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Oliver

Sabão e Engrenagens: O Dilema de Oliver

A fábrica de papel era um lugar vasto, cheio de segredos e corredores que pareciam não levar a lugar nenhum, mas Oliver sempre dava um jeito de encontrar os cantos mais bizarros daquele complexo escolar distópico. Naquele dia, ele não estava acompanhado de Zip ou Edward. Ele queria um momento de paz para desfrutar de sua iguaria favorita: um belo e perfumado sabonete rosa.

Sentado em uma viga de metal enferrujada, Oliver balançava suas pernas vestidas com meias brancas, observando o movimento mecânico lá embaixo. Ele deu uma mordida generosa no sabonete, sentindo a textura cerosa e o gosto floral artificial que tanto amava. Sua língua bifurcada deslizou pelos lábios, capturando as bolhas que se formavam.

— Nada como um lanche da tarde para manter o foco — murmurou ele para si mesmo, a voz abafada pelo pedaço de sabão.

Abaixo dele, uma estranha linha de montagem operava em silêncio absoluto, exceto pelo som metálico das engrenagens. Alimentos de tamanho normal — maçãs, pães e bifes — passavam por uma esteira. No entanto, algo bizarro acontecia: conforme avançavam, os alimentos inchavam, ficando arredondados e "gordinhos", antes de passarem por uma enorme máquina de raio-X que emitia uma luz azulada e sinistra.

Oliver soltou uma risada anasalada, ajustando o laço preto em seu rabo de cavalo que chegava aos tornozelos.

— Que ridículo! — riu ele, apontando o braço de lápis para uma maçã que agora parecia uma bola de boliche. — Eles parecem que vão explodir a qualquer momento. Imagina se a Miss Circle visse isso? Ela ia querer fatiar todo mundo.

Ele se inclinou um pouco mais para frente, curioso para ver o que acontecia depois do raio-X. O movimento brusco fez com que seus longos cabelos brancos se enroscassem em uma polia que girava logo atrás dele.

— Ei! O que é... — Oliver não teve tempo de terminar a frase.

O puxão foi súbito. Ele perdeu o equilíbrio e, com um grito de surpresa, despencou da viga. Ele tentou cravar seu braço de lápis em alguma fresta, mas a gravidade foi mais rápida. O garoto caiu exatamente sobre a esteira em movimento, derrubando o que restava de seu sabonete rosa no abismo mecânico.

Antes que pudesse se levantar e sacudir a poeira de suas bermudas brancas, o maquinário reagiu à sua presença. Como se a fábrica tivesse vida própria, cordas brancas e rígidas, que pareciam feitas de um material sintético e duro, dispararam das laterais da esteira.

— Mas o que é isso?! — exclamou Oliver, tentando chutar as cordas. — Saiam de cima de mim!

As cordas eram rápidas e precisas. Em segundos, seus pulsos foram presos. Outra corda laçou seu tronco, imobilizando-o contra a superfície fria da esteira. Seus dedos, pernas e até mesmo seu braço de lápis foram fixados com uma força implacável. Ele se debateu, a marca de "A+" em seu cabelo brilhando sob as luzes industriais, mas quanto mais ele se movia, mais as cordas apertavam.

— Isso não tem graça! — gritou ele, a irritação substituindo o susto inicial. — Zip! Edward! Se isso for uma pegadinha de vocês, eu juro que vou...

Ele parou de falar quando viu o que estava à frente. Uma haste mecânica desceu do teto da esteira, segurando uma seringa branca e grossa, feita do mesmo material duro das cordas. Ela não continha líquido, mas parecia ser um bocal de enchimento, exatamente como os que ele vira sendo usados nos alimentos lá embaixo.

O pânico começou a subir pela garganta de Oliver. Ele olhou para a seringa que se aproximava lentamente de seu rosto.

— Espera, espera! — disse ele, tentando forçar um sorriso travesso para mascarar o medo. — Eu não sou comida! Eu sou um aluno! Um aluno nota dez, olha só o meu cabelo! Eu sou indigesto, eu juro! Eu só como sabão, meu estômago é pura química!

A máquina, desprovida de sentimentos ou ouvidos, ignorou o apelo. A seringa branca pressionou contra seus lábios. Oliver cerrou os dentes, mas a pressão era constante. Em um movimento mecânico frio, a seringa forçou a entrada em sua boca.

Oliver arregalou os olhos, o choque paralisando seus músculos por um instante. Ele tentou protestar, tentou morder o objeto, mas era impossível emitir qualquer som além de abafados ruídos de desconforto. Ele sentiu um fluxo de ar ou algum tipo de substância gasosa começar a preencher suas bochechas, forçando-o a inflar.

A esteira continuou a avançar. O próximo estágio era o temido raio-X.

Oliver sentiu o coração disparar contra as costelas. Ele sempre fora o provocador, aquele que ria da desgraça alheia ou pregava peças cruéis nos outros alunos. Estar naquela posição, vulnerável e sendo tratado como um objeto de teste, era um pesadelo que ele nunca imaginou viver.

— "Mmmph! Mmmph!" — Ele tentava dizer "Socorro", mas o som se perdia.

Ele entrou na câmara de raio-X. A luz azul o envolveu, e uma tela gigante ao lado da esteira mostrou sua estrutura interna. Oliver, mesmo em meio ao pânico, não pôde deixar de olhar. Ele viu seus próprios ossos, brancos e nítidos, e o pulsar acelerado de seu coração. O mais estranho era ver o contorno de seu corpo na tela começando a se arredondar, as bordas ficando curvas conforme a máquina de enchimento fazia seu trabalho.

Seu rosto esquentou instantaneamente. Uma onda de vergonha e medo o atingiu. O grande e temido Oliver, o braço direito das professoras mais perigosas da escola, estava prestes a ser transformado em um... bolinho?

— "Eu vou virar um bolinho..." — pensou ele, o rosto ficando vermelho de constrangimento. — "Um bolinho de sabão! Isso é humilhante!"

Ele imaginou Zip e Edward encontrando-o naquela forma, rolando pelo chão da fábrica como uma das maçãs que ele vira antes. A ideia de perder sua forma estilosa e sua agilidade para se tornar algo fofo e redondo era pior do que qualquer castigo da Miss Circle.

As luzes do raio-X piscavam, analisando cada centímetro de seu corpo. Oliver fechou os olhos com força, esperando o pior, sentindo a pressão interna aumentar enquanto a esteira o levava para o final da linha de produção, onde o destino final de todos os "bolinhos" o aguardava.