Voltar ao resumo

Observando o futuro

O Despertar do Desejo e a Rendição do Fogo

A tela que dominava o firmamento das Nações Elementares parecia ter esgotado sua cota de tragédias e lições morais. O mundo ninja, ainda em choque com a revelação da vida doméstica e afetuosa entre Naruto e Sasuke, mal teve tempo de digerir as imagens anteriores quando o brilho azulado mudou de frequência. O ar tornou-se denso, carregado de uma eletricidade que não vinha de um jutsu de relâmpago, mas de algo muito mais visceral e humano.

A nova projeção não mostrava o campo de batalha, nem o escritório do Hokage, nem a cozinha pacífica. O cenário era um quarto mal iluminado, onde a luz da lua filtrava-se pelas frestas de uma persiana, desenhando listras de prata e sombra sobre os móveis. O silêncio da imagem era absoluto, interrompido apenas pelo som de respirações pesadas que pareciam ecoar na mente de cada espectador em Konoha.

No centro da visão, Sasuke Uchiha estava sentado na beirada de uma cama larga. Ele não usava sua capa, nem seu protetor de testa; vestia apenas uma camisa escura de gola alta, com os primeiros botões abertos. Seus olhos ônix, geralmente frios e calculistas, estavam fixos na figura à sua frente com uma intensidade predatória e, ao mesmo tempo, vulnerável.

Naruto Uzumaki estava de pé, a poucos centímetros dele. O Naruto da tela era o homem de vinte e poucos anos, com os ombros largos e a postura de quem carregava o mundo, mas naquele momento, sua única preocupação era o homem sentado à sua frente. Sem dizer uma palavra, com uma confiança que fez o Naruto adolescente do presente prender o fôlego, o loiro deu um passo à frente e, com uma naturalidade desconcertante, sentou-se no colo de Sasuke, cavalgando suas coxas.

O impacto dessa imagem nas Nações Elementares foi como uma explosão de papel bomba. Em Konoha, o silêncio que se seguiu foi tão profundo que o zumbido dos insetos noturnos parecia um grito. Sakura Haruno sentiu o rosto queimar em um tom de escarlate que nunca experimentara antes, enquanto Kakashi Hatake, o mestre que já vira de tudo, sentiu a necessidade súbita de ajustar sua máscara, desviando o olhar por um breve segundo antes de ser puxado de volta pela força da sena.

Na tela, as mãos de Naruto encontraram o rosto de Sasuke. Seus dedos traçaram a linha da mandíbula do Uchiha com uma delicadeza que contrastava com a força que ambos possuíam.

— Você está pensando demais de novo, Sasuke — disse o Naruto da tela, sua voz saindo rouca, vibrando com uma nota de desejo que ninguém jamais associaria ao "garoto da raposa".

— É difícil não pensar quando você está tentando ocupar cada espaço da minha mente — respondeu Sasuke, sua voz soando como um rosnado baixo, carregado de uma fome que ele passara a vida tentando esconder sob camadas de ódio.

Sasuke envolveu a cintura de Naruto com seu único braço, puxando-o para mais perto, eliminando qualquer milímetro de ar que ainda restasse entre seus corpos. Naruto soltou um suspiro baixo, inclinando a cabeça para frente até que suas testas se encostassem.

— Então para de pensar — sussurrou Naruto. — Só por hoje. Só agora.

O que se seguiu foi um beijo que redefiniu o conceito de "laço" para todo o mundo ninja. Não foi um selinho casto ou um gesto de despedida. Foi um beijo profundo, urgente, uma colisão de anos de repressão, solidão e uma necessidade mútua que transcendia a amizade ou a rivalidade. Naruto inclinou-se sobre Sasuke, suas mãos embrenhando-se nos cabelos escuros do Uchiha, enquanto Sasuke o segurava com uma força que dizia que ele nunca mais o deixaria partir.

