O Nono Membro do Stray Kids
O Renascer das Cinzas e o Peso do Ferro
O silêncio do dormitório era espesso, quase sólido, interrompido apenas pelo som rítmico da fita adesiva sendo puxada e cortada. Nick estava sentado no chão de madeira fria, as pernas longas dobradas de forma desconfortável, mas ele mal sentia o formigamento nos joelhos. Seus dedos, grandes e ágeis, que tantas vezes percorreram as teclas de marfim de um piano ou as cordas de um violino com delicadeza absoluta, agora fechavam caixas de papelão com uma eficiência mecânica e desprovida de emoção.
O cheiro no quarto era uma mistura melancólica. O aroma de sândalo e chuva, que antes era o seu oxigênio, agora parecia um poluente, uma toxina que irritava as glândulas em seu pescoço. Seu lobo interior, geralmente uma presença majestosa e vibrante, estava encolhido em um canto escuro de sua mente, lambendo as feridas de uma rejeição que ia além da alma — era biológica. Um ômega dominante rejeitado durante o cio, com a marca negada, carregava um peso que poucos poderiam compreender. Era como se uma parte de seu DNA tivesse sido arrancada à força.
Ele pegou o último item sobre a mesa de cabeceira: uma fotografia emoldurada de uma viagem rápida que fizeram a Busan. Na foto, Chan ria, com os olhos apertados em semicírculos perfeitos, e Nick estava ao lado dele, parecendo um gigante gentil, protegendo o alfa do vento frio com seu corpo largo.
Nick sentiu um aperto na garganta. A dor física no peito era tão nítida que ele levou a mão ao esterno, pressionando o tecido do moletom.
— *Du hast versprochen* — sussurrou ele, a voz falhando no alemão nativo. — Você prometeu.
Ele não chorou. As lágrimas haviam secado na sala de ensaio, substituídas por uma dormência protetora. Ele colocou a foto virada para baixo na caixa e a fechou. Acabou. O relacionamento, a segurança, a ilusão de que ele tinha encontrado alguém que não se intimidava com o seu tamanho ou com a sua intensidade.
A porta do quarto rangeu suavemente. Pelo aroma de baunilha e talco, Nick soube imediatamente quem era. Felix. O pequeno ômega entrou cautelosamente, seus olhos grandes e expressivos cheios de uma tristeza que Nick não conseguia suportar ver.
— Nick-hyung? — A voz de Felix era um sussurro trêmulo. — Eu... os meninos me contaram. Eu sinto muito. Eu sinto tanto.
Nick forçou um sorriso, embora o gesto não chegasse aos seus olhos. Ele se levantou, a altura de 1,98m fazendo o teto parecer baixo demais, a sala pequena demais. Ele estendeu a mão e afagou o cabelo loiro de Felix.
— Está tudo bem, Lixie — disse Nick, sua voz barítona soando estranhamente calma. — Algumas coisas simplesmente não foram feitas para durar. Eu só estou... organizando o espaço.
— Você não precisa ir embora do dormitório, precisa? — Felix agarrou a manga do moletom de Nick, o instinto de ômega buscando proteção no mais velho. — O Chan-hyung disse que...
— O que o Chan diz não dita mais a minha vida, Felix — cortou Nick, gentil, mas com uma firmeza que fez o mais novo recuar um passo. — Eu vou ficar no quarto dos trainees individuais por uns dias. Preciso de espaço. O cheiro dele aqui... está me matando.
Felix assentiu, as lágrimas finalmente transbordando.
— Ele é um idiota. Como ele pôde dizer que você é "demais"? Você é o nosso pilar, Hyung. Sem você, o grupo...
— O grupo vai ficar bem — Nick interrompeu novamente, sentindo a pontada de amargura ao lembrar que seu nome nem sequer estava mais na lista oficial. — Ele escolheu a leveza. E eu... eu sou feito de chumbo e tempestade, eu acho.
Nick terminou de empilhar as três caixas perto da porta. Eram apenas três caixas. Três anos de dedicação, amor e sacrifício resumidos em papelão pardo. Ele sentia seu corpo protestar; o fim do cio sempre deixava um rastro de exaustão, uma febre residual que fazia seus músculos arderem. Mas ele se forçou a caminhar até o espelho de corpo inteiro.
Ele analisou sua imagem. Os ombros largos que pareciam carregar o mundo, os braços definidos pelos treinos de dança exaustivos, o rosto com traços fortes e mestiços que não se encaixavam no padrão delicado e andrógino que a empresa buscava para os ômegas.
