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olhos de oceano

O Som do Vidro Quebrado

Sete dias. Exatamente uma semana desde que troquei o caos gelado de Chicago pelo calor úmido e as sombras carregadas de Columbia, na Carolina do Sul. Sete dias desde que aquela médica loira, com olhos que pareciam carregar o peso do mundo e a delicadeza de um cristal, cruzou o meu caminho sob a luz amarelada de um poste. Eu não a via desde que deixei aquele lírio em suas mãos no hospital. Eu me forcei a não vê-la. Meu trabalho aqui era limpar a sujeira da delegacia, não me perder em olhares azuis que prometiam uma paz que eu não tinha o direito de possuir.

Era sexta-feira, quase nove horas da noite. O silêncio do meu escritório era interrompido apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado e pelo som de papéis sendo organizados. Eu ainda estava debruçado sobre os registros de Miller e de outros oficiais que pareciam confundir distintivos com licenças para a tirania.

A porta se abriu sem cerimônia. Jack, com um sorriso que parecia imune ao cansaço da semana, entrou e jogou o boné sobre a minha mesa.

— Chega, chefe. Se você ler mais uma linha desses relatórios, vai começar a ver fantasmas. — Ele se inclinou, apoiando as mãos na madeira escura. — Vamos. O pessoal organizou uma recepção oficial pra você no bar da esquina. Nada de distintivos, nada de papelada. Só cerveja gelada e o reconhecimento de que o senhor sobreviveu à primeira semana.

— Eu passo, Jack. Tenho muito o que adiantar — respondi, sem tirar os olhos do documento à minha frente. — Comemorem por mim.

— Nem pensar. — Jack cruzou os braços, irredutível. — Se o delegado não aparecer, eles vão achar que você é um robô enviado de Chicago para nos punir. É uma questão de moral da tropa, Wilson. Dez minutos. Se depois de uma rodada você quiser voltar para o seu exílio, eu mesmo te trago.

Soltei um suspiro pesado, fechando a pasta com um estalo seco. Jack sabia ser insistente quando queria. E, no fundo, o silêncio do meu apartamento alugado não parecia nada atraente naquela noite.

— Dez minutos — cedi, levantando-me e pegando meu casaco. — E você paga a primeira.

O bar era um lugar rústico, com cheiro de madeira velha e malte, tipicamente frequentado por policiais e trabalhadores locais. O barulho de risadas e o som de uma jukebox tocando algum country antigo preenchiam o ar. Assim que entramos, fomos recebidos com assobios e brindes. Eu cumprimentei os oficiais, tentando manter a postura acessível, mas mantendo aquela distância segura que a autoridade exige.

Cerca de vinte minutos depois, o ar no bar pareceu mudar. A porta se abriu e duas mulheres entraram. Meu coração, que eu acreditava estar sob controle absoluto, deu um solavanco. Vera estava lá. Ela usava um vestido simples, mas que nela parecia a mais alta costura, e estava acompanhada por uma mulher morena de olhar vivaz.

— Eu convidei as médicas — disse Jack, aproximando-se de mim com uma expressão de "não me culpe". — Minha irmã, Taissa, trabalha com a Vera. Achei que seria bom ter rostos amigáveis que não cheirassem a pólvora. Tudo bem por você?

— Está tudo bem, Jack — respondi, embora minha voz estivesse um tom mais grave do que o normal.

Eu a observei de longe por alguns instantes. Ela parecia um pouco deslocada naquele ambiente rústico, mas havia uma elegância nata em cada movimento seu. Quando seus olhos encontraram os meus através do salão, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios — um sorriso que fez o barulho do bar desaparecer por um segundo.

Elas se aproximaram da nossa mesa. Taissa abraçou Jack, enquanto Vera parou diante de mim.

— Patrick — disse ela, usando o nome que eu permitira que ela usasse. — Fico feliz em te ver fora da delegacia.

— Doutora Farmiga. Ou Vera, como combinamos — respondi, oferecendo-lhe um lugar. — Não achei que frequentasse esse tipo de estabelecimento.

— Eu vim especialmente para agradecer novamente — ela disse, sentando-se ao meu lado enquanto Jack e a irmã se perdiam em uma conversa animada. — O lírio... foi um gesto muito gentil. E o que você fez por mim naquela noite... eu ainda não processei totalmente a sorte que tive de você estar lá.

— Eu fiz apenas o meu trabalho, Vera — retruquei, sentindo o calor da proximidade dela. — Miller era minha responsabilidade. Mas fico feliz que esteja bem.

— Você sempre é assim? — ela perguntou, inclinando a cabeça, uma mecha de cabelo loiro caindo sobre o olho. — Tão focado no dever que esquece que salvou uma pessoa, não apenas um "caso"?

Eu ia responder, ia dizer que em Chicago a gente aprendia a separar as coisas para não enlouquecer, mas o vibrar insistente no meu bolso interrompeu o momento. Pedi licença e peguei o celular. O nome na tela fez meu sangue gelar: Alex Garcia.

Alex era o oficial que me criou, o homem que me tirou do inferno quando eu era apenas um garoto e me deu um propósito. Ele era o pai que a vida me deu, e ele nunca ligava a essa hora a menos que o mundo estivesse acabando.

— Garcia? — atendi, afastando-me um pouco da mesa, a voz baixa e tensa.

