Oceano
O som rítmico do monitor cardíaco era, para muitos, um prenúncio de ansiedade, mas para mim, era a melodia que regia a minha existência. Eu observava a linha verde oscilar no monitor da Unidade de Terapia Intensiva, sentindo o peso familiar do estetoscópio em volta do meu pescoço. Ser cardiologista aos vinte e oito anos exigia mais do que apenas habilidade técnica; exigia uma blindagem emocional que, às vezes, eu sentia que estava começando a rachar. Meu dia havia começado às cinco da manhã. Entre cirurgias de ponte de safena e atendimentos de emergência, o hospital parecia um labirinto de azulejos brancos e cheiro de antisséptico. Eu gostava do caos controlado. Ali, eu tinha domínio. Ali, eu sabia exatamente como consertar um coração partido, pelo menos, o tipo físico. — Doutora Farmiga? — A voz doce de Taissa me tirou dos meus pensamentos. Taissa era minha melhor amiga e enfermeira-chefe da ala. Seus olhos castanhos transmitiam uma calma que eu raramente sentia. Ela era a irmã que a vida me deu, e seu irmão, Jack, trabalhava na delegacia logo em frente ao hospital. Era um arranjo curioso: a vida sendo salva de um lado da rua e a ordem sendo mantida do outro. — O paciente do quarto 402 está estável, Vera. Vá tomar um café. Você está aqui há doze horas seguidas e seus olhos azuis estão começando a parecer cinzas de tanto cansaço — ela brincou, encostando a mão no meu ombro. — Eu só preciso terminar de revisar esses prontuários, Tai. Você sabe como o Dr. Aris é exigente com a burocracia — respondi, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. — O Dr. Aris que se exploda por meia hora. Vá. Agora.— Eu obedeci. Caminhei pelo corredor, meus passos ecoando suavemente. No caminho para a cafeteria, passei pelas grandes janelas de vidro que davam para a rua. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um laranja melancólico que logo daria lugar ao azul profundo da noite fria que se aproximava. Do outro lado da avenida, vi a movimentação na delegacia. Viaturas entrando e saindo. Ouvi dizer que um novo delegado havia assumido o posto naquela semana, mas com a minha escala insana, eu mal tinha tempo de saber o que acontecia fora das paredes do hospital, quanto mais conhecer os novos vizinhos da lei. O restante da tarde foi um borrão de consultas. Atendi o Sr. Mendes, um senhor de setenta anos cujo coração estava cansado de carregar tantas memórias, e a jovem Amanda, que nascera com uma malformação congênita e me olhava como se eu fosse uma espécie de super-heroína de jaleco branco. Se ela soubesse que, por dentro, eu me sentia tão frágil quanto o cristal de um frasco de remédio, talvez não sorrisse tanto. Quando o relógio marcou quase nove da noite, eu finalmente me dei por vencida. Meus músculos protestavam e minha mente implorava por silêncio. Troquei o jaleco pelo meu sobretudo de lã claro, ajeitei meus cabelos loiros curtos no espelho do vestiário e suspirei. O espelho devolveu a imagem de uma mulher que muitos chamariam de bem-sucedida, mas que eu via apenas como alguém tentando não afundar no próprio passado. Saí pelo portão lateral dos funcionários. O ar gelado da noite atingiu meu rosto como um choque elétrico, fazendo-me encolher os ombros. O estacionamento estava quase vazio, mergulhado em uma penumbra quebrada apenas pelos postes de luz amarelada. Enquanto eu caminhava em direção ao meu carro, tateando a bolsa em busca das chaves, uma silhueta se desprendeu das sombras perto da entrada da delegacia e atravessou a rua em minha direção. Eu reconheci o porte antes mesmo de ver o rosto. Era Ricardo Miller, um policial que vinha me importunando há semanas com convites insistentes e olhares que me deixavam desconfortável. — Doutora Farmiga! Que coincidência encontrar você saindo agora — disse ele, com um sorriso que não transmitia confiança. — Não é coincidência, Ricardo. Eu saio quase sempre neste horário — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto apertava o passo. — Você trabalha demais, Vera. Precisa relaxar. Que tal irmos tomar um drink naquele bar novo no centro? Eu insisto.— — Eu já disse que não, Ricardo. Estou exausta e só quero ir para casa. Por favor, me dê licença.— Cheguei ao meu carro, mas ele se posicionou entre mim e a porta do motorista. O cheiro de cigarro e um perfume barato emanavam dele. — Qual é, loirinha? Só uma bebida. Não seja difícil. Eu sei que você gosta de um pouco de atenção — ele disse, aproximando-se mais do que o permitido pelo bom senso. — Eu disse para sair da minha frente — minha voz saiu mais firme, embora meu coração estivesse começando a disparar contra as costelas. — E se eu não sair? — Ele riu, uma risada seca, e segurou meu braço com força excessiva. — Você é muito metidinha para uma médica.