O jogo do amor proibido
O Vermelho que nos Une
A rotina no Seixal tinha recuperado uma leveza que há muito não se sentia. O ar pesado da traição e da fúria dera lugar a uma camaradagem renovada, temperada por aquela típica provocação de balneário que é o oxigénio de qualquer equipa de futebol. Richard Ríos, agora com o "visto" oficial do capitão, sentia-se finalmente em casa. No entanto, ser o cunhado de Nicolás Otamendi trazia um conjunto de desafios que o colombiano não tinha previsto no seu contrato.
— Ríos! — a voz de Otamendi ecoou pelo ginásio, interrompendo a série de agachamentos de Richard. — O que é que isto significa?
O capitão caminhou até ele, segurando o telemóvel como se fosse uma prova de um crime de guerra. No ecrã, via-se uma fotografia que Nayara tinha publicado nos seus "stories": Richard a dormir no sofá dela, abraçado a uma almofada do Benfica, com a legenda "O meu brasileiro favorito está exausto".
— É uma sesta, Nico. Sabes o que é? Chama-se recuperação muscular — respondeu Richard, limpando o suor da testa e exibindo aquele sorriso atrevido que tanto irritava como divertia o argentino.
— Recuperação muscular é na banheira de gelo, não é no sofá da minha irmã — resmungou Otamendi, embora já não houvesse veneno nas suas palavras. — E apaga aquela cara de parvo. Estás a dar má imagem ao plantel.
— Admite lá, capitão — interveio Leandro Barreiro, que passava por perto com um rolo de espuma —, estás é com ciúmes porque o Richard agora tem quem cuide dele depois dos treinos.
— Juízo, Barreiro! — disparou Otamendi, mas não conseguiu esconder um pequeno esboço de sorriso.
A verdade é que a equipa estava a voar. Desde que a paz fora selada no gabinete do treinador, o Benfica tinha encadeado uma sequência de cinco vitórias consecutivas. O entendimento entre o General da defesa e o Mago do meio-campo era quase telepático. No relvado, protegiam-se mutuamente; fora dele, a dinâmica era... peculiar.
Naquela sexta-feira, o treino terminou mais cedo. O sol de Lisboa começava a despedir-se, pintando o céu com tons de laranja e rosa que lembravam as cores do clube. Richard estava ansioso. Tinha planeado um jantar especial com Nayara para celebrar os três meses de namoro — os três meses oficiais, pelo menos.
— Vais sair a correr outra vez? — perguntou Pavlidis, enquanto desamarrava as chuteiras. — Temos jantar de equipa hoje, esqueceste-te?
Richard estacou. Olhou para o calendário mental e sentiu um frio na barriga.
— O jantar de grupo? Hoje? — Richard passou a mão pelo cabelo castanho com mechas loiras. — Pensei que era amanhã.
— Amanhã é dia de estágio, nabo — disse Otamendi, aparecendo por trás dele e dando-lhe uma palmada forte nas costas. — E já que és da família, vais ajudar-me a escolher o vinho. A Nayara também vai.
Richard suspirou de alívio. Se a Nayara ia, o problema estava resolvido. Ou assim ele pensava.
O jantar teve lugar num restaurante típico em Alcântara, com vista para a Ponte 25 de Abril. O ambiente era de festa, mas a tensão entre Richard e Nayara era palpável por motivos diferentes. Eles não se viam há dois dias devido à carga de treinos intensos, e a vontade de estarem sozinhos era imensa.
— Estás muito calada, ó lampiã — sussurrou Richard ao ouvido de Nayara, enquanto os jogadores discutiam ruidosamente uma jogada do último jogo.
— Estou a tentar não saltar para o teu colo à frente do meu irmão e de vinte e cinco marmanjos que não sabem guardar segredo — retorquiu ela, com os olhos castanhos a brilharem sob a luz das velas. — Além disso, aquele teu "story" de hoje... estavas muito bonito com a nova camisola de treino.
— Só no treino? — Richard aproximou a cadeira, a perna roçando na dela por baixo da mesa. — Pensei que o brasileiro falsificado tinha mais encantos.
— Convencido — disse ela, dando-lhe um pequeno empurrão. — Mas sim, tens os teus momentos.
