O reencontro
Vingança em Casca de Ovo
O rugido do motor de Norberto ainda ecoava como um insulto nos ouvidos de Jimena enquanto a poeira levantada pelos pneus subia em redemoinhos, sujando ainda mais o que restava de sua dignidade. Ela ficou parada no centro da estrada de terra, os pés afundados no barro, as mãos cerradas em punhos tão apertados que as unhas cravavam na palma da mão. A audácia daquele homem — daquele ogro que o destino tivera o mau gosto de colocar em seu caminho — era algo que ela nunca experimentara nem nos bairros mais rudes de Madri.
— *¡Hijo de una zorra! ¡Vuelve aquí, pedazo de animal!* — gritou ela para o nada, sua voz de soprano cortando o ar quente da fazenda.
Em um acesso de fúria cega, Jimena curvou-se e tateou o chão até encontrar uma pedra do tamanho de um punho. Com a agilidade de quem um dia fora uma criança travessa, ela a arremessou com toda a força na direção do veículo que se afastava. A pedra, porém, apenas quicou inutilmente na poeira, metros atrás do porta-malas de metal. Norberto já havia sumido na curva.
— *¡Ogro! ¡Bárbaro!* — sibilou ela, sentindo as lágrimas de frustração queimarem o canto dos olhos.
Ela não se daria por vencida. Ajeitou a alça da mala pesada no ombro, sentindo o tecido úmido e frio da blusa colar em sua pele, e começou a caminhar. Cada passo era uma maldição direcionada ao cunhado. Ela não sabia se a casa principal estava a um ou cinco quilômetros, mas sua vontade de confrontá-lo era o combustível que vencia o cansaço das dez horas de voo.
A Hacienda El Primor revelou-se aos poucos, uma estrutura imponente que misturava a rusticidade das fazendas mexicanas com toques de uma modernidade austera. Ao cruzar o umbral da entrada principal, o contraste foi imediato. O silêncio da sala de estar era denso, quase sagrado, interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio antigo. Jimena parou no centro do tapete caro, deixando um rastro de lama escura sobre as fibras claras. Sua mente, porém, não estava no luxo ao redor, mas na imagem de Norberto e no prazer que sentiria ao rasgar aquela autoconfiança de aço dele.
Passos apressados ecoaram no corredor lateral. Juliana surgiu, acompanhada por uma empregada a quem dava instruções rápidas. Ao levantar o olhar e deparar-se com a figura deplorável no centro de sua sala, a dona da casa estancou. Os olhos de Juliana arregalaram-se, e uma careta de horror e confusão distorceu seus traços finos.
— ¡Jimena! ¡Por Dios, hermana! ¿Pero qué te ha pasado? — exclamou Juliana, aproximando-se com as mãos levantadas, como se temesse tocar na irmã e se sujar. — ¡Parece que vienes de una guerra! ¿Dónde está Norberto? Él fue a buscarte.
Jimena abriu a boca, o peito subindo e descendo com uma respiração entrecortada pela indignação.
— *Ese hombre que tienes por marido es un...*
Ela não conseguiu terminar. A porta lateral se abriu e Norberto entrou no recinto com a calma exasperante de um rei em seus domínios. Ele não esperou que ela o acusasse; com frases curtas e um tom de voz que não admitia réplicas, ele narrou o encontro no aeroporto como se Jimena fosse uma histérica que o sequestrara. Norberto admitiu, com um cinismo que fez o sangue de Jimena ferver, que a deixara na estrada para que ela "esfriasse a cabeça" e não sujasse mais seu carro.
— ¡Norberto, no puedes hablar en serio! — gritou Juliana, o rosto pálido de vergonha. — ¡Es mi hermana! La dejaste sola, a merced de cualquier peligro... ¡Eres un bruto!
Norberto apenas soltou um ruído de desprezo e, antes de sair, lançou a ordem final: o carro deveria ser limpo por uma delas. Quando ele desapareceu no escritório, Jimena sentiu que poderia explodir.
— *¡Es un maldito hijo de puta, Juliana!* — berrou Jimena, gesticulando com os braços. — *¡Un ogro, un machista de mierda! ¡Lo odio, juro por mi vida que lo odio! ¿Cómo puedes vivir con un monstruo así?*
— Cálmate, por favor, Jimena — pediu Juliana, a voz cansada, quase suplicante. — Norberto tiene un genio muy difícil, ya lo conoces... bueno, no lo conoces, pero así es él. No volverá a pasar, te lo prometo.
— *¡No se va a quedar así!* — retrucou Jimena, limpando uma mancha de lama da bochecha com as costas da mão. — *¡Nadie me humilla de esta manera y se sale con la suya!*
Juliana suspirou e tocou o ombro da irmã.
— Mira, ahora no es el momento. Ve a tu cuarto, báñate, descansa. Las cosas se verán diferentes después de un baño caliente. Todo está listo para ti, la habitación del final del pasillo. Anda, por favor.
