O melhor
Ritmos Cruzados e o Sotaque do Coração
O sol da Califórnia filtrava-se pelas janelas do estúdio de ensaio, mas para Camila Cabello, o brilho vinha de outro lugar. A Fifth Harmony estava em meio a uma rotina exaustiva de ensaios pós-X Factor, tentando consolidar a identidade do grupo que prometia dominar as paradas. No entanto, naquele dia específico, a energia na sala estava diferente.
O motivo atendia pelo nome de Jorge Castro Herrera.
Líder da banda Oklands, Jorge era o fenômeno global do momento. Se o One Direction era uma tempestade, os Oklands eram um furacão de categoria cinco, e Jorge era o olho calmo e hipnotizante desse evento. Aos 18 anos, ele carregava o peso da fama com uma leveza desconcertante.
Camila o observava pelo reflexo do espelho enquanto ele conversava com Dinah e Normani no canto da sala. Ele vestia uma regata branca simples que deixava à mostra os braços definidos pelos esportes que nunca abandonara, a pele clara com aquele bronzeado dourado típico de quem carregava o sol do Brasil no DNA. Seus olhos verdes pareciam mudar de tom conforme a luz, e o cabelo castanho, de corte médio e levemente bagunçado, dava a ele um ar de desleixo planejado que deixava qualquer garota sem fôlego.
— Ele é tão... — Camila começou a sussurrar para si mesma, mas perdeu as palavras.
— Perfeito? — Lauren completou ao lado dela, com um sorriso de canto. — Sim, Camz, nós sabemos. E o pior é que ele é legal de verdade. É irritante o quanto ele é gente boa.
Jorge soltou uma risada alta, um som rico e genuíno que preencheu o estúdio. Ele se despediu das outras meninas e caminhou em direção a Camila. A cada passo, ela sentia o coração martelar contra as costelas. Ele não era apenas um rosto bonito; Jorge era um poliglota que falava cinco línguas fluentemente, um músico que dominava do piano ao violoncelo e um dançarino que fazia qualquer coreografia parecer poesia.
— *Hola, pequeña* — cumprimentou Jorge, abrindo um sorriso que exibia dentes perfeitamente alinhados. Ele adorava alternar entre os idiomas, e o espanhol dele tinha uma doçura que sempre desarmava Camila.
— Oi, Jorge — respondeu ela, tentando manter a voz firme. — O que faz por aqui? Achei que os Oklands estivessem gravando o clipe novo hoje.
— Terminamos cedo — disse ele, aproximando-se mais. O perfume dele, uma mistura de sândalo e algo cítrico, invadiu os sentidos dela. — E eu soube que vocês estavam treinando a coreografia de "Miss Movin' On". Pensei em vir dar um apoio moral... ou talvez roubar um pouco da energia de vocês. O Brasil me ensinou que música sem troca de energia é só barulho.
— Você sempre fala do Brasil — comentou Camila, sorrindo. — É engraçado como você consegue ser um astro mundial e ainda parecer o garoto da casa ao lado que ama a própria terra.
— É a minha raiz, Mila — ele disse, e o uso do apelido fez o estômago dela dar voltas. — Se eu esquecer de onde vim, me perco no caminho. *Saudade* é uma palavra que só nós temos, sabia? Eu sinto isso o tempo todo.
Jorge pegou um violão que estava encostado na parede e dedilhou alguns acordes com uma facilidade invejável. Ele era inteligente, calmo e carregava uma maturidade que ia muito além dos seus 18 anos. Mesmo tendo saído com várias garotas após um namoro longo de dois anos, ele nunca foi o tipo "pegador" arrogante. Ele tratava todas com um carinho que era quase perigoso.
— Toca aquela música nova? — pediu Camila, sentando-se no chão de madeira.
— Só se você cantar comigo — propôs ele, sentando-se à frente dela, as pernas cruzadas.
Nesse momento, a porta do estúdio se abriu e uma garota loira, vibrante e cheia de estilo entrou quase correndo. Era Annie, a melhor amiga de Jorge. Nascidos no mesmo dia, na mesma maternidade, eles eram a definição de almas gêmeas platônicas.
