O pedido de namoro inesperado
Entre Flores Roxas e Espinhos Fraternos
O silêncio que se seguiu ao beijo foi preenchido apenas pelo som das cigarras e pelo eco distante da música que ainda tocava no rádio portátil escondido entre as flores. Scorpio sentia o perfume de Amora — uma mistura de baunilha com algo que ele só conseguia descrever como "cheiro de casa" — e, por um momento, esqueceu que o resto do mundo existia. Ele a segurava pela cintura como se ela fosse o seu bem mais precioso, e para ele, naquele instante, ela realmente era.
— Você está tremendo — sussurrou Amora, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. O sorriso dela era tão brilhante que chegava a ofuscar as luzes de fada penduradas nos galhos das árvores.
— É o frio — mentiu Scorpio, tentando recuperar sua pose de durão, embora o sorriso bobo em seu rosto o entregasse completamente.
— Sei... o frio — ela riu, passando os braços pelo pescoço dele e brincando com os fios de cabelo na nuca do rapaz. — Admite, Scorpio. Você estava morrendo de medo que eu dissesse não.
— Eu? Medo? — Ele bufou, mas logo se rendeu, encostando a testa na dela. — Tá bom, talvez um pouco. Aquelas três lagartixas me deixaram pilhado o dia todo dizendo que você ia fugir para as colinas assim que me visse de terno.
Amora soltou uma gargalhada cristalina, e antes que Scorpio pudesse responder, um barulho de folhagens se mexendo vindo dos arbustos à esquerda interrompeu o momento romântico.
— EU DISSE QUE ELE IA CHORAR! — O grito de Sofia ecoou pelo jardim, seguido por um som de baque seco, como se alguém tivesse levado um tapa.
— Cala a boca, Sofia! Você vai estragar tudo! — A voz de Lila era um sussurro alto e desesperado.
— Tarde demais, Lila. O ogro já percebeu que estamos aqui — comentou Sadi, levantando-se de trás de uma moita de hortênsias e sacudindo as folhas da roupa com a maior naturalidade do mundo.
Scorpio suspirou pesadamente, soltando a cintura de Amora, mas mantendo uma das mãos entrelaçadas na dela. Ele se virou para as três intrusas com sua melhor expressão de "eu vou matar vocês".
— Eu sabia. Eu devia ter imaginado que vocês não iam conseguir ficar dez minutos sem passar vergonha — disse ele, embora o tom de voz não tivesse a agressividade de costume. Havia uma leveza ali que ele raramente demonstrava.
— Passar vergonha? — Sofia saiu de trás do arbusto, limpando os joelhos da calça. — Meu querido irmão, se não fosse pela nossa logística impecável, você estaria agora mesmo pedindo a Amora em namoro usando um moletom furado e entregando um dente de leão que você pegou na calçada.
— Ela tem razão — concordou Amora, rindo e admirando o anel em seu dedo. — O terno ficou ótimo em você, Scorpio. E o anel... é lindo.
— Viu só? — Lila se aproximou, com Sterna e Olivia logo atrás, saindo das sombras com bandejas de salgadinhos e copos de suco. — Nós somos gênias da organização. Pandora ficaria orgulhosa.
— Falando na Pandora... — Sterna começou, ajeitando os óculos — ...ela mandou avisar que se vocês quebrarem qualquer vaso desse jardim, o próximo pedido de namoro vai ser feito no hospital.
— Típico dela — murmurou Scorpio.
O grupo se reuniu no centro do jardim decorado. Olivia, que sempre fora a mais observadora, entregou um copo de suco para Amora e deu um tapinha encorajador no ombro de Scorpio.
— Parabéns, casal. Finalmente pararam de enrolar. Já não aguentávamos mais a tensão sexual entre vocês dois nos corredores da escola. Era quase insuportável — disse Olivia com sua sinceridade habitual.
— Olivia! — Amora corou violentamente, escondendo o rosto no ombro de Scorpio.
— O que foi? É a verdade! — rebateu a menina, dando de ombros.
O clima era de celebração, mas, como em qualquer reunião que envolvesse Scorpio e suas "três lagartixas", a paz durava pouco. Sadi, que estava analisando o buquê de flores que Scorpio dera a Amora, soltou um comentário ácido.
— Sabe, primo, eu ainda acho que o soco na fusa teria sido um toque especial para a noite. Só para garantir que você não esquecesse a data do aniversário de namoro.
— Tenta a sorte, Sadi — Scorpio desafiou, embora estivesse sorrindo. — Agora que eu tenho uma namorada oficial, ela pode muito bem me defender de primas agressivas.
— Ah, não me coloque no meio disso! — Amora levantou as mãos em sinal de rendição. — Se a Sadi decidir te bater, eu vou é filmar para postar no grupo da escola.
