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Olhos de oceano

Cicatrizes e Segredos

O cheiro de antisséptico foi a primeira coisa que atingiu meus sentidos, trazendo consigo a consciência pesada e lenta de quem emerge de um sono profundo e forçado. Meus olhos pesavam, as pálpebras pareciam coladas por uma areia invisível, mas, quando finalmente consegui abri-los, a claridade suave do quarto de hospital me situou no tempo e no espaço. O teto branco, o bipe rítmico do monitor cardíaco e o peso no meu ombro direito eram lembretes silenciosos do caos no Joe’s Bar.

Tentei me mexer, mas um peso extra sobre o meu cobertor chamou minha atenção. Inclinei a cabeça com cuidado e meu coração, aquele órgão que eu jurava ter se transformado em pedra anos atrás, deu um solavanco. Vera estava ali. Ela não estava em uma cadeira desconfortável ou em um sofá de espera; ela estava sentada em um banco baixo, com os braços cruzados sobre o colchão e a cabeça descansando precariamente sobre a minha perna.

Ela dormia. A expressão dura e profissional que ela costumava carregar havia desaparecido, dando lugar a uma serenidade que me deixou hipnotizado por alguns instantes. Os fios loiros de seu cabelo caíam sobre o rosto, escondendo parcialmente a curva de sua bochecha. Sem pensar muito, movi minha mão esquerda — a boa — e, com a ponta dos dedos, fiz um carinho quase imperceptível em seus cabelos, afastando uma mecha rebelde.

O movimento, por mais leve que fosse, foi o suficiente. Vera despertou em um sobressalto, os olhos azuis arregalados e desorientados por um segundo antes de focarem em mim. Ela se endireitou rapidamente, ajeitando o jaleco e passando as mãos no rosto para espantar o sono.

— Patrick! Você acordou. — Ela se aproximou, a mão instintivamente buscando minha testa para checar a temperatura, enquanto seus olhos escaneavam meu rosto em busca de sinais de choque. — Como você está se sentindo? Está com dor? Algum desconforto no peito ou falta de ar? Responda, Patrick.

Eu a observei, sentindo um calor que não vinha da febre, mas da presença dela. Um sorriso de canto, meio grogue pela medicação, surgiu em meus lábios.

— Nunca estive tão bem quanto agora, estando nas mãos da doutora — murmurei, a voz ainda rouca.

Vera revirou os olhos, embora eu tenha notado um leve rubor subindo por seu pescoço. Ela cruzou os braços, tentando retomar sua postura de autoridade médica.

— Pare de flertar comigo por cinco minutos e responda às minhas perguntas seriamente, delegado. Eu estou falando como sua médica agora.

— Tudo bem, tudo bem — suspirei, tentando me ajeitar no travesseiro, o que me custou uma careta de dor. — Sinto uma dormência estranha no ombro. É como se meu braço não pertencesse totalmente ao meu corpo.

— Isso é perfeitamente normal — explicou ela, aproximando-se para verificar o acesso no meu braço. — O ferimento foi profundo. A lâmina atingiu tecidos moles e chegou perto de nervos importantes. A dormência é uma resposta ao trauma e à inflamação. Você teve sorte de não ter perdido os movimentos permanentes.

Antes que eu pudesse retrucar com outra piada, a porta do quarto se abriu. Jack entrou, segurando uma pasta de arquivos e com uma expressão que misturava alívio e uma seriedade sombria. Ele acenou para Vera e parou ao pé da cama.

— Bom ver que você ainda está entre os vivos, chefe — disse Jack, mas seu tom não era de brincadeira.

— O que você tem para mim, Jack? — perguntei, ignorando o protesto silencioso de Vera quando tentei me sentar um pouco mais.

— O homem no bar. Nós o identificamos — Jack abriu a pasta e me entregou uma foto de necrotério. — O nome dele era Mateo Garcia. O caçula dos irmãos Garcia.

O nome ecoou na minha mente como um tiro de canhão. Eu conhecia aquele sobrenome. Conhecia o sangue que corria naquelas veias, porque era o mesmo sangue maldito que eu tentava lavar de mim todos os dias. Mike Garcia, o patriarca daquela linhagem de monstros, era o homem que me colocou no mundo. O homem que destruiu a juventude da minha mãe e transformou minha infância em um campo de batalha antes de nos abandonar para construir seu império de sangue. Mateo era meu meio-irmão, embora ele provavelmente nem soubesse disso. Ou talvez soubesse, e fosse por isso que ele tinha tanto ódio nos olhos.

Eu não disse nada. Mantive a expressão de pedra, embora por dentro eu estivesse desmoronando. Se os Garcia estavam aqui, em Columbia, o inferno estava apenas começando.

— Eu preciso sair daqui — eu disse, começando a lutar contra os lençóis. — Agora.

— Patrick, nem pense nisso! — Vera deu um passo à frente, colocando as mãos firmemente nos meus ombros para me manter deitado. — Você perdeu muito sangue, passou por uma cirurgia de emergência e ainda está sob o efeito de sedativos.

— Você não entende a gravidade da situação, Vera! — Minha voz subiu de tom, carregada de um desespero que eu raramente deixava transparecer. — Minha filha corre risco de vida. Se os Garcia estão na cidade, eles não vão parar até me verem morto ou tirarem de mim o que eu mais amo. Eu não posso ficar deitado nesta cama enquanto ela está lá fora desprotegida!

Vera não recuou. Ela manteve o olhar fixo no meu, uma mistura de compaixão e determinação inabalável.

