O Peso da Geração
Penas de Prata e Sangue Carmesim
O ar no Reino Inferior era pesado, saturado com o cheiro de enxofre e a eletricidade estática de gritos distantes. Para Kaik, aquele ambiente nunca fora um lar, mas sim uma prisão de expectativas sufocantes. Ele observava a figura ajoelhada no canto de seu quarto, as mãos presas por correntes de ferro negro que brilhavam com runas de supressão mágica.
Akel. Esse era o nome do anjo da elite que seu pai, o Arquiduque Malphas, lhe entregara como um "presente".
— Um guerreiro de luz para quebrar, Kaik — dissera o pai, com um sorriso que revelava dentes afiados demais. — Seus irmãos já começaram o trabalho com os deles. Não me envergonhe. Mostre que o sangue que corre em suas veias não é água.
Kaik suspirou, encostando-se na parede de pedra fria. Akel não se movia. Mesmo ferido, mesmo com as asas brancas — agora manchadas de poeira e fuligem — dobradas de forma desconfortável, o anjo mantinha uma postura de dignidade inabalável. Os olhos azuis, gélidos como o ápice de uma montanha nevada, estavam fixos no chão.
— Você não vai comer? — perguntou Kaik, sua voz saindo mais suave do que pretendia.
O anjo não respondeu. O silêncio era sua única arma, sua única forma de resistência.
— Eu trouxe frutas. Não têm o gosto do Éden, imagino, mas são melhores do que as rações que os guardas distribuem — continuou o demônio, chutando levemente uma bandeja de prata em direção ao prisioneiro.
Akel finalmente ergueu o olhar. Havia um brilho de desprezo ali, mas também uma confusão profunda.
— Por que o atraso? — A voz do anjo era rouca, como se não fosse usada há dias. — Seus irmãos... eu ouço os gritos dos meus companheiros pelos corredores. Por que você ainda não me tocou?
Kaik desviou o olhar, sentindo o peso daquela pergunta. Ele sabia o que esperavam dele. Tortura, humilhação, a lenta erosão da vontade de um ser celestial até que não restasse nada além de um receptáculo vazio. Mas a ideia de infligir dor a alguém que não podia se defender — a alguém que estava ali apenas por um capricho político e cruel — revirava seu estômago.
— Talvez eu seja apenas preguiçoso — mentiu Kaik, dando de ombros. — Ou talvez eu ache que você não vale o esforço.
— Mentira — sibilou Akel. — Você é fraco. É o que dizem nos corredores. O filho do Arquiduque que nasceu com um defeito no coração.
Kaik sentiu a ferroada daquelas palavras, mas não se irritou.
— Se ser "defeituoso" significa não sentir prazer no seu sofrimento, então aceito o título. Apenas coma, Akel. Preciso sair para uma audiência com meu pai. Tente não morrer de fome enquanto eu estiver fora.
Kaik saiu do quarto, trancando a porta pesada atrás de si. Ele não percebeu, no entanto, que seus irmãos, Bael e Zagan, observavam-no do fim do corredor escuro, com sorrisos cruéis e olhos brilhando de malícia.
***
A audiência com o Arquiduque foi, como sempre, um exercício de paciência e humilhação pública. Malphas vangloriava-se do progresso de seus outros filhos, descrevendo com detalhes sórdidos como os anjos sob seus cuidados estavam perdendo a sanidade e a luz. Kaik permaneceu em silêncio, de cabeça baixa, suportando os olhares de escárnio.
Quando a reunião finalmente terminou, horas depois, Kaik sentiu um aperto estranho no peito. Uma premonição. Ele acelerou o passo pelos corredores labirínticos do castelo, subindo as escadarias de ossos até a ala de seus aposentos.
Ao se aproximar da porta, ele viu que ela estava entreaberta. O selo mágico fora rompido.
— Não... — sussurrou ele, correndo para dentro.
O quarto estava um caos. Móveis virados, a bandeja de frutas espalhada pelo chão. Mas o que paralisou Kaik foi o rastro de sangue dourado que levava até o centro do cômodo.
Bael e Zagan estavam lá, rindo. Akel estava jogado no chão, as roupas rasgadas, as asas — aquelas asas que Kaik tanto evitara tocar para não profanar — estavam desalinhadas, com várias penas arrancadas e manchadas de um vermelho escuro e viscoso. O anjo tremia violentamente, os olhos revirados, a respiração vindo em soluços curtos e agônicos.