— — Me solta! Você está me machucando! — Minha voz saiu mais alta, carregada de um medo que eu odiava sentir. — Não precisa de escândalo, a gente só está conversando...— Antes que Ricardo pudesse terminar a frase, ou que eu pudesse tentar me desvencilhar, um vulto escuro e rápido surgiu das sombras entre os carros. Em um movimento quase borrado de tão ágil, Ricardo foi arrancado de perto de mim. O som do corpo dele sendo prensado contra o metal da porta do meu carro ecoou pelo estacionamento. O choque me deixou paralisada. Um homem alto, de ombros largos e cabelos aloirados, segurava Ricardo pelo colarinho com uma mão, enquanto a outra pressionava o cano frio de uma pistola diretamente contra a têmpora do policial. Os olhos do desconhecido eram de um azul gélido, profundo, que parecia atravessar a alma. — Você quer uma bala no seu crânio? — A voz do homem era um barítono baixo, carregado de uma fúria controlada e perigosa. — Calma, chefe! — Ricardo gaguejou, as mãos levantadas, o rosto pálido de terror. — É o Miler! Sou da sua equipe! A gente só estava conversando!— O homem que eu deduzi ser o tal Delegado Wilson soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Era um deboche amargo que me fez arrepiar. — "Só conversando"? — Patrick Wilson repetiu, pressionando a arma com ainda mais força contra a cabeça de Ricardo. — Engraçado... Eu já ouvi essa mesma frase antes. Meu pai dizia exatamente isso para os vizinhos, logo depois de espancar e estuprar a minha mãe.— O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu mal conseguia respirar, olhando para aquele homem que parecia personificar a justiça e o trauma ao mesmo tempo. — Você não ouviu a mulher dizer que não? — continuou o delegado, os olhos fixos nos de Ricardo. — Ou você tem algum problema auditivo que eu precise resolver com um tiro para limpar o canal? Quer terminar com uma bala atravessada pela cabeça porque não sabe respeitar o espaço de uma mulher?— — Delegado! Solte ele, por favor!— Jack, o irmão de Taissa, surgiu correndo da direção da delegacia, parando a poucos metros de nós, ofegante. Ele olhou para mim com preocupação e depois para a cena caótica à sua frente. — Wilson, solta o cara. Ele é um idiota, mas não vale o relatório de homicídio — Jack pediu, com a voz cautelosa de quem sabe que está lidando com uma bomba prestes a explodir. Patrick Wilson permaneceu imóvel por mais alguns segundos, o dedo relaxando levemente no gatilho, mas o olhar ainda fixo em Ricardo. Finalmente, ele abaixou a arma e soltou o colarinho do policial com um empurrão desprezível. — Saia da minha frente — ordenou Patrick, sem elevar o tom de voz. — Amanhã cedo, quero seu distintivo e sua arma na minha mesa. Você está suspenso até que a corregedoria decida se você serve para ser policial ou se é apenas mais um lixo que precisa ser varrido da rua.— Ricardo não contestou. Ele lançou um olhar rápido e carregado de ódio para nós antes de sair apressado em direção ao prédio da delegacia. O silêncio voltou a reinar no estacionamento. Jack aproximou-se de mim, colocando a mão no meu ombro. — Vera, você está bem? Ele te machucou?— — Eu... eu estou bem, Jack. Foi só o susto — respondi, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. Olhei para o meu braço, a marca dos dedos de Ricardo provavelmente se tornaria um hematoma amanhã. Patrick Wilson guardou a arma no coldre sob a jaqueta e virou-se para mim. Pela primeira vez, o olhar gélido se suavizou, transformando-se em algo que beirava a preocupação, embora ele ainda mantivesse uma distância profissional. O ar entre nós ainda parecia vibrar com a eletricidade da violência contida que acabara de presenciar. Patrick Wilson não era apenas um homem alto e imponente; havia nele uma aura de autoridade que não vinha do distintivo, mas de algo muito mais profundo e, talvez, mais sombrio. Ele estendeu a mão para mim, um gesto simples que contrastava drasticamente com a mão que, segundos atrás, empunhava uma arma com a frieza de um carrasco. — Patrick Wilson — repetiu ele, sua voz agora suavizada, embora o azul de seus olhos ainda retivesse o brilho gélido do inverno. — Assumi o distrito esta semana. Sinto muito que sua primeira impressão da minha equipe tenha sido... isso. — Eu hesitei por um milésimo de segundo antes de colocar minha mão na dele. A pele era quente, firme, e um formigamento estranho subiu pelo meu braço, algo que eu rapidamente atribuí à adrenalina que ainda corria em minhas veias. — Vera Farmiga — respondi, tentando manter a voz estável. — Sou cardiologista aqui no hospital. E... obrigada, Delegado. Eu não sei o que teria acontecido se o senhor não tivesse intervindo.