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Obrigada a se casar com o mafioso

O Preço da Inocência

A fumaça do charuto de Henrique dançava no ar gélido do escritório, criando formas fantasmagóricas que pareciam zombar do desespero de S/N. Ela estava parada no centro do tapete persa, sentindo o peso de cada olhar que recebia. Seus cabelos ruivos, vibrantes como o fogo, contrastavam violentamente com a palidez de sua pele, que agora parecia quase translúcida sob a luz fria do lustre de cristal.

Do outro lado da mesa de mogno, seu pai, um homem cujos olhos já não carregavam um pingo de humanidade, contava os maços de dinheiro com uma agilidade nojenta.

— Está tudo aqui, Henrique — disse o pai de S/N, com um sorriso ganancioso que a fez sentir vontade de vomitar. — Como prometido. Ela é sua agora.

S/N sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela tentou falar, mas sua voz parecia ter morrido em sua garganta seca. Seus olhos azuis, geralmente brilhantes e cheios de vida, estavam nublados pelo medo e pela traição. Como o homem que a carregou no colo poderia trocá-la por papel e tinta?

Henrique inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. Ele era a definição de um perigo atraente. Alto, com ombros largos e uma postura que exalava poder absoluto. Seus cabelos escuros estavam perfeitamente alinhados, e seus olhos verdes, afiados como lâminas de esmeralda, varreram o corpo de S/N com uma possessividade que a fez estremecer.

— Saia — ordenou Henrique, sua voz era um barítono profundo que reverberou pelas paredes da sala.

O pai dela nem sequer olhou para trás. Ele apenas pegou a maleta e saiu, fechando a porta pesada de carvalho com um clique seco que soou como o martelo de um juiz selando o destino de S/N.

O silêncio que se seguiu foi sufocante. S/N apertou as mãos uma na outra, as unhas cravando na palma da mão macia.

— Aproxime-se, S/N — disse Henrique, levantando-se lentamente.

Ela não se moveu. O medo a mantinha enraizada no lugar, como se seus pés tivessem se transformado em chumbo.

— Eu não sou um objeto — ela finalmente conseguiu sussurrar, sua voz tremendo levemente. — Você não pode simplesmente me comprar.

Henrique soltou uma risada curta e sem humor, contornando a mesa com passos predatórios. Ele parou a poucos centímetros dela. O cheiro de sândalo, tabaco caro e perigo emanava dele, envolvendo os sentidos de S/N.

— A realidade é um conceito amargo, não é? — Ele estendeu a mão, tocando uma mecha do cabelo ruivo dela. — Seu pai discorda de você. Para ele, você teve um preço. E eu paguei caro por cada centímetro dessa pele branca.

S/N recuou um passo, mas ele foi mais rápido, segurando seu braço com firmeza, embora sem machucá-la. O toque dele era quente, contrastando com a frieza de suas palavras.

— Olhe para mim — ele comandou.

Relutante, ela ergueu o rosto. O contraste entre eles era gritante: ela, uma visão de delicadeza e pureza; ele, a personificação da corrupção e do pecado.

— Você tem fama de ser cruel — disse ela, reunindo o pouco de coragem que lhe restava. — Dizem que você usa as mulheres e as descarta como se fossem nada.

— E por que eu seria diferente com você? — Henrique deu um sorriso de lado, um gesto que não alcançou seus olhos verdes e frios. — Você é linda, S/N. Uma raridade. Mas não se iluda achando que haverá romance nestas paredes. Você está aqui para me servir, para ser minha propriedade.

— Eu prefiro morrer — rebateu ela, as lágrimas finalmente transbordando e rolando por suas bochechas.

Henrique usou o polegar para secar uma das lágrimas, um gesto surpreendentemente suave que a assustou mais do que sua agressividade.

— A morte é uma saída fácil, e eu não facilito a vida de ninguém — ele murmurou, aproximando o rosto do dela. — Você vai aprender as regras desta casa. E a primeira delas é: você nunca me diz não.

Ele a soltou abruptamente, voltando para sua cadeira como se a interação anterior não tivesse tido importância alguma.

— Vá para o quarto no fim do corredor. Minha governanta, Marta, estará lá para lhe mostrar onde você vai dormir. E S/N... — Ele fez uma pausa, fixando-a com um olhar intenso. — Não tente fugir. Meus homens têm ordens para atirar em qualquer coisa que se mova nos jardins após o anoitecer.

S/N não esperou por mais nada. Ela deu as costas e saiu correndo do escritório, o som de seus soluços abafados ecoando pelo corredor luxuoso e sombrio da mansão.

