Observando o futuro
O Labirinto de Papel e o Refúgio nos Braços do Destino
A paz era, em muitos aspectos, mais exaustiva do que a guerra. Para Naruto Uzumaki, o Sétimo Hokage, essa era uma verdade que ele aprendia diariamente entre pilhas de relatórios de impostos, solicitações de infraestrutura e tratados diplomáticos que pareciam não ter fim. Na tela que ainda flutuava sobre o mundo ninja, a imagem mudou novamente, deixando para trás a melancolia das crises de pânico para mostrar o cotidiano vibrante — e por vezes cômico — da liderança de Konoha.
O cenário era o escritório do Hokage, mas o sol já havia se posto há muito tempo. Apenas uma luminária de mesa lançava uma luz âmbar sobre a montanha de pergaminhos que ameaçava soterrar o homem loiro. Naruto, agora com suas feições maduras e a capa branca pendurada no encosto da cadeira, bufava de forma audível, jogando a cabeça para trás com um gemido de frustração que ecoou por todas as vilas que assistiam.
— Eu não aguento mais! — exclamou o Naruto da tela, jogando uma caneta sobre a mesa. — Quem foi que decidiu que ser Hokage significava revisar o orçamento de reparo dos esgotos do Distrito Leste pela quinta vez em um mês? Shikamaru é um gênio, mas ele é um sádico por me deixar fazer isso sozinho!
Nas ruas da Konoha atual, o jovem Naruto cruzou os braços, sentindo uma pontada de solidariedade por seu "eu" futuro.
— É, o trabalho de escritório parece ser o verdadeiro vilão final — resmungou o garoto, arrancando risadas nervosas de Sakura e Kakashi.
Na tela, a porta lateral do escritório se abriu sem que ninguém batesse. Um homem alto, vestindo uma capa escura que ocultava seu braço esquerdo faltante, entrou no recinto com a elegância silenciosa de um predador que encontrou sua paz. Era Sasuke Uchiha. Seu rosto, embora ainda mantivesse a austeridade característica, suavizou-se instantaneamente ao ver o estado deplorável de seu parceiro.
— Você está reclamando alto demais, Naruto — disse Sasuke na tela, sua voz baixa e aveludada, carregando um tom de intimidade que fez o mundo ninja prender a respiração. — Dava para ouvir seus resmungos lá do corredor do Departamento de Inteligência.
— Sasuke! — Naruto se iluminou, esticando os braços como se pedisse socorro. — Por favor, me diga que você veio aqui para me sequestrar e me levar para uma missão de Rank S em algum deserto perigoso. Qualquer coisa é melhor do que esses papéis!
Sasuke caminhou até a mesa, parando ao lado da cadeira de Naruto. Ele olhou para a pilha de documentos com um desdém fingido.
— Eu acabei de voltar de uma investigação de três semanas nas dimensões de Kaguya — comentou Sasuke, cruzando o braço direito sobre o peito. — E, honestamente, enfrentar um exército de marionetes brancas parece menos estressante do que o que você está fazendo agora.
— Viu? Até você concorda! — Naruto levantou-se abruptamente, a cadeira rangendo no chão de madeira. — Eu sou o homem mais forte do mundo, Sasuke. Eu lutei contra deuses! Eu salvei a lua! Por que eu tenho que decidir se o novo parque vai ter balanços de madeira ou de metal?
O Naruto da tela começou a andar de um lado para o outro, gesticulando freneticamente enquanto continuava sua diatribe contra a burocracia.
— E tem mais! — continuou ele, apontando para um pergaminho específico. — A Vila da Nuvem quer discutir as cotas de exportação de ervas medicinais de novo. O Raikage sabe que eu odeio ler letras miúdas, ele faz isso de propósito, eu tenho certeza!
O mundo assistia, hipnotizado. Não era apenas a reclamação que prendia a atenção, mas a forma como Sasuke olhava para Naruto. Não havia julgamento, apenas uma paciência infinita e um carinho profundo que transparecia em cada detalhe de sua postura. O Sasuke da tela não interrompeu; ele apenas esperou que a tempestade de reclamações de Naruto perdesse a força.
— Você terminou? — perguntou Sasuke, quando Naruto finalmente parou para respirar, parado bem na frente dele.
