O vampiro morto de fome (Enhypen)
O Limiar da Fome
A luz pálida da manhã filtrava-se pelas pesadas cortinas de veludo da mansão, mas o ar dentro da casa não trazia o frescor de um novo dia. Pelo contrário, a atmosfera estava carregada, densa com uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de S/n se arrepiarem. Ela acordou com o silêncio absoluto, um silêncio que parecia gritar. Não havia o som de passos, nem o murmúrio habitual de conversas matinais. Apenas a respiração pesada que parecia vir de todos os cantos das sombras.
S/n sentou-se na cama, o coração batendo um pouco mais rápido. Ela sabia o que aquele silêncio significava. O estoque de bolsas de sangue que eles mantinham no porão, trazido sob sigilo absoluto, havia acabado na noite anterior. O que restava agora eram sete predadores cujos instintos estavam começando a falar mais alto que a razão.
Ao descer as escadas, ela tentou fazer o mínimo de barulho possível, mas seus sentidos humanos eram patéticos comparados aos deles. Antes mesmo de chegar ao último degrau, sentiu sete pares de olhos cravados em sua direção.
Na sala de estar, a cena era perturbadora. Heeseung estava sentado na poltrona principal, a cabeça jogada para trás, os olhos fechados, mas as veias em seu pescoço saltadas mostravam o esforço que ele fazia para se controlar. Jay andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, seus movimentos rápidos e erráticos. Sunghoon estava encostado na parede mais distante, a pele mais pálida do que o normal, quase translúcida, enquanto Jungwon, o líder, mantinha-se sentado à mesa, os dedos cravados na madeira escura.
— Vocês... vocês estão bem? — A pergunta de S/n saiu mais como um sussurro, mas soou como um trovão no silêncio da sala.
Jay parou de andar abruptamente. Ele virou a cabeça na direção dela, e S/n recuou instintivamente. Os olhos dele, geralmente castanhos e profundos, estavam tingidos de um vermelho escuro e faminto.
— Você sabe que não estamos, S/n — disse Jay, sua voz falhando em um tom rouco que ela nunca tinha ouvido antes. — O cheiro... o seu cheiro está preenchendo a casa toda.
— Jay, controle-se — ordenou Jungwon, embora sua própria voz estivesse tensa. Ele olhou para S/n com um misto de desculpas e agonia. — S/n, você não deveria ter descido. Por favor, volte para o quarto e tranque a porta.
— Eu não posso simplesmente me esconder enquanto vocês estão sofrendo — ela rebateu, aproximando-se cautelosamente, apesar do medo. — Tem que haver algo que eu possa fazer. Alguma reserva que esquecemos?
Sunoo, que estava encolhido no sofá, soltou uma risada seca e sem humor.
— Nós reviramos esta casa três vezes durante a madrugada — disse Sunoo, olhando para ela com uma expressão de dor. — Não sobrou uma gota sequer. E a cidade está longe demais para irmos e voltarmos sem perder o controle no caminho.
— A fome... ela queima — murmurou Ni-ki da sombra de um canto. O mais novo deles era o que parecia mais vulnerável, seus olhos fixos no pulso de S/n, onde a pulsação era visível sob a pele fina.
S/n sentiu um calafrio. Ela sabia que eles a amavam, que a protegiam, mas a fome de um vampiro era uma força da natureza, algo que ia além da moralidade ou do afeto. Era pura sobrevivência.
— Eu posso ir até a cidade — sugeriu ela rapidamente. — Posso pegar o carro e...
— Não — interrompeu Heeseung, abrindo os olhos. O brilho neles era intenso, predatório. — Você não vai sair sozinha nesse estado. Se algum de nós perder o controle e te seguir... não teríamos força para parar.
Jake, que até então estava em silêncio absoluto perto da janela, aproximou-se lentamente. Ele era geralmente o mais doce, o que sempre tinha um sorriso para confortá-la, mas agora seu rosto era uma máscara de sofrimento.