O som do beijo, os estalidos suaves e a respiração entrecortada eram transmitidos com uma clareza aterrorizante. O mundo assistia ao herói de Konoha entregar-se completamente ao homem que um dia fora o inimigo número um da vila, e a resposta de Sasuke era de uma entrega absoluta. Ele não era mais o vingador frio; era um homem que encontrara sua âncora e pretendia segurá-la até que o mundo acabasse.

Em Konoha, o jovem Naruto sentia que ia desmaiar. Seu coração batia tão forte contra as costelas que ele tinha certeza de que Sakura podia ouvir. Ver a si mesmo naquela posição, sentindo aquele tipo de conexão com Sasuke, despertou algo dentro dele que ele não sabia como nomear. Não era apenas atração; era o reconhecimento de que aquele homem na tela era a única pessoa que realmente o conhecia por inteiro.

— Naruto... — sussurrou Sakura, a voz falhando. Ela olhou para o Naruto ao seu lado e depois para o Sasuke que estava parado a alguns metros, imóvel como uma estátua de gelo.

Sasuke Uchiha, o adolescente de quatorze anos, sentia o sangue ferver em suas veias. Suas mãos estavam cerradas em punhos, e ele podia sentir o calor subindo pelo seu pescoço. Aquela imagem... a forma como ele segurava Naruto, a forma como ele o beijava como se sua vida dependesse daquele contato... era uma humilhação pública e, simultaneamente, a revelação de um desejo que ele mal ousava admitir para si mesmo em seus momentos mais sombrios de solidão.

Na tela, o beijo intensificou-se. Naruto arqueou as costas, pressionando-se mais contra Sasuke, e soltou um gemido baixo que fez metade da audiência feminina de Konoha desviar o olhar e a outra metade arregalar os olhos. Sasuke separou-se por um breve segundo, apenas o suficiente para olhar nos olhos azuis de Naruto, que estavam nublados de desejo e uma ternura infinita.

— Eu te odeio — murmurou Sasuke na tela, embora suas ações dissessem o contrário enquanto ele beijava o pescoço de Naruto, logo abaixo da orelha.

— Mentiroso — respondeu Naruto, soltando uma risada curta e sem fôlego antes de puxar Sasuke de volta para outro beijo avassalador. — Você me ama tanto que dói, Sasuke. E eu sinto o mesmo.

A câmera da visão começou a se distanciar lentamente, focando agora na janela do quarto, onde as cortinas balançavam suavemente com a brisa da noite. O som das respirações e dos sussurros apaixonados continuou a ecoar por mais alguns segundos antes que a tela se dissolvesse em uma névoa de luz branca, deixando o mundo ninja mergulhado em um silêncio carregado de tensão.

Ninguém se atrevia a falar. O impacto de ver os dois shinobis mais poderosos do mundo em um momento de tamanha vulnerabilidade sexual e emocional era debilitante. O conceito de "irmandade" que a vila tentava aplicar aos dois fora estilhaçado e substituído por algo muito mais complexo e ardente.

— Bem... — começou Kakashi, sua voz soando estranhamente aguda no silêncio da noite. — Isso certamente... esclarece muitas coisas sobre a natureza da obsessão de vocês dois.

— CALA A BOCA, KAKASHI-SENSEI! — gritou Naruto, o rosto tão vermelho que parecia que ia explodir. — Aquilo... aquilo é o futuro! Eu não... eu não sabia que...

— Você não sabia que queria sentar no colo do Sasuke e beijá-lo até perder o fôlego? — provocou Kiba Inuzuka, que aparecera de algum lugar, acompanhado por um Akamaru que parecia igualmente confuso. — Cara, a vila toda viu. O Raikage viu. Até o Kazekage deve estar assistindo a isso agora!

Naruto cobriu o rosto com as mãos, querendo que o chão se abrisse e o engolisse. Mas, por trás do embaraço, havia uma semente de algo real. Ele olhou por entre os dedos para Sasuke.