— Jorge! — exclamou Annie, jogando-se nas costas dele. — Eu sabia que te encontraria aqui. As meninas da recepção disseram que você entrou como se fosse o dono do prédio.
— E eu não sou? — brincou ele, inclinando a cabeça para trás para sorrir para a amiga.
— Em seus sonhos, Castro — Annie riu e então olhou para Camila. — Oi, Mila! Não deixa ele te alugar muito com as histórias de Minas Gerais, senão você não sai daqui hoje.
— Eu não me importaria — confessou Camila, antes que pudesse filtrar o pensamento.
Annie lançou um olhar cúmplice para Jorge. O mundo inteiro achava que os dois namoravam, dada a intimidade e o tempo que passavam juntos, mas para eles, a ideia era quase incestuosa. Eram irmãos de alma.
— Bom, eu vou deixar vocês dois na sessão acústica — disse Annie, piscando para Camila. — Vou ver se a Ally me ajuda com umas harmonias lá fora.
Quando Annie saiu, um silêncio confortável se instalou. Jorge voltou a olhar para Camila, os olhos verdes focados intensamente nela.
— Ela é louca, mas é o meu porto seguro — explicou ele, voltando a dedilhar o violão. — Ter alguém que te conhecia antes de tudo isso... antes dos estádios lotados... é o que me mantém são.
— Eu entendo — disse Camila baixinho. — Às vezes sinto que tudo está indo rápido demais. Um dia eu estava no meu quarto em Miami, no outro estou aqui.
— Você nasceu para isso, Camila — afirmou Jorge com uma convicção que a fez estremecer. — Eu vejo o jeito que você se entrega. Você tem o "tempero", como dizemos no Brasil.
Ele começou a tocar uma melodia suave, uma mistura de bossa nova com pop moderno.
— — O que é isso? — perguntou ela, encantada.
— — Algo que escrevi ontem à noite — respondeu Jorge, sem tirar os olhos dela. — Fala sobre encontrar beleza no caos.
— — É linda. Você... você poderia me ensinar a pronunciar algumas coisas em português? — pediu ela, sentindo as bochechas arderem. — Eu acho a língua tão musical.
Jorge sorriu, um sorriso largo que iluminou o rosto inteiro. Ele se aproximou, deixando o violão de lado por um momento, e tocou levemente o ombro dela.
— — Claro que sim. Vamos começar pelo básico. Repita comigo: *Você é encantadora*.
Camila tentou, tropeçando nas sílabas, e Jorge riu, não de deboche, mas de puro deleite.
— — Quase lá. *Encantadora* — ele repetiu, a voz descendo uma oitava, tornando-se mais rouca.
— — *Encantadora* — ela finalmente conseguiu. — O que significa?
— — Significa exatamente o que você é — disse ele, com uma sinceridade que a deixou sem ar.
O clima entre eles sempre fora assim. As outras meninas da banda, Dinah, Lauren, Normani e Ally, adoravam Jorge. Ele era o "irmão mais velho" honorário, o conselheiro, o amigo que trazia comida brasileira para os ensaios e as fazia rir até a barriga doer. Mas para Camila, era diferente. Ela notava o jeito que os músculos dele se moviam sob a pele bronzeada quando ele dançava — e ele dançava como um deus, com uma fluidez que misturava o gingado brasileiro com a técnica urbana. Ela notava a inteligência dele quando ele discutia literatura francesa ou quando explicava teorias físicas complexas apenas por diversão. Ele poderia estar em Harvard, mas escolheu os palcos. E Camila agradecia aos céus por essa escolha todos os dias.
— — Jorge? — chamou Camila, após um momento de silêncio.
— — Sim?
— — Por que você é tão... calmo? — ela gesticulou para o espaço ao redor. — Todo mundo quer um pedaço de você. A banda de vocês é a maior do mundo agora. Como você não pira?
Jorge suspirou, passando a mão pelo cabelo castanho.
— — Eu já tive minha fase de correria, Mila. Quando namorei por dois anos, aprendi que se você não cuidar do seu interior, o exterior desmorona. Eu amo o que faço, amo minhas fãs, mas eu sei quem eu sou sem o microfone. Sou só o Jorge que gosta de jogar futebol na praia e tocar violão para uma garota bonita em um estúdio vazio.
Ele se levantou e estendeu a mão para ela.