— S/n, por favor — pediu Jake, a voz trêmula. — Apenas vá. O som do seu coração batendo... é como um tambor na minha cabeça. Está ficando difícil pensar.
— Eu não vou deixar vocês assim! — S/n exclamou, a frustração superando o medo por um momento. — Vocês estão morrendo de fome!
— Nós não morremos, S/n — rosnou Jay, aproximando-se um passo a mais do que o permitido pelas regras da casa. — Nós apenas nos tornamos monstros. E eu estou muito perto de me tornar um agora mesmo.
O clima na sala mudou instantaneamente. A tensão que antes era apenas desconfortável tornou-se perigosa. Jungwon levantou-se da cadeira em um movimento fluido, colocando-se entre Jay e S/n.
— Jay, recue. Agora — comandou o líder.
— Por que você está dando ordens, Jungwon? — Jay desafiou, as presas começando a despontar. — Você sente tanto quanto eu. O sangue dela... é tão doce. Eu consigo ouvir o fluxo correndo pelas veias dela daqui.
— Chega! — gritou Heeseung, levantando-se também.
S/n sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela nunca os tinha visto assim, desmoronando diante da necessidade fisiológica. Ela olhou para Ni-ki, que parecia estar à beira de um colapso, e depois para Sunghoon, que mantinha os olhos fixos no chão para evitar olhar para ela.
— E se... e se eu desse um pouco para cada um? — O silêncio que se seguiu à proposta de S/n foi absoluto.
— Você enlouqueceu? — Sunghoon finalmente falou, sua voz carregada de horror. — Somos sete, S/n. Se cada um de nós bebesse um pouco, não sobraria nada de você. Você morreria em minutos.
— Não se eu for cuidadosa — ela insistiu, embora soubesse que era uma mentira perigosa. — Apenas o suficiente para que vocês consigam dirigir até o fornecedor.
— A resposta é não — disse Jungwon firmemente, embora suas mãos estivessem tremendo. — Nós preferimos definhar a machucar você.
— Mas vocês já estão se machucando! — S/n deu um passo à frente, ignorando o aviso interno de perigo. Ela caminhou até Jungwon e pegou a mão dele. A pele dele estava gélida, como gelo. — Jungwon, olhe para mim.
Ele relutou, mas acabou encontrando os olhos dela. A sede nos olhos dele era uma coisa viva, uma fera faminta que lutava para ser libertada.
— Eu confio em vocês — ela sussurrou. — Eu sei que vocês não vão me drenar. Eu sei que vocês conseguem se controlar.
— Você confia demais na nossa humanidade, S/n — disse Sunoo, aproximando-se também, atraído pela proximidade dela. — Nós mal temos humanidade hoje.
— Eu confio no que temos — ela corrigiu.
S/n puxou a gola da blusa, expondo a curva do pescoço. O gesto fez com que todos na sala prendessem a respiração. O som de sete corações inexistentes parecia ecoar na sala através da necessidade deles.
— Heeseung — chamou ela suavemente.
O mais velho hesitou. Ele era o mais forte, mas também o que mais temia sua própria natureza. Ele olhou para os irmãos, vendo o desespero nos rostos de cada um, especialmente no de Ni-ki, que parecia estar prestes a desmaiar de fraqueza.
— Só um pouco — murmurou Heeseung, mais para si mesmo do que para os outros. — Só o suficiente para nos dar clareza.
Ele se aproximou dela com movimentos lentos, como se estivesse tentando não assustar uma presa. Quando ele parou na frente dela, S/n sentiu o frio que emanava de seu corpo. Ele colocou as mãos frias nos ombros dela, e ela sentiu um tremor percorrer sua espinha.
— S/n... se eu começar a não parar... você precisa me empurrar — Heeseung avisou, sua voz sendo pouco mais que um rosnado baixo.
— Você vai parar — ela afirmou com uma confiança que não sentia plenamente.
