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O que eu não disse

O Labirinto de Cetim e Silêncio

A noite de Brasília tinha aquele frio seco característico, uma brisa que cortava as avenidas largas e fazia as folhas das árvores retorcidas do Cerrado dançarem sob a luz amarelada dos postes. Mas, dentro do apartamento de Ana, o clima era uma anomalia térmica. O silêncio era espesso, interrompido apenas pelo tique-taque distante de um relógio de parede e pelo som da própria respiração dela, que parecia alta demais para seus próprios ouvidos.

Gabriel estava parado à porta, tendo acabado de entrar. Ele ainda segurava as chaves do carro, os nós dos dedos brancos pela força com que as apertava. Ele tinha vindo com a desculpa de entregar um conjunto de anotações extras sobre farmacologia molecular que ela esquecera na biblioteca, mas ambos sabiam que os papéis em sua mão eram apenas um álibi esfarrapado para a urgência que os consumia desde o encontro no corredor das estantes.

Ana estava de costas para ele, terminando de fechar a janela da varanda. Quando ela se virou, o fôlego de Gabriel simplesmente desapareceu.

Ela usava um vestido de cetim azul-marinho, um tom tão profundo que parecia roubado do céu daquela madrugada. O tecido era fluido, quase líquido, abraçando as curvas de seu corpo de uma forma que desafiava a sanidade de qualquer homem. Mas era o corte que tornava tudo perigoso: as costas eram totalmente nuas até a base da coluna, revelando a pele pálida e impecável de Ana, onde a musculatura definida pelos anos de artes marciais transparecia de forma sutil e elegante.

— Você veio — sussurrou ela, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, um gesto de proteção que só servia para destacar ainda mais a vulnerabilidade de sua postura.

Gabriel deu um passo à frente, fechando a porta atrás de si com um clique surdo que pareceu selar o destino dos dois naquela noite.

— Eu disse que viria — respondeu ele, a voz falhando por um breve segundo antes de se estabilizar em um tom grave. — Eu não conseguiria dormir se não viesse.

Ele caminhou lentamente em direção a ela. O contraste entre eles era fascinante: Gabriel, com sua jaqueta de couro e jeans escuros, exalando uma masculinidade rústica e decidida; e Ana, envolta em seda e sombras, parecendo uma joia preciosa e frágil, apesar da força que ele sabia que ela possuía. O cheiro de Ana — uma mistura de baunilha e algo puramente dela — o atingiu como um soco.

Gabriel finalmente cedeu ao impulso e tocou a pele das costas dela. O contato foi elétrico. Ana soltou um suspiro baixo, fechando os olhos e inclinando a cabeça levemente para trás. A submissão dela não era uma fraqueza; era um presente, uma confiança que ela estava depositando nele depois de anos sendo quebrada emocionalmente.

— Gabriel, por favor... — ela começou, a voz mal passando de um sopro enquanto ele a guiava para o quarto.

Ao depositá-la sobre os lençóis brancos, o azul do vestido pareceu brilhar ainda mais intensamente. Gabriel tirou a jaqueta, os olhos nunca deixando os dela. Ele a beijava com uma reverência que a fazia se sentir a única mulher no mundo, mas a tensão acumulada durante semanas de rivalidade e atração reprimida estava prestes a explodir.

— Por favor, Gabriel — ela murmurou, a voz trêmula quando ele começou a descer a alça fina do vestido. — Vai devagar... eu ainda tenho um pouco de medo.

Gabriel parou por um instante, olhando no fundo dos olhos dela. Ele viu a vulnerabilidade da garota que fora ferida no passado, mas também viu o desejo ardente da mulher que estava à sua frente.

— Eu vou cuidar de você, Ana — sussurrou ele, a voz carregada de uma promessa solene. — No seu tempo. Sempre no seu tempo.

Ele a despiu com uma lentidão torturante, apreciando cada centímetro de pele que se revelava. Quando finalmente estavam pele na pele, a temperatura do quarto pareceu subir dez graus. Ana, a lutadora disciplinada, sentia-se agora como uma folha ao vento, entregue às mãos grandes e firmes de Gabriel.

— Você é tão linda — disse ele, a voz rouca, enquanto seus lábios mapeavam o caminho do pescoço dela até a curva dos seios.

— Gabriel... — o nome dele saiu como um suspiro agudo quando ele a tocou de forma mais íntima.

Ela se arqueou na cama, os dedos cravando-se nos ombros largos dele. A timidez inicial de Ana estava sendo consumida pelo fogo que Gabriel acendia a cada carícia. Quando ele finalmente se posicionou sobre ela, a urgência era quase insuportável, mas ele se manteve fiel à promessa de ir devagar.

— Está tudo bem? — perguntou ele, parando por um segundo, o rosto suado e o olhar fixo no dela.

— Sim — ela ofegou, puxando-o para mais perto, as pernas envolvendo a cintura dele. — Por favor, não para. Eu quero sentir você.

O primeiro movimento foi lento, profundo, arrancando de Ana um gemido que ecoou pelas paredes do quarto. Aquele som — uma mistura de surpresa, alívio e puro prazer — agiu como um combustível para Gabriel. Ele sentiu o corpo dela reagir, os músculos do abdômen se contraindo, a forma como ela se moldava perfeitamente a ele.

— Isso... — ela murmurou, a voz entrecortada — ...é demais.

A cada "botada", como ela mesma pensaria mais tarde com o rosto em chamas, Ana se arqueava mais contra o colchão, a coluna formando uma ponte de desejo. O ritmo de Gabriel era constante, uma cadência que parecia seguir a batida acelerada do coração dos dois. Ele estava cego por ela, hipnotizado pela visão de Ana perdendo o controle, com os cabelos espalhados pelo travesseiro e os lábios entreabertos.

— Você é minha, Ana — sussurrou ele, a voz possessiva, mas carregada de ternura.

— Sou... — ela respondeu, os olhos revirando levemente enquanto o prazer a atingia em ondas. — Eu sou sua.

O gemido dela tornou-se mais alto, mais desinibido. Não era mais a estudante contida ou a atleta silenciosa; era apenas Ana, descobrindo que seu corpo podia ser uma fonte de alegria e não apenas uma ferramenta de defesa. Gabriel, sentindo a proximidade do clímax dela, intensificou os movimentos, a respiração dele tornando-se um rosnado baixo perto do ouvido dela.

— Gabriel! — ela gritou o nome dele quando o ápice a atingiu, o corpo todo tremendo sob o dele.

Ele a seguiu logo depois, desmoronando sobre ela, o peso de seu corpo sendo o âncora que a trazia de volta à terra firme. Eles ficaram ali, abraçados, o suor colando suas peles, enquanto a respiração voltava ao normal.

— Você foi... — Gabriel começou, mas as palavras pareciam insuficientes.

— Devagar? — ela brincou, com um sorriso fraco e satisfeito nos lábios.

— Foi perfeito — corrigiu ele, beijando a testa dela com uma doçura que fez o coração de Ana finalmente se sentir em casa.

Ali, no silêncio do amanhecer que começava a surgir, a confiança que fora destruída um dia começava a florescer novamente, não como uma fórmula matemática, mas como uma poesia escrita na pele, em azul-marinho e luz da manhã.