O segredo!
Sombras e Holofotes
O eco dos seus próprios passos no mármore da biblioteca era o único som que acompanhava os pensamentos de Maitê. Ela sentia que Beacon Hills tinha uma densidade diferente no ar, algo que pesava nos ombros, mas que ao mesmo tempo a instigava. A conversa com Keng Natachaii ainda reverberava em sua mente. Ele era magnético, sim, mas havia algo por trás daquela fachada de modelo perfeito que a deixava intrigada. Era como se ele estivesse constantemente vigiando as próprias sombras.
Maitê se acomodou em uma mesa isolada, cercada por prateleiras de madeira escura que cheiravam a papel antigo e cera de abelha. Ela abriu seu tablet, mas em vez de estudar as métricas de engajamento para a aula de Mídias Sociais, seus dedos começaram a deslizar por uma playlist de batidas urbanas. Ela precisava de algo impactante para o evento de sexta-feira.
— Concentrada demais para quem acabou de chegar? — Uma voz familiar, porém mais grave do que antes, quebrou o silêncio.
Maitê levantou os olhos e encontrou Keng. Ele não estava mais com a mochila; usava apenas um casaco de veludo escuro que parecia custar mais do que o carro de muitos alunos ali fora. Ele se sentou na cadeira à frente dela sem pedir licença, mas com uma elegância que tornava a audácia aceitável.
— Eu não perco tempo, Keng — respondeu Maitê, retirando um dos fones de ouvido. — Se eu aceitei o seu desafio, vou entregar algo que as pessoas não vão esquecer tão cedo.
— Eu não duvido disso. — Ele inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Mas você sabe que este evento não é apenas sobre arte, certo? É sobre influência. Metade dos patrocinadores da cidade estarão lá. E alguns deles são... peculiares.
Maitê arqueou uma sobrancelha, captando o tom de advertência na voz dele.
— Peculiares como? Você fala como se Beacon Hills fosse uma espécie de sociedade secreta sob o disfarce de uma cidade do interior.
Keng deu um sorriso de canto, um gesto que parecia esconder mais do que revelava.
— Talvez seja exatamente isso. O segredo aqui é saber quem observar e de quem se esconder.
— E você? — perguntou ela, sustentando o olhar intenso dele. — Eu deveria me esconder de você ou observar você?
O silêncio que se seguiu foi carregado. Keng não desviou o olhar. Pela primeira vez, Maitê viu uma rachadura na máscara de modelo internacional. Havia uma tensão em sua mandíbula, uma espécie de instinto alerta que ela não conseguia explicar.
— Eu sou o mestre das câmeras, Maitê. Comigo, você só vê o que eu permito — disse ele, a voz baixando para um sussurro. — Mas com você... eu sinto que as câmeras teriam dificuldade em capturar tudo o que está acontecendo aí dentro.
Antes que ela pudesse responder, um grupo de alunos passou rindo pelo corredor lateral, quebrando o clima. Keng se levantou rapidamente, recuperando sua postura impecável.
— Preciso ir. Tenho uma sessão de fotos para uma marca de relógios no centro. Mas o convite continua de pé. Sexta-feira, às oito. Não se atrase, Byers. O palco não gosta de esperar.
Maitê o observou sair, notando como ele se movia com uma consciência corporal quase animal. Ele era gracioso, mas havia uma força contida ali. Ela balançou a cabeça, tentando focar novamente no trabalho, mas a sensação de ser observada não desapareceu com a saída de Keng.
Ao olhar para o lado, ela viu Scott McCall e um rapaz de cabelos raspados e expressão sarcástica — Stiles, se ela bem se lembrava das apresentações rápidas no corredor — parados perto da seção de história. Eles não estavam olhando para os livros. Estavam olhando para ela.
Maitê decidiu ignorar. Ela tinha uma coreografia para montar.
Naquela noite, o estúdio de dança da universidade estava vazio. Maitê conectou seu celular às caixas de som e deixou que uma batida de R&B contemporâneo preenchesse o espaço. Ela começou a se aquecer, os movimentos fluidos e precisos. Cada extensão de braço, cada giro, era uma extensão de sua vontade.