Ao chegar ao quarto indicado, ela encontrou uma senhora de aparência severa, mas com olhos que carregavam uma centelha de piedade.

— Você deve ser a S/N — disse a mulher, apontando para uma cama imensa coberta com lençóis de seda negra. — Sou Marta. O patrão deu ordens para que você tome um banho e desça para o jantar em uma hora.

— Eu não quero comer — disse S/N, sentando-se na beira da cama, sentindo-se pequena naquele ambiente opulento.

— O que você quer pouco importa agora, menina — Marta suspirou, aproximando-se e colocando a mão no ombro dela. — Henrique não é um homem que aceita desobediência. Se você quer sobreviver aqui, terá que engolir seu orgulho.

— Como ele pode ser tão frio? — perguntou S/N, olhando para a governanta. — Ele me comprou como se eu fosse um cavalo de raça.

— Ele é o que o mundo o obrigou a ser — respondeu Marta enigmaticamente. — Agora, vá se lavar. Há roupas no closet. Tente não irritá-lo hoje. Ele já teve um dia longo e o humor dele está pior do que o normal.

Marta saiu, deixando S/N sozinha com seus pensamentos. Ela caminhou até a janela e olhou para fora. A propriedade era cercada por muros altos e guardas armados. A liberdade parecia um sonho distante, uma memória de uma vida que não lhe pertencia mais.

Ela tomou um banho quente, tentando lavar a sensação das mãos de seu pai e o olhar de Henrique de sua pele. No closet, encontrou vestidos que pareciam custar mais do que a casa onde ela morava. Escolheu um vestido simples de seda azul, que combinava com seus olhos, e deixou os cabelos ruivos soltos, caindo em ondas sobre os ombros.

Quando desceu as escadas, Henrique já estava à mesa. Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e algumas cicatrizes que falavam de um passado violento.

— Sente-se — disse ele, sem desviar os olhos do vinho tinto em sua taça.

S/N obedeceu em silêncio. O jantar foi servido, mas ela mal tocou na comida. A presença de Henrique era esmagadora, preenchendo cada canto da sala de jantar.

— Coma — ordenou ele. — Não quero uma prisioneira que desmaie de fome.

— Por que eu? — ela perguntou subitamente, largando os talheres. — Com todo o seu dinheiro e poder, você poderia ter qualquer mulher. Por que aceitou o acordo do meu pai?

Henrique finalmente ergueu os olhos. O verde de suas íris parecia brilhar sob a luz das velas.

— Porque seu pai me devia algo que dinheiro não podia pagar — disse ele, sua voz baixando de tom. — E quando ele ofereceu você, eu vi algo que ele não viu.

— E o que você viu? — desafiou ela.

Henrique se levantou e caminhou até ela, parando atrás de sua cadeira. Ele se inclinou, seus lábios roçando a orelha dela, fazendo-a estremecer.

— Eu vi algo que ainda não foi quebrado — sussurrou ele. — E eu sempre tive um talento especial para destruir coisas bonitas.

S/N sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ele era um monstro, um homem sem alma. Mas, enquanto ele se afastava e saía da sala sem dizer mais nada, ela percebeu algo aterrorizante: apesar do medo e do ódio que sentia, havia uma eletricidade perigosa no ar entre eles, uma faísca que ela não sabia se conseguiria apagar.

Ela estava presa em uma gaiola de ouro, e o dono da chave era o homem mais perigoso que ela já conhecera. A guerra entre eles estava apenas começando, e S/N sabia que, naquela casa, a inocência era a primeira coisa a ser sacrificada.

De volta ao seu quarto, ela se trancou e encostou a cabeça na porta, deslizando até o chão. O silêncio da mansão era pesado, interrompido apenas pelo som do vento lá fora. Ela abraçou os próprios joelhos, lembrando-se da vida humilde que levava, das manhãs em que acordava com o sol entrando pela janela de sua pequena casa. Tudo isso parecia ter acontecido em outra encarnação.

— Eu não vou deixar ele me quebrar — prometeu a si mesma em um sussurro, embora seu coração batesse descompassado contra as costelas.

Lá embaixo, em seu escritório, Henrique observava as câmeras de segurança. Ele viu a pequena figura ruiva encolhida contra a porta do quarto. Ele girou a taça de vinho, os olhos verdes fixos na tela.

— Veremos, S/N — murmurou ele para a sala vazia. — Veremos quanto tempo sua vontade resiste ao meu mundo.

Ele sabia que ela era diferente das outras. Havia um fogo nela que não se apagaria facilmente. E era exatamente esse fogo que ele pretendia dominar, ou talvez, pela primeira vez em sua vida, se queimar nele.

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