Oliver
O Eco do Lápis Quebrado
A escuridão do porão era espessa, cheia de um cheiro metálico de ferrugem e algo muito mais doce e enjoativo: sangue. Oliver sentiu o frio do metal contra seus pulsos e tornozelos antes mesmo de conseguir abrir os olhos completamente. Sua cabeça latejava, um eco rítmico da pancada e do tranquilizante que Engel havia aplicado em seu pescoço horas antes. Onde estava o valentão da escola agora? Onde estava o garoto que comia sabonetes e ria do sofrimento alheio?
Ele tentou se mexer, mas o rangido da estrutura de metal sob ele confirmou o pior: ele estava preso a uma cama velha, imobilizado. Oliver tentou gritar, mas apenas um som abafado e desesperado saiu de sua garganta. Havia uma fita adesiva larga e áspera selando seus lábios. Seus olhos se arregalaram, percorrendo o vazio da escuridão, procurando por qualquer sinal de movimento. O pânico começou a subir por seu peito como uma maré gelada.
— Mmmph! Mmmph! — Ele se debateu, os músculos do corpo tensionados ao limite, mas as cordas e as travas eram firmes demais.
De repente, um som de passos lentos e calculados ecoou pelas escadas de madeira. O rangido era rítmico, quase calmo. Uma luz fraca de uma lanterna de mão cortou o breu, revelando a silhueta de Engel. Mas não era o Engel que todos conheciam. Não era o garoto gentil que protegia os alunos e distribuía sorrisos amigáveis. Suas penas azuis e vermelhas pareciam mais escuras sob a luz fraca, e seus olhos carregavam uma frieza que Oliver nunca imaginou que ele pudesse possuir.
Engel parou ao lado da cama, observando o terror nos olhos de Oliver com uma expressão de satisfação maliciosa. Ele estendeu a mão e, com um movimento brusco, arrancou a fita da boca do outro.
— Aaaaah! — Oliver soltou um grito rouco, seguido por uma tosse violenta. O ar entrou em seus pulmões de forma dolorosa. — O que... o que você pensa que está fazendo, seu idiota?! Me solta agora!
Engel não respondeu de imediato. Ele apenas inclinou a cabeça, observando as mechas brancas do cabelo de Oliver espalhadas pelo travesseiro sujo. Com uma lentidão torturante, Engel estendeu os dedos pontiagudos e começou a mexer no cabelo de Oliver, enrolando uma mecha no dedo.
— Você achou que seria engraçado, não foi? — a voz de Engel era um sussurro aterrorizante. — Ver a Claire morrer... ver o medo nos olhos dela. Você achou que o mundo era o seu parquinho de diversões, Oliver.
— Cale a boca! — Oliver rosnou, tentando morder a mão de Engel quando ela passou perto demais de seu rosto. — Ela era fraca! Todo mundo naquela escola é fraco, menos eu!
O estalo do tapa ecoou pelo porão. A cabeça de Oliver virou para o lado com o impacto, e o gosto de sangue inundou sua boca. Engel não tinha usado força total, mas o gesto foi carregado de um desprezo que doeu mais do que o golpe físico.
— Não tente me morder de novo — avisou Engel, sua voz ainda calma, o que era muito mais assustador do que se ele estivesse gritando. — Você perdeu o direito de latir.
Engel deslizou a mão para baixo, tocando o tecido da camisa preta de Oliver. O valentão estremeceu, sentindo o toque frio dos dedos de Engel sobre o losango no centro de seu peito.
— Não encosta em mim... — Oliver sussurrou, a voz falhando pela primeira vez. — Não toca na minha camisa.
— Por que não? — Engel perguntou, pressionando a palma da mão contra o peito de Oliver, exatamente onde o machado havia atingido momentos antes de ele apagar, ou onde a dor da vingança de Engel mais ardia. — Você não gosta de sentir o que os outros sentem?
