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O medo

O Sangue de Shadyside Não Mente

A viagem no carro de Deena foi um borrão de luzes de neon e o cheiro metálico de sangue que parecia impregnar as roupas de Sam. Clara estava sentada no banco de trás, espremida entre a garota possuída e a janela, sentindo o estômago dar voltas. Ela tentava convencer a si mesma de que era apenas o estresse, o trauma de reviver 1978 e a presença intimidadora de Ziggy ao seu lado, mas havia algo diferente. Uma náusea persistente, um peso no baixo ventre que ela vinha ignorando há semanas, atribuindo-o à ansiedade das datas comemorativas do massacre.

— Você está pálida, Clara — sussurrou Ziggy, sem tirar os olhos da estrada à frente. — Mais do que o normal para alguém que acabou de ver um fantasma do passado.

— Estou bem, Ziggy. Só... é muita coisa para processar — mentiu Clara, apertando o casaco contra o corpo.

— Você se casou com ele — Ziggy continuou, a voz baixa o suficiente para que os adolescentes no banco da frente não ouvissem. — Você viveu dezesseis anos na terra do sol, enquanto eu apodrecia naquela casa. Você sabia o que a família dele era? Você sabia o que o pai dele fez?

— Nick não é o pai dele, Ziggy! — Clara rebateu, sentindo uma pontada de lealdade queimar seu peito. — Ele cuidou de mim. Ele me tirou dos pesadelos.

— Ou ele te trancou em um novo — retrucou Ziggy, amarga.

O carro parou bruscamente em frente ao shopping Shadyside Mall. O lugar estava deserto, mergulhado em uma penumbra sinistra que trazia de volta memórias que Clara tentara enterrar com todas as suas forças. Enquanto desciam, Clara sentiu uma tontura súbita. O mundo girou por um segundo, e ela teve que se apoiar na porta do carro.

— Clara? — Deena aproximou-se, os olhos cheios de urgência. — Você consegue fazer isso? Precisamos de vocês duas. Vocês sobreviveram ao Nightwing. Vocês sabem como eles atacam.

— Eu consigo — disse Clara, respirando fundo e ignorando o gosto amargo de bile na garganta. — Vamos acabar com isso.

Dentro do shopping, o plano era simples e suicida: atrair os assassinos e matá-los, ou pelo menos ganhar tempo para quebrar a maldição. Simon e Kate corriam organizando suprimentos, enquanto Deena tentava manter Sam consciente. Clara se viu em um canto da praça de alimentação, observando Ziggy preparar armadilhas com a eficiência de quem nunca deixou de lutar pela vida.

— Por que você nunca me contou? — perguntou Ziggy, sem olhar para ela. — Sobre o casamento. Eu achei que você tivesse ido embora, mudado de estado.

— Eu não podia — confessou Clara, sentindo as lágrimas arderem. — No começo, eu estava tão quebrada... Nick era a única coisa que fazia sentido. Ele disse que, se as pessoas soubessem que uma "garota de Shadyside" tinha se infiltrado na linhagem dos Goode, a cidade dele nos destruiria. Ele disse que estava me protegendo do escrutínio, da imprensa... da maldição.

— Ele estava protegendo o sobrenome dele, Clara. Não você.

— Você não o conhece como eu conheço — insistiu Clara, mas suas próprias palavras soaram vazias.

De repente, a náusea voltou, avassaladora. Clara correu para o banheiro mais próximo, mal chegando a tempo de se ajoelhar diante do vaso sanitário. Ela vomitou até sentir que não restava nada dentro de si, o corpo tremendo violentamente. Quando finalmente conseguiu se levantar e lavar o rosto na água fria, viu Ziggy parada à porta, observando-a com uma expressão que não era mais de raiva, mas de reconhecimento.

Ziggy entrou e trancou a porta principal do banheiro.

— Há quanto tempo? — perguntou a ruiva.

— O quê? — Clara tentou disfarçar, secando o rosto com papel-toalha. — É o cheiro desse lugar, Ziggy. O medo.

— Não tente enganar quem já viu de tudo, Clara. Você não está apenas apavorada. Você está com "aquela" cara. A cara que a minha irmã dizia que as garotas ficavam antes de sumirem do acampamento para se casarem às pressas. Há quanto tempo você não menstrua?