Vencida pela exaustão física que agora pesava mais que a raiva, Jimena assentiu. Ela subiu as escadas, deixando o rastro de sua jornada para trás. O quarto era amplo, decorado com móveis de madeira pesada e tecidos finos. O banheiro privativo era um refúgio de mármore.
O banho foi um ritual de purificação. Jimena deixou a água escaldante cair sobre seus ombros, vendo a lama escorrer pelo ralo como as memórias de sua vida monótona na Espanha. Ela lavou o cabelo com vigor, esfregando o couro cabeludo como se pudesse arrancar a voz de Norberto de sua mente. O vapor preencheu o ambiente, e por alguns minutos, o mundo lá fora deixou de existir.
Ao sair, envolta em um roupão de linho branco impecável, ela caminhou pelo quarto descalça. O aroma de lavanda e madeira limpa era reconfortante. Seus olhos vagaram pela penteadeira até pararem em uma pequena moldura sobre a mesa de cabeceira. Era uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo. Nela, uma Juliana muito jovem, de dezenove anos, segurava nos braços um bebê enrolado em mantas.
Jimena sentou-se na beira da cama, os dedos traçando o contorno do vidro. Um sorriso involuntário e doce surgiu em seus lábios. Ali estava a conexão que ela quase esquecera. Com um gesto carinhoso, ela guardou a foto na primeira gaveta da penteadeira. Aquele seria seu novo lar, e ela precisava de raízes, mesmo que o solo fosse pedregoso.
Minutos depois, devidamente vestida com um conjunto elegante que realçava sua pele morena, ela desceu. Encontrou Juliana na sala. A irmã a olhou de cima a baixo, um brilho de admiração genuína nos olhos.
— Estás lindísima, Jimena. Ahora sí reconozco a mi hermanita.
Jimena sorriu e as duas se abraçaram. Foi um abraço longo, carregado de uma saudade que as palavras nunca haviam suprido.
— *Tú também continuas hermosa, Juliana. Parece que el tiempo no ha pasado por ti* — disse Jimena, afastando-se para olhar a irmã. Mas logo sua expressão mudou para algo mais sério. — *¿Y mis sobrinos? ¿Dónde están Manuel y Germán?*
Juliana desviou o olhar, mordendo o lábio superior. Suas mãos buscaram os bolsos da calça jeans em um gesto de nervosismo que Jimena reconheceu imediatamente.
— Las cosas no han sido fáciles aquí, Jimena — começou Juliana, a voz baixa. — Manuel tuvo un accidente... una quemadura fea en el brazo. Está en el hospital ahora mismo. Está fuera de peligro, gracias a Dios, pero ha sido un susto enorme.
— *¡Dios mío! Quiero verlo ahora mismo* — disse Jimena, o instinto de enfermeira despertando.
— Mañana, hermana. Acabas de llegar y necesitas descansar. Yo iré después del almuerzo para pasar la noche con él en el hospital.
Jimena franziu as sobrancelhas, uma nota de apreensão em sua voz.
— *¿Me voy a quedar sola con ese hombre? ¿Con Norberto?*
— Germán también vive aquí — explicou Juliana, embora tenha feito uma careta de desdém ao mencionar a nora indiretamente. — Él tiene una novia, una tal Alessandra que no me convence, pero estará cerca. Por favor, Jimena, haz un esfuerzo. Por mí. Trata de llevar la fiesta en paz con Norberto mientras yo no estoy.
Jimena retorceu os lábios em uma careta de desgosto.
— *Lo intentaré, Juliana. Solo por ti.*
— Gracias, de verdad. El almuerzo estará listo en un momento. ¿Por qué no das una vuelta por la hacienda para conocerla?
Jimena aceitou a sugestão. Ela precisava de ar. Ao sair pela porta principal, parou no topo da escadaria de pedra. A Hacienda El Primor era vasta e moderna, com estábulos de última geração e cercas brancas que se perdiam no horizonte sob o sol escaldante do México. O cheiro de pasto e terra seca era inebriante.
Enquanto observava a paisagem, passos lentos se aproximaram. Era Prudência, uma mulher de meia-idade com o rosto marcado pelo sol e olhos bondosos, carregando uma cesta de vime.
— *¡Vaya! ¿Tantos huevos para el almuerzo?* — brincou Jimena, tentando ser simpática.
— No, señorita — respondeu Prudência com um suspiro. — Están todos echados a perder. Se quedaron olvidados en el calor del galpón y ahora solo sirven para la basura. Iba a tirarlos ahora mismo.
— *Qué pena...* — murmurou Jimena.
Mas então, como um relâmpago, uma ideia perversa e brilhante cruzou sua mente. Um sorriso travesso, quase predatório, iluminou seu rosto.
— *Prudencia, deja que yo me encargue de eso. Quiero dar un paseo y así te ayudo con la carga.*
A empregada, ingênua, agradeceu a gentileza e entregou a cesta. Assim que Prudência entrou na casa, Jimena mudou de direção. Seus olhos brilhavam com uma satisfação antecipada. Ela contornou a residência em passos rápidos, o coração batendo forte contra as costelas. Lá estava ele. O SUV negro de Norberto, estacionado sob uma pérgula, imponente e — por enquanto — limpo.