— "Demais" — repetiu ele para o reflexo, um brilho frio surgindo em seus olhos escuros. — Se eu sou demais para eles, então eles são pouco para mim.
Naquela noite, Nick não dormiu. Ele foi para a academia da empresa, o único lugar onde o silêncio era absoluto às quatro da manhã. Ele descarregou sua frustração nos pesos, sentindo o suor limpar as toxinas do cio de seu sistema. Cada repetição era um grito silencioso. Cada gota de suor era uma memória de Chan que ele expulsava de seus poros.
Quando o sol começou a nascer, pintando o céu de Seul com tons de rosa e laranja, Nick estava na sala de produção que ele mesmo montara em um canto esquecido do prédio. Ele abriu seu notebook, os dedos voando sobre o teclado. A música que começou a fluir não era a música pop chiclete que a empresa pedia. Era algo sombrio, denso, uma mistura de batidas de hip-hop pesado com arranjos de violino melancólicos que ele mesmo gravou.
A porta da sala se abriu por volta das oito da manhã. Nick não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de sândalo tentou invadir o ambiente, mas o purificador de ar que Nick ligara no máximo, junto com seu próprio cheiro agora territorial de gengibre e limão ácido, repeliu a intrusão.
— Nicholas.
Chan estava parado na porta. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em uma noite. Suas olheiras eram profundas e suas mãos tremiam levemente.
— Suas coisas estão na porta do dormitório, Bang Chan — disse Nick, sem tirar os olhos do monitor. — Eu usei fita reforçada. Não deve quebrar no caminho para o seu novo quarto.
— Nick, por favor, podemos conversar como adultos? — Chan deu um passo para dentro, mas parou quando Nick girou a cadeira.
A aura de Nick era avassaladora. Um ômega dominante, quando decide reivindicar seu espaço, pode ser tão intimidante quanto qualquer alfa. Nick se levantou, usando cada centímetro de sua altura para olhar Chan de cima.
— Conversar? — Nick riu, um som que não tinha nada de gentil. — Você quer falar sobre como você me usou para satisfazer seu nó enquanto planejava me descartar? Ou quer falar sobre como você acha que minha biologia e meu corpo são um "problema de imagem"?
— Eu fiz o que achei melhor para o grupo! — Chan exclamou, a frustração transbordando. — A indústria é cruel, Nick. Eles iam te destruir. Eu tentei te proteger!
— Me proteger me excluindo do meu próprio sonho? — A voz de Nick subiu uma oitava, vibrando nas paredes. — Você não me protegeu, Christopher. Você se protegeu. Você teve medo de que eu brilhasse mais que você. Teve medo de que um ômega que não precisa ser salvo por você fizesse as pessoas questionarem sua liderança.
Chan recuou, o rosto pálido.
— Isso não é verdade...
— É a verdade que o seu lobo sabe, mesmo que sua mente minta — disse Nick, dando um passo à frente, forçando Chan a recuar mais. — Você quer o Hyunjin porque ele é o que você pode controlar. Ele é a imagem da perfeição frágil. E eu... eu sou o espelho que mostra que você não é tão forte quanto pensa.
— Nicholas, eu ainda me importo com você...
— Não ouse — rosnou Nick, e por um breve momento, seus olhos brilharam com o dourado de seu lobo interior. — Não ouse dizer que se importa depois de me deixar sozinho no pico do meu cio, implorando por uma marca que você já pretendia dar a outro.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Chan desviou o olhar, incapaz de sustentar o confronto.
— Eu vim dizer que a empresa quer ver você — murmurou Chan, a voz baixa. — O PD-nim ouviu as demos que você enviou de madrugada. Ele quer discutir seu futuro.
Nick sentiu um lampejo de triunfo, mas não permitiu que ele suavizasse sua expressão.
— Eu sei. Eu já tenho uma reunião marcada às dez. Agora, saia da minha sala.
— Sua sala? — Chan franziu a testa. — Esta é a sala de apoio do 4racha.
— Não existe mais 4racha para mim — Nick sentou-se novamente, colocando os fones de ouvido. — Agora, é apenas Nicholas Kaufman. E eu sugiro que você se prepare, Chan. Porque eu não vou mais diminuir meu som para que você possa ser ouvido.
Chan ficou parado por mais alguns segundos, o cheiro de chuva tornando-se triste e abafado, antes de finalmente se retirar e fechar a porta.