Do outro lado da mesa longa, Otamendi observava-os com o olho clínico de quem passou décadas a antecipar movimentos de avançados perigosos. Ele pigarreou alto, chamando a atenção de metade da mesa.
— Ríos, passa-me o sal. E aproveita para afastar a cadeira uns dez centímetros para a esquerda. Estão a ocupar muito espaço.
A mesa explodiu em gargalhadas. Richard revirou os olhos, mas obedeceu parcialmente.
— Ele nunca vai relaxar, pois não? — perguntou Richard em voz baixa.
— Ele é o Nico — respondeu Nayara, pegando na mão dele por baixo da mesa e apertando-a com força. — Ele ama-me. E, à maneira dele, acho que também já gosta de ti. Caso contrário, já estarias a flutuar no Tejo.
O jantar prosseguiu entre brindes e histórias de balneário. No entanto, a meio da noite, o ambiente mudou ligeiramente. Um grupo de adeptos de um clube rival, que estava noutra zona do restaurante, começou a cantar cânticos ofensivos contra o Benfica e, especificamente, contra Otamendi.
O capitão manteve a postura, ignorando as provocações com a frieza de um veterano. Mas os insultos subiram de tom, e um dos homens, claramente alterado, dirigiu um comentário machista e ofensivo a Nayara enquanto passava pela mesa.
O silêncio caiu sobre a equipa do Benfica como uma guilhotina.
Otamendi levantou-se lentamente, a cadeira arrastando-se no chão com um som estridente. O seu rosto, antes relaxado, transformou-se na máscara de fúria que os adversários tanto temiam. Mas, antes que ele pudesse dar um passo, Richard Ríos já estava de pé.
Com os seus 1,85m de altura e uma presença imponente, Richard colocou-se entre o homem e a mesa.
— Acho que não ouvimos bem o que disseste — disse Richard, a voz baixa, mas carregada de uma perigosidade que fez o provocador recuar um passo. — Queres repetir o que disseste sobre a senhora?
— Eu... eu só estava a brincar — gaguejou o homem, perdendo a coragem ao ver que não tinha apenas um argentino furioso à frente, mas um colombiano que parecia pronto para o mandar para outra dimensão, além de todo um plantel de atletas profissionais a levantar-se.
— Não me pareceu uma brincadeira — continuou Richard, dando um passo em frente, peito com peito. — Pede desculpa. Agora.
O homem olhou em volta, viu os olhos de fogo de Otamendi e a expressão decidida de Richard.
— Desculpa. Desculpem. Não volta a acontecer.
O grupo de provocadores saiu apressadamente do restaurante sob o olhar vigilante dos jogadores. Richard permaneceu parado por um momento, a respiração pesada, antes de sentir uma mão no seu ombro.
Era Otamendi. O capitão não disse nada de imediato. Olhou para o "brasileiro falsificado" e viu ali algo que ia além do talento com a bola nos pés. Viu carácter. Viu alguém que protegeria a sua irmã com a mesma garra com que ele próprio o faria.
— Bom reflexo, Ríos — disse Otamendi, num tom que era o maior elogio que Richard alguma vez recebera dele. — Mas da próxima vez, deixa-me dar o primeiro soco. Sou mais velho, tenho prioridade.
Nayara levantou-se e abraçou Richard pela cintura, escondendo o rosto no seu peito.
— O meu herói — sussurrou ela, embora o tom fosse de provocação para aliviar a tensão. — Mas o Nico tem razão, tens de trabalhar esse teu temperamento, senão ainda acabas expulso do restaurante.
— Por ti, eu aceitava o cartão vermelho todos os dias — respondeu Richard, beijando-lhe o topo da cabeça.
O resto da noite foi mais calmo. A união da equipa tinha sido testada de uma forma diferente e o resultado fora sólido. Quando o jantar terminou e todos se preparavam para sair, Otamendi chamou Richard à parte, perto da saída.
— Ouve lá — começou o argentino, cruzando os braços. — Amanhã temos um jogo importante. A Nayara vai estar na bancada.
— Eu sei, capitão. Ela não falha um.
— Pois. O que eu queria dizer é que... — Otamendi hesitou, algo raro nele. — Se marcares um golo, podes dedicar-lho. Mas nada de celebrações ridículas ou de tirar a camisola. Um coraçãozinho com as mãos e chega, percebeste?