— O que vocês fizeram? — A voz de Kaik saiu como um trovão, a energia demoníaca oscilando ao seu redor.
Bael, o mais velho, limpou o sangue das mãos em um lenço de seda.
— Fizemos o que você não teve coragem de fazer, maninho. O seu brinquedo estava ficando muito arrogante. Achamos que ele precisava lembrar de qual é o lugar dele.
— Ele é meu! — rugiu Kaik, avançando um passo.
— Ele é um trunfo da nossa raça — retrucou Zagan, chutando o flanco de Akel, fazendo o anjo soltar um gemido abafado. — E você o estava desperdiçando. O pai vai nos agradecer por acelerar o processo. Ele é resistente, admito. Levou um tempo para ele parar de rezar e começar a implorar.
A fúria de Kaik explodiu. Ele não era um guerreiro como os irmãos, mas o poder de sua linhagem era real. As sombras no quarto ganharam vida, chicoteando o ar e empurrando os dois irmãos contra a parede oposta.
— Saiam. Agora. Ou eu juro pelos Sete Círculos que vou mostrar a vocês por que o pai me deu o quarto mais alto da torre.
Bael e Zagan, surpresos com a súbita demonstração de força do irmão "fraco", trocaram olhares rápidos. Eles riram, mas havia uma nota de cautela no som.
— Tudo bem, Kaik. Ele já está estragado mesmo — disse Bael, ajeitando a túnica. — Divirta-se com os restos.
Quando a porta finalmente se fechou e o silêncio retornou, Kaik caiu de joelhos ao lado de Akel. O anjo tentou se afastar, um movimento instintivo de medo que partiu o coração do demônio.
— Ei, sou eu. Akel, sou eu — sussurrou Kaik, estendendo a mão, mas parando antes de tocá-lo.
O anjo focou a visão nele. Havia terror em seus olhos, uma vulnerabilidade que Akel nunca permitira transparecer antes.
— Mate-me... — implorou Akel, a voz falhando. — Por favor... acabe com isso.
— Eu não vou matar você — disse Kaik, com firmeza. — E não vou deixar que eles encostem em você de novo.
Com um cuidado infinito, Kaik passou um braço por baixo dos joelhos de Akel e outro por trás de suas costas feridas. Ele o ergueu, sentindo o peso leve e frágil do ser celestial. Akel era surpreendentemente frio, a luz que emanava dele parecia estar se apagando como uma brasa ao vento.
Kaik o levou para a cama, deitando-o suavemente sobre os lençóis de seda negra. Ele buscou água limpa e panos, começando a limpar o sangue dourado e o suor da pele pálida do anjo.
— Por quê? — perguntou Akel, depois de um longo tempo, enquanto Kaik limpava um corte profundo em seu ombro.
— Porque eu não sou como eles — respondeu Kaik, sem olhar para cima. — E porque ninguém merece o que eles fizeram. Nem mesmo um inimigo.
— Eles... eles tiraram minhas penas — a voz de Akel quebrou, e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto. — A conexão com a Canção... eu não consigo ouvi-la mais.
Kaik parou o que estava fazendo e olhou nos olhos do anjo. Pela primeira vez, ele viu não um soldado da elite, mas um ser quebrado e perdido.
— Então eu serei o seu silêncio até que a música volte — disse Kaik.
Ele se sentou na borda da cama, mantendo uma distância respeitosa, mas permanecendo ali, uma barreira entre o anjo e o resto do mundo cruel lá fora.
— Eles voltarão — disse Akel, o medo ainda presente em sua voz.
— Deixe que venham — Kaik apertou os punhos, as sombras em seus pés ondulando em resposta à sua determinação. — Eles acham que eu sou defeituoso porque tenho compaixão. Eles vão descobrir que a compaixão pode ser a motivação mais perigosa de todas.
Akel fechou os olhos, a respiração finalmente começando a se estabilizar. Pela primeira vez desde que fora capturado, ele não se sentia uma presa. E Kaik, observando o anjo adormecer sob sua proteção, percebeu que sua rebeldia contra o pai e o reino acabara de ganhar um propósito muito mais profundo do que ele jamais imaginara.
Ele não era apenas um demônio com um defeito. Ele era o guardião de uma luz que o inferno tentara apagar, e ele não permitiria que aquela chama se extinguisse, não importa o preço que tivesse que pagar.