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Obito

Sombras sobre o Trono de Mármore

As semanas que se seguiram à notícia do desaparecimento de Obito transformaram a atmosfera de Ítaca. O sol, que antes brilhava com a promessa do retorno dos heróis, agora parecia lançar sombras mais longas e frias sobre os corredores do palácio. Rin Uchiha, embora mantivesse a coluna ereta e o olhar firme diante de seus súditos, sentia o peso de cada grão de areia na ampulheta do tempo.

No salão principal, Rin revisava os mapas de comércio. Sua pele parda contrastava com a seda clara de suas vestes reais, e seus cabelos castanhos ondulados estavam presos em um penteado prático, mas elegante. Ela era a imagem da estabilidade, mas por dentro, o silêncio de Obito era um grito constante.

A porta pesada de carvalho se abriu, e Kuro Hatake entrou. O jovem de vinte e um anos não trazia o habitual sorriso brincalhão. Seus cabelos brancos estavam levemente desgrenhados e ele vestia uma armadura leve de couro, indicando que acabara de chegar das patrulhas na costa.

— Majestade — Kuro fez uma reverência breve, mas respeitosa. — Os navios mercantes de Creta confirmaram o que temíamos. A notícia de que o Rei Obito se perdeu no mar se espalhou como fogo em palha seca. Há barcos estranhos rondando nossas águas. Não são piratas comuns, são batedores de outras ilhas.

Rin suspirou, fechando o pergaminho com força.

— Eles são como abutres, Kuro. Sentem o cheiro de um trono que acreditam estar vago. Acham que Ítaca é uma fruta madura pronta para ser colhida agora que o seu maior defensor não está aqui para empunhar a espada.

— Eles se esquecem de que a senhora ainda governa — disse Kuro, aproximando-se da mesa — e que Tatsuyo está se tornando uma guerreira que faria o próprio General Obito sentir orgulho.

Rin olhou para o rapaz. Ela via a lealdade nos olhos castanhos escuros dele, uma lealdade que ia além do dever. Ela sabia que Kuro morreria por sua filha, e isso era o único pensamento que lhe trazia algum conforto nas noites de insônia.

— Como ela está hoje? — perguntou a rainha, a voz suavizando-se ao mencionar a filha.

— No pátio, como sempre — Kuro deu um meio sorriso. — Ela está treinando com o mestre de armas. Acho que ela já quebrou três lanças de madeira só esta manhã. Ela está canalizando a dor na força, Rin. Mas ela sente falta dele. Todos sentimos.

— Vá até ela, Kuro. Não a deixe sozinha com seus pensamentos por muito tempo. A mente pode ser um inimigo pior do que qualquer soldado troiano quando estamos desesperados.

Kuro assentiu e retirou-se, caminhando em direção ao pátio de treinamento. O som do metal contra o metal já ecoava pela ala leste.

Tatsuyo Uchiha era uma visão de foco absoluto. Seus cabelos pretos, longos até a cintura, estavam presos em uma trança firme que chicoteava o ar a cada movimento. A pele parda brilhava com o suor, e seus olhos pretos, tão parecidos com os do pai, estavam fixos no oponente. Ela se moveu com uma agilidade que desafiava seus 1,63 de altura, deslizando por baixo do golpe de um guarda veterano e encostando a ponta de sua espada de treino no peito dele.

— Morto — disse ela, a voz firme, embora a respiração estivesse ofegante.

— Excelente, princesa — o guarda arquejou, limpando o suor. — Sua velocidade é sobrenatural.

— Não é o bastante — Tatsuyo retrucou, guardando a espada na bainha. — Homens não morrem apenas com velocidade. Eles morrem com precisão e vontade. Se meu pai estivesse aqui, ele diria que eu hesitei por um milésimo de segundo antes do bote.

— Ele diria que você está sendo dura demais consigo mesma — Kuro interrompeu, encostado em uma coluna de mármore, observando-a com uma mistura de admiração e preocupação.

Tatsuyo virou-se, e um brilho suave passou por seus olhos ao ver o amigo, embora ela tentasse manter a máscara de seriedade.

— E você diria que eu deveria estar descansando e comendo uvas no jardim, não é, Kuro?

— Talvez as uvas não sejam uma má ideia — ele riu, aproximando-se e entregando-lhe uma toalha de linho. — Mas eu diria que você precisa de um oponente que não tenha medo de machucar a futura rainha. Esses guardas te respeitam demais, Tatsuyo. Eles seguram os golpes.

Tatsuyo arqueou uma sobrancelha, um desafio silencioso brilhando em seu rosto.

— Está se oferecendo, Hatake? Achei que seu trabalho fosse me proteger, não me atacar.

— A melhor forma de proteger você é garantindo que você consiga derrotar qualquer um, inclusive a mim — Kuro desembainhou sua própria espada de madeira, girando-a com habilidade. — Vamos lá, deusa de Ítaca. Mostre-me se essa raiva toda serve para alguma coisa além de quebrar lanças.

Os dois se posicionaram no centro do pátio. O contraste entre eles era marcante: Kuro, alto e de movimentos fluidos e imprevisíveis; Tatsuyo, compacta, explosiva e técnica.

