu bem, Ana? Ou ficou pensando no "barulho" do motor daquela moto preta a noite toda?
Ana ignorou o comentário, mas sentiu o olhar de Cauã queimar em sua direção. Ele não disse nada, apenas apertou a alça da mochila e desviou o rosto. A dor de ver seu melhor amigo daquela forma a atingiu, mas ela não tinha tempo para processar.
— Deixa ela, Iza — Thamires interveio, embora seu tom fosse de quem escondia uma fofoca ainda maior. — Ela ainda não viu quem está esperando o Gustavo lá no bloco de Exatas.
Ana sentiu uma pontada de dúvida. Ela conhecia o círculo de Gustavo: Ruan, Luiz, Pedro, Leonardo. Sabia que ele era cobiçado, mas ele tinha deixado claro que não se envolvia com ninguém. "Eu não quero nada de ninguém", ele dissera.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Ana, tentando manter a voz firme.
— Ah, você sabe como são esses caras de Exatas, né? — Izadora deu um sorriso de lado. — Eles gostam de fórmulas complexas, mas sempre voltam para os resultados garantidos. E o "resultado garantido" do Gustavo Ferreira acabou de chegar no primeiro ano.
Ana não esperou para ouvir o resto. Ela caminhou em direção ao pátio central, o lugar onde os mundos de Farmácia, Exatas e ADM se cruzavam. Seus olhos procuraram a silhueta alta e marrenta de Gustavo, mas o que encontrou foi uma cena que parecia saída de um filme de romance adolescente que ela detestaria ler.
Perto da escadaria do bloco B, Gustavo estava encostado na parede, com a mesma postura desleixada de sempre. Mas ele não estava sozinho. Uma menina de cabelos claros, vestindo o uniforme do primeiro ano com uma saia levemente encurtada e um sorriso possessivo, estava parada bem à frente dele, com as mãos apoiadas em seu peito.
— Aquela é a Vitória — sussurrou uma voz atrás de Ana. Era Giovanna Rayssa, que se aproximara com Madu. — Ela entrou este ano no 1º de Edificações. Dizem que ela e o Gustavo têm um "rolo" desde as férias.
— Ela é do tipo que não aceita "não" como resposta — completou Madu, olhando para Ana com preocupação. — E, pelo visto, o Gustavo não está fazendo muito esforço para afastá-la.
Ana sentiu um frio súbito. De onde ela estava, podia ver Vitória rindo de algo que Gustavo dissera. Ele não parecia tão intenso quanto estava ontem na chuva; parecia apenas... o Gustavo de sempre. O provocador que não olhava para o lado porque já tinha tudo o que queria ao alcance da mão.
— Eu preciso ir para a aula de laboratório — disse Ana, sua voz saindo mecânica.
— Ana, espera... — Madu tentou segurá-la, mas Ana já estava se afastando.
Ela não queria ser a menina que sofria por um garoto que mal conhecia. Ela era Ana Clara, a menina que preferia livros a pessoas, a que prezava o silêncio acima de tudo. Mas o silêncio agora parecia um deserto vasto e solitário.
Durante a aula de Farmacognosia, Ana mal conseguia focar nas lâminas de microscópio. Bárbara e Bella tentavam puxar assunto, mas ela respondia apenas com monossílabos. No fundo da sala, Izadora trocava mensagens no celular e ria, provavelmente atualizando o "feed" de fofocas da escola sobre a suposta humilhação de Ana.
No intervalo, Ana decidiu que não iria para a arquibancada. Ela não seria a segunda opção de ninguém, muito menos de um bad boy que colecionava garotas do primeiro ano como se fossem troféus de baixo custo. Ela se sentou em uma mesa isolada na biblioteca, o único refúgio onde o barulho de Vitória e do motor de Gustavo não poderia alcançá-la.
— O silêncio aqui é quase real, não é? — A voz rouca e familiar quebrou o ambiente sagrado da biblioteca.
Ana não levantou os olhos do livro de botânica.
— O que você está fazendo aqui, Gustavo? O primeiro ano não fica no outro bloco?
Gustavo puxou a cadeira à frente dela e sentou-se, ignorando o olhar de reprovação da bibliotecária.
— O primeiro ano fica onde quiser, mas eu fico onde me interessa.
— É mesmo? — Ana finalmente levantou o olhar, seus olhos brilhando com uma mágoa que ela não conseguiu esconder. — Porque parece que o seu interesse está bem distribuído entre a Farmácia e Edificações.
Gustavo soltou um suspiro, passando a mão pelo cabelo. Ele parecia exausto, a máscara de marrento levemente caída.
— A Vitória é... persistente. A família dela é amiga da minha. A gente saiu algumas vezes nas férias antes de as aulas começarem, mas eu já disse a ela que as coisas mudaram.
— Mudaram quando? Ontem na chuva ou hoje de manhã quando ela estava pendurada no seu pescoço? — rebateu Ana, fechando o livro com força.
— Ana, olha para mim — ele pediu, a voz baixando para um tom que só ela podia ouvir. — Eu não sou o Pietro. Eu não vou te dar flores e balas de goma. Eu sou um cara complicado, com um histórico pior ainda. Mas o que aconteceu ontem... eu não estava atuando.