Ela não percebeu quando a porta do estúdio se abriu silenciosamente. Estava mergulhada no refrão, sua voz acompanhando a música em um tom suave, mas potente.
— "And I can't escape the way you move, it's like a ghost in the room..." — ela cantou, finalizando um movimento de queda controlada no chão.
— Você tem um alcance vocal impressionante.
Maitê deu um pulo, o coração disparado. No batente da porta estava uma garota de cabelos escuros e olhos expressivos. Allison Argent.
— Desculpe, eu não queria assustar você — disse Allison, entrando no estúdio com um sorriso gentil. — Eu estava saindo do treino de arco e flecha e ouvi a música.
Maitê se levantou, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Tudo bem. Eu só... perco a noção do tempo quando estou ensaiando.
— Eu percebi. — Allison se aproximou, analisando Maitê com uma curiosidade que não parecia hostil, mas sim protetora. — Você é a garota nova que estava com o Keng hoje, não é?
— Parece que as notícias voam por aqui — comentou Maitê, pegando sua garrafa de água.
— Beacon Hills é pequena. E o Keng... bem, ele atrai muita atenção. — Allison hesitou por um segundo. — Só tome cuidado, Maitê. Ele faz parte de um mundo que pode ser um pouco perigoso para quem não sabe onde está pisando.
— Perigoso? — Maitê riu, embora houvesse uma ponta de dúvida em seu peito. — Ele é um modelo, Allison. O máximo de perigo que eu corro é ser ofuscada pelo flash de uma câmera.
Allison deu um sorriso triste, algo que fez Maitê se sentir subitamente desconfortável.
— Às vezes, o brilho é apenas uma forma de esconder o que está no escuro. Se precisar de qualquer coisa, ou se sentir que algo está... estranho, pode falar comigo. Ou com o Scott.
— Por que todos vocês agem como se eu estivesse em um filme de suspense? — perguntou Maitê, cruzando os braços.
— Porque nesta cidade, a maioria das pessoas está vivendo um — respondeu Allison, antes de acenar e sair.
Maitê ficou sozinha no estúdio, o silêncio agora parecendo mais pesado do que antes. Ela desligou o som e começou a guardar suas coisas. Enquanto caminhava pelo estacionamento mal iluminado em direção ao seu carro, o som de galhos quebrados na floresta próxima a fez parar.
Ela olhou para as árvores. A névoa estava descendo, espessa e branca, engolindo os troncos. Por um momento, ela jurou ter visto um par de olhos brilhando no escuro — não um brilho humano, mas algo azulado, elétrico.
— Keng? — ela chamou, a voz incerta.
Ninguém respondeu. O brilho desapareceu tão rápido quanto surgiu. Maitê apressou o passo, entrou no carro e trancou as portas. Seu coração batia no ritmo de uma música frenética.
A quinta-feira passou como um borrão de preparativos. Maitê passou horas escolhendo seu figurino: um conjunto de seda preta que permitia movimento total, mas que brilhava sob as luzes como se estivesse coberto de diamantes negros. Ela sabia que precisava de impacto. Se Keng queria uma estrela, ela lhe daria uma constelação inteira.
Na manhã de sexta-feira, ela recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
"Espero que esteja pronta para brilhar. Deixei algo para você na recepção do seu dormitório. K."
Curiosa, Maitê desceu e encontrou uma caixa pequena e elegante. Dentro, havia um colar de prata com um pingente em formato de triskelion. Era uma peça antiga, pesada, com um design que parecia carregar séculos de história. Junto, um bilhete escrito à mão: "Um amuleto de sorte. Use-o hoje à noite."
Maitê sentiu um arrepio. Ela conhecia aquele símbolo de algum lugar, de algum livro de mitologia que lera na infância. Significava equilíbrio, mas também representava ciclos. Ela colocou o colar, sentindo o metal frio contra sua pele. De alguma forma, aquilo a fazia se sentir mais forte.
O evento de arrecadação de fundos estava lotado. O auditório da universidade fora transformado em um lounge de luxo, com luzes baixas, coquetéis sofisticados e uma passarela improvisada que se estendia até o centro da plateia.