— Não — respondeu Naruto, fazendo um biquinho que lembrava muito o garoto de doze anos que ele fora. — Mas minhas costas estão doendo e meu cérebro parece que virou ramen cozido demais.
Com um suspiro dramático, o Naruto da tela fez algo que silenciou instantaneamente todas as fofocas e burburinhos nas Nações Elementares. Ele deu um passo à frente, envolveu o pescoço de Sasuke com os braços e, com uma naturalidade desconcertante, sentou-se no colo do Uchiha, que se acomodara em uma poltrona lateral do escritório no momento exato para recebê-lo.
O silêncio em Konoha, em Suna, em Kumo e em todas as outras vilas foi absoluto. O choque de ver o Hokage e o "Hokage das Sombras" em tal demonstração de afeto romântico foi como um jutsu de paralisia coletiva.
— Naruto... — disse Sasuke na tela, embora não fizesse menção de afastá-lo. Pelo contrário, seu braço direito envolveu a cintura do loiro, puxando-o para mais perto. — Você é o Hokage. Alguém pode entrar por aquela porta a qualquer momento.
— Deixe que entrem — resmungou Naruto, escondendo o rosto na curva do pescoço de Sasuke, inspirando o cheiro de viagem e de casa que o outro exalava. — Eu sou o herói da guerra, eu tenho direito a cinco minutos de descanso no colo do meu namorado. Se o Shikamaru entrar, ele vai apenas dizer que é "problemático" e fechar a porta.
O público viu o Sasuke da tela fechar os olhos por um momento, encostando a testa na de Naruto. A tensão que emanava do escritório parecia se dissipar, substituída por uma aura de proteção mútua.
— Você trabalha demais — sussurrou Sasuke, sua mão subindo para acariciar os cabelos loiros curtos de Naruto. — Às vezes eu esqueço como você pode ser teimoso quando se trata de cumprir seu dever.
— Eu aprendi com o melhor — retrucou Naruto, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos ônix de Sasuke. — Você passou anos correndo pelo mundo tentando consertar as coisas sozinho. Eu só estou tentando manter o que nós construímos juntos. Mas, caramba, Sasuke... é difícil.
— Eu sei que é — Sasuke inclinou a cabeça, permitindo que Naruto descansasse o peso do corpo totalmente sobre ele. — Mas você não está sozinho. Eu sempre volto, não volto?
— Volta — Naruto sorriu, um sorriso cansado, mas genuinamente feliz. — Mas você podia voltar com menos frequência e ficar mais tempo. Ou levar esses papéis com você para outra dimensão e queimá-los em um Amaterasu.
Sasuke soltou uma risada curta e seca, um som raro que fez o coração de muitos espectadores disparar.
— Eu não acho que o conselho da vila aprovaria o uso de chamas eternas para gestão de resíduos burocráticos.
— Eles não precisam saber — brincou Naruto, passando os dedos pela gola da capa de Sasuke. — Senti sua falta. O escritório fica silencioso demais sem você por perto para me chamar de idiota.
— Eu nunca parei de te chamar de idiota, Naruto — disse Sasuke, o tom carregado de um afeto que as palavras não conseguiam esconder. — Eu só faço isso por telepatia quando estou longe.
— Ah, então era isso que eu estava ouvindo! — Naruto riu, finalmente relaxando os ombros. — Eu sabia que aquela voz na minha cabeça não era só a Kurama reclamando de sono.
Na tela, o momento de leveza continuou. O mundo via os dois homens mais poderosos da história dividindo um momento de vulnerabilidade doméstica que humanizava o mito. Não eram apenas lendas vivas; eram dois homens que se amavam e que encontravam um no outro o único refúgio contra as pressões de um mundo que esperava tudo deles.
— Sasuke — chamou Naruto, sua voz ficando séria por um instante.
— Hum?
— Obrigado. Por estar aqui. Por ter voltado. Por me deixar reclamar como um gordo de doze anos.
Sasuke apertou o abraço por um segundo, um gesto quase imperceptível, mas carregado de significado.
— Eu não tenho outro lugar para estar, Naruto. Onde quer que você esteja... é para onde eu sempre vou voltar.
A cena começou a se afastar, mostrando a silhueta dos dois contra a janela do escritório, com as luzes de Konoha brilhando ao fundo como um mar de estrelas. Antes que a imagem desaparecesse, Naruto deu um selinho rápido nos lábios de Sasuke e se levantou, visivelmente revigorado.