Engel apertou com força uma das feridas que ainda sangrava sob o tecido. Oliver soltou um grito de dor lancinante, arqueando as costas contra a cama. As lágrimas começaram a arder em seus olhos, não apenas pela dor física, mas pelo trauma de ver sua posição de poder ser completamente destruída. Ele, o mestre das pegadinhas cruéis, agora era a vítima.
— Por favor... para... — Oliver implorou entre dentes.
Engel se afastou um pouco e pegou algo que estava sobre uma mesa próxima. Era um pedaço de sabonete, o lanche favorito de Oliver. Ele segurou o objeto na frente do rosto do garoto amarrado. Por um momento, o instinto de Oliver falou mais alto; ele estava com fome, exausto e em choque. Ele abriu a boca, esperando o conforto familiar do sabor químico.
No entanto, assim que Oliver se inclinou para morder, Engel puxou o sabonete de volta, rindo baixinho.
— Você não merece nem isso — disse Engel, jogando o sabonete no chão sujo. — Você vai ficar com o gosto do seu próprio sangue na boca por um bom tempo.
Oliver rosnou de frustração, seus olhos faiscando de ódio e impotência. Ele olhou para o próprio braço direito, ou o que restava dele. O lápis gigante, sua marca registrada e sua ferramenta de intimidação, estava partido ao meio, estilhaçado pelo machado de Engel durante o confronto anterior. Ver sua "arma" destruída era como ver sua própria alma quebrada.
— Você é um monstro — Oliver cuspiu as palavras.
— Eu aprendi com o melhor — retrucou Engel, aproximando-se dos pés da cama.
Ele tocou a bota preta de Oliver, deslizando os dedos pelo couro e subindo levemente para a canela. O toque era estranhamente suave em comparação com a violência de antes. Oliver sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Suas bochechas arderam em um tom de vermelho involuntário, uma mistura de raiva, vergonha e uma confusão emocional que ele não conseguia processar.
— O que você quer de mim? — perguntou Oliver, a voz trêmula. — Você já me machucou, já quebrou meu lápis... o que mais você quer?
Engel se inclinou sobre ele, o rosto a poucos centímetros do de Oliver. A luz da lanterna criava sombras profundas em suas feições, fazendo-o parecer uma entidade de pesadelo vinda diretamente das páginas de um caderno de desenho rasgado.
— Eu quero que você se lembre da Claire toda vez que fechar os olhos — disse Engel. — Eu quero que você sinta o medo que ela sentiu. Isso não é apenas uma vingança, Oliver. É uma lição. E na Paper School, você sabe o que acontece com quem tira nota baixa, não sabe?
Oliver tentou desviar o olhar, mas Engel segurou seu queixo com firmeza, forçando-o a encarar a escuridão em seus olhos. O valentão, o garoto travesso que sempre tinha uma piada pronta, estava agora reduzido a um monte de nervos expostos, sujo de sangue e traumatizado pela inversão de papéis.
— Você vai ficar aqui por um tempo — continuou Engel, voltando a pegar a fita adesiva. — E cada vez que eu descer essas escadas, você vai se perguntar se é o dia em que eu vou terminar o que comecei com aquele machado.
— Não! Espera! — Oliver tentou gritar, mas a fita foi aplicada novamente, silenciando seus protestos.
Engel deu um tapinha leve na bochecha de Oliver, um gesto de carinho distorcido que fez o coração do outro disparar de pavor. Ele se levantou, pegou a lanterna e caminhou em direção à escada. Antes de subir o primeiro degrau, ele parou e olhou para trás.
— Durma bem, Oliver. Se conseguir.
A luz desapareceu quando a porta do porão foi fechada e trancada. Oliver ficou sozinho no silêncio absoluto, sentindo o aperto das cordas e o latejar de suas feridas. Ele olhou para o teto invisível, as lágrimas finalmente escorrendo e molhando a borda da fita em sua boca. O troco havia sido dado, e o preço era muito mais alto do que ele jamais imaginou que pagaria.