O primeiro choque de madeira foi violento. Kuro atacou por cima, testando a força dos braços dela, mas Tatsuyo não recuou. Ela girou sobre o próprio eixo, tentando atingir as costelas dele, mas Kuro bloqueou com o antebraço protegido, rindo.

— Lenta! — provocou ele.

— Veremos quem é lento! — ela respondeu, aumentando a intensidade.

Eles dançaram pelo pátio por vários minutos. Para quem observava de longe, parecia um combate real. Para eles, era uma linguagem que só os dois entendiam. A cada golpe bloqueado, a cada centímetro de espaço conquistado, a tensão entre o dever e o afeto crescia. Kuro admirava a beleza dela, mesmo quando ela estava coberta de poeira e suor. Para ele, não havia joia em Ítaca que brilhasse tanto quanto os olhos de Tatsuyo quando ela estava determinada.

Em um movimento rápido, Kuro conseguiu desarmá-la, mas Tatsuyo não parou. Ela avançou para um combate corpo a corpo, agarrando o braço dele e usando o peso de Kuro contra ele mesmo. Os dois caíram na areia do pátio, rolando até que Kuro ficasse por cima, prendendo os pulsos de Tatsuyo contra o chão.

Ambos estavam ofegantes. O rosto de Kuro estava a poucos centímetros do dela. Ele conseguia sentir o calor da pele dela e ver o reflexo das nuvens nos olhos escuros da princesa. O riso morreu na garganta dele, substituído por uma intensidade que o fez esquecer, por um segundo, que estavam no meio de um pátio público.

— Eu peguei você — sussurrou Kuro, a voz subitamente rouca.

Tatsuyo não tentou se soltar. Seu coração batia freneticamente contra o peito, e ela não sabia se era pelo esforço ou pela proximidade do rapaz.

— Você teve sorte — ela respondeu, mas não havia convicção em sua voz.

— Sorte não ganha guerras, Tatsuyo — Kuro disse, soltando os pulsos dela lentamente, mas sem se afastar. — Eu prometi ao seu pai e à sua mãe que cuidaria de você. Mas às vezes... às vezes eu esqueço que é um dever.

Tatsuyo sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com a brisa do mar. Ela levou a mão ao rosto de Kuro, afastando uma mecha de cabelo branco que caía sobre seus olhos castanhos.

— Você não precisa que seja um dever, Kuro. Eu sei que você está aqui por mim.

O momento foi quebrado pelo som de passos apressados. Um servo entrou correndo no pátio, interrompendo a bolha que os envolvia. Kuro levantou-se rapidamente, oferecendo a mão para ajudar Tatsuyo a se erguer.

— Princesa! Kuro-sama! — o servo exclamou, recuperando o fôlego. — A Rainha Rin solicita a presença de ambos na sala do conselho. Imediatamente.

— O que aconteceu? — Tatsuyo perguntou, recuperando sua postura de herdeira, embora suas bochechas ainda estivessem levemente coradas.

— Um navio mercante... mas não é de Ítaca. É de Esparta. Eles trazem uma mensagem oficial sobre o Rei Obito.

Tatsuyo e Kuro trocaram um olhar carregado de apreensão. Sem dizer uma palavra, correram para o palácio.

Na sala do conselho, Rin estava de pé diante de um homem alto, vestido com as cores de Menelau. Ele segurava um elmo de bronze, amassado e gasto pelo combate. Rin tinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo, tão apertadas que os nós dos dedos estavam brancos.

— Repita o que disse — ordenou Rin, sua voz como uma lâmina de gelo.

— Majestade — o mensageiro espartano começou, fazendo uma reverência a Tatsuyo quando ela entrou — fomos enviados para informar que os destroços da nau capitânia de Ítaca foram encontrados na costa da Trácia. Não houve sobreviventes confirmados. O Rei Agamenon sugere que Ítaca declare luto oficial e... que a sucessão seja garantida o quanto antes para evitar instabilidade na região.

Tatsuyo sentiu uma náusea súbita. Kuro deu um passo à frente, a mão instintivamente indo para o punho da espada.

— "Garantir a sucessão"? — Tatsuyo sibilou. — Meu pai ainda não foi declarado morto por nós. Quem são os reis estrangeiros para dizer o que Ítaca deve fazer?

— Eles querem que você se case, Tatsuyo — Rin disse, sua voz soando estranhamente calma, embora seus olhos estivessem cheios de uma dor profunda. — Eles acham que, se você se casar com um príncipe de uma de suas linhagens, Ítaca se tornará um estado vassalo. Eles chamam isso de "proteção". Eu chamo de invasão.

— Eu não vou me casar com ninguém! — Tatsuyo declarou, os olhos faiscando. — Eu sou a herdeira de Obito Uchiha. Eu esperarei por ele, nem que leve dez anos.

O mensageiro espartano pigarreou, desconfortável.

— Majestade, a senhora é jovem e bela. Há muitos homens poderosos que já estão preparando suas frotas para vir a Ítaca oferecer... seus serviços. A senhora não poderá governar sozinha se o povo acreditar que o rei se foi.

