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Olimpo

O Eco das Sandálias e o Brilho do Âmbar

A brisa noturna do Olimpo soprava suave, carregando o perfume das flores de laranjeira e o aroma distante do banquete que ainda rugia no salão principal. O silêncio que se seguiu à retirada tempestuosa de Ares era quase palpável, quebrado apenas pelo som rítmico da respiração de Lysíandra. Ela ainda sentia o sangue fervendo, uma mistura inebriante do vinho de Dionísio e da adrenalina de ter enfrentado o pai.

Hermes a observava com uma mistura de fascínio e cautela. Ele já havia lidado com monstros, gigantes e a fúria de Zeus, mas havia algo na intensidade de Lysíandra que o deixava genuinamente sem fôlego. Ela não era apenas bonita; ela era uma força da natureza, um campo de batalha e um santuário de prazer, tudo em um só corpo.

— Você tem consciência de que ele vai colocar cães de guerra para patrulhar o seu quarto amanhã, não tem? — comentou Hermes, quebrando o silêncio com seu tom leve, embora seus olhos estivessem fixos nos dela.

Lysíandra soltou uma risada curta, jogando a cabeça para trás. Os cachos escuros balançaram como ondas de ébano sob o luar.

— Deixe que coloque. Ele se esquece que eu sei como fazer os cães dormirem ou como fazê-los morder os próprios donos se eu desejar. Meu pai entende de estratégia, Hermes, mas eu entendo do que move o coração... seja ele humano, animal ou divino.

Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O calor que emanava dela era quase como o de uma forja, mas o toque de suas mãos em seu peito era delicado como uma pétala.

— E você? — perguntou ela, a voz descendo para um tom aveludado e perigoso. — O deus que nunca fica parado, o mensageiro que atravessa mundos em um piscar de olhos... está com medo de um deus que resolve tudo com gritos e aço?

Hermes sorriu, aquele sorriso ladino que já havia enganado metade do panteão. Ele segurou os pulsos dela, sentindo a pulsação acelerada.

— Medo é uma palavra muito forte para quem tem asas nos pés, minha cara. Mas admito que o olhar dele para o meu pescoço foi... inspirador. No entanto — ele a puxou para mais perto, o rosto a centímetros do dela —, há coisas pelas quais vale a pena correr o risco de ser transformado em pó.

— E eu sou uma dessas coisas? — provocou ela, os olhos âmbar brilhando com um desafio.

— Você é a única coisa que me fez querer parar de correr — sussurrou ele.

O beijo que se seguiu não teve nada da hesitação anterior. Foi um encontro de fúria e astúcia. Lysíandra o beijava com a possessividade de uma guerreira reivindicando um território, enquanto Hermes explorava cada curva de seus lábios com a curiosidade de um viajante que finalmente encontrou o tesouro mais precioso do mundo. O poder dela, aquela aura de paixão obsessiva, começou a vazar por seus poros, envolvendo os dois em uma névoa invisível que tornava tudo o mais irrelevante.

Enquanto isso, a alguns níveis abaixo no palácio, a atmosfera era bem menos romântica. Ares marchava pelos corredores de obsidiana, suas botas pesadas deixando marcas no chão polido. Ele bufava como um touro, as mãos abrindo e fechando como se procurassem o cabo de uma espada.

— Aquele moleque... Aquele ladrão de gado... — resmungava ele, as veias do pescoço saltadas.

— Ares, pare de andar de um lado para o outro. Você está me dando dor de cabeça e estragando a harmonia do ambiente — disse Afrodite, que o seguia languidamente, retocando o brilho nos lábios com a ponta do dedo.

— Estragando a harmonia? — Ares virou-se para ela, os olhos injetados. — Sua filha está lá em cima se entregando ao deus mais mentiroso do Olimpo! Ele não tem honra, Afrodite! Ele é um trapaceiro!

— Exatamente! — exclamou a deusa, com um sorriso radiante. — Ele é inteligente, rápido e charmoso. É o equilíbrio perfeito para a nossa Lysíandra. Ela tem o seu temperamento, querido. Se ela se apaixonasse por um deus da guerra como você, eles já teriam reduzido o mundo a cinzas em uma briga de café da manhã.

— Eu não quero equilíbrio! Eu quero que ela seja respeitada! — rugiu Ares.

— E quem disse que ele não a respeita? — Afrodite aproximou-se do marido, colocando uma mão em seu peito blindado. — Você viu os olhos dele. Ele não estava apenas tentando "conquistar". Ele estava hipnotizado. E Lysíandra... ela estava no controle de cada segundo. Ela é minha filha, Ares. Ela sabe exatamente o que está fazendo.

Ares parou por um momento, a respiração ainda pesada, mas a lógica da deusa — por mais irritante que fosse — começava a se infiltrar em sua mente nublada pela raiva.

