Oliver!
O Mistério do Sabonete Perdido e o Silêncio no Corredor
A Escola de Papel nunca foi um lugar exatamente seguro, mas para Oliver, ela era o seu parquinho particular. O garoto de longos cabelos brancos, que chegavam a tocar seus tornozelos, caminhava tranquilamente pelos corredores monocromáticos. O rabo de cavalo baixo, preso por um laço preto, balançava de um lado para o outro conforme ele saltitava. No topo de sua cabeça, a mecha de cabelo arrepiada parecia vibrar com sua animação habitual.
Oliver não estava apenas andando; ele estava desfrutando de sua iguaria favorita. Com a mão direita, ele levava à boca uma barra de sabonete azul-bebê, mordendo-a com gosto como se fosse o chocolate mais caro do mundo. O gosto adstringente e a textura cerosa eram um deleite para ele. Sua língua bifurcada, semelhante à de uma cobra, deslizava pelos lábios enquanto ele mastigava, saboreando o aroma de "brisa oceânica" que emanava do objeto.
— Nada como um lanche fresco para começar bem o intervalo — murmurou ele para si mesmo, a voz levemente rouca.
Seu braço esquerdo, o lápis gigante que substituía o membro original, balançava ao lado do corpo. A marca de "A+" em seu cabelo brilhava sob as luzes fluorescentes da escola. Oliver estava distraído, pensando em qual seria a próxima pegadinha que faria com Zip e Edward. Talvez colocar cola nas cadeiras da sala de Miss Circle? Ou quem sabe esconder os compassos de Miss Bloomie?
De repente, o ambiente pareceu esfriar.
Antes que Oliver pudesse reagir, algo rápido e viscoso disparou das sombras do teto. Uma corda grossa, de um preto profundo com veios turquesa escuro e uma textura pegajosa, serpenteou pelo ar com a precisão de uma serpente caçadora.
A corda envolveu o abdômen de Oliver com uma força brutal, puxando-o para trás violentamente.
— Mas o que...?! — O grito de Oliver foi interrompido pelo impacto.
O sabonete que ele segurava escapou de seus dedos, caindo no chão de papel com um baque surdo e deslizando para longe, parando debaixo de um armário. Oliver tentou agarrá-lo, mas seus braços foram rapidamente imobilizados contra o corpo pela substância turquesa.
Em questão de segundos, a corda se multiplicou, enrolando-se em volta de seu peito, braços e pernas. O toque era frio e grudento, prendendo-o com uma firmeza sobrenatural. Antes que ele pudesse soltar um grito de socorro, uma tira daquela mesma substância passou por sua boca, selando seus lábios com uma mordaça improvisada e extremamente apertada.
Oliver sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Um rubor intenso subiu por suas bochechas, misturando-se à marca vermelha de "A+" em seu cabelo. Ele se debateu freneticamente, tentando usar a ponta afiada de seu braço de lápis para rasgar as amarras, mas a corda era elástica e resistente demais.
— Mmmff! Mmmmmmff! — Ele tentava gritar, mas o som saía abafado, morrendo em sua garganta.
O pânico começou a se instalar. Em sua mente, sua própria voz ecoava desesperada: "Alguém me ajude! Zip! Edward! O que é isso?".
De repente, a luz do corredor deu um estalo e se apagou completamente. A escuridão total engoliu a cena. Oliver sentiu seu corpo ser içado para cima, em direção ao teto, enquanto seus gritos abafados se intensificavam no vácuo do silêncio escolar.
***
No dia seguinte, o clima na escola estava estranhamente tenso. Não era o tipo de tensão comum causado pelas notas baixas ou pelas ameaças das professoras, mas algo mais vazio.
Zip, com seus cabelos curtos e atitude rebelde, chutava uma pedrinha de papel amassado enquanto andava pelo corredor leste. Ao seu lado, Edward ajustava os óculos, olhando para os lados com uma expressão de preocupação incomum.
— Já procuramos em todos os esconderijos dele — disse Zip, cruzando os braços. — Oliver não é de sumir assim sem avisar, especialmente quando tínhamos planejado sabotar os armários hoje.
— Eu verifiquei o estoque de materiais e até a cantina — Edward respondeu, segurando uma lanterna grande. — Ele não apareceu para a aula de matemática. Miss Circle parecia... irritada. Mais do que o normal.
— Se ele estiver pregando uma peça na gente, eu vou matar ele — resmungou Zip, embora sua voz traísse a ansiedade. — Oliver! Aparece logo, cara! Isso não tem graça!
Eles entraram em uma seção da escola que parecia ter sido esquecida. As luzes ali não funcionavam e as paredes de papel pareciam mais amareladas e gastas. Edward ligou a lanterna, o feixe de luz cortando a escuridão densa.
— Ele gosta de lugares sombrios, mas aqui? — Edward sussurrou, movendo a luz de um lado para o outro. — Está muito silencioso.
