Oliver
Espuma, Sedativos e Amarras
Os corredores monocromáticos da Paper School estavam surpreendentemente calmos naquele final de tarde. A luz que entrava pelas janelas retangulares desenhava sombras geométricas perfeitas no chão liso, criando um contraste nítido com a silhueta esguia que caminhava sem pressa alguma. Oliver desfilava como se fosse o dono absoluto de cada centímetro daquele colégio — e, para todos os efeitos práticos, ele realmente acreditava que era.
Com um sorriso descontraído e travesso no rosto pálido, ele levava à boca o que qualquer outra pessoa consideraria um veneno, mas que para ele era a melhor das iguarias: uma barra de sabonete azul-claro com cheiro floral, salpicada com pequenos fragmentos brilhantes de lâminas de barbear descartadas. A textura cremosa combinada com a crocância metálica das lâminas fazia com que ele mastigasse com visível prazer, emitindo estalos baixos enquanto o gosto amargo e espumoso preenchia suas papilas.
Seus longos cabelos brancos, que desciam em uma cascata impecável até a altura dos tornozelos, balançavam suavemente a cada passo, amarrados na ponta por um laço preto elegante. No alto da cabeça, a mecha rebelde e espetada apontava para o teto como uma antena de pura petulância, flanqueada pelos chifres pretos curvos que lhe conferiam um ar demoníaco e jovial ao mesmo tempo. No lado direito dos fios alvos, a marca vermelha em forma de "A+" reluzia com orgulho. Ele ajeitou a gola da camisa preta com listras brancas, batendo levemente a ponta pontiaguda do seu braço esquerdo — um lápis gigante de grafite escuro — contra a própria coxa coberta pela bermuda branca.
Oliver estava de bom humor. Havia acabado de pregar uma peça em um dos alunos novatos do corredor B, trancando os cadernos do coitado no duto de ventilação, e agora procurava por Zip e Edward para bolar o próximo plano caótico antes do toque de recolher.
O que ele não esperava era que um de seus cúmplices já estivesse logo atrás dele.
Sem qualquer aviso, sem sequer o ranger característico de passos sobre o piso encerado, uma presença surgiu às suas costas. Antes que Oliver pudesse virar a cabeça ou brandir seu braço de lápis em defesa, um braço passou com firmeza ao redor de seus ombros, e uma mão enluvada tapou sua boca com força esmagadora, abafando instantaneamente o riso que começava a se formar.
No segundo seguinte, uma dor aguda e fria perfurou a lateral do seu pescoço.
— Mmmph?! — gemeu Oliver, os olhos arregalando-se em choque absoluto.
Uma seringa de vidro com um êmbolo de metal havia sido esvaziada em sua corrente sanguínea com precisão cirúrgica. O líquido transparente queimou por uma fração de segundo antes de começar a se espalhar como chumbo derretido por seus músculos.
Oliver debateu-se frenamente. Suas botas pretas escorregaram no chão, tentando encontrar apoio, e ele tentou golpear o agressor com a ponta afiada de seu lápis. No entanto, o atacante conhecia perfeitamente seus movimentos e segurou seu pulso com força mecânica, torcendo-o com destreza suficiente para neutralizar o contra-ataque.
— Fica quieto, Oliver — sussurrou uma voz bastante familiar e irritantemente calma perto de seu ouvido. — Não desperdice sua energia. A dosagem foi calculada para derrubar alguém com o dobro da sua massa corporal.
Era Edward.
— Mmph! Hnngh... mph! — Oliver tentou gritar, a voz completamente abafada pelos dedos firmes do amigo.
O pânico e a indignação misturavam-se em seu peito. Por que diabos Edward estava atacando-o? Aquilo era uma brincadeira? Uma traição? Oliver tentou morder a mão que cobria seus lábios, mas a espuma residual do sabonete que ainda mastigava apenas escorregou inutilmente pela luva de Edward. Ele estrebuchou, debatendo as pernas compridas cobertas pelas meias brancas, mas o mundo ao seu redor começou a girar em uma espiral nauseante.
— Shh... — Edward continuou, sem demonstrar a menor raiva, apenas uma frieza metódica. — Vai ser rápido. Apenas durma.
A força dos membros de Oliver evaporou em questão de segundos. A mecha pontiaguda no topo de sua cabeça tombou para o lado, as pálpebras pesaram como blocos de concreto e o som do próprio coração soou abafado e distante. Ele tentou lutar contra a escuridão, tentou franzir a testa em descontentamento, mas o sedativo foi impiedoso. Seu corpo amoleceu completamente, e ele desabou nos braços do inventor antes de perder de vez a consciência.
Edward soltou um suspiro de alívio ao sentir o peso inerte do albino. Olhou para os dois lados do corredor vazio, certificando-se de que nenhum professor — especialmente Miss Circle — havia presenciado a emboscada. Com rapidez e discrição dignas de quem planejava aquilo há dias, ele recolheu o corpo de Oliver, passando os braços do amigo desmaiado por cima dos próprios ombros para arrastá-lo pelas saídas de emergência dos fundos da escola.