Quando as presas de Heeseung perfuraram sua pele, S/n soltou um arquejo curto. Não era a dor que a surpreendia — era a sensação intensa de sucção, o calor que parecia ser drenado de seu corpo para o dele. Ela sentiu as mãos dele apertarem seus ombros, e por um segundo, o medo real a atingiu. Ele estava bebendo com uma avidez desesperada.
— Heeseung... — ela murmurou, sentindo a cabeça leve.
Imediatamente, ele se afastou, limpando o canto da boca com as costas da mão, os olhos agora brilhando com uma lucidez renovada, mas cheios de culpa.
— Eu sinto muito — ele disse, a voz agora firme.
— Está tudo bem — ela respondeu, embora suas pernas estivessem um pouco bambas. — Próximo.
Um por um, eles se aproximaram. Jake foi o mais gentil, mal encostando nela, bebendo apenas o mínimo necessário para acalmar o fogo em suas veias. Sunghoon parecia detestar a si mesmo por precisar daquilo, fechando os olhos com força enquanto se alimentava.
Quando chegou a vez de Jay, ele a segurou com uma possessividade que a fez estremecer. Ele bebeu mais do que os outros, e Jungwon teve que colocar a mão no ombro dele para fazê-lo parar.
— Já chega, Jay — avisou Jungwon.
Jay se afastou, a respiração ofegante, olhando para S/n com uma mistura de fome e adoração.
— Você é... você é incrível — ele sussurrou.
S/n estava começando a se sentir muito fraca. A sala parecia girar levemente, e as cores estavam perdendo a nitidez. Ela sentiu braços fortes a sustentarem antes que seus joelhos cedessem. Era Ni-ki. O mais novo a olhava com olhos marejados.
— Eu não quero, S/n — disse Ni-ki, a voz embargada. — Eu não quero te machucar.
— Você não vai, Ni-ki — ela disse, forçando um sorriso pálido. — Eu estou aqui por você também.
Ni-ki foi o mais rápido, quase como se tivesse medo de que, se demorasse, não conseguiria se soltar. Quando ele terminou, S/n estava visivelmente pálida, sua pele perdendo o brilho rosado natural.
Por fim, restava apenas Jungwon. Ele olhou para ela, depois para os irmãos, que agora pareciam muito mais alertas e controlados, embora a preocupação com ela tivesse substituído a fome em suas expressões.
— Eu não vou tirar mais de você — declarou Jungwon, negando-se a se aproximar. — Você já deu demais.
— Jungwon, você é o líder — ela disse, a voz agora um fio. — Você precisa estar forte para cuidar deles. Para nos levar até a cidade. Por favor.
Jungwon cerrou os punhos, lutando contra o instinto que gritava dentro dele. Ele se aproximou e, em vez de ir para o pescoço dela, pegou o pulso de S/n. Ele beijou a pele delicada antes de morder suavemente. Ele bebeu apenas o suficiente para sentir o gosto, para estabilizar seus próprios sentidos.
Assim que ele terminou, envolveu S/n em seus braços, impedindo que ela caísse no chão.
— Rápido — ordenou Jungwon para os outros. — Jay, Heeseung, peguem o carro. Vão até o armazém e tragam tudo o que puderem. Jake, Sunghoon, preparem cobertores e açúcar. Ela está entrando em choque.
A casa, que antes era um antro de predadores famintos, transformou-se em um centro de cuidados frenéticos. Heeseung e Jay saíram em uma velocidade sobre-humana, o som do motor do carro rugindo na garagem segundos depois.
Jungwon carregou S/n para o sofá, deitando-a com cuidado. Sunoo sentou-se ao lado dela, esfregando as mãos dela para tentar aquecê-las.
— Você foi muito corajosa — murmurou Sunoo, a culpa pesando em seu tom. — E muito estúpida. Nunca mais faça isso.