— Se ele a machucar... — começou o deus da guerra, em tom de promessa.

— Se ele a machucar, ela mesma vai arrancar o coração dele e servir para os abutres antes mesmo de você encontrar suas sandálias de combate — interrompeu Afrodite com uma risada leve. — Agora, venha. Deixe os jovens. Vamos encontrar algo mais interessante para fazer do que vigiar terraços.

Longe dali, nos jardins das Hespérides, onde Hermes havia levado Lysíandra em um piscar de olhos para fugir de novos olhares curiosos, o casal se sentava sob a sombra de uma árvore cujas maçãs de ouro brilhavam suavemente.

Lysíandra estava encostada no tronco, observando Hermes brincar com uma pequena adaga de bronze que ele havia "pegado emprestada" de um dos guardas de Ares durante a confusão.

— Você é rápido, eu admito — disse ela, esticando as pernas e sentindo a grama fresca sob a pele. — Mas o que acontece quando a novidade passar? Você é o deus das viagens. O que acontece quando você sentir vontade de partir para o próximo destino?

Hermes parou de girar a adaga e olhou para ela. A diversão habitual havia sumido de seu rosto, substituída por uma seriedade rara.

— O problema das viagens, Lysíandra, é que a maioria das pessoas viaja para fugir de algo ou para encontrar algo que falta. Eu passo meus dias entregando mensagens de outros deuses, vivendo os dramas de outros seres.

Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela e pegando sua mão.

— Pela primeira vez, eu não sinto que estou de passagem. Com você, eu sinto que cheguei.

Lysíandra sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com seus poderes de manipulação emocional. Era algo real, visceral e assustador. Ela, que podia comandar o desejo alheio, sentia-se vulnerável ao desejo que ele despertava nela.

— Se você estiver mentindo para mim, Hermes... — ela começou, a voz baixa.

— Eu sou o deus dos mentirosos — interrompeu ele, levando a mão dela aos lábios. — E é por isso que você deve acreditar em mim quando digo que, para você, eu só tenho a verdade. Mentir para você seria como mentir para o espelho. Eu vejo em você a mesma centelha de caos que existe em mim.

Ela sorriu, puxando-o pela nuca para um novo beijo, mas foram interrompidos por um som agudo. Uma flecha de ponta dourada zuniu sobre suas cabeças, cravando-se no tronco da macieira com um estalo vibrante.

— Mas que raios...! — exclamou Hermes, saltando de pé.

Das sombras dos arbustos, Eros emergiu, segurando seu arco e com uma expressão de puro deboche. Ele parecia ter se recuperado do susto anterior, provavelmente encorajado pela distância do pai.

— Só verificando se vocês ainda estavam vivos — disse o deus do amor, com um brilho malicioso nos olhos. — Papai está lá embaixo destruindo metade da mobília de bronze, e vocês aqui, trocando juras sob as maçãs de Hera. Se ela descobre que vocês estão aqui, Ares será o menor dos seus problemas.

Lysíandra levantou-se, os olhos âmbar faiscando. A aura de fúria começou a emanar dela novamente, fazendo as folhas da árvore tremerem.

— Eros, eu avisei a você sobre o espantalho — disse ela, a voz carregada de uma promessa sombria.

— Calma, maninha! — Eros levantou as mãos em sinal de rendição, embora o sorriso não abandonasse seu rosto. — Eu vim apenas dar um aviso. Phobos e Deimos estão espalhando para todo o Olimpo que Hermes finalmente foi "capturado". Se eu fosse você, Hermes, eu me prepararia para as piadas de Hefesto. Ele não gosta muito de quem mexe com a linhagem de Ares, mas ele adora uma boa fofoca.

Hermes suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado.

— O Olimpo é pior que uma ágora de aldeia humana. Nada é secreto por mais de dez minutos.

— E por que deveria ser? — perguntou Lysíandra, aproximando-se do irmão.

Ela agarrou a flecha cravada na árvore e a arrancou com uma força impressionante, quebrando a haste de madeira ao meio.

— Deixe que falem. Deixe que Ares grite e que os gêmeos riam.

Ela voltou-se para Hermes, ignorando a presença de Eros, que observava tudo com um interesse quase clínico.

— Você disse que eu sou o seu destino, mensageiro. Pois bem, o destino não se esconde.

Hermes olhou para a flecha quebrada na mão dela e depois para o sorriso desafiador em seu rosto. Ele sentiu uma onda de orgulho e desejo percorrer seu corpo. Ela era perfeita.

— Você tem razão — concordou ele, estendendo a mão para ela. — Por que fugir quando podemos dar a eles algo realmente interessante para comentar?

— O que você tem em mente? — perguntou ela, aceitando a mão dele.

