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O lobo e o dragao

Delírios de Fogo e Gelo

O vento cortante das montanhas parecia ter garras, rasgando o pouco de consciência que Mulan ainda tentava preservar. A caverna, que antes fora um refúgio precário, agora se transformava em uma lembrança distante enquanto ela era arrastada para a vastidão branca. Shan Yu não esperou que a tempestade cessasse completamente; ele era um homem que dominava os elementos, não um que se curvava a eles.

Ele a carregava como um troféu de guerra, um fardo que pesava menos que sua cimitarra, mas que ocupava muito mais espaço em seus pensamentos. Mulan sentia o balanço rítmico dos passos dele. Cada solavanco fazia a ferida em seu flanco gritar, uma dor aguda que se transformava em um calor irradiante, espalhando-se por suas veias.

— Onde... para onde está me levando? — a voz dela era um sussurro, quase um suspiro perdido no uivo do vendaval.

Shan Yu não olhou para baixo. Seus olhos amarelos estavam fixos no horizonte cinzento, buscando as trilhas ocultas que levavam às terras além da Grande Muralha.

— Para onde você pertence agora — respondeu ele, a voz vibrando contra as costas dela. — Para o meu domínio. A China não tem mais lugar para uma mulher que se veste de homem, e eu não deixo armas valiosas para trás.

Mulan tentou lutar, suas mãos fracas empurrando o peito blindado dele, mas seus dedos não tinham força. O frio extremo estava sendo substituído por uma queimação interna insuportável. A febre, alimentada pela infecção e pelo esforço sobre-humano da batalha, começava a tomar conta.

— Eu não sou... sua arma... — ela balbuciou, a cabeça pendendo contra o ombro coberto de pele de Shan Yu. — Você é um... um bárbaro... um monstro...

Shan Yu soltou um riso curto, um som seco que não carregava alegria.

— Chame-me do que quiser, flor da China. Mas guarde seu fôlego. O caminho é longo e a morte ainda espreita cada passo que damos.

As horas seguintes tornaram-se um borrão de agonia para Mulan. A realidade se fragmentava. Em um momento, ela sentia a neve atingir seu rosto; no próximo, ela estava de volta ao jardim de sua família, vendo as pétalas da magnólia caírem. Mas as pétalas eram vermelhas, cor de sangue, e seu pai a olhava com olhos de decepção.

— Sinto muito, pai... — ela murmurou em seu delírio, as palavras saindo em um chinês arcaico e trêmulo. — A honra... eu tentei...

Shan Yu sentiu o corpo dela esquentar sob a capa de pele. O calor que emanava dela não era mais o calor vital da paixão que haviam compartilhado na caverna, mas o calor perigoso da doença. Ele parou por um momento, ajustando-a nos braços. O rosto de Mulan estava vermelho, a pele brilhando de suor apesar da temperatura abaixo de zero.

— Maldita mulher — rosnou ele, embora houvesse uma nota de algo diferente de raiva em seu tom. — Você sobrevive a uma avalanche para morrer de uma febre?

Ele encontrou um abrigo natural sob uma saliência de rocha negra, protegida do vento direto. Ele a depositou sobre um tapete de peles, observando como ela se encolhia, tremendo violentamente.

— Shang... — ela chamou, os olhos entreabertos, mas sem ver nada. — Por que... por que me deixou? O gelo... está tão frio...

O nome do capitão chinês fez as mandíbulas de Shan Yu se travarem. Um rosnado baixo escapou de sua garganta. Ele se ajoelhou ao lado dela, suas mãos grandes segurando os ombros trêmulos de Mulan.

— Aquele garoto não está aqui — disse ele com uma dureza cruel. — Ele a abandonou à própria sorte. O único homem que restou para você é aquele que você tentou matar. Lembre-se disso.

Mulan focou o olhar por um breve segundo. A imagem de Shan Yu, imponente e aterrorizante contra o céu escurecido, pareceu se fundir com seus pesadelos.

— Você... — ela cuspiu, o delírio dando-lhe uma coragem audaciosa. — Você vai queimar no inferno... lobo maldito... eu devia ter... cortado sua garganta...

Shan Yu sorriu, um brilho selvagem nos olhos. Ele gostava da luta dela, mesmo quando ela estava à beira do colapso.

— Talvez. Mas se eu for para o inferno, levarei você comigo para me servir.

Ele pegou um odre de couro, contendo um licor forte e amargo das estepes, e forçou Mulan a beber. Ela engasgou, o líquido queimando sua garganta, mas o calor momentâneo ajudou a estabilizar seus tremores.

— Beba — ordenou ele. — Ou eu farei você engolir cada gota à força.

Mulan tentou empurrar o odre, mas Shan Yu prendeu os pulsos dela com uma única mão. A disparidade de força era ridícula, e no estado dela, era absoluta.

— Eu te odeio — sussurrou ela, as lágrimas de frustração e dor escorrendo pelos cantos dos olhos.