— Traição! — Scorpio exclamou, fingindo estar ofendido. — Mal começamos e já estou sendo abandonado à própria sorte.
— É o que acontece quando se namora alguém mais inteligente que você, maninho — Sofia provocou, roubando um brigadeiro da bandeja que Sterna segurava.
A noite prosseguiu com risadas e histórias. Eles se sentaram em mantas estendidas sobre a grama, sob o céu estrelado. Sterna e Olivia começaram a contar sobre os bastidores da preparação, revelando que Scorpio quase derrubou o anel dentro do ralo do banheiro enquanto tentava limpá-lo, o que rendeu uma nova onda de piadas às custas do rapaz.
— Ele estava tão nervoso que quase vestiu o paletó ao contrário — revelou Lila, fazendo Amora rir tanto que precisou se apoiar em Scorpio para não cair.
— Mentira! Isso é calúnia! — Scorpio protestou, mas suas bochechas vermelhas diziam o contrário.
Enquanto as meninas se perdiam em uma discussão sobre qual seria o próximo "casal da escola" a ser formado, Scorpio se inclinou para perto do ouvido de Amora.
— Obrigado — sussurrou ele.
— Pelo quê? — ela perguntou, voltando sua atenção total para ele.
— Por ter dito sim. Por não ter fugido para as colinas, apesar da Sofia ter tentado te assustar.
Amora sorriu, um sorriso doce e genuíno, e segurou o rosto dele com as duas mãos.
— Eu não iria a lugar nenhum, Scorpio. Eu estive esperando por isso tanto quanto você. Talvez até mais.
Eles se beijaram novamente, um selinho rápido dessa vez, cientes de que tinham uma plateia altamente crítica a poucos metros de distância.
— Ei, vocês dois! — gritou Sofia. — Sem muita melação, a gente ainda está aqui e eu não quero ficar traumatizada vendo meu irmão sendo romântico. É contra as leis da natureza!
— Então fecha os olhos, Sofia! — Scorpio gritou de volta, sem soltar a mão de Amora.
A festa improvisada no jardim continuou até tarde. Pandora apareceu eventualmente, não para brigar, mas para trazer um bolo que ela mesma tinha feito (com a ajuda de Sterna, para garantir que nada queimasse). Ela deu um abraço apertado em Amora e um olhar de "juízo" para Scorpio, que ele entendeu perfeitamente.
Quando a lua estava no topo do céu e o cansaço começou a bater, as meninas começaram a se despedir. Sadi, Lila e Sofia foram as últimas, saindo juntas enquanto planejavam como iam espalhar a notícia na escola no dia seguinte.
— Prepare-se, Scorpio — disse Sadi, antes de cruzar o portão. — Amanhã você vai ser o assunto principal. "O bad boy foi domado". Vou até escrever um poema sobre isso.
— Nem ouse! — Scorpio ameaçou, mas Sadi apenas acenou e sumiu na escuridão, rindo.
Finalmente, Scorpio e Amora ficaram sozinhos no jardim, cercados pelos restos da celebração e pelo silêncio reconfortante da noite.
— Foi perfeito — disse Amora, encostando a cabeça no ombro dele.
— Foi — concordou Scorpio. — Tirando a parte das três lagartixas e da ameaça de soco da Sadi, foi o melhor dia da minha vida.
Ele olhou para o anel no dedo dela, brilhando sob o luar, e sentiu uma paz que há muito tempo não visitava seu peito. A amizade tinha sido o alicerce, mas o que eles tinham agora era algo muito maior. Era um compromisso, uma promessa de que, não importava o quanto ele fosse teimoso ou o quanto ela o desafiasse, eles estariam juntos.
— Vamos entrar? Está ficando realmente frio agora — sugeriu ele, levantando-se e ajudando-a a levantar.
— Vamos. Mas antes... — Amora parou na frente dele, prendendo-o com o olhar. — ...promete que não vai deixar de ser esse "idiota" que eu amo? Só um pouquinho?
Scorpio sorriu de lado, aquele sorriso torto que Amora tanto adorava.
— Eu prometo, Amora Maria Florentino. Vou continuar sendo um idiota, mas agora eu sou o *seu* idiota.
Eles caminharam em direção à casa, de mãos dadas, deixando para trás o jardim que fora palco do início oficial de sua história. Scorpio sabia que o dia seguinte na escola seria um caos, com Sofia fazendo piadas, Lila querendo detalhes e Sadi provavelmente tentando testar sua paciência, mas ele não se importava. Pela primeira vez, ele não tinha pressa de que o tempo passasse. Ele só queria aproveitar cada segundo daquele novo capítulo.
Porque agora, Amorpio não era apenas uma torcida das amigas ou um desejo secreto. Era real. E era apenas o começo de tudo o que ainda estava por vir.