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Olhos de oceano

Entre o Sangue e a Promessa

O trajeto de duas quadras até o hospital de Columbia foi um borrão de luzes de neon e a voz firme de Vera me mantendo ancorado à realidade. Eu sentia o estofado de couro do carro dela sob meu corpo, o cheiro de lavanda e antisséptico tentando lutar contra o odor metálico do sangue que insistia em ensopar minha camisa. Cada solavanco do veículo enviava uma onda de dor lancinante pelo meu ombro, mas o que realmente me mantinha acordado era a pressão da mão pequena e firme de Vera sobre o ferimento, tentando conter a hemorragia enquanto ela dirigia com uma precisão cirúrgica.

— Mantenha os olhos abertos, Patrick — ela ordenava, o tom profissional carregado de uma urgência que eu raramente via nela. — Estamos quase lá. Não se atreva a apagar agora.

Eu tentei rir, mas o som saiu como um engasgo seco.

— Você é... muito mandona para uma médica tão doce — murmurei, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas têmporas.

— E você é muito imprudente para um delegado que deveria prezar pela própria vida — ela rebateu, estacionando o carro de qualquer jeito na entrada da emergência.

A partir dali, as coisas aconteceram rápido demais. Portas automáticas se abrindo, o som de macas rodando no piso de linóleo e o brilho ofuscante das luzes fluorescentes do hospital. Vera não me deixou por um segundo. Ela dava ordens aos enfermeiros com uma autoridade que silenciava qualquer questionamento. Fui levado para uma sala de trauma, onde a luz branca parecia expor cada pecado que eu carregava na alma.

— Preciso que saia, Vera — disse um médico de meia-idade, aproximando-se com luvas de látex. — Deixe que a equipe de plantão cuide disso. Você está de folga.

— Eu vou ficar, Richard — ela respondeu, sem hesitar. — Eu comecei o atendimento. Eu conheço a profundidade do corte.

Ela se aproximou de mim, e por um momento, a máscara de médica caiu, revelando apenas a mulher que eu tinha visto no bar. Seus olhos estavam úmidos, mas sua mão, quando tocou meu braço não ferido, era estável.

— Vai doer agora, Patrick. Vou aplicar a anestesia local para a sutura.

— Já passei por pior... — menti, apertando os dentes quando senti a primeira picada da agulha.

Enquanto ela trabalhava, limpando o ferimento com uma delicadeza que contrastava com a violência do que havia acabado de acontecer, minha mente voltou para o bar. O rosto daquele homem. A menção a Liz. O pânico, aquele velho e conhecido inimigo, tentou subir pela minha garganta. Eu tinha matado um homem na frente de toda a minha equipe e de civis. Eu tinha agido por instinto, por medo, por um amor que me tornava perigoso.

— No que você está pensando? — a voz de Vera me trouxe de volta. Ela estava concentrada nos pontos, sua testa franzida em sinal de foco.

— No que ele disse — confessei, minha voz soando oca naquela sala estéril. — Ele sabia quem eu era. Ele sabia sobre a minha filha. Vera... eu trouxe o inferno para esta cidade comigo.

Ela parou por um segundo, a agulha de sutura suspensa no ar. Ela me olhou profundamente, e não vi julgamento, apenas uma compreensão silenciosa.

— Você protegeu as pessoas naquele bar — ela disse baixinho. — Aquele homem estava armado. Ele ia te matar.

— Eu não sou um herói, Vera. Eu sou um homem quebrado tentando manter os pedaços juntos.

— Todos estamos tentando manter nossos pedaços juntos, Patrick — ela respondeu, voltando ao trabalho. — Alguns de nós apenas escondem as cicatrizes melhor do que outros.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo bipe rítmico dos aparelhos ao redor. Quando ela terminou, cobriu o ferimento com um curativo limpo e me ajudou a sentar. A tontura tinha diminuído, mas o peso no meu peito só aumentava.

— Você precisa descansar. Vou pedir para te darem um sedativo leve — ela começou a dizer, mas eu segurei seu pulso.

— Não. Eu preciso falar com o Jack. Preciso saber se a notícia saiu do ar. Preciso ligar para o Alex e dizer para ele não trazer a Liz no domingo. É perigoso demais.

— Patrick, olhe para mim — Vera se aproximou, ficando entre minhas pernas enquanto eu estava sentado na maca. — Você não vai a lugar nenhum nesse estado. Sua pressão está baixa e você perdeu muito sangue. Se você quer proteger sua filha, precisa estar inteiro.

Eu suspirei, deixando minha cabeça pender para frente até encostar no ombro dela. O cheiro dela — aquele perfume suave que parecia o único ponto de paz no meu mundo caótico — me acalmou instantaneamente.

— Eu não posso perdê-la, Vera. Ela é tudo o que me restou.

Senti as mãos dela envolverem minhas costas, um abraço hesitante que logo se tornou firme.

— Você não vai perdê-la. Nós vamos dar um jeito.