Jimena olhou ao redor para garantir que estava sozinha. O cheiro que vinha da cesta era nauseabundo, um odor de enxofre e decomposição que faria qualquer um recuar. Para ela, era o perfume da vingança.
— *Ahora vamos a ver quién limpia a quién, "cuñadito"* — sussurrou ela.
Ela pegou o primeiro ovo. Era pesado e a casca parecia frágil. Com a ponta dos dedos, ela o arremessou com a precisão de uma atleta. *BUM.* O ovo explodiu contra o para-brisa dianteiro, espalhando uma gosma amarela e cinzenta que exalava um fedor insuportável instantaneamente.
Jimena riu. Uma risada curta e deliciosa.
Ela pegou o segundo. *PLASH.* Este atingiu a maçaneta da porta do motorista. O terceiro foi direto para o capô. Em poucos minutos, Jimena estava em um transe de destruição criativa. Ela atirava os ovos um por um, cobrindo o teto, os vidros laterais e até as entradas de ar do motor. O carro negro agora parecia uma tela de arte abstrata macabra, salpicada de branco e amarelo podre, envolta em uma nuvem de cheiro fétido que começava a atrair moscas.
Quando o último ovo foi esmagado contra o emblema da marca no centro da grade frontal, Jimena soltou um suspiro de satisfação pura. Ela deixou a cesta vazia no chão e limpou as mãos no lenço que trazia no bolso, sentindo-se mais leve do que nunca. O ogro teria trabalho. Muito trabalho.
(...)
A sala de jantar estava posta com uma elegância que contrastava com o caos que Jimena acabara de semear lá fora. O aroma de *chiles en nogada* e *sopa azteca* preenchia o ar, despertando a fome que Jimena ignorara até então. Ela se sentou à mesa ao lado de Juliana, mantendo uma expressão de inocência angelical que escondia o triunfo em seu peito.
— Norberto todavía no llega — comentou Juliana, servindo o vinho. — Espero que no tarde, porque no quiero que la comida se enfríe.
— *No te preocupes, hermana. Seguro que está ocupado con algo... importante* — disse Jimena, escondendo o sorriso atrás da taça de cristal.
Nesse momento, passos rápidos e joviais foram ouvidos. Um rapaz alto, de ombros largos e um sorriso que iluminava o ambiente, entrou na sala. Jimena sentiu o coração saltar. Era Germán. A última vez que o vira, ele era um menino de oito anos que corria pelos jardins da Espanha durante as férias. Agora, era um homem feito, com traços que, embora não lembrassem Norberto, exalavam uma nobreza própria.
— ¡Tía Jimena! — exclamou ele, indo em direção a ela com os braços abertos.
Jimena levantou-se rapidamente, o rosto iluminado por um afeto genuíno.
— *¡Germán! ¡Pero qué hombre te has vuelto!* — disse ela, abraçando-o com força. — *Estás enorme, guapíssimo. ¡Casi no te reconozco!*
— Bienvenida a México, tía — disse Germán, afastando-se para olhá-la. — Mamá me dijo que habías llegado, pero no esperaba que estuvieras tan... tan diferente de las fotos.
— *Los años pasan para todos, sobrino. Pero tú sigues sendo mi favorito* — brincou ela, voltando a se sentar.
Germán acomodou-se à mesa, visivelmente entusiasmado com a presença da tia.
— *Oye, Germán, ¿y tus cuadros?* — disparou Jimena, curiosa. — *Recuerdo que de pequeño siempre estabas con los pinceles. ¿Sigues pintando?*
O silêncio que se seguiu foi súbito e desconfortável. Juliana baixou os talheres com um ruído seco, e o sorriso de Germán vacilou, transformando-se em uma expressão de cautela.
— Shh, Jimena — murmurou Juliana, lançando um olhar de advertência para a irmã. — No es momento para hablar de eso.
Germán pigarreou, evitando o olhar da mãe.
— Después hablamos de eso, tía. Hay cosas que... bueno, que es mejor discutir en privado.
Jimena franziu a testa, confusa com a tensão súbita. Antes que pudesse perguntar o porquê daquele segredo, Germán tentou mudar de assunto.
— ¿Y mi papá? ¿No viene a comer?
— No lo sé — respondeu Juliana, começando a se servir com gestos bruscos. — Y mejor que comamos ya, Germán. Tu padre está de un humor insoportable hoy. No quiero que nos amargue el almuerzo también.
Jimena pegou o garfo, sentindo uma satisfação sombria. Se Norberto já estava com um humor insuportável antes, ela mal podia esperar pela reação dele quando decidisse sair com seu precioso automóvel. A guerra na Hacienda El Primor estava apenas começando, e Jimena Salmerón acabara de disparar o primeiro tiro — ou melhor, o primeiro ovo.