O Uchiha não estava gritando. Ele não estava tentando matar Kiba. Ele estava apenas parado, olhando para o lugar onde a tela estivera, com uma expressão que Naruto nunca vira antes. Não era ódio. Não era raiva. Era uma espécie de reconhecimento silencioso. Sasuke parecia ter percebido que, não importa o quanto ele corresse ou quantas pessoas ele matasse, o destino final de seu coração era aquele quarto, com aquele homem loiro.

— Sasuke... — chamou Naruto, sua voz saindo pequena.

Sasuke virou-se para ele. Seus olhos ônix encontraram os azuis de Naruto, e por um momento, a sena da tela pareceu sobrepor-se à realidade. O ar entre eles vibrou.

— Não diga nada, Naruto — disse Sasuke, sua voz firme, embora houvesse uma leve falha no tom. — Se você abrir a boca agora, eu juro que vou embora desta vila e nunca mais volto, só para garantir que aquele futuro nunca aconteça.

— Mentiroso — repetiu Naruto, usando a mesma palavra que seu "eu" futuro usara.

Sasuke estremeceu levemente. Ele deu as costas para o grupo e começou a caminhar em direção à saída da vila, mas seus passos não tinham a mesma determinação de antes. Ele parecia um homem que acabara de ver o mapa do seu próprio tesouro e estava aterrorizado com o fato de que o tesouro era a única coisa que ele jurara nunca querer.

— Ele não vai a lugar nenhum — comentou Shikamaru, aproximando-se com as mãos nos bolsos e uma expressão de tédio que escondia sua própria surpresa. — Depois de ver aquilo, ele sabe que o laço de vocês é mais do que apenas amizade. É uma força da natureza. É problemático, mas é a verdade.

Sakura olhou para Naruto, que ainda estava processando o calor que sentira ao ver a sena.

— Naruto — disse ela, sua voz suave e sem o habitual tom de repreensão. — Você... você realmente sente isso por ele?

Naruto olhou para as próprias mãos, tentando imaginar a sensação de tocar o rosto de Sasuke daquela maneira. Ele pensou em todas as vezes que seu coração disparou quando Sasuke o desafiou, em todas as noites que passou em claro pensando em como trazê-lo de volta.

— Eu não sabia que era esse tipo de sentimento, Sakura-chan — confessou Naruto, olhando para o horizonte por onde Sasuke desaparecera. — Eu só sabia que doía quando ele não estava aqui. E agora... vendo aquilo... eu acho que a dor era só o começo de algo muito maior.

A vila de Konoha começou a se agitar. A revelação do romance entre os dois heróis seria o assunto principal por meses, talvez anos. Mas para os envolvidos, o mundo havia mudado de forma irremediável. O destino não era mais uma tragédia inevitável ou um dever político; era uma promessa de paixão e pertencimento.

Naruto caminhou lentamente em direção ao seu apartamento. Ele não se sentia mais o órfão solitário que ninguém queria. Ele se sentia como um homem que tinha um futuro à sua espera — um futuro onde ele seria o Hokage, onde ele teria uma casa, e onde ele teria Sasuke Uchiha em seus braços, beijando-o como se o resto do mundo não existisse.

Longe dali, sentado em um galho de árvore na floresta, Sasuke Uchiha tocava seus próprios lábios. Ele ainda podia ouvir o gemido de Naruto em sua mente, ainda podia sentir o peso do loiro em seu colo na visão.

— Idiota — sussurrou Sasuke para o luar.

Mas, pela primeira vez, ele não estava falando de Naruto. Ele estava falando de si mesmo, por ter passado tanto tempo tentando lutar contra algo que era tão natural quanto respirar. O futuro fora revelado, e ele era feito de chamas e desejo. E Sasuke, apesar de todo o seu orgulho, sabia que não tinha poder suficiente para apagar aquele fogo.

O Vale do Fim ainda viria. A guerra ainda viria. Mas agora, ambos sabiam o que os esperava do outro lado: um quarto iluminado pela lua e um amor que nem mesmo o tempo ou o ódio poderiam destruir.