— Zeus está prestes a encerrar a festa com um brinde — disse Hermes, o brilho de trapaça voltando aos seus olhos. — Que tal chegarmos lá juntos, da maneira mais barulhenta possível?

Lysíandra riu, uma risada que prometia caos.

— Eu adoro a sua maneira de pensar.

Eros assobiou, impressionado.

— Vocês dois são loucos. Eu vou adorar ver a cara do papai quando vocês entrarem no salão.

Com um movimento rápido, Hermes envolveu a cintura de Lysíandra. As asas em seus calcanhares começaram a vibrar, criando um zumbido de energia dourada.

— Segure-se firme, deusa da minha perdição — avisou ele.

Em um borrão de luz e vento, eles desapareceram do jardim, deixando Eros sozinho sob as macieiras. O pequeno deus olhou para os pedaços da flecha quebrada no chão e sorriu.

— É, Afrodite... acho que você finalmente encontrou alguém que consegue acompanhar o ritmo da nossa pequena guerra.

De volta ao salão principal do Olimpo, o banquete estava em seu ápice. Zeus, no topo de seu trono, levantava uma taça colossal de néctar, preparando-se para o discurso final. Ares estava sentado a poucos metros, ainda com os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos, enquanto Afrodite conversava animadamente com Ártemis.

De repente, as grandes portas de ouro do salão se escancararam com um estrondo. Não foi o vento, nem um guarda. Foi uma explosão de energia cinética e perfume de flores silvestres.

Hermes e Lysíandra entraram no salão, não escondidos, mas de mãos dadas. Ela caminhava com a cabeça erguida, a túnica levemente desalinhada e os olhos brilhando como sóis de âmbar. Ele tinha aquele ar de triunfo que costumava irritar os outros deuses, mas que agora parecia absolutamente justificado.

O silêncio caiu sobre o salão como uma cortina pesada. Até Dionísio parou de entornar vinho para observar a cena.

Ares levantou-se tão rápido que sua cadeira de bronze tombou para trás.

— Mas o que é isso?! — rugiu o deus da guerra, a mão indo instintivamente para o punhal na cintura.

Lysíandra não parou. Ela caminhou até o centro do salão, arrastando um Hermes surpreendentemente confiante com ela, e parou diante do pai e do soberano dos deuses.

— Um brinde, pai — disse ela, a voz clara e firme, ecoando por cada canto do Monte Olimpo. — Às mensagens que chegam e às guerras que terminam em trégua.

Ela pegou uma taça de uma mesa próxima e a levantou em direção a Hermes.

— E ao deus que foi rápido o suficiente para me alcançar.

Afrodite soltou um suspiro encantado, batendo palmas suavemente.

— Oh, isso foi maravilhoso! — exclamou ela, olhando para os outros deuses. — Não fiquem parados, brindem!

Zeus observou a cena por um momento, o olhar severo perdendo-se em uma diversão contida. Ele olhou para Ares, que parecia prestes a explodir, e depois para o casal. O rei dos deuses sabia que tentar separar aqueles dois seria como tentar separar o trovão do raio.

— Pelo visto — disse Zeus, a voz profunda fazendo o teto vibrar —, o mensageiro finalmente entregou algo que vale a pena guardar.

Ele levantou sua taça.

— Por Lysíandra e Hermes! Que o Olimpo sobreviva a essa união!

Um coro de vozes e risos irrompeu pelo salão. Até Phobos e Deimos, vendo que a briga havia se transformado em um espetáculo de audácia, levantaram suas taças, zombando da cara estupefata do pai.

Ares olhou para a filha. Ele viu nela não apenas a beleza da mãe, mas a coragem indomável que ele mesmo lhe dera. Ele bufou, soltando o cabo do punhal, e pegou uma taça de vinho, resmungando algo que soava como "eu ainda vou matar esse moleque". Mas ele bebeu.

Hermes inclinou-se para o ouvido de Lysíandra enquanto a festa recomeçava com ainda mais fervor.

— Eu disse que seria interessante.

— Foi um bom começo — respondeu ela, puxando-o para mais perto em meio à multidão de deuses. — Mas não se acostume com a calmaria, Hermes. Eu ainda sou filha da guerra.

— E eu sou o deus das estradas — retrucou ele, beijando-a diante de todos. — E mal posso esperar para ver onde esta estrada vai nos levar.

Naquela noite, o Olimpo não dormiu. Entre o brilho das estrelas e o eco das risadas divinas, a história da deusa que uniu o amor e a guerra ao passo rápido do mensageiro tornou-se lenda. E enquanto houvesse desejo e enquanto houvesse vento, Lysíandra e Hermes continuariam sua dança eterna, provando que nem mesmo os deuses podem escapar das armadilhas que eles mesmos criam.