— Eu entendo a sua preocupação, de verdade. Eu vi o seu desespero no bar. Mas você não vai a lugar nenhum nesse estado. Se você sair agora e os pontos se abrirem, ou se você tiver uma hemorragia interna na rua, você não vai conseguir proteger ninguém. Você vai ser apenas mais um corpo para o IML recolher. Eu não vou deixar você sair para correr o risco de piorar sua situação.

Eu a encarei, bufando de frustração. Ela era teimosa, talvez mais do que eu. Olhei para Jack, que parecia dividido entre a lealdade a mim e o bom senso médico de Vera.

— Jack — chamei, minha voz voltando ao tom de comando. — Me dê meu celular. Agora. Preciso falar com o Alex. E quero que você junte todas as informações que puder. Quero saber onde cada um dos Garcia foi visto nas últimas quarenta e oito horas. Traga tudo para cá. Se eu não posso ir até a delegacia, a delegacia vem até mim.

Jack assentiu, entregando meu aparelho e saindo do quarto para nos dar privacidade. Vera suspirou, mas não me impediu de fazer a ligação. Ela ficou ali, observando-me enquanto eu falava com Alex, garantindo que Liz estava segura e ordenando que ele não a deixasse sozinha nem por um segundo. Só quando desliguei é que senti a exaustão me atingir novamente.

Horas se passaram entre ligações, relatórios lidos às pressas e a vigilância constante de Vera. Já era tarde quando ela voltou ao quarto com um kit de curativos. O hospital estava silencioso, mergulhado naquela penumbra reconfortante do turno da noite.

— Hora de trocar isso — disse ela, indicando o curativo no meu ombro.

Ela começou o trabalho com uma delicadeza que contrastava com a brutalidade da minha vida. Seus dedos eram ágeis, limpando a ferida com cuidado. Eu observava o perfil dela, a concentração em seus olhos, e senti uma estranha paz.

— Sabe, Vera... — comecei, minha voz baixa. — Acho que essa vai acabar sendo a minha cicatriz favorita.

Ela parou por um segundo, olhando para mim por cima do ombro, confusa.

— E por que alguém teria uma cicatriz favorita, Patrick?

— Porque foi você quem cuidou dela — respondi honestamente. — É a única marca no meu corpo que não me lembra apenas de dor, mas de quem me salvou.

Vera soltou um riso anasalado, mas seus olhos estavam suaves.

— Não se acostume com isso. Eu não pretendo costurar você novamente. Da próxima vez, tente não ser esfaqueado, delegado. Tome cuidado. Você é um paciente muito difícil.

Ela terminou de prender a gaze e se afastou um pouco, limpando as mãos.

— E só para constar — ela acrescentou, com um brilho divertido no olhar —, você é oficialmente meu paciente mais especial. Eu sou cardiologista, Patrick. Meu trabalho é lidar com corações, válvulas e artérias entupidas. E, no entanto, aqui estou eu, cuidando de um ferimento de faca no ombro de um delegado teimoso só porque ele se recusa a deixar qualquer outro médico chegar perto.

— É porque você é a única que sabe como lidar com o meu coração, doutora — brinquei, embora houvesse uma verdade perigosa naquela frase.

Ela balançou a cabeça, saindo do quarto com um "boa noite" que soou mais como uma promessa de que ela estaria por perto.

Dormi um sono sem sonhos pela primeira vez em dias. Quando a luz da manhã de domingo começou a filtrar pelas persianas, senti algo diferente. Não era a dor ou o bipe do monitor. Era uma sensação leve, como se borboletas estivessem pousando na minha pele.

Abri os olhos devagar e o mundo pareceu ganhar cores que eu esquecera que existiam. Sentada na beira da cama, com as perninhas balançando no ar, estava Liz. Seus pequenos dedos faziam um carinho suave na minha bochecha, como se ela estivesse verificando se eu era real.

— Papai? — sussurrou ela, os olhos brilhando ao ver que eu acordara.

— Liz... — Minha voz falhou.

Eu a puxei para um abraço com o braço bom, sentindo o cheiro de shampoo de maçã verde que ela sempre usava. Naquele momento, com ela em meus braços e o sol de domingo iluminando o quarto, os irmãos Garcia, o sangue no bar e o passado sombrio pareceram estar a quilômetros de distância.

Olhei para a porta e vi Vera parada ali, observando a cena com um sorriso que iluminava o rosto dela de uma forma que eu nunca tinha visto. Ela tinha trazido minha filha. Ela sabia o que eu precisava antes mesmo de eu pedir.

— Ela insistiu muito — disse Vera, aproximando-se da cama. — E eu achei que um pouco de "medicina familiar" faria melhor para você do que qualquer antibiótico.

— Obrigado, Vera — eu disse, e meu olhar carregava todo o peso da gratidão que eu não conseguia colocar em palavras.

Eu ainda estava ferido, ainda estava sendo caçado e o futuro era uma névoa de incertezas. Mas, enquanto eu segurava Liz e via Vera ao meu lado, eu sabia que tinha algo pelo qual valia a pena lutar. A guerra estava longe de terminar, mas, pela primeira vez, eu não estava lutando sozinho.

— Papai, a moça disse que você foi um herói — Liz disse, escondendo o rosto no meu pescoço.

Olhei para Vera, que deu de ombros, timidamente.

— Eu não sou um herói, pequena — respondi, beijando o topo de sua cabeça. — Eu sou apenas um homem tentando proteger o que é mais precioso.

E, enquanto o domingo avançava, eu me permiti esquecer, por algumas horas, que o sangue dos Garcia ainda clamava por vingança lá fora. Naquele quarto, o delegado Wilson não existia; havia apenas um pai, sua filha e a médica que, de alguma forma, estava começando a remendar muito mais do que apenas um ombro rasgado.