— Patrick, escute bem — a voz de Alex estava carregada de uma urgência fria. — Alguém vazou sua transferência. Tem uma notícia circulando em um portal local com fotos suas e o endereço da nova delegacia. Eles sabem que você saiu de Chicago, filho.

Senti um nó se formar no meu estômago. O anonimato era minha maior arma.

— Como isso aconteceu? Eu tomei todos os cuidados — eu disse, apertando o celular com força.

— Não para por aí. Patrick... o apartamento que você alugou em Columbia. Foi arrombado há meia hora. Vizinhos viram dois homens saindo. Eles não levaram nada de valor, Patrick. Eles deixaram uma mensagem.

Eu sabia exatamente o que aquilo significava. Não era um roubo. Era uma marcação de território. Eles me seguiram de Chicago. Os fantasmas que eu tentei deixar para trás haviam encontrado o caminho para o sul.

— Eu cuido da segurança por aqui, vou acionar uns contatos para vigiar o perímetro — continuou Alex. — Mas você precisa resolver essa merda da mídia. Se o seu rosto continuar estampado nesses sites, você vai ser um alvo sentado antes de conseguir limpar essa cidade.

— Entendido — respondi, minha mente já trabalhando em modo de combate. — Obrigado, Alex. Fique alerta.

Desliguei o telefone e respirei fundo, tentando conter a fúria que ameaçava transbordar. Voltei para a mesa, mas eu não era mais o homem que estava tentando socializar. Eu era o delegado Wilson, e eu estava em guerra.

Vera me olhou, a preocupação evidente em seus olhos claros.

— Patrick? Aconteceu alguma coisa? Você ficou pálido.

Eu não podia envolvê-la nisso. Não ainda.

— Preciso resolver um problema de trabalho — disse, seco. Olhei para Jack, que percebeu imediatamente a mudança na minha postura. — Jack, venha aqui. Agora.

Jack se levantou num pulo, deixando a conversa com a irmã de lado. Nós nos afastamos para um canto mais reservado do bar.

— O que foi, chefe? Você parece que viu um fantasma.

— Pior. Meus fantasmas descobriram onde eu moro — eu disse, a voz cortante como navalha. — Alguém da mídia local postou fotos minhas e informações sobre minha chegada. Meu apartamento acabou de ser invadido.

Jack arregalou os olhos, a mão indo instintivamente para onde estaria sua arma se ele não estivesse de folga.

— Merda, Wilson. Aqui em Columbia? Quem faria isso?

— Os mesmos filhos da puta que eu estava derrubando em Chicago. Mas alguém aqui deu o caminho. Alguém da imprensa local abriu a porta para eles — eu disse, fixando meu olhar no dele. — Jack, você conhece alguém da mídia local? Alguém que tenha contatos com esses portais de fofoca e notícias policiais de baixo nível?

— Conheço o pessoal do "Columbia Chronicle" e alguns freelancers que cobrem a delegacia — Jack respondeu, agora totalmente em modo profissional.

— Descubra quem postou aquela matéria. Eu quero nomes, endereços e quem pagou pela "exclusiva" — ordenei, cada palavra carregada de uma autoridade perigosa. — E Jack? Avise que eu vou processar esses filhos da puta até que eles não tenham nem uma caneta para escrever. Eu vou destruir a carreira de quem colocou a minha vida e a operação deste distrito em risco por causa de cliques.

Jack assentiu, o rosto sério.

— Vou cuidar disso agora mesmo. Vou ligar para uns contatos.

Eu me virei e vi Vera nos observando de longe. Ela parecia pequena e vulnerável naquele bar barulhento, e uma onda de proteção que eu não sentia há anos me atingiu. Se eles sabiam onde eu morava, se sabiam quem eu era, qualquer pessoa próxima a mim corria perigo.

Caminhei de volta até ela.

— Vera, eu sinto muito, mas surgiu uma emergência absoluta. Jack vai levar você e a Taissa para casa. Agora.

— Patrick, o que está acontecendo? — ela perguntou, levantando-se e tocando meu braço. Seus dedos eram quentes, um contraste gritante com o frio que se instalara em mim. — Você está me assustando.

— Só por precaução, Vera. Por favor, vá com o Jack. Não saia de casa e não abra a porta para ninguém que você não conheça — eu disse, segurando sua mão por um breve segundo, um aperto que era tanto um adeus quanto uma promessa. — Eu vou resolver isso.

Eu a vi sair, escoltada por um Jack atento, e só então me permiti soltar o ar. Olhei para o fundo do bar, para o meu reflexo embaçado no espelho atrás das garrafas de uísque. O homem em Chicago tinha vindo para a Carolina do Sul em busca de um novo começo, mas o passado era uma sombra longa.

Peguei meu celular e disquei um número que eu esperava nunca mais ter que usar.

— Aqui é Wilson. Preciso de uma varredura completa. Alguém abriu a boca em Columbia e eu quero o nome da cabeça em uma bandeja antes do amanhecer.

A noite estava apenas começando, e o cheiro de sândalo de Vera ainda estava em minhas roupas, um lembrete amargo do que eu tinha a perder se falhasse em manter os lobos longe da porta. Eles queriam guerra? Eles teriam. Mas desta vez, eu não tinha apenas a lei ao meu lado. Eu tinha um motivo para garantir que ninguém saísse ileso.