— O ódio é uma excelente motivação para continuar viva — respondeu ele, aproximando-se tanto que ela podia sentir o cheiro de couro e da carne seca que ele consumia. — Use-o. Use esse ódio para combater a febre. Eu não aceitei sua rendição para que você se tornasse um cadáver antes de chegarmos às minhas terras.

Ele começou a desamarrar as bandagens improvisadas no flanco dela para verificar a ferida cauterizada. Mulan soltou um gemido de dor que terminou em um xingamento baixo.

— Sua técnica... é tão bruta... quanto seu exército — disse ela, a respiração curta.

— Minha técnica funciona — rebateu ele, limpando a área com o licor forte. — Na minha terra, não temos tempo para a delicadeza dos poetas da corte. Nós sobrevivemos. E é isso que você vai fazer.

O toque dele era firme, quase violento em sua eficiência, mas havia uma estranha possessividade na maneira como ele cuidava dela. Ele não a tocava como um médico tocaria um paciente, ou como um soldado tocaria um prisioneiro comum. Havia uma tensão latente, uma lembrança do fogo que queimara entre eles na caverna.

Mulan, perdida entre a consciência e o sonho, sentiu a mão dele subir para sua testa, verificando a temperatura. A palma da mão de Shan Yu era áspera, cheia de cicatrizes de mil batalhas, mas o contraste com o frio de sua própria pele era quase reconfortante.

— Você é uma criatura estranha, Mulan — murmurou ele, usando o nome dela pela primeira vez, embora ela não soubesse se ele o ouvira durante a batalha ou se o deduzira. — Uma flor de aço.

— Não me chame... pelo nome... — ela delirou, tentando virar o rosto. — Para você... sou apenas... o soldado que te venceu.

Shan Yu soltou uma risada sombria, aproximando o rosto do dela.

— Você me venceu no gelo, sim. Mas agora o gelo acabou. E aqui, nesta montanha, não há exércitos. Há apenas o caçador e a presa que se recusa a morrer.

Ele a puxou para perto de seu corpo, envolvendo-a com sua própria capa e o calor de seu torso maciço. Mulan tentou protestar, mas o calor era sedutor demais para sua alma congelada. Ela se aninhou contra ele involuntariamente, soltando um suspiro trêmulo.

— Isso... não muda nada — ela murmurou, a febre finalmente arrastando-a para a inconsciência profunda.

Shan Yu olhou para a mulher em seus braços. O cabelo negro dela estava emaranhado, o rosto manchado de fuligem e suor, mas havia uma beleza selvagem nela que superava qualquer dama da corte que ele já tivesse visto ou capturado. Ela era um desafio. E Shan Yu vivia para conquistar o impossível.

— Muda tudo — respondeu ele para o silêncio da montanha. — Você ainda não percebeu, mas já atravessou a fronteira. Não há volta para o que você era.

Ele permaneceu ali, vigiando o sono agitado dela enquanto o falcão circulava acima, um sentinela silencioso na escuridão. Shan Yu sabia que o caminho à frente seria perigoso, que seus próprios homens sobreviventes poderiam questionar sua decisão de manter a inimiga viva. Mas ele não se importava. Ele sentia o coração de Mulan batendo contra o seu peito, um ritmo rápido e desafiador.

Ela era sua dívida. Sua prisioneira. E, conforme a noite avançava, ele percebia que ela era a única coisa em todo aquele império vasto que realmente valia a pena possuir.

Quando a aurora cinzenta começou a surgir no horizonte, a febre de Mulan parecia ter atingido o ápice. Ela se debatia nos braços dele, gritando ordens militares e nomes de ancestrais. Shan Yu a segurava com uma força inabalável, sussurrando ameaças e promessas em seu ouvido para mantê-la presente.

— Acorde, guerreira — rosnou ele, sacudindo-a levemente. — O sol está nascendo. Se você quer me ver morto, terá que ter força para segurar uma espada primeiro.

Mulan abriu os olhos. A névoa da febre ainda estava lá, mas havia uma clareza súbita em suas pupilas escuras. Ela olhou para o homem que a segurava, para as montanhas que haviam sido seu túmulo e agora eram sua prisão.

— Eu não vou... facilitar para você — disse ela, a voz firme apesar da fraqueza.

Shan Yu sorriu, um gesto que mostrava seus dentes como um lobo pronto para a caça.

— Eu não esperava nada menos.

Ele a levantou novamente, pronto para continuar a jornada. A terra dos Hunos estava longe, e o caminho seria pavimentado com dor e resistência. Mas enquanto ele caminhava, Shan Yu sentiu a mão de Mulan agarrar-se fracamente à sua túnica. Não era um gesto de afeto, mas de sobrevivência.

E para Shan Yu, isso era o começo de algo muito mais perigoso que a guerra. Era o início de uma dominação que não buscava apenas o território, mas a alma da mulher que ousara desafiar o destino. A China ficava para trás, uma lembrança de honra e regras que Mulan não podia mais seguir. À frente, estendia-se a vastidão selvagem, onde o único juiz era a força e a única lei era o desejo do homem que a carregava para o desconhecido.