— Então por que deixou que ela fizesse aquilo no pátio? Todo mundo viu, Gustavo. A Izadora já espalhou para a escola inteira.
— Porque eu não dou a mínima para o que a Izadora ou a escola inteira pensam — ele disse, inclinando-se para frente. — Mas eu me importo com o que você pensa. A Vitória é uma sombra do passado que não entendeu que o sol já se pôs. Eu não sinto nada por ela, Ana.
Ana sustentou o olhar dele por um longo tempo. Havia uma sinceridade crua nos olhos de Gustavo que desarmava suas defesas. Mas antes que ela pudesse responder, a porta da biblioteca se abriu com um estrondo desnecessário.
Era Vitória. Ela entrou no recinto como se fosse a dona do lugar, seus olhos varrendo as estantes até encontrarem a mesa onde os dois estavam. O sorriso dela era doce, mas os olhos eram gélidos.
— Gu! Você sumiu! — disse ela, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Gustavo, ignorando completamente a presença de Ana. — O pessoal está combinando de ir naquela lanchonete nova depois do treino. Você vai me levar, não vai?
Gustavo se esquivou do toque dela com uma sutileza que beirava a grosseria.
— Eu já disse que tenho planos, Vitória.
A menina do primeiro ano finalmente olhou para Ana Clara. Ela a mediu de cima a baixo, desde o cabelo preso de forma simples até o sapato sem salto. O desdém era evidente.
— Ah, você deve ser a menina da Farmácia — disse Vitória, a voz carregada de uma falsa simpatia. — A Ana, né? O Gu me falou que você é ótima em... como é mesmo? Misturar pozinhos?
— Farmácia envolve muito mais do que "misturar pozinhos", Vitória — respondeu Ana, sua calma voltando como uma armadura. — Envolve entender reações, equilíbrios e, principalmente, saber quando uma substância se torna tóxica e precisa ser descartada.
Vitória piscou, surpresa com a resposta afiada. Gustavo deu um meio sorriso, claramente impressionado com a postura de Ana.
— Vitória, vai para a aula — ordenou Gustavo, sem olhar para a menina. — Eu converso com você depois.
— Mas Gu...
— Agora — ele repetiu, o tom de voz não deixando margem para discussões.
Vitória bufou, lançou um olhar mortal para Ana e saiu da biblioteca batendo os pés. O silêncio voltou, mas era um silêncio carregado de perguntas não respondidas.
— Ela não vai desistir — comentou Ana, voltando sua atenção para o livro, embora não estivesse lendo nada.
— E eu não vou mudar de ideia — Gustavo respondeu. Ele se levantou e caminhou até o lado da mesa dela, parando bem perto. — No intervalo de amanhã, eu vou estar na oficina de artes. Sem sombras, sem passado. Só eu. Se você quiser que o silêncio seja compartilhado de novo... você sabe onde me encontrar.
Ele saiu da biblioteca com passos firmes, deixando Ana com o coração em desalinho.
O resto do dia foi um teste de paciência. No corredor, Ana cruzou com Cauã e Enzo. Cauã parecia querer falar algo, mas Enzo o puxou, sussurrando que "não era o momento". Pietro, por outro lado, parecia ter ganhado uma nova vida após ver a cena de Gustavo com Vitória no pátio.
— Ana! — Pietro a interceptou perto da saída. — Eu vi o que aconteceu. Eu te avisei que o Ferreira não era flor que se cheire. Ele já está com outra, e do primeiro ano ainda por cima. Você merece alguém que te valorize, alguém que esteja presente...
— Pietro, por favor — Ana o interrompeu, sentindo uma dor de cabeça começar a latejar. — Minha vida não é uma novela para você ficar comentando os capítulos. O que o Gustavo faz ou deixa de fazer não é da sua conta. E, honestamente, nem da minha.
Ela se afastou, deixando um Pietro confuso para trás.
Ao chegar em casa, Ana encontrou João e Guilherme jogando bola na frente da garagem. Guilherme, que sempre fora apaixonado por ela de uma forma silenciosa e respeitosa, parou o jogo assim que a viu.
— Tudo bem, Ana? Você parece cansada — disse Guilherme, aproximando-se com um sorriso tímido.
— Oi, Gui. Só foi um dia longo na escola.
— Se precisar de alguma coisa... sabe que pode contar comigo, né? Para estudar ou só para conversar.
— Eu sei, Gui. Obrigada.
Ana subiu para o seu quarto e se jogou na cama. Ela olhou para o teto, pensando na complexidade de tudo. Ela queria o silêncio, mas o barulho que Gustavo Ferreira trouxera para sua vida era viciante. E agora, com a chegada de Vitória, a equação se tornara ainda mais instável.
Na manhã de terça-feira, a escola parecia um campo de batalha silencioso. Izadora e seu grupo estavam em um canto, Vitória e suas amigas do primeiro ano em outro, e o grupo de Ana tentava manter a normalidade.
— Você vai encontrá-lo? — perguntou Madu enquanto caminhavam para a aula de Farmacotécnica.