— — Vamos, chega de conversa séria. Me mostre aquele passo de dança que você estava tentando fazer antes de eu chegar. Eu vi que você estava com dificuldade no giro.
Camila aceitou a mão dele, sentindo a eletricidade do toque.
— — Eu não sou tão boa quanto você — admitiu ela.
— — Ninguém nasce sabendo — disse ele, puxando-a para perto. — O segredo é sentir o ritmo, não contar os passos. Deixa eu te conduzir.
Ele colocou a mão firme na cintura dela, e a outra mão segurou a de Camila. O contato físico era natural para ele, mas para ela, era como estar ligada a uma fonte de energia de alta voltagem. Jorge começou a se movimentar, guiando-a pelo estúdio com uma graça que parecia flutuar.
— — Um, dois, desliza... — sussurrava ele perto do ouvido dela. — Isso, Camila. Sente a música.
Eles giraram, e por um segundo, o mundo lá fora — os contratos, a pressão da gravadora, os paparazzi — desapareceu. Havia apenas o som da respiração deles e o ritmo que Jorge ditava. Quando o giro terminou, Camila acabou prensada contra o peito dele. Ela podia ouvir o coração de Jorge, uma batida constante e forte.
Ele olhou para baixo, encontrando o olhar castanho e intenso de Camila. Por um momento, a máscara de "amigo atencioso" pareceu fraquejar, revelando algo mais profundo, um desejo que ele mantinha sob controle com sua habitual calma.
— — Você aprende rápido — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro.
— — Tenho um bom professor — respondeu ela, sem conseguir desviar o olhar.
Jorge inclinou-se levemente, a distância entre seus lábios diminuindo perigosamente. Camila fechou os olhos, esperando, desejando. Mas, no último segundo, Jorge apenas beijou a testa dela com ternura.
— — Vejo você no show de amanhã? — perguntou ele, afastando-se com um sorriso gentil, voltando a ser o Jorge de sempre.
— — Com certeza — disse ela, tentando esconder a decepção e o tremor nas mãos.
Jorge pegou sua mochila e o violão, caminhando até a porta. Antes de sair, ele se virou e disse em um português perfeito:
— — *Boa noite, Camila. Sonhe com os anjos.*
Ele saiu, deixando para trás o cheiro de sândalo e um coração adolescente em chamas. Camila sentou-se no chão, tocando a testa onde os lábios dele haviam encostado. Ela sabia que as outras meninas a chamariam de boba, que diriam que ele era apenas carinhoso com todo mundo. Mas ela sentia que havia algo mais. Jorge Castro Herrera era um mistério escrito em várias línguas, e ela estava determinada a aprender cada uma delas.
Lá fora, Jorge encontrou Annie encostada no carro.
— — Você é um torturador, sabia? — disse Annie, rindo. — Dava para ver a tensão lá de fora.
Jorge entrou no banco do motorista e soltou um suspiro longo, encostando a cabeça no banco.
— — Ela é nova, Annie. E está começando agora. Ela precisa de foco, não de um namorado com a agenda lotada.
— — Mas você gosta dela — afirmou a amiga, não como uma pergunta, mas como um fato.
Jorge olhou para o prédio do estúdio uma última vez antes de ligar o motor.
— — Eu não gosto dela, Annie. Eu estou fascinado por ela. E é por isso que preciso ir devagar. Ela é especial demais para ser apenas mais uma história de turnê.
Ele deu partida no carro, o motor potente roncando enquanto ele se afastava pelas ruas de Los Angeles. Jorge era um homem de muitas habilidades, mas naquele momento, a única que ele realmente desejava era a capacidade de ler o futuro e saber se aquela garota de 16 anos, com olhos expressivos e um talento bruto, seria a pessoa a finalmente fazer seu coração brasileiro encontrar um lar definitivo.
Enquanto isso, no estúdio, Camila começou a cantar baixinho a melodia que ele havia tocado. O português ainda soava estranho em sua língua, mas as palavras dele ecoavam em sua mente. *Encantadora*. Talvez, apenas talvez, o astro mundial dos Oklands estivesse tão rendido quanto ela. E aquela era apenas a primeira estrofe de uma música que eles ainda iriam compor juntos.