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o impacto

O Labirinto das Intenções

A quarta-feira no Colégio Estadual começou com uma neblina densa que parecia querer abafar os segredos da noite anterior. Ana Clara caminhava pelo pátio sentindo o peso de centenas de olhos sobre si. Ela sempre fora a menina invisível, a sombra que se movia entre as prateleiras da biblioteca e os béqueres do laboratório de Farmácia, mas agora, o silêncio que ela tanto cultivava havia sido substituído por um zumbido constante de sussurros.

— Lá vai ela — sussurrou uma menina do segundo ano quando Ana passou.

— É verdade que ela enfrentou a Vitória no estacionamento? — perguntou outra, sem sequer tentar esconder a curiosidade.

Ana apertou as alças da mochila, mantendo o olhar fixo no chão de cimento. Ela sentia falta da sua bolha. Sentia falta de quando sua maior preocupação era o rendimento da destilação de óleos essenciais. Mas, ao mesmo tempo, havia uma centelha nova em seu peito, um calor que o beijo de Gustavo no jardim de ervas medicinais havia deixado para trás.

Ao entrar no bloco de Farmácia, ela foi imediatamente cercada por Madu e Giovanna Rayssa.

— Ana Clara, você tem muito o que explicar! — exclamou Madu, puxando-a para um canto perto dos armários. — A escola inteira está falando que você e o Gustavo Ferreira estão... bem, você sabe.

— A gente conversou, Madu. Só isso — tentou desconversar Ana, embora soubesse que era uma mentira frágil.

— "Conversou"? — Gi arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o jaleco. — Ana, eu vi a cara da Vitória hoje de manhã. Ela parecia que ia ter um colapso nervoso no meio do corredor de Edificações. E o Gustavo... ele chegou na moto dele com um sorriso que eu nunca vi naquele rosto de bad boy marrento.

— Ele terminou com ela — disse Ana em voz baixa, finalmente cedendo. — Ele disse que quer que as coisas sejam diferentes.

Madu suspirou, uma mistura de preocupação e empolgação no rosto.

— Ana, toma cuidado. O Gustavo é o caos em pessoa. E o exército da Vitória não é de brincadeira. Sem falar no Cauã e no Pietro... eles estão com uma cara de quem vai explodir a qualquer momento.

Como se fosse uma invocação, Pietro Pozenato apareceu no final do corredor. Ele caminhava com passos pesados, acompanhado por sua gêmea, Victoria, que parecia tentar acalmá-lo sem sucesso.

— Ana! — chamou Pietro, a voz ecoando pelo corredor de azulejos claros. — Podemos conversar? A sós?

Gi e Madu trocaram olhares rápidos.

— A gente se vê na aula de Bromatologia, Ana — disse Gi, lançando um olhar de aviso para Pietro antes de se afastar.

Ana respirou fundo e encarou o garoto do 3A Humanas. Pietro sempre fora doce com ela, o tipo de garoto que trazia chocolates e oferecia ajuda com os trabalhos de história, mas agora seus olhos brilhavam com uma mágoa profunda.

— É verdade, Ana? — perguntou ele, parando a poucos centímetros dela. — É verdade o que estão dizendo sobre você e aquele... aquele marginal das Exatas?

— Pietro, não o chame assim — respondeu Ana, sua voz saindo mais firme do que ela esperava. — O Gustavo não é o que você pensa.

— Ah, não? — Pietro riu, um som amargo. — Ele é um encrenqueiro que só quer saber de motos e de provocar os outros. Ele está com a Vitória faz meses, Ana! Você é inteligente, é centrada... por que se envolveria com alguém que só vai te trazer problemas?

— Talvez porque ele seja o único que não tenta me colocar em uma caixa, Pietro — disse ela, sentindo a irritação crescer. — Todo mundo aqui espera que eu seja a "Ana quieta", a "Ana estudiosa". O Gustavo me vê de verdade. Ele vê o que eu sinto, não o que eu mostro.

— Ele está te manipulando — insistiu Pietro, tentando segurar a mão dela, mas Ana recuou. — Ele só quer te usar para atingir a Vitória ou para mostrar que pode ter quem ele quiser. Por favor, Ana, volta para a realidade. Eu gosto de você de verdade.

— Eu sinto muito, Pietro — disse ela, sentindo uma pontada de culpa, mas mantendo sua decisão. — Mas eu não posso ser quem você quer que eu seja. Eu preciso descobrir quem eu sou fora dessa sua imagem de perfeição.

Ela deu as costas a ele, deixando-o parado no meio do corredor. Ao dobrar a esquina para a sala de aula, ela quase esbarrou em Cauã Castro. O ex-namorado estava encostado na parede, observando a cena com uma expressão sombria.

— Você está cometendo um erro, Ana — disse Cauã, sem rodeios. — O Enzo e eu estamos preocupados. O Gustavo tem um histórico que você não conhece.

— Todo mundo tem um histórico, Cauã — retrucou ela. — Inclusive você e eu. Agora, se me der licença, eu tenho aula.