— Certo! — exclamou o Naruto da tela, voltando para sua mesa com uma energia renovada. — Se eu terminar esses relatórios de exportação agora, podemos ir para casa e você pode me contar sobre aquela ruína que você encontrou no País do Vento.
— Se você terminar isso nos próximos dez minutos, eu até cozinho o jantar — prometeu Sasuke, recostando-se na poltrona com um meio sorriso.
— Dez minutos?! Isso é um desafio, Sasuke Uchiha! Dattebayo!
A tela brilhou intensamente e se apagou, deixando o céu de Konoha limpo novamente. Mas, no chão, o impacto foi sísmico.
O jovem Naruto estava vermelho como um tomate, as mãos cobrindo o rosto enquanto tentava processar o que acabara de ver. Ele e Sasuke... namorando? Ele sentando no colo de Sasuke? A ideia era tão absurda e, ao mesmo tempo, tão estranhamente "certa" que seu cérebro de adolescente estava em curto-circuito.
— O QUÊ?! — gritou Sakura, a voz alcançando tons agudos que fizeram os pássaros voarem das árvores próximas. — O Naruto e o Sasuke-kun?! O que... como... quando?!
Kakashi Hatake, por outro lado, apenas soltou um suspiro longo, fechando os olhos com um sorriso escondido sob a máscara.
— Bem — murmurou o sensei —, isso certamente explica por que eles estavam tão determinados a se salvarem. O laço deles sempre foi... único.
Ao redor da vila, a reação era mista. Alguns shinobis riam, outros trocavam apostas, e muitos olhavam para o Naruto atual com um novo tipo de respeito — e uma pitada de diversão.
— Ei, Naruto! — gritou Kiba de longe. — Parece que você finalmente conseguiu o que queria, hein? Só não sabia que o seu "trazer de volta" incluía um anel de compromisso!
— Cale a boca, Kiba! — rebateu Naruto, embora não conseguisse esconder o sorriso bobo que começava a se formar em seus lábios.
Longe dali, no esconderijo de Orochimaru, o Sasuke do presente estava imóvel. Seu rosto estava nas sombras, mas suas orelhas estavam visivelmente vermelhas. Ele pensou na sensação de ter Naruto sentado em seu colo, na confiança total que o loiro depositava nele naquelas imagens futuras. O ódio, a vingança, o desejo de destruir Konoha... tudo parecia subitamente pálido e sem sentido diante daquela imagem de paz doméstica.
— Namorados... — sussurrou Sasuke. A palavra parecia estranha em sua língua, mas não era desagradável. Pelo contrário, trazia um calor que ele não sentia desde a noite em que seu clã caíra.
Ele olhou para a própria mão, imaginando-a acariciando os cabelos de Naruto como vira na tela. O destino, ao que parecia, tinha planos muito mais complexos para eles do que uma simples rivalidade de sangue.
De volta a Konoha, Naruto olhou para o escritório do Hokage no topo da montanha. Ele ainda tinha um longo caminho pela frente. Ainda teria que enfrentar a dor, a perda e as batalhas que a tela já havia mostrado. Mas agora, ele tinha uma nova motivação.
— Sasuke — disse ele, baixinho, para que apenas o vento ouvisse. — Eu não sei como vamos chegar lá, mas eu prometo... eu vou terminar aquela papelada com você.
A visão do futuro não apenas revelara o amor entre os dois, mas também dera ao mundo ninja uma lição sobre o que realmente importava. No fim de todas as guerras, de todos os jutsus proibidos e de todas as disputas de poder, o que restava era a necessidade humana de um lugar para pertencer e de alguém para dividir o peso da existência.
Naruto Uzumaki e Sasuke Uchiha eram as duas metades de um ciclo de ódio que finalmente fora quebrado, não por uma técnica de selamento, mas por um abraço no Vale do Fim e por uma noite silenciosa de trabalho em um escritório.
E enquanto o sol se punha de verdade sobre a Vila da Folha, Naruto sentiu que, pela primeira vez, o futuro não era algo a ser temido, mas um presente que ele mal podia esperar para desembrulhar — de preferência, com um certo Uchiha rabugento ao seu lado.