— Ela não está sozinha — Kuro interveio, sua voz ecoando com uma autoridade que surpreendeu até mesmo Rin. Ele se colocou ao lado de Tatsuyo, sua presença de 1,80 de altura parecendo preencher a sala. — Ítaca tem uma Rainha e tem uma Herdeira. E tem um exército que, embora pequeno, foi treinado pelo próprio Obito. Qualquer homem que vier aqui em busca de um trono fácil encontrará apenas o aço.

Rin olhou para Kuro com gratidão. Ela se aproximou do mensageiro.

— Volte para seus mestres. Diga a eles que a Rainha Rin Uchiha ainda ocupa o trono, e que a Princesa Tatsuyo não está à procura de um marido. Diga que, se eles enviarem pretendentes, que enviem também seus testamentos, pois Ítaca não recebe bem quem tenta roubar o que pertence a um herói de guerra.

O mensageiro, intimidado pela fúria silenciosa da rainha e pela postura desafiadora dos dois jovens, curvou-se e saiu rapidamente.

Quando a porta se fechou, o silêncio que restou foi pesado. Rin desabou em sua cadeira, fechando os olhos por um momento.

— Mãe... — Tatsuyo aproximou-se, ajoelhando-se ao lado dela.

— Eu estou bem, querida — Rin sussurrou, acariciando o cabelo da filha. — Mas eles não vão parar. O boato sobre a morte de seu pai é a fraqueza que eles estavam esperando. Teremos pretendentes batendo à nossa porta em menos de uma lua.

— Deixe que venham — Tatsuyo disse, olhando para Kuro. — Nós os expulsaremos.

— Não é tão simples — Rin suspirou. — Precisamos manter a ordem interna. O povo precisa ver força.

Rin abriu os olhos e olhou fixamente para Kuro.

— Kuro, a partir de hoje, você não é apenas o protetor de Tatsuyo. Eu o nomeio Capitão da Guarda Real de Ítaca. Você responderá diretamente a mim e a ela. Treine os homens como se a guerra estivesse chegando às nossas praias amanhã. Porque, de certa forma, ela está.

Kuro ajoelhou-se, colocando a mão sobre o coração.

— Pela minha vida, Majestade. Pelo Rei Obito e por Tatsuyo. Ítaca não cairá.

Rin assentiu e, com um gesto, pediu para ficar sozinha. Ela precisava de um momento para ser apenas a mulher que sentia falta do marido, longe dos olhos do reino.

Tatsuyo e Kuro saíram para a varanda que dava para o mar. O sol estava se pondo, tingindo as águas de um laranja sangrento.

— Você ouviu o que aquele homem disse — Tatsuyo começou, sem olhar para ele. — Eles virão atrás de mim como se eu fosse um prêmio.

Kuro deu um passo para o lado dela, sentindo o vento bagunçar seus cabelos brancos.

— Eles podem vir. Podem trazer ouro, promessas e exércitos. Mas nenhum deles conhece você como eu conheço. Nenhum deles sabe que você prefere o peso de uma espada ao peso de uma coroa de ouro.

Tatsuyo virou-se para ele, seus olhos pretos brilhando com uma mistura de medo e determinação.

— E se ele não voltar, Kuro? Se as tempestades realmente o levaram?

Kuro segurou as mãos dela. As mãos de Tatsuyo eram fortes, marcadas pelo treino, mas naquele momento elas tremiam levemente.

— Então nós governaremos Ítaca juntos, da forma que ele ensinou — Kuro disse, com uma seriedade que Tatsuyo nunca vira antes. — Eu serei seu escudo, seu general, seu amigo... ou qualquer coisa que você precise que eu seja. Mas eu prometo, Tatsuyo, ninguém vai tirar você deste lugar. E ninguém vai forçar você a um destino que você não escolheu.

Tatsuyo sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas ela a limpou rapidamente. Ela se inclinou e apoiou a cabeça no ombro de Kuro, sentindo o calor e a segurança que ele emanava.

— Ele está vivo — ela sussurrou para o mar. — Eu sinto isso. Ele está em algum lugar, lutando para voltar.

— Então nós lutaremos aqui para que ele tenha uma casa para onde voltar — Kuro respondeu, envolvendo-a em um abraço protetor.

Longe dali, em águas desconhecidas e cercado por névoas místicas, um homem de pele parda e cicatrizes de batalha olhava para as estrelas, guiando-se pela constelação que, em sua mente, tinha o formato do sorriso de Rin. Obito Uchiha não sabia quantos monstros ainda teria que enfrentar, mas o pensamento de sua esposa, de sua filha e da lealdade do jovem que ele deixara para trás era o combustível que mantinha seus braços remando contra a maré do destino.

Ítaca estava cercada de pretendentes e incertezas, mas enquanto o amor de Rin permanecesse como um farol e a espada de Tatsuyo e Kuro permanecesse afiada, o reino dos Uchiha não seria apagado da história. A odisseia estava apenas se tornando mais perigosa, e os laços entre os que ficaram seriam testados pelo fogo da ambição estrangeira. Mas, como o mar sempre ensinava, as ondas mais fortes apenas esculpiam as rochas mais resistentes.