— Eu não sei, Madu. Eu não quero ser "a outra" em uma briga de colégio.
— Ana, o Gustavo nunca escondeu quem ele é. Ele é um imã de problemas, mas ele nunca mentiu para você. A Vitória é quem está forçando a barra.
Quando o sinal do intervalo tocou, Ana sentiu uma força invisível puxá-la para o fundo do campus. Ela caminhou em direção à oficina de artes, tentando ignorar os olhares curiosos. Ao chegar atrás do prédio, no banco sob o jacarandá, ela o encontrou.
Mas ele não estava sozinho. Vitória estava lá, bloqueando o caminho dele, falando de forma agressiva enquanto gesticulava.
— Você não pode simplesmente me ignorar, Gustavo! — gritava Vitória. — Depois de tudo o que a gente passou no verão? Você vai me trocar por essa menina sem graça que mal abre a boca?
Gustavo estava com os braços cruzados, a expressão de uma paciência que estava prestes a se esgotar.
— Não houve "tudo o que a gente passou", Vitória. Houve duas festas e um cinema. Eu fui claro com você em janeiro. O que você está fazendo agora é passar vergonha.
Ana parou a alguns metros, incerta se deveria intervir ou dar meia-volta. Gustavo a viu. Seus olhos se iluminaram por um breve segundo antes de voltarem para Vitória.
— Ela está aqui — disse Gustavo, apontando para Ana. — Se você quer tanto saber por quem eu te "troquei", pergunte a ela.
Vitória virou-se, o rosto vermelho de raiva.
— Você! — ela caminhou em direção a Ana de forma ameaçadora. — O que você tem que eu não tenho? Você é sem sal, vive enfiada nesses livros... O que você fez com ele?
Ana Clara respirou fundo. O medo que ela costumava sentir em situações de confronto foi substituído por uma clareza absoluta. Ela olhou para Vitória, não com raiva, mas com uma calma que parecia irritar a outra ainda mais.
— Eu não fiz nada, Vitória — disse Ana, sua voz firme e ressonante no pequeno pátio. — Eu não "peguei" o Gustavo de você, porque ele nunca foi seu para começo de conversa. Pessoas não são propriedades. E se você acha que ser interessante é apenas gritar e chamar atenção, talvez seja por isso que ele prefere o silêncio comigo.
Vitória abriu a boca para responder, mas as palavras pareceram sumir. Ela olhou para Gustavo, esperando que ele a defendesse, mas ele apenas caminhou até o lado de Ana e colocou a mão possessivamente em seu ombro.
— Acabou, Vitória — disse ele, o tom de voz final. — Vai embora.
A menina do primeiro ano soltou um grito de frustração, pegou sua bolsa e saiu correndo em direção ao bloco principal, chorando de raiva.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som do vento nas folhas do jacarandá.
— Desculpe por isso — disse Gustavo, retirando a mão do ombro dela, mas permanecendo perto. — Eu não queria que você tivesse que passar por essa cena.
— Eu sobrevi — respondeu Ana, sentindo uma estranha satisfação. — Acho que passei no teste de "reação adversa".
Gustavo riu, aquela risada curta que Ana estava começando a adorar.
— Você é muito mais do que parece, Ana Clara.
— E você é muito mais problemático do que eu planejei para o meu terceiro ano.
Eles se sentaram no banco de madeira. Gustavo abriu o caderno de desenho e mostrou a ela o que estava fazendo. Era um desenho de uma flor de jacarandá, mas as pétalas eram formadas por pequenas engrenagens e fórmulas químicas.
— Uma síntese — explicou ele. — Exatas e Farmácia.
Ana passou os dedos pelo desenho, sentindo a conexão entre eles se fortalecer.
— Sabe que a Izadora e a Vitória vão se unir contra mim agora, né? — comentou ela.
— Deixe que se unam — Gustavo deu de ombros. — Elas são ruído. Nós somos a frequência.
Eles ficaram ali, dividindo o silêncio que agora não era mais apenas uma fuga, mas um território conquistado. Ana sabia que os desafios estavam apenas começando. Cauã ainda estava magoado, Pietro ainda era insistente e a escola inteira teria algo a dizer sobre a união improvável entre a menina mais quieta da Farmácia e o bad boy mais marrento das Exatas.
Mas, enquanto olhava para o perfil de Gustavo sob a luz filtrada pelas árvores, Ana Clara percebeu que a variável que ela mais temia — o caos — era exatamente o que tornava sua vida, pela primeira vez, completa.
— Gustavo? — ela chamou baixinho.
— Oi?
— Não me leve para casa de ônibus hoje.
Ele sorriu, fechando o caderno com um estalo satisfeito.
— Eu nunca tive a intenção de fazer isso, Ana Clara. Segura firme, porque o barulho de hoje vai ser longo.
E, enquanto caminhavam de volta para as aulas, de mãos dadas pela primeira vez diante de todos os olhares curiosos no pátio, Ana percebeu que o silêncio era bom, mas a música que eles estavam criando juntos era a única que ela queria ouvir para sempre.