Maitê estava nos bastidores, ajustando o microfone de lapela e verificando as sapatilhas. Ela podia ouvir o murmúrio da multidão lá fora. Através de uma fresta na cortina, ela viu Keng. Ele estava impecável em um terno sob medida, conversando com um grupo de homens de negócios e mulheres elegantes. Ele parecia perfeitamente à vontade, o epítome do sucesso e do charme.
Mas então, ele olhou para o lado, e por um breve segundo, a expressão dele mudou. Ele viu Scott e Stiles entrarem, acompanhados por um homem mais velho, de olhos penetrantes e uma aura de autoridade — Derek Hale. A troca de olhares entre Keng e Derek foi rápida, mas carregada de uma hostilidade que Maitê não conseguiu compreender.
— Você está pronta? — A voz de um assistente de palco a trouxe de volta.
— Mais do que pronta — afirmou Maitê, respirando fundo.
As luzes do auditório se apagaram. Um silêncio expectante tomou conta do lugar. Então, uma única luz de canhão iluminou o centro do palco.
Maitê entrou.
A música começou devagar, apenas um piano melancólico. Ela começou a se mover, sua silhueta desenhando formas elegantes no ar. Sua voz surgiu, límpida e poderosa, preenchendo cada canto do salão.
— "Shadows dancing on the wall, waiting for the light to fall..."
Conforme a batida crescia, a dança de Maitê se tornava mais agressiva, mais técnica. Ela incorporava elementos de jazz contemporâneo com uma energia que parecia elétrica. Na plateia, as pessoas estavam hipnotizadas. Keng estava na primeira fila, os olhos fixos nela, o corpo levemente inclinado para frente. Ele parecia não conseguir respirar.
No clímax da performance, Maitê girou no centro da passarela, o colar de prata brilhando intensamente sob os refletores. Foi nesse momento que algo estranho aconteceu. Por um segundo, as luzes do auditório oscilaram violentamente. Um som agudo, como um rosnado abafado, ecoou pelos alto-falantes, mas foi tão rápido que a maioria das pessoas pensou ser apenas uma interferência técnica.
Maitê, porém, sentiu. O pingente em seu pescoço ficou subitamente quente, quase queimando sua pele. Ela não parou. Usou aquela sensação, aquela adrenalina súbita, para finalizar a coreografia com um salto impressionante e uma nota vocal que fez os cristais dos copos vibrarem.
O auditório explodiu em aplausos. Maitê ofegava, o peito subindo e descendo, um sorriso triunfante nos lábios. Ela olhou para Keng. Ele não estava aplaudindo como os outros. Ele estava parado, olhando para o colar no pescoço dela com uma expressão de choque e... medo?
Ela agradeceu e saiu do palco, sentindo a euforia do sucesso misturada com uma confusão crescente. Nos bastidores, ela tentou tirar o colar, mas o fecho parecia travado.
— Deixe-me ajudar com isso.
Keng apareceu de repente. Ele não parecia mais o modelo calmo de minutos atrás. Ele estava pálido e seus olhos pareciam mais escuros, quase negros.
— Keng, o que foi aquilo? As luzes, o som... — Maitê começou a dizer, mas ele a interrompeu, aproximando-se e segurando suas mãos.
— Você não deveria ter usado o colar se não estivesse pronta para o que ele atrai, Maitê — sussurrou ele, a voz rouca.
— Foi você quem me deu! — ela exclamou, afastando-se. — O que está acontecendo aqui? Quem é você de verdade?
Keng olhou ao redor, garantindo que ninguém estivesse ouvindo. Ele deu um passo para o espaço pessoal dela, e Maitê sentiu um calor emanando dele que não era humano.
— Eu sou alguém que tentou te dar proteção, mas acho que acabei te transformando em um alvo — disse ele, com uma urgência que a assustou. — Beacon Hills não é o que você pensa. E as pessoas com quem eu lido... elas não gostam de novas estrelas brilhando no território delas.
— Do que você está falando? Lobisomens? Monstros? — Maitê riu, mas a risada morreu quando viu a seriedade no rosto dele.