— Eu faria de novo — ela conseguiu dizer, embora sua voz soasse distante para seus próprios ouvidos.
— Nós sabemos — disse Jake, aparecendo com um copo de água com muito açúcar e alguns chocolates que ele tinha encontrado escondidos em algum lugar. — Beba isso. Devagar.
S/n bebeu, sentindo o açúcar começar a agir, embora a fraqueza ainda fosse profunda. Ni-ki não saía do lado dela, segurando sua mão livre como se ela fosse desaparecer se ele a soltasse.
— Nós quase perdemos o controle — disse Sunghoon, parado ao pé do sofá, observando-a com uma seriedade mortal. — Você tem noção do perigo que correu?
— Eu conheço vocês — ela repetiu, a teimosia ainda presente apesar da exaustão. — Eu sabia que vocês não me machucariam além do necessário.
— O "necessário" foi quase demais — rebateu Jungwon, sentando-se no chão ao lado do sofá para ficar no nível dos olhos dela. Ele acariciou o rosto dela, o polegar passando pela marca agora cicatrizada em seu pescoço. — Você nos salvou de nós mesmos hoje, S/n. Mas a que custo? Olhe para você.
— Eu vou ficar bem — ela assegurou. — Só preciso dormir um pouco.
— Nós vamos cuidar de você — prometeu Ni-ki, encostando a cabeça no ombro dela. — Ninguém vai chegar perto de você com fome de novo. Nunca mais.
Cerca de uma hora depois, Heeseung e Jay retornaram. Eles entraram na casa carregando caixas térmicas, o alívio visível em seus rostos. Eles tinham o suprimento necessário para semanas. A crise imediata havia passado.
Depois que todos se alimentaram adequadamente e a cor voltou aos rostos dos sete rapazes, o clima na mansão mudou de tensão para uma gratidão silenciosa e protetora. Eles não a deixaram sozinha por um segundo sequer.
Heeseung trouxe uma sopa quente que ele mesmo tentou preparar, enquanto Jay insistia em ajustar os travesseiros dela a cada cinco minutos. Sunghoon e Jake ficaram encarregados de manter a lareira acesa, garantindo que a temperatura da sala estivesse perfeita para ela.
S/n observava-os, sentindo o calor retornar aos seus membros. Ela viu como eles trocavam olhares entre si — olhares de quem tinha compartilhado um momento sombrio e saído dele graças ao sacrifício dela.
— S/n — chamou Heeseung, sentando-se na beirada do sofá quando os outros se afastaram um pouco para dar espaço. — O que você fez hoje... não foi apenas nos alimentar. Você nos lembrou por que lutamos tanto para manter nossa humanidade.
— Vocês são minha família — ela respondeu simplesmente.
— Uma família de monstros — brincou Sunoo, embora houvesse uma nota de tristeza em sua voz.
— Não — corrigiu S/n, fechando os olhos enquanto o sono finalmente começava a vencê-la. — Apenas uma família que às vezes sente muita fome.
Jungwon inclinou-se e beijou a testa dela, um gesto carregado de promessa.
— Descanse agora. Nós estaremos aqui quando você acordar. E eu prometo... o estoque nunca mais ficará vazio.
Enquanto S/n mergulhava em um sono profundo e reparador, os sete vampiros permaneceram em vigília ao redor dela. Eles eram os predadores mais perigosos daquela região, capazes de destruir cidades se quisessem, mas ali, naquela sala mal iluminada, eles eram apenas sete guardiões devotados a uma única vida humana que, com seu próprio sangue, tinha selado um vínculo que nem a eternidade poderia quebrar.
A fome havia passado, mas o impacto daquele dia permaneceria com eles para sempre. Eles aprenderam que, embora o sangue fosse o que os mantinha vivos, era o amor e a coragem de S/n que os mantinha inteiros. E enquanto ela dormia, protegida pelo calor da lareira e pela presença deles, a mansão finalmente encontrou a paz que a manhã havia tentado roubar.