— — Ele não voltará a incomodá-la, Doutora. Eu garanto — afirmou ele, e havia uma finalidade em suas palavras que me fez acreditar piamente. Jack, que observava a interação com um misto de alívio e cautela, deu um passo à frente. — Wilson, eu levo ela até o carro e garanto que chegue bem em casa. Você precisa resolver aquela papelada do incidente de mais cedo.— Patrick assentiu levemente, mas seus olhos não deixaram os meus de imediato. Havia uma curiosidade silenciosa ali, um escrutínio que me fez sentir como se ele estivesse lendo meu prontuário médico sem sequer abrir uma página. — Boa noite, Doutora Farmiga — disse ele, antes de girar sobre os calcanhares e caminhar de volta para a delegacia. Fiquei parada por um momento, observando-o partir. O modo como seus ombros largos preenchiam a jaqueta escuro, o passo decidido e a maneira como ele parecia dominar o espaço ao seu redor... ele era, sem dúvida alguma, um homem bonito. Mas era uma beleza perigosa, do tipo que os poetas costumam associar a tragédias. — Vera? Terra chamando Vera — Jack brincou, tocando meu braço de leve. — Vamos, vou te seguir até sua casa.— O trajeto até meu apartamento foi um borrão. Meus pensamentos insistiam em retornar àquela cena no estacionamento. A confissão de Patrick sobre o próprio pai havia sido tão crua, tão exposta, que me deixou desconfortável. Como médica, eu estava acostumada a lidar com a dor física, mas aquela era uma cicatriz emocional aberta, exposta ao mundo como um mecanismo de defesa. Quando finalmente entrei em casa, o silêncio do meu apartamento pareceu mais pesado do que o habitual. Joguei as chaves na mesa da entrada e fui direto para o banheiro. Deixei que a água quente caísse sobre meus ombros, tentando lavar o cheiro de cigarro de Ricardo e a sensação de perigo que ainda me cercava. Enquanto me secava, notei as marcas vermelhas no meu braço. Ricardo tinha apertado com força. Suspirei, vestindo um pijama de seda e indo para a cozinha. Preparei um chá de camomila, o vapor subindo e embaçando meus óculos de leitura que eu raramente usava em público. Sentei-me no sofá, o chá aquecendo minhas mãos, mas minha mente era um carrossel. Eu via os olhos azuis de Patrick Wilson toda vez que fechava as pálpebras. Havia algo nele que ressoava com a minha própria fragilidade oculta. Nós dois éramos cuidadores de mundos diferentes, ambos marcados por coisas que preferíamos não dizer em voz alta. — Droga, Vera. Durma — sussurrei para mim mesma. Mas o sono, meu velho inimigo, não veio. O relógio na parede tiquetaqueava as horas, marcando o compasso da minha insônia. Às duas da manhã, desisti da camomila e abri a gaveta do criado-mudo. Peguei o frasco de zolpidem. Uma pílula. O último recurso para silenciar os batimentos acelerados de um coração que insistia em repassar o dia. _________________________________________ Na manhã seguinte, o hospital estava tão caótico quanto sempre. O cheiro de café forte da cafeteria se misturava ao antisséptico, e o som dos bipes dos monitores me trazia de volta à minha zona de conforto. Eu estava no posto de enfermagem, revisando os exames laboratoriais da pequena Amanda, quando Taissa se aproximou com um sorriso malicioso e uma sobrancelha erguida. — Fiquei sabendo do drama no estacionamento ontem — disse ela em voz baixa. — Jack me contou tudo. Você está bem?— — Estou, Tai. Só um pouco de gelo no braço e segui em frente — respondi, sem tirar os olhos do papel. — E o novo delegado? Jack disse que ele quase explodiu a cabeça do Miller. Ele é tão... intenso quanto dizem?— — Ele foi eficiente — resumi, sentindo minhas bochechas aquecerem levemente, o que não passou despercebido pela minha amiga. — "Eficiente"? Vera, o homem parece um modelo da Ralph Lauren que decidiu virar justiceiro. E ele está vindo para cá agora mesmo.— Meu coração falhou uma batida, uma ironia para uma cardiologista. Olhei para a entrada da ala e vi Patrick Wilson cruzando as portas automáticas. Ele usava uma calça social escura e uma camisa azul-clara com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes. O distintivo estava preso ao cinto, mas ele parecia menos um policial e mais um homem comum, se é que "comum" era uma palavra que poderia ser aplicada a ele. Ele caminhou em minha direção com uma elegância natural, ignorando os olhares curiosos das enfermeiras e pacientes. — Doutora Farmiga — cumprimentou ele, parando diante de mim. — Delegado Wilson. A que devo a visita? Alguma emergência?