— O triskelion é um símbolo de poder — explicou Keng, ignorando o sarcasmo dela. — Ele reagiu a você porque você tem algo, Maitê. Uma energia que eu senti desde o momento em que você entrou naquela sala de aula. Você não é apenas uma artista. Você é uma faísca. E faíscas iniciam incêndios.
Maitê sentiu o peso das palavras dele. Ela se lembrou dos olhos na floresta, da sensação de ser observada, da forma como Scott e seu grupo a vigiavam.
— Então me conte a verdade — exigiu ela, cruzando os braços. — Sem charadas. Sem filtros de Instagram.
Keng suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado, agora bagunçado pela tensão.
— Eu sou um modelo, sim. Mas também sou um sentinela. Minha família tem vigiado esta cidade há gerações, tentando manter o equilíbrio entre o mundo que você conhece e o mundo que se esconde nas sombras. E você, Maitê Byers, acaba de anunciar sua chegada para ambos os mundos com essa apresentação.
Antes que Maitê pudesse processar a informação, a porta dos bastidores foi aberta com força. Derek Hale entrou, seguido por Scott. A expressão de Derek era de puro fúria.
— Natachaii, o que você fez? — rosnou Derek, ignorando Maitê por um momento. — Você deu a ela um amuleto de ligação? Você tem ideia do que os Alfas da matilha vizinha vão pensar quando sentirem o rastro dela?
— Eu estava tentando protegê-la! — retrucou Keng, colocando-se entre Maitê e os recém-chegados.
— Protegê-la ou marcá-la como sua? — Scott interveio, sua voz calma, mas com um subtom de autoridade que Maitê nunca ouvira antes.
Maitê olhou de um para o outro, a confusão dando lugar a uma raiva fria e decidida.
— Chega! — ela gritou, fazendo todos se calarem. — Eu não sou um objeto para ser marcado, protegido ou discutido como se não estivesse aqui. Eu não sei o que vocês são, ou o que esta cidade esconde, mas eu não vou ser uma donzela em perigo na história de ninguém.
Ela caminhou até um espelho, pegou uma pequena tesoura de costura que estava sobre a mesa de maquiagem e, com um movimento firme, cortou a corrente de prata do colar. O pingente caiu no chão com um som metálico seco.
— Se vocês querem que eu faça parte deste "mundo de sombras", vão ter que aprender que eu dito o meu próprio ritmo — disse ela, olhando diretamente nos olhos de Keng. — Eu vim para cá para estudar e brilhar. Se houver monstros no caminho, eles que aprendam a dançar conforme a minha música.
Keng olhou para o colar no chão e depois para Maitê. Pela primeira vez, ele não viu apenas uma garota bonita e talentosa. Ele viu alguém que poderia mudar o jogo em Beacon Hills. Um sorriso lento e genuíno surgiu em seu rosto.
— Eu disse que você era uma faísca — murmurou ele, com um tom de admiração. — Mas acho que você é o incêndio inteiro.
Derek e Scott trocaram um olhar preocupado, mas não disseram nada. Eles sabiam que, a partir daquela noite, as regras haviam mudado. Maitê Byers não era apenas uma transferida; ela era o novo epicentro de Beacon Hills.
— A festa ainda não acabou — disse Maitê, retocando o batom com uma mão perfeitamente estável. — E eu tenho muitos contatos para fazer. Se me dão licença, tenho uma carreira para construir.
Ela saiu dos bastidores com a cabeça erguida, deixando para trás os segredos e as feras. Ela ainda não entendia tudo o que estava acontecendo, mas sabia de uma coisa: Beacon Hills podia ter dentes, mas ela tinha a voz, e pretendia ser ouvida.
Keng a observou partir, sentindo uma mistura de medo e fascinação. Ele sabia que os problemas estavam apenas começando, mas por algum motivo, ele nunca se sentira tão vivo.
— Ela vai nos matar ou nos salvar — comentou Stiles, surgindo das sombras com uma expressão de choque.
— Provavelmente os dois — respondeu Keng, pegando o pingente de prata do chão. — E eu mal posso esperar para ver como ela vai fazer isso.