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O que é meu

A Marca da Posesseão

A partida de Lady Elizabeth deixou um vácuo de silêncio na mansão Van Tassel, um silêncio que Ichabod Crane achava, ao mesmo tempo, reconfortante e profundamente inquietante. A névoa de Sleepy Hollow, antes povoada pelos fantasmas de sua própria mente científica e pelo terror do Cavaleiro sem Cabeça, parecia agora ter adquirido uma nova densidade — uma que emanava não das florestas, mas dos corredores da casa. E, especificamente, da mulher que agora o observava com uma devoção que ele nunca havia experimentado.

Ichabod estava sentado em sua pequena escrivaninha improvisada, cercado por frascos de reagentes, lentes de aumento e seus cadernos de anotações. Ele tentava se concentrar na análise de uma amostra de solo coletada perto da Árvore dos Mortos, mas sua atenção era constantemente desviada para o colarinho de sua camisa.

Ele levou os dedos longos e pálidos ao tecido. Ali, preso de forma quase imperceptível por um pequeno nó, havia um fio de fita de seda azulada, o tom exato dos olhos de Katrina em dias de tempestade. Não era um erro de costura. Ele a vira, na manhã anterior, ajustando suas roupas com uma lentidão que beirava o ritualístico.

— O senhor parece distraído, Inspetor — a voz de Katrina surgiu da penumbra da porta, suave como o roçar de uma asa de mariposa.

Ichabod sobressaltou-se, derrubando uma pequena pinça. Ele se virou, ajeitando os cabelos pretos que teimavam em cair sobre seus olhos grandes e nervosos.

— Apenas... reflexões teóricas, Katrina — respondeu ele, a voz falhando levemente. — A composição química deste lugar é... fascinante.

Katrina aproximou-se. Ela não usava os vestidos luminosos de outrora. Hoje, vestia um tom de cinza profundo que parecia fundi-la às sombras do quarto. Ela parou atrás dele, e Ichabod sentiu o calor de seu corpo. Ela não cheirava a lírios — ele notara que todos os lírios da propriedade haviam sido removidos, como se nunca tivessem existido. Ela cheirava a alecrim, terra fresca e algo mais doce, algo que pertencia apenas à pele dela.

— Suas roupas estão desalinhadas — disse ela, estendendo a mão para o seu pescoço.

As pontas dos dedos de Katrina, ainda com as cicatrizes finas do vidro quebrado no jantar, tocaram a pele sensível da mandíbula de Ichabod. Ele estremeceu. Não era um tremor de medo, mas uma reação visceral à eletricidade que ela carregava. Com uma precisão cirúrgica, ela ajustou o lenço dele, mas, ao fazê-lo, suas unhas arranharam levemente, quase por acidente, a nuca do investigador.

— Oh, peço perdão — sussurrou ela, embora não houvesse arrependimento em seus olhos. — Sou um pouco desastrada ultimamente.

Ichabod engoliu em seco. Ele sentiu o ardor do arranhão. Sabia que ali ficaria uma marca vermelha, um sinal visível para qualquer um que o olhasse de perto. Era uma marca de propriedade, tão clara quanto um selo de cera em uma carta oficial.

— Katrina — começou ele, tentando recuperar sua postura racional —, percebi que... você tem sido muito cuidadosa com meus pertences. Minhas camisas, meus casacos... todos parecem carregar pequenos sinais.

Ela inclinou a cabeça, uma mecha de cabelo loiro caindo sobre o ombro.

— Sinais, Ichabod? Que tipo de sinais?

— Fitas. Perfumes que não são meus. Marcas que... — ele hesitou, buscando a palavra certa — que parecem dizer que não ando sozinho por estas estradas.

Katrina sorriu. Foi um sorriso que não revelou dentes, apenas uma curva enigmática de lábios que sugeria segredos ancestrais. Ela se inclinou mais, apoiando o queixo no ombro dele, de modo que Ichabod podia sentir a respiração dela em seu ouvido.

— Sleepy Hollow é um lugar perigoso para um homem tão... singular quanto o senhor — disse ela. — As mulheres aqui, as sombras aqui... todos querem uma parte de Ichabod Crane. Eu apenas estou garantindo que todos saibam que o senhor já foi reivindicado.

Ichabod sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A lógica lhe dizia que aquele comportamento era obsessivo, talvez até perigoso. Seus anos em Nova York, lidando com a frieza dos tribunais, nunca o prepararam para a possessividade de uma mulher que via o amor como uma forma de proteção absoluta, quase mística.

No entanto, para sua própria surpresa e perturbação, ele não sentia desejo de se afastar. Havia um conforto sombrio em ser "reivindicado". Para um homem que passara a vida sentindo-se um pária, um órfão de afeto e um estranho em sua própria pele, a ideia de pertencer tão inteiramente a alguém era inebriante.

— Reivindicado — repetiu ele, a palavra soando estranha em sua boca.

— Sim — disse ela, e desta vez suas mãos desceram pelo peito dele, apertando o tecido do casaco preto. — O senhor é meu, Ichabod. Da ponta de seus dedos nervosos até os segredos de sua mente científica. Nenhuma viúva, nenhuma aldeã, nenhuma sombra poderá tomá-lo de mim.

Ela se afastou subitamente, retomando sua postura de doçura angelical.

— Vou pedir que tragam seu chá. O senhor trabalha demais.