Richard ficou boquiaberto. Aquela era a rendição final. O selo de aprovação total.
— Estás a dar-me autorização para ser romântico no Estádio da Luz? — Richard riu-se, incrédulo. — O mundo vai acabar amanhã.
— Não te estiques, Ríos. Antes que eu mude de ideias e te mande treinar com os sub-19.
No dia seguinte, o Estádio da Luz estava em ebulição. O hino do Benfica ecoava pelas bancadas, e a águia Vitória sobrevoava o relvado, trazendo consigo a esperança de mais três pontos. Nayara estava no seu lugar habitual, com a camisola número 27 — a de Richard — vestida com orgulho.
O jogo estava difícil. O adversário estava fechado lá atrás, uma autêntica muralha humana. Otamendi, lá atrás, comandava a defesa com uma autoridade inabalável, cortando todas as tentativas de contra-ataque. Richard, no meio-campo, tentava encontrar espaços, distribuindo jogo com a elegância que o caracterizava.
Aos 75 minutos, a oportunidade surgiu. Após um canto batido por Di María, a bola sobrou à entrada da área. Richard Ríos não pensou duas vezes. Controlou com o peito, deixou a bola cair e desferiu um remate de primeira, seco e colocado. A bola descreveu um arco perfeito, fugindo ao alcance do guarda-redes e aninhando-se no ângulo superior da baliza.
O estádio explodiu. Um rugido de 60 mil vozes que fez o chão tremer.
Richard correu em direção à bancada onde Nayara estava. Parou, olhou fixamente para ela e, com um sorriso radiante, fez o sinal do coração com as mãos. Depois, apontou para o relvado, como quem diz: "Eu estou aqui por ti".
Antes que pudesse processar a emoção, foi atropelado pelos colegas. O primeiro a chegar foi, previsivelmente, Nicolás Otamendi. O capitão saltou para as costas de Richard, gritando de alegria.
— GOLAÇO, CARALHO! — berrou o argentino ao seu ouvido. — GOLAÇO!
No meio da celebração, enquanto os jogadores voltavam para os seus lugares, Otamendi puxou Richard pelo braço e apontou para a bancada. Nayara estava a chorar e a rir ao mesmo tempo, enviando beijos para o relvado.
— Viste o que fizeste? — perguntou Otamendi, com um brilho de orgulho nos olhos. — Agora ela nunca mais se cala com este golo. Vou ter de te ouvir nos jantares de família para o resto da vida.
— É o preço a pagar por teres o melhor médio da liga na família, Nico — respondeu Richard, piscando o olho.
O jogo terminou com a vitória do Benfica. No final, enquanto os jogadores agradeciam aos adeptos, Richard e Otamendi caminharam lado a lado em direção ao túnel. A rivalidade que nascera nos campos da América do Sul e que quase explodira num balneário em Lisboa tinha-se transformado em algo muito mais forte: uma irmandade forjada no respeito e unida pelo amor à mesma mulher e às mesmas cores.
Ao entrar no túnel, Richard sentiu o telemóvel vibrar no bolso do casaco que o roupeiro lhe entregara. Era uma mensagem de Nayara.
"O brasileiro falsificado até que sabe chutar uma bola. Amo-te, meu lampião adotado. Hoje o jantar é por minha conta."
Richard sorriu e mostrou a mensagem a Otamendi. O capitão leu, bufou e abanou a cabeça.
— Lampião adotado? Ela não tem respeito nenhum — disse Otamendi, mas depois passou o braço pelo pescoço de Richard. — Mas olha lá... o jantar é por conta dela, mas eu também vou. Quero ver se me pagas aquela garrafa de vinho que me deves.
— Com todo o gosto, capitão — respondeu Richard. — Com todo o gosto.
Naquela noite, sob o céu estrelado de Lisboa, não havia brasileiros falsificados nem argentinos furiosos. Havia apenas uma família, um clube e a certeza de que, no futebol como na vida, as melhores vitórias são aquelas que conquistamos depois das maiores batalhas. O Benfica estava em paz, e Richard Ríos tinha finalmente encontrado o seu lugar no mundo: entre a baliza, o capitão e o coração da rapariga que o chamava de nabo com todo o amor do mundo.