Nick fechou os olhos e respirou fundo. O vazio em seu peito ainda estava lá, uma cratera aberta pela traição, mas pela primeira vez em meses, ele sentia que o ar que respirava pertencia a ele, e não a um alfa que não sabia valorizá-lo.
Ele abriu um novo arquivo de composição e o nomeou: *“Too Much”* (Demais).
— Sim — sussurrou ele para a sala vazia, um sorriso genuíno e feroz finalmente curvando seus lábios. — Eu sou demais. E o mundo vai ter que aprender a lidar com isso.
As horas seguintes foram um borrão de atividade. A reunião com os executivos da JYP foi tensa. Eles olhavam para Nick com uma mistura de admiração e cautela. Eles viam o potencial comercial — um ídolo que falava nove línguas, produzia, dançava e tinha um visual que, embora fora dos padrões coreanos tradicionais, era um ímã para o mercado internacional.
— Nicholas-ssi — disse um dos diretores, ajustando os óculos. — Suas novas composições são... agressivas. Diferentes do que vínhamos planejando para o grupo de trainees.
— Eu não sou mais um "plano de grupo", senhor — respondeu Nick, sentado com a postura impecável, as mãos cruzadas sobre a mesa. — Eu sou um artista. Se a JYP não tiver espaço para um ômega dominante que não se curva, eu tenho certeza de que a BigHit ou a YG terão. Eu não estou aqui para pedir permissão para ser eu mesmo. Estou aqui para oferecer a vocês a chance de lucrar com o que eu sou.
A audácia de suas palavras teria sido o fim de qualquer outro trainee, mas Nick tinha os números e o talento para respaldar sua arrogância. Ele era o trainee com as melhores notas em todas as avaliações por três anos consecutivos.
— Queremos você como solista — disse o diretor finalmente. — Ou talvez como um elemento surpresa em um projeto global. Mas você terá que trabalhar o dobro. Sem o apoio de uma unidade, a pressão sobre um ômega será imensa.
— Eu já carrego o peso de ser "demais" a minha vida toda — Nick levantou-se, estendendo a mão para selar o acordo. — A pressão é o que transforma carvão em diamante. Eu estou pronto.
Ao sair da sala de reuniões, Nick encontrou Changbin e Han no corredor. Eles pareciam perdidos, como crianças que viram os pais brigarem.
— Nick-hyung... — Han começou, os olhos úmidos. — A gente tentou falar com o Chan, a gente tentou dizer que...
Nick interrompeu o mais novo com um abraço rápido, mas apertado. O cheiro de Han, cítrico e elétrico, sempre o animava, mas agora era apenas uma lembrança de uma época que terminara.
— Não se culpem, Jisung, Binnie. Vocês são alfas, vocês seguem o líder de vocês. Eu entendo. Mas eu não posso mais ser o protetor de vocês se isso significa me destruir.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Changbin, sua voz rouca de preocupação.
— Agora? — Nick olhou para o final do corredor, onde a luz do sol entrava pelas grandes janelas de vidro. — Agora eu vou mostrar para esse lugar o que acontece quando um ômega para de pedir desculpas por sua força.
Ele seguiu em frente, seus passos ecoando com confiança. A dor da perda de Chan ainda latejava em seu lobo, uma cicatriz que talvez nunca desaparecesse completamente. Ele ainda sentia falta dos abraços noturnos e do sândalo. Mas, enquanto caminhava em direção ao seu próprio estúdio, Nick percebeu que a liberdade tinha um cheiro muito melhor do que qualquer alfa poderia oferecer.
Tinha cheiro de gengibre fresco, tangerinas maduras e o aroma metálico e frio de um futuro que ele mesmo escreveria.
Ele entrou em seu novo dormitório, um espaço individual menor, mas que era inteiramente seu. Ele desfez as malas com calma, colocando seus livros de teoria musical na estante e suas partituras sobre a mesa. Ele pegou o violino, posicionando-o no ombro, e fechou os olhos.
A primeira nota que ele tocou foi alta, vibrante e poderosa. Não era uma melodia de acompanhamento. Era um solo.
Nicholas Kaufman não era mais uma peça em um tabuleiro de xadrez de outra pessoa. Ele era o mestre do jogo. E se Bang Chan queria um mundo de delicadeza e sombras, Nick construiria um império de luz e som, onde ser "demais" era o único requisito para a entrada.
Ele tocou até que seus dedos doessem, até que o sol se pusesse e a lua tomasse seu lugar. E, pela primeira vez em muito tempo, ele não se sentiu sozinho no silêncio. Ele se sentiu completo.