Clara congelou. Seus dedos apertaram o papel úmido. Ela começou a contar mentalmente. O atraso... os seios sensíveis... o cansaço extremo que ela achava ser depressão.

— Dois meses — sussurrou Clara, a voz falhando completamente. — Meu Deus, Ziggy... dois meses.

— Você está grávida do Xerife de Sunnyvale — constatou Ziggy, e pela primeira vez, sua voz amoleceu. — No meio de um massacre. Na noite em que a bruxa decidiu cobrar a dívida.

— Ele não sabe — disse Clara, o pânico começando a subir. — Eu ia contar... eu ia contar no jantar de amanhã. Nick sempre quis um filho. Ele diz que quer uma nova geração, alguém que não carregue o peso do passado.

— Ou alguém para continuar o legado — murmurou Ziggy, mas ela balançou a cabeça, afastando o pensamento sombrio. — Escute, Clara. Você não pode ficar na linha de frente. Se o Leiteiro ou o Tommy aparecerem...

— Eu não vou fugir! — Clara interrompeu, os olhos brilhando com uma determinação que ela não sentia desde 1978. — Eu passei dezesseis anos me escondendo em uma casa bonita em Sunnyvale, fingindo que não ouvia os gritos de Shadyside. Eu deixei você sozinha. Eu não vou deixar essas crianças morrerem também. Se eu estou carregando um Goode aqui dentro, então que esse bebê aprenda desde cedo que o sangue de Shadyside não se curva.

Um estrondo ecoou pelo shopping. Vidros quebrados. O grito de Simon.

— Eles chegaram — disse Ziggy, puxando uma faca. — Fique perto de mim.

As duas saíram do banheiro e encontraram o caos. O assassino da máscara de caveira estava avançando pelo corredor principal. Deena gritava ordens, tentando levar Sam para um local seguro. Clara sentiu o instinto de sobrevivência assumir o controle. Ela pegou um dos extintores de incêndio que Simon havia deixado no chão.

— Ei! — gritou Clara, atraindo a atenção do assassino mascarado. — Aqui, seu desgraçado!

Quando o assassino se virou, Clara acionou o extintor, cegando-o temporariamente com a nuvem branca de pó químico. Ziggy aproveitou a brecha e o derrubou com um golpe preciso. Elas correram em direção à loja de departamentos, onde os outros se escondiam.

No entanto, o esforço físico cobrou seu preço. Clara sentiu uma pontada aguda no abdômen e tropeçou, caindo de joelhos.

— Clara! — Deena correu até ela. — Você foi atingida?

— Não... eu só... — Clara respirou fundo, lutando contra a dor. — Eu estou bem. Continuem.

— Ela não está bem! — Ziggy gritou, ajudando Clara a se levantar. — Deena, tire a Sam daqui. Nós vamos segurar o corredor.

— Por que você está protegendo ela tanto? — perguntou Deena, confusa com a mudança de atitude de Ziggy em relação à "esposa do xerife".

Ziggy olhou para Clara, um pacto silencioso sendo selado entre as duas sobreviventes de 78.

— Porque ela é a única que sabe como o Nick Goode realmente dorme à noite — respondeu Ziggy. — E porque ela tem mais a perder hoje do que qualquer um de nós.

Enquanto se preparavam para o confronto final nas profundezas do shopping, o rádio de comunicação que Simon havia roubado da delegacia chiou. A voz de Nick Goode preencheu o ambiente, fria e autoritária.

— Unidades, fechem o perímetro do shopping. Não deixem ninguém sair. Repito, ninguém sai.

Clara sentiu um calafrio. Aquela não era a voz do homem que a beijava antes de dormir. Era a voz de um carcereiro.

— Ele está vindo — disse Simon, apavorado. — O xerife vai nos prender por estarmos aqui.

— Ele não vai prender vocês — disse Clara, limpando o suor da testa. — Ele vai tentar "limpar" a bagunça. Mas ele não sabe que eu estou aqui. Ele acha que eu estou em casa, segura, debaixo das cobertas.

— O que você vai fazer? — perguntou Deena.

Clara olhou para o próprio reflexo em uma vitrine quebrada. Ela viu a mulher que Nick Goode moldou e, por trás dela, a garota de Shadyside que se recusava a morrer.

— Eu vou mostrar para ele que o segredo acabou — disse Clara. — Ziggy, se algo acontecer... se eu não conseguir...