Ficamos assim por alguns minutos, um delegado ensanguentado e uma médica exausta, encontrando conforto no único lugar que não esperávamos. A porta da sala se abriu abruptamente, e Jack entrou, parecendo ter corrido uma maratona. Ele parou ao nos ver naquela posição, pigarreando e desviando o olhar.

— Desculpe interromper — disse Jack, ajeitando o coldre. — Mas as notícias são mistas, chefe.

Eu me afastei de Vera, tentando recuperar minha postura de delegado, embora a falta de camisa e o curativo no ombro não ajudassem muito.

— Diga logo, Jack.

— A boa notícia é que o cara da revista online se borrou de medo. Ele apagou tudo, deletou os arquivos do servidor e jurou que nunca mais vai mencionar seu nome. O susto que você deu nele com a arma foi o suficiente para garantir o silêncio.

— E a má notícia? — perguntei, já sabendo a resposta.

— O homem que você baleou... ele não era um qualquer. Identificamos o corpo. Era um ex-mercenário ligado ao cartel que você desmantelou em Chicago. Se ele estava aqui, Patrick, significa que eles te acharam antes mesmo de você se instalar.

Senti um frio na espinha. A segurança de Columbia era uma ilusão.

— E o celular dele? Alguma pista? — indaguei.

— Está com a perícia. Mas Alex ligou de novo. Ele já sabe do ocorrido. Ele disse que... — Jack hesitou, olhando para Vera e depois para mim. — Ele disse que a segurança foi comprometida lá também. Eles estão vindo para cá amanhã, não no domingo. Ele acha que é mais seguro manter a Liz perto de você e de toda a força policial de Columbia do que deixá-la em uma casa isolada onde eles já sabem o endereço.

— Merda — bati com a mão boa na beirada da maca. — Eles estão me encurralando.

Vera, que ouvia tudo em silêncio, deu um passo à frente.

— Patrick, se eles estão vindo amanhã, você precisa de um lugar seguro. Sua casa nova é um alvo óbvio.

— Ela tem razão, chefe — concordou Jack. — Mas onde? O hotel da cidade é uma peneira. A delegacia não é lugar para uma criança.

Houve um momento de silêncio tenso. Eu olhei para o teto, sentindo a impotência me corroer. Foi então que Vera falou, sua voz calma e decidida.

— Leve-os para a minha casa.

Eu e Jack olhamos para ela ao mesmo tempo, surpresos.

— Vera, não — eu disse imediatamente. — Eu não vou colocar você no meio disso. Você já viu do que esses homens são capazes.

— Minha casa fica fora dos limites da cidade, em uma área de preservação — ela continuou, ignorando meu protesto. — Ninguém sabe que eu moro lá, exceto a Thaisa. É cercada, tem um sistema de segurança que meu pai instalou antes de falecer e é o último lugar onde procurariam o novo delegado.

— É perigoso demais para você — insisti, tentando me levantar, mas uma pontada de dor me fez sentar novamente.

Vera se aproximou de mim, seus olhos brilhando com uma determinação feroz.

— Patrick, você me salvou naquela noite escura. Você me deu uma flor quando eu achava que o mundo era apenas dor e sombras. Deixe-me retribuir. Eu sou médica, sei cuidar de ferimentos, e minha casa é um refúgio. Além disso... — ela deu um meio sorriso triste — ...eu sei o que é viver com medo. Não quero que sua filha sinta isso.

Olhei para Jack, que apenas deu de ombros, indicando que a ideia não era ruim do ponto de vista tático.

— Tudo bem — cedi, sentindo uma mistura de alívio e culpa. — Mas eu vou colocar dois homens de guarda na entrada da sua propriedade.

— Combinado — ela disse. — Agora, você vai tomar esse sedativo, vai dormir por algumas horas e, ao amanhecer, buscaremos sua família.

— Vera... — eu a chamei quando ela se virou para pegar o medicamento.

— Sim?

— Obrigado. Por tudo.

Ela não respondeu com palavras. Apenas tocou minha bochecha com a ponta dos dedos, um gesto carregado de uma promessa silenciosa de que, pelo menos por aquela noite, eu não teria que lutar sozinho.

O restante da noite passou em um torpor induzido por remédios. Tive sonhos fragmentados com Chicago, com o som de pneus cantando no asfalto e o choro de Liz. Mas, em todos os sonhos, havia uma luz loira ao fundo, uma presença que impedia que a escuridão me engolisse por completo.

Quando acordei, o sol de sábado começava a tingir o céu de laranja e rosa através da janela do hospital. Vera estava sentada em uma poltrona ao lado da cama, cochilando com um livro aberto no colo. Ela ainda usava o jaleco, agora levemente amassado.

Eu a observei por um tempo, sentindo uma estranha paz. Eu mal a conhecia, e no entanto, parecia que nossas almas já haviam se cruzado em outra vida, em outro campo de batalha.

— Patrick? — ela murmurou, abrindo os olhos e bocejando delicadamente. — Como se sente?

— Como se tivesse sido atropelado por um caminhão e depois costurado por um anjo — respondi, tentando me sentar.