As primeiras três aulas foram um borrão de análises químicas e anotações. Ana sentia a tensão no ar. Izadora, sentada duas fileiras atrás, não parava de cochichar com Thamires, lançando olhares venenosos na direção de Ana.

No intervalo, Ana decidiu que não iria se esconder. Ela caminhou em direção ao pátio central, onde o grupo de Exatas costumava se reunir. Ela viu Ruan e Luiz jogando cartas em uma das mesas, mas seus olhos procuravam apenas um par de olhos escuros e provocadores.

— Procurando alguém, pequena química? — A voz de Gustavo surgiu logo atrás dela, enviando um arrepio pela sua espinha.

Ela se virou e o encontrou encostado em uma pilastra, com a jaqueta de couro aberta e um sorriso de canto.

— Achei que você estivesse ocupado resolvendo equações impossíveis — brincou ela, tentando disfarçar o nervosismo.

— Equações são fáceis — disse ele, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o perfume amadeirado que ele usava. — O difícil é lidar com o comitê de boas-vindas que você deixou no corredor de Farmácia. O Pozenato parecia que ia chorar ou me bater.

— Ele está magoado — suspirou Ana. — Todo mundo está agindo como se eu tivesse cometido um crime.

— O crime de ter vontade própria? — Gustavo riu e, para a surpresa de todos os presentes no pátio, pegou a mão de Ana e entrelaçou seus dedos nos dela. — Deixe que eles falem. Se a gente for se preocupar com a opinião do 3A e do 3B, nunca vamos sair do lugar.

Eles caminharam juntos em direção à lanchonete, um ato de rebeldia pública que fez o barulho do pátio diminuir drasticamente. No caminho, cruzaram com Vitória e seu grupo de amigas do primeiro ano. A loira parou abruptamente, os olhos fixos nas mãos unidas de Gustavo e Ana.

— Você está mesmo fazendo isso, Gustavo? — perguntou Vitória, a voz trêmula de fúria. — No meio de todo mundo? Com ela?

Gustavo parou e olhou para Vitória com uma indiferença que chegava a ser cruel.

— Eu já disse ontem, Vitória. Acabou. O que eu faço agora não é da sua conta.

— Você vai se arrepender — sibilou Vitória, olhando para Ana com um ódio puro. — Você acha que é especial, Ana Clara? Você é só o sabor do mês. Quando ele cansar de brincar de "estudar", ele vai voltar para quem realmente entende ele.

— Eu não sou um experimento, Vitória — respondeu Ana, mantendo a calma. — E se você se valorizasse um pouco mais, não estaria aqui implorando pela atenção de alguém que já disse que não te quer.

Vitória soltou um grito abafado de frustração e saiu pisando fundo, seguida pelas amigas. Gustavo olhou para Ana e soltou uma risada genuína.

— Você está ficando boa nisso.

— Eu tive um bom professor de arrogância — retrucou ela, sorrindo de volta.

Eles se sentaram em uma mesa afastada, sob a sombra de uma árvore frondosa. Por um momento, o mundo parecia ter voltado ao normal.

— Então — começou Gustavo, desenhando círculos invisíveis na mesa com o dedo —, o que você vai fazer no sábado?

— Eu ia estudar para a prova de toxicologia — admitiu Ana.

— Errado — disse ele. — No sábado tem um encontro de motos na serra. Nada de livros, nada de béqueres, nada de colégio. Só o vento e a estrada. O que você me diz?

Ana hesitou. A ideia de ir para a serra com Gustavo Ferreira era o oposto de tudo o que ela considerava seguro. Era arriscado, era barulhento e era absolutamente emocionante.

— Eu não sei se meus pais deixariam — murmurou ela.

— O João me ajuda com isso — disse Gustavo com uma piscadela. — Ele sabe que você precisa sair dessa redoma de vidro antes que ela sufoque você.

— Você realmente acha que eu sou tão frágil assim? — perguntou ela, arqueando a sobrancelha.

— Eu acho que você é a pessoa mais forte deste colégio — respondeu ele, de forma súbita e séria. — Porque você aguenta o peso das expectativas de todo mundo o dia inteiro e ainda consegue manter esse brilho nos olhos. Eu só quero te levar para um lugar onde ninguém espere nada de você.

Ana sentiu o coração acelerar. Ela estava prestes a aceitar quando um vulto parou ao lado da mesa. Era Leonardo, do 3B Exatas, com uma expressão preocupada.

— Gustavo, o Kainan e o pessoal do 3A ADM estão lá no estacionamento — disse Leonardo. — Parece que a Vitória foi falar com o Isaac e o bicho está pegando. Estão dizendo que você desrespeitou a menina.

Gustavo suspirou e se levantou, a expressão de tédio voltando instantaneamente.

— Eu não posso ter cinco minutos de paz neste lugar? — Ele olhou para Ana. — Fica aqui. Eu vou resolver isso.

— Gustavo, não! — Ana segurou o braço dele. — Não entra em briga por causa disso. É o que ela quer.

— Eu não vou brigar, Ana — disse ele, dando um beijo rápido na testa dela. — Eu só vou colocar os pontos nos is. Eu já volto.