— Não comece com isso — cortou Ziggy.

— Escute! — Clara agarrou o braço da amiga. — Se eu cair, você tira esse bebê daqui. Você não deixa ele crescer em Sunnyvale. Você o leva para longe de qualquer pessoa chamada Goode. Prometa-me.

Ziggy Berman, a mulher que não chorava por nada, sentiu os olhos marejarem. Ela assentiu com um movimento curto de cabeça.

— Eu prometo. Mas você vai sobreviver para contar a ele mesma que o pai dele é um monstro.

O som de passos pesados ecoou pelo átrio. Não eram os passos erráticos dos mortos-vivos, mas o passo firme de botas de couro de um homem vivo. Nick Goode entrou no shopping, sua lanterna cortando a escuridão, a arma em punho.

— Deena Johnson! — ele chamou. — Eu sei que você está aqui. Entregue a Sam e tudo isso acaba. Eu posso ajudar vocês.

Clara saiu das sombras, caminhando lentamente para o centro da praça iluminada pela luz da lua que filtrava pelo teto de vidro.

— Nick? — ela chamou, a voz ecoando, carregada de uma dor antiga.

O xerife parou abruptamente. A lanterna tremeu em sua mão enquanto o feixe de luz encontrava o rosto de sua esposa. O choque em suas feições foi absoluto.

— Clara? O que... o que você está fazendo aqui? Eu disse para você ficar em casa!

— A casa de quem, Nick? — ela perguntou, dando mais um passo à frente. — Da sua esposa submissa em Sunnyvale ou da garota que você deixou para morrer no acampamento enquanto salvava a própria pele e o legado da sua família?

— Clara, saia daí agora. É perigoso, você não entende...

— Eu entendo tudo agora — disse ela, colocando a mão sobre o ventre, um gesto instintivo que não passou despercebido pelos olhos aguçados de Nick. — Eu entendo por que você me manteve escondida. Você não estava me protegendo de Shadyside, Nick. Você estava protegendo o seu segredo de mim. Você sabia que, se eu falasse com a Ziggy, se eu lembrasse de cada detalhe daquela noite... eu veria o que você realmente é.

Nick baixou a arma ligeiramente, sua expressão oscilando entre o amor possessivo e o medo do desmascaramento.

— Eu fiz tudo por nós, Clara. Para nos dar uma vida. Para que nossos filhos não tivessem que lidar com a podridão desta cidade.

— Nossos filhos? — Clara riu, um som seco e sem alegria. — Você fala de futuro enquanto o sangue de adolescentes está nas suas mãos hoje. Eu estou grávida, Nick. Há dois meses.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Nick Goode pareceu vacilar, um brilho de genuína emoção atravessando seus olhos.

— Um filho... — ele sussurrou. — Clara, isso muda tudo. Venha comigo. Eu vou tirar você daqui, vamos para casa, vamos esquecer essa noite...

— Não — disse ela, firme. — Isso não muda nada. Isso só me dá mais um motivo para garantir que a bruxa Sarah Fier finalmente tenha a sua vingança contra os Goode. Porque eu não vou deixar meu filho ser como você.

Atrás de Clara, Ziggy, Deena e os outros surgiram das sombras, formando uma linha de frente unida. Os assassinos de Shadyside, movidos pela maldição, começaram a cercar o grupo, mas desta vez, eles pareciam hesitar, divididos entre o comando de sangue dos Goode e a presença da mulher que carregava o herdeiro da linhagem.

— Você não vai ganhar, Nick — disse Ziggy, postando-se ao lado de Clara. — Shadyside sobreviveu a 1666, sobreviveu a 1978 e vai sobreviver a você.

Nick Goode endureceu o rosto, a máscara de marido amoroso caindo para revelar o monstro que governava Sunnyvale.

— Se você não vier por bem, Clara... — ele começou, levantando a arma novamente.

— Então você vai ter que atirar na mãe do seu filho — interrompeu Clara, erguendo o queixo. — Atire, Nick. Mostre para o mundo o que um Goode faz com quem ama.

O impasse estava criado. No coração do shopping em ruínas, a esposa silenciosa havia se tornado a arma mais perigosa contra o império de Sunnyvale. E Clara sabia que, independentemente de quem saísse vivo daquela noite, o segredo estava morto. E ela, finalmente, estava livre.