— Shh! — Zip parou de andar bruscamente, colocando a mão no ombro de Edward. — Você ouviu isso?
Eles ficaram estáticos. No início, apenas o som da ventilação distante era audível. Mas então, vindo de uma sala de armazenamento semiaberta no final do corredor, um som estranho ecoou.
— Mmmff... mmm-mmmff!
Era um som rítmico, abafado e carregado de esforço.
— É o Oliver! — Zip exclamou, começando a correr. — Oliver! Estamos indo!
Edward seguiu logo atrás, mantendo o foco da lanterna na direção do som. Eles empurraram a porta pesada da sala de armazenamento. O ar ali dentro cheirava a mofo e... sabonete?
Quando o feixe de luz de Edward finalmente estabilizou, os dois ficaram paralisados. O choque foi tão grande que Zip quase esqueceu como respirar.
Pendurado a alguns centímetros do chão, preso a uma viga de sustentação por uma rede complexa de cordas pretas e turquesas, estava Oliver. Seu traje preto e branco estava amarrotado, e seus longos cabelos brancos estavam emaranhados nas fibras pegajosas da corda. Ele estava completamente imobilizado, com os braços presos ao tronco e as pernas unidas. A mordaça turquesa brilhava sob a luz da lanterna, destacando o rosto de Oliver, que estava vermelho de exaustão e vergonha.
Assim que viu os amigos, os olhos de Oliver se arregalaram. Ele começou a se debater com nova energia, o corpo balançando para frente e para trás na armadilha.
— Mmmff! Mmmff! — ele gemia, os olhos implorando por socorro.
— Caramba, Oliver! — Zip finalmente recuperou a voz, correndo até ele. — O que aconteceu com você? Quem te deixou assim?
Edward aproximou-se com cautela, examinando a substância que prendia o amigo.
— Isso não parece papel... e nem cola comum — Edward observou, tocando levemente a corda e sentindo a viscosidade. — É quase orgânico. Oliver, tente ficar parado, vamos tirar você daí.
— Mmm-mmm! — Oliver balançou a cabeça freneticamente, apontando com os olhos para o canto escuro da sala, acima deles.
Zip parou de tentar puxar as cordas e olhou para Edward.
— Ele está tentando dizer algo — Zip sussurrou. — Edward, ilumina o teto. Agora.
Edward hesitou por um segundo, o coração batendo forte contra as costelas. Ele lentamente ergueu o feixe de luz da lanterna, subindo pelas paredes descascadas até chegar às vigas superiores.
Lá em cima, escondida entre as sombras e as teias de papel, algo se moveu. Não era uma professora, nem um aluno. Era uma massa de sombras com olhos que refletiam o turquesa das cordas, observando-os silenciosamente.
— Zip... — Edward recuou um passo, a mão trêmula. — Acho que não estamos sozinhos aqui.
Oliver emitiu um som mais alto, um grito abafado de puro terror, enquanto se debatia com mais força. Ele sabia que "aquilo" ainda estava lá. Ele tinha passado a noite inteira sendo vigiado por aquela coisa na escuridão.
— Não importa o que seja! — Zip exclamou, sacando um estilete de papel do bolso. — Eu vou tirar o Oliver daqui agora!
— Zip, espera! — Edward tentou segurá-la. — Pode ser uma armadilha!
Antes que Zip pudesse tocar nas amarras, um chicote daquela mesma corda turquesa desceu do teto, atingindo o chão a poucos centímetros de seus pés com um estalo seco.
— Mmmff! — Oliver fechou os olhos, tremendo.
— Quem está aí? — Zip gritou para a escuridão, assumindo uma postura de combate. — Apareça e lute como um... seja lá o que você for!
O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Apenas o som da respiração ofegante de Oliver e o zumbido da lanterna de Edward preenchiam a sala. Então, uma voz distorcida, que parecia o som de papel sendo rasgado, ecoou de todos os cantos ao mesmo tempo.
— Ele... é... meu... brinquedo... agora...
Zip e Edward se entreolharam, o horror estampado em seus rostos. Oliver, ainda amarrado e amordaçado, sentiu uma lágrima de frustração e medo escorrer por seu rosto, perdendo-se em sua longa cabeleira branca. Ele, o mestre das travessuras, o garoto que amava sabonete e não temia ninguém, estava agora à mercê de algo que a escola nunca deveria ter deixado entrar.
— A gente não vai embora sem ele! — Zip rugiu, avançando contra as sombras.
— Zip, não! — Edward gritou, mas já era tarde.
A luz da lanterna falhou por um instante, e no segundo seguinte, o caos se instalou na sala de armazenamento. Oliver só podia assistir, impotente, enquanto seus amigos lutavam contra o desconhecido para resgatá-lo de seu pesadelo pegajoso.