Quando ela saiu, o quarto pareceu ficar mais frio. Ichabod levantou-se e caminhou até o espelho oval pendurado na parede. Ele afastou o colarinho da camisa. Ali, na base do pescoço, estavam os três riscos vermelhos deixados pelas unhas de Katrina. Eles ardiam suavemente. Ele tocou a marca e, ao olhar para seu próprio reflexo, viu algo que o assustou mais do que o Cavaleiro: ele estava sorrindo. Era um sorriso pálido e cúmplice. Ele estava fascinado pela escuridão que despertara nela.

Nos dias seguintes, a marca de Katrina tornou-se cada vez mais evidente. Durante as caminhadas pelo vilarejo, Ichabod notava como as mulheres da cidade desviavam o olhar quando percebiam o pequeno laço de fita preso discretamente em seu punho, ou quando o vento soprava e trazia o perfume inconfundível de Katrina que emanava de suas vestes.

Até mesmo Brom Bones, com sua arrogância rústica, parecia ter percebido algo.

— Você parece diferente, Crane — disse Brom, certa tarde, enquanto Ichabod atravessava a praça central. — Mais... vigiado.

Ichabod parou, ajeitando a bolsa de instrumentos.

— A vigilância é a base da investigação, Brom — respondeu ele, tentando manter a voz firme.

— Não falo de investigação — rosnou Brom, aproximando-se. — Falo daquela garota. Ela olha para você como se você fosse um amuleto que ela não quer que ninguém toque. Tenha cuidado. Mulheres Van Tassel têm raízes profundas nesta terra. Elas não largam o que agarram.

Ichabod não respondeu. Ele apenas continuou seu caminho, sentindo o peso da fita de seda em seu pulso. Ele sabia que Brom tinha razão, mas o que o bruto não entendia era que Ichabod não queria ser solto.

Naquela noite, a chuva voltou a fustigar as janelas da mansão. Ichabod estava em seu quarto, tentando ler, quando a porta se abriu sem um ruído. Katrina entrou, carregando uma única vela. Ela estava descalça, o vestido de dormir branco flutuando ao redor dela como uma névoa sólida.

Ela não disse nada. Caminhou até ele e sentou-se a seus pés, apoiando a cabeça em seus joelhos. Ichabod hesitou por um momento, antes de pousar a mão sobre os cabelos loiros dela.

— Eu vi como Brom falou com você hoje — disse ela, a voz vindo da escuridão perto do chão.

— Você viu? — Ichabod sentiu um nó na garganta. — Você estava lá?

— Eu estou sempre lá, Ichabod — respondeu ela suavemente. — Mesmo quando você não me vê. Eu sou o vento que sopra em seu rosto. Eu sou a sombra que o segue.

Ela levantou o rosto, e a luz da vela criou sombras profundas sob suas maçãs do rosto. Ela parecia uma criatura de lenda, uma fada gótica que havia capturado um mortal para seu reino de névoa.

— Você se sente prisioneiro, meu querido Ichabod? — perguntou ela, seus olhos castanhos fixos nos dele com uma intensidade que parecia ler sua alma.

Ichabod olhou para as mãos dela, que agora seguravam as dele. Ele viu a bandagem em seu dedo, o lembrete do sangue derramado por causa do ciúme. Ele pensou em sua vida antes de Sleepy Hollow — a solidão fria de Nova York, o desprezo de seus superiores, o vazio de suas noites. E então olhou para Katrina, que o envolvia em uma teia de possessividade tão forte que parecia ser a única coisa real em um mundo de fantasmas.

— Não — disse ele, e sua voz era um sussurro de absoluta verdade. — Eu me sinto... encontrado.

Katrina sorriu, e desta vez o sorriso foi radiante, embora ainda houvesse uma centelha de perigo nele. Ela se levantou e, com uma delicadeza que contrastava com a força de suas palavras, beijou a marca de suas unhas no pescoço dele.

— Ótimo — disse ela. — Porque eu nunca vou deixar você ir. Nem nesta vida, nem na próxima. Se o Cavaleiro vier buscá-lo, ele terá que me enfrentar primeiro. E eu temo que ele descobriria que há coisas em Sleepy Hollow muito mais terríveis do que um homem sem cabeça.

Ela apagou a vela com um sopro frio. Na escuridão total do quarto, Ichabod sentiu os braços dela envolverem seu pescoço. Ele fechou os olhos, entregando-se ao abraço. Ele sabia que, a partir daquele momento, sua ciência e sua lógica eram inúteis. Ele não era mais um investigador do sobrenatural; ele era o objeto de uma obsessão que desafiava a própria morte.

Lá fora, a chuva lavava as estradas de terra, mas dentro da mansão, as marcas de Katrina permaneciam. No colarinho, na pele, e no coração de Ichabod Crane. Ele era dela, e o mundo — vivo ou morto — finalmente sabia disso.

Enquanto o sono o envolvia, Ichabod teve um último pensamento racional: ele deveria estar apavorado. Mas, ao sentir o perfume de alecrim de Katrina em seu travesseiro, ele apenas suspirou, mergulhando em um sonho onde não havia mais solidão, apenas o toque constante e possessivo da mulher que o amava o suficiente para destruir qualquer coisa que se atravessasse em seu caminho.

A ciência explicava o mundo, mas apenas o amor de Katrina — sombrio, gótico e absoluto — explicava por que ele finalmente se sentia em casa nas sombras. E se aquela casa era uma prisão feita de seda e sangue, Ichabod Crane decidiu que nunca mais queria ver a luz do sol.