Ana observou-o se afastar com Leonardo. Ela sentia uma angústia crescente. O colégio era um labirinto de intenções e egos, e ela acabara de se tornar o centro de um conflito que nunca desejara.

— Você realmente gosta de viver perigosamente, não é? — perguntou uma voz conhecida.

Era Jhoujhou, o garoto do 2A ADM que sempre fora apaixonado por ela. Ele estava acompanhado de Kamila, que parecia pronta para morder qualquer um que se aproximasse dele.

— Eu só estou vivendo, Jhoujhou — respondeu Ana, cansada de dar explicações.

— O Gustavo não é para você, Ana — disse Jhoujhou, o tom de voz carregado de uma tristeza genuína. — Ele é um furacão. E você é o tipo de garota que floresce na calma. Ele vai te destruir sem nem perceber.

— Talvez eu esteja cansada da calma, Jhoujhou — disse ela, levantando-se. — Talvez eu queira ver o que acontece quando o furacão passa.

Ela caminhou em direção ao estacionamento, ignorando os chamados de Madu e Gi que vinham logo atrás. Ao chegar lá, viu um círculo de alunos se formando. No centro, Gustavo estava parado diante de Isaac Costa e Kainan, dois dos garotos mais influentes do 3A ADM. Vitória estava logo atrás deles, com um sorriso vitorioso no rosto.

— Você acha que pode tratar as meninas do colégio como se fossem lixo, Ferreira? — perguntou Isaac, a voz alta para que todos ouvissem.

— Eu trato as pessoas com o respeito que elas me dão, Isaac — respondeu Gustavo, a voz calma, mas perigosa. — A Vitória e eu não temos mais nada. Se ela não aceita isso, o problema é dela, não meu.

— Você a humilhou na frente de todos! — exclamou Kainan.

— Eu disse a verdade — retrucou Gustavo. — Agora, se vocês terminaram o teatrinho, eu tenho mais o que fazer.

Isaac deu um passo à frente, cerrando os punhos.

— Você não vai a lugar nenhum até pedir desculpas.

Ana entrou no círculo antes que a situação saísse do controle.

— Parem com isso! — gritou ela, sua voz silenciando o estacionamento por um momento. — Isaac, Kainan, isso é ridículo. A Vitória está usando vocês para uma vingança pessoal. Vocês não percebem?

Vitória deu um passo à frente, os olhos faiscando.

— Cala a boca, Ana Clara! Você é a última pessoa que pode falar alguma coisa aqui. Você roubou o namorado dos outros e agora quer dar lição de moral?

— Eu não roubei ninguém, Vitória — disse Ana, aproximando-se da outra garota. — O Gustavo é uma pessoa, não um troféu que se ganha ou se perde. Se você tivesse um pingo de dignidade, pararia com esse show agora mesmo.

A tensão era palpável. Isaac olhou de Ana para Gustavo, e depois para Vitória. Ele parecia estar começando a perceber que fora usado.

— Já chega — disse Isaac, baixando os braços. — Isso não é problema nosso, Kainan. Vamos embora.

Vitória olhou em volta, percebendo que seu exército estava batendo em retirada.

— Vocês são uns covardes! — gritou ela, mas ninguém mais lhe deu atenção.

O círculo de alunos começou a se dispersar. Gustavo caminhou até Ana e a envolveu em um abraço apertado, ignorando os assobios e comentários que ainda ecoavam.

— Você não precisava ter feito isso — sussurrou ele no ouvido dela.

— Eu disse que não era frágil — respondeu ela, retribuindo o abraço.

— É — riu ele —, você definitivamente não é.

Eles ficaram ali por um momento, no meio do estacionamento, enquanto a neblina da manhã finalmente começava a se dissipar sob o sol do meio-dia. Ana sabia que as coisas não seriam fáceis. A inveja de Izadora ainda estava lá, a mágoa de Pietro e Cauã não desapareceria da noite para o dia, e Vitória certamente voltaria com um novo plano.

Mas, enquanto olhava para Gustavo, Ana percebeu que o labirinto do colégio não parecia tão assustador quando se tinha alguém para caminhar ao lado.

— Então — disse Gustavo, afastando-se um pouco para olhá-la nos olhos —, sobre o sábado...

— Eu vou — disse Ana, com um sorriso que iluminou seu rosto. — Mas você tem que me prometer que vai me ensinar a dirigir aquela moto.

Gustavo soltou uma gargalhada que atraiu a atenção de quem ainda estava por perto.

— Você quer mesmo viver perigosamente, não é, pequena química?

— Eu acho que eu já comecei — respondeu ela.

Eles caminharam de volta para o bloco de aulas, as mãos unidas, uma constante no meio do caos que era o terceiro ano. O silêncio de Ana Clara havia sido deixado para trás, mas a voz que ela encontrara era muito mais poderosa do que qualquer livro de botânica poderia ensinar. A alquimia entre eles estava completa, e o resultado era algo que nenhum deles poderia ter previsto: uma reação em cadeia que mudaria suas vidas para sempre.