Ela sorriu, levantando-se para me ajudar.

— O café do hospital é horrível, então Jack trouxe algo de uma lanchonete próxima. Ele está lá fora com as viaturas. Alex ligou. Eles estão a trinta minutos de distância.

A adrenalina de ser pai superou a dor do ferimento. Eu me levantei, ignorando o protesto do meu ombro, e comecei a me vestir com a camisa limpa que Jack havia trazido.

— Vamos buscá-los — eu disse, minha voz agora firme e cheia de propósito.

Saímos do hospital sob a luz clara da manhã. Columbia parecia uma cidade comum, pacata, ignorante do sangue que havia sido derramado em seu bar principal na noite anterior. Mas eu sabia a verdade. A guerra tinha chegado, e eu faria qualquer coisa para vencê-la.

Encontramos Alex e minha mãe, Eleanor, em um posto de gasolina na entrada da cidade. Quando vi o carro deles, meu coração disparou. Assim que pararam, a porta traseira se abriu e uma pequena figura de cachos loiros saltou para fora, correndo em minha direção.

— Papai! — o grito de Liz foi o som mais bonito que já ouvi.

Eu me ajoelhei, esquecendo a sutura, esquecendo o perigo, e a segurei com o braço bom, enterrando meu rosto em seu pescoço. Ela tinha cheiro de chiclete e de infância, um contraste violento com tudo o que eu tinha vivido nas últimas horas.

— Oi, meu amor. O papai sentiu tanta saudade — sussurrei, apertando-a contra mim.

Alex se aproximou, trocando um olhar pesado comigo. Ele viu o curativo através da minha camisa, mas não disse nada na frente de Liz. Eleanor me abraçou em seguida, seus olhos de mãe lendo cada linha de cansaço no meu rosto.

— Estamos aqui, Patrick — disse ela. — Mas não podemos ficar na rua.

— Eu sei. Vamos para um lugar seguro.

Apresentei Vera a eles. Ela foi recebida com gratidão e uma curiosidade silenciosa por parte da minha mãe. Seguimos em comboio para a casa dela. O trajeto nos levou para fora da cidade, subindo uma colina arborizada onde as casas eram distantes umas das outras. A propriedade de Vera era cercada por árvores altas e tinha um portão de ferro que ela abriu com um controle remoto.

A casa era uma construção de madeira e pedra, acolhedora e isolada. Liz ficou encantada com o jardim e os esquilos que corriam pelas árvores.

— É lindo aqui, Vera — disse Eleanor, entrando na sala ampla e bem iluminada.

— Sintam-se em casa — respondeu Vera, conduzindo-os para os quartos de hóspedes.

Enquanto Alex e Jack descarregavam as malas e organizavam a vigília lá fora, eu fiquei na varanda, observando a estrada. Vera se aproximou, trazendo duas canecas de café.

— Ela é linda, Patrick — disse ela, referindo-se a Liz. — Tem os seus olhos.

— Ela tem a coragem da mãe — respondi, aceitando o café. — Vera, sobre o que aconteceu no bar... eu não queria que você visse aquele lado meu.

Ela se encostou no parapeito, olhando para a floresta.

— O lado que protege quem ama? — ela perguntou, virando-se para mim. — Patrick, eu passo meus dias lutando contra a morte em uma mesa de cirurgia. Eu sei que, às vezes, a vida exige medidas extremas. O que eu vi no bar não foi um monstro. Foi um homem desesperado para manter sua filha segura.

Eu a olhei, e a distância entre nós pareceu diminuir.

— Eu não sei como agradecer por nos receber aqui.

— Não agradeça. Apenas... fique vivo. Columbia precisa de um delegado, e eu acho que... eu gostaria de ver para onde isso tudo vai levar.

Antes que eu pudesse responder, o rádio de Jack chiou na minha cintura.

— Delegado, temos movimento na estrada de acesso. Um SUV preto, vidros fumê. Não pertence a nenhum morador local.

O momento de paz evaporou. Eu saquei minha arma, sentindo a frieza do metal contra a palma da mão.

— Vera, entre e leve todos para o porão. Agora! — ordenei, minha voz voltando ao tom de autoridade.

Ela não discutiu. Vi o medo em seus olhos, mas também a confiança que ela depositava em mim. Ela correu para dentro enquanto eu me posicionava atrás de uma das colunas de pedra da varanda.

O SUV parou diante do portão. O silêncio da floresta tornou-se opressor. Eu sabia que o confronto era inevitável. Eles tinham vindo para terminar o serviço, mas desta vez, eu não estava apenas lutando por mim mesmo. Eu tinha uma filha para proteger e uma mulher que, em poucos dias, tinha se tornado a luz no meu fim de túnel.

— Venham — sibilei para a estrada vazia. — Eu estou esperando.

A batalha por Columbia — e pela minha vida — estava apenas começando. Mas, enquanto eu sentia o peso do distintivo e a dor no meu ombro, eu sabia de uma coisa: eu não ia recuar. Não mais.