— Ele deu um meio sorriso, algo que mudou completamente a dinâmica do seu rosto, suavizando as linhas duras ao redor dos olhos. — Nada que exija um desfibrilador, eu espero. Preciso da sua assinatura formal para finalizar o boletim de ocorrência contra Miller. Como ele é um oficial, o processo exige o depoimento da vítima ratificado em formulário próprio.— Ele me estendeu uma prancheta com alguns papéis. Enquanto eu assinava, percebi que ele segurava algo atrás das costas. — E — continuou ele, sua voz baixando um tom, tornando-se mais íntima — eu queria me desculpar novamente. Ninguém deveria passar por aquilo, especialmente alguém que dedica a vida a cuidar dos outros.— Ao terminar a assinatura, ele trouxe a mão para a frente. Ele segurava um lírio branco, solitário e perfeito, com o caule envolto em um papel pardo simples. — É para você. Como um pedido de desculpas em nome do distrito — disse ele, estendendo a flor. Fiquei momentaneamente sem palavras. O contraste entre o homem que quase matou um subordinado ontem e o homem que me oferecia uma flor hoje era desconcertante. Peguei o lírio, sentindo o perfume suave inundar meus sentidos. — É lindo. Obrigada... Delegado.— — Patrick — corrigiu ele gentilmente. — Por favor, me chame apenas de Patrick. "Delegado" é muito pesado para carregar em um hospital.— — Patrick — repeti, testando o nome. Ele soava bem na minha voz. — E você pode me chamar de Vera.— Ele assentiu, seus olhos azuis fixos nos meus por um momento eterno. Havia uma tensão ali, algo que não era apenas gratidão ou dever profissional. Era um reconhecimento de duas pessoas que, de formas diferentes, lidavam com a fragilidade da vida todos os dias. — Tenha um bom turno, Vera. Espero que o resto da sua semana seja mais calmo do que o início dela.— Ele se virou e saiu, deixando para trás o cheiro de sândalo e a imagem de um homem que, de alguma forma, havia conseguido furar a blindagem que eu passara anos construindo. Taissa se aproximou por trás, apoiando o queixo no meu ombro enquanto olhava para o lírio na minha mão. — Vera Ann Farmiga — a voz de Taissa era pura provocação. — O que foi isso? O novo delegado bonitão vem aqui, te traz flores e te olha como se você fosse a última bolsa de sangue O negativo do estoque?— — Não seja dramática, Tai — respondi, voltando minha atenção para os exames, embora minhas mãos tremessem levemente. — Foi apenas burocracia. E uma cortesia profissional.— — Sei... — ela cantarolou, encostando-se no balcão. — Cortesia profissional geralmente envolve um aperto de mão e um formulário, não gardênias e olhares que poderiam derreter o gelo do Alasca. O Jack me disse que ele é meio "lobo solitário", mas parece que ele encontrou uma chapeuzinho vermelho de jaleco.— — Taissa, volte ao trabalho — ordenei, forçando uma seriedade que eu não sentia plenamente. A enfermeira riu e se afastou, mas eu permaneci ali, com a flor branca entre os dedos. Coloquei-a em um copo com água na minha mesa de atendimento. Durante o resto do dia, toda vez que o estresse das consultas aumentava ou que o som do monitor cardíaco me lembrava da fragilidade da vida, o perfume da gardênia me trazia de volta. Não era apenas a flor. Era o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha visto a mulher por trás da médica. Alguém que carregava suas próprias sombras e que, de alguma forma, parecia entender as minhas. À noite, quando saí do hospital, olhei para o estacionamento. Estava calmo. A viatura de Patrick estava estacionada em frente à delegacia, as luzes do prédio refletindo no vidro. Eu não o vi, mas senti sua presença ali, como uma sentinela silenciosa. Dirigi para casa sentindo que, talvez, a pílula para dormir não fosse necessária naquela noite. O ritmo do meu coração estava diferente, não acelerado pelo medo, nem lento pelo cansaço, mas constante, como se estivesse esperando por algo que eu ainda não conseguia nomear. Crie o enredo para o próximo capítulo baseados nas informações acima. A semana passa e na sexta, jack organiza uma pequena confraternização pela chegada do novo delegado. Wilson tenta protestar mas jack é insistente e comenta que chamou Vera e thaisa sua irmã. Os policiais estão no bar quando as médicas entram e vão se sentar com eles. Patrick observa como Vera está ainda mais linda naquele dia.