O trajeto até a casa de Edward foi tenso, mas deserto. A residência do garoto genial ficava a poucas quadras de distância da Paper School, um sobrado cinzento cuja garagem havia sido totalmente convertida em uma oficina clandestina repleta de ferramentas de precisão, cabos soltos, engrenagens e cheiro penetrante de óleo de motor e papel queimado.
Edward jogou Oliver sobre uma cadeira pesada de madeira maciça, posicionada bem no centro do cômodo, sob o foco direto de uma lâmpada suspensa. O corpo do albino escorregou para o lado, mas Edward o endireitou com cuidado meticuloso.
— Muito bem... agora, as precauções necessárias — murmurou Edward para si mesmo, pegando vários rolos de corda de náilon grossa em uma das prateleiras metálicas.
Com nós firmes e técnicos, Edward amarrou os tornozelos de Oliver nas pernas dianteiras da cadeira, garantindo que suas botas ficassem presas sem folga alguma. Em seguida, passou várias voltas da corda pelo tronco do garoto, prendendo-o contra o espaldar alto. O braço comum de Oliver foi atado ao apoio de braço direito; já o esquerdo — a temível haste de lápis — recebeu atenção redobrada. Edward enrolou camadas extras de amarras ao redor do grafite afiado, imobilizando-o completamente contra a estrutura de madeira para evitar qualquer risco de perfuração caso Oliver tentasse quebrar o móvel.
Os longos cabelos brancos de Oliver, que desciam até o chão como uma toalha de seda, foram puxados para trás do encosto para que não ficassem embaraçados nas cordas, mantendo o laço preto intocado.
Edward deu um passo para trás e contemplou o trabalho. Ele estava quase satisfeito, mas sabia que faltava o elemento mais importante. O detalhe crucial.
Abrindo uma gaveta de metal com uma etiqueta desbotada, Edward tirou uma peça que brilhava sob a lâmpada: uma mordaça de bola de borracha vermelha e densa, presa a tiras largas de couro preto com fivelas prateadas de metal.
Ele sabia muito bem que, apesar de toda a pose de valentão intimidador e inabalável que Oliver exibia na escola, aquele objeto específico despertava no albino um pavor genuíno. Oliver detestava a sensação de sufocamento forçado, a incapacidade de usar sua boca — que servia tanto para mastigar objetos cortantes quanto para zombar cruelmente dos outros —, e a humilhação completa de ter a mandíbula travada aberta.
Edward aproximou-se do amigo desacordado. Com uma das mãos, pressionou as bochechas pálidas de Oliver, forçando seus lábios a se abrirem, revelando dentes levemente manchados pela pasta do sabonete que ainda não havia sido completamente engolido. Sem hesitar, Edward empurrou a esfera vermelha para dentro da cavidade oral do albino, preenchendo o espaço até o fundo e empurrando a língua para baixo.
Oliver soltou um gemido reflexo e inconsciente, tossindo fracamente no estado de torpor enquanto a borracha fria tomava conta de sua boca. Edward puxou as correias de couro ao redor da nuca do garoto, passando-as por baixo dos cabelos brancos e ajustando a fivela com firmeza no último furo possível.
— Perfeito — disse Edward, guardando a ponta solta da correia. — Agora sim podemos conversar quando você acordar.
O inventor sentou-se em uma banqueta próxima, cruzando os braços e esperando pacientemente os efeitos do tranquilizante diminuírem.
Cerca de vinte minutos se passaram até que a mecha rebelde no topo da cabeça de Oliver desse o primeiro sinal de vida, tremendo levemente. Em seguida, os dedos de sua mão direita se contraíram. As pálpebras brancas tremeram, e os olhos pretos e expressivos de Oliver se abriram devagar, semicerrados contra o brilho incômodo da lâmpada pendurada acima de sua cabeça.
A princípio, havia apenas confusão. Ele tentou piscar para afastar a névoa mental, sentindo a cabeça latejar com a ressaca química da injeção. Tentou esticar as costas, mas não conseguiu se mover nem um milímetro.
Foi então que o choque de realidade o atingiu em cheio.
Ao tentar abrir a boca para xingar ou perguntar onde diabos estava, sentiu o volume denso e intransponível de borracha sólida travando seus maxilares. O couro grosso puxava suas bochechas para trás, e sua língua estava completamente imobilizada sob a pressão do objeto. O cheiro de látex misturado ao gosto doce e químico do sabonete invadiu suas narinas, ativando imediatamente seu reflexo de vômito e uma onda súbita de pânico.
— Mmmph! N-mmgh! — gemeu ele, os olhos se arregalando desmedidamente.
Oliver começou a debater-se com violência. Puxou os braços contra as amarras de náilon, mas o lápis gigante em seu braço esquerdo estava rigidamente colado à madeira, sem ângulo para alavanca. Suas pernas chutaram contra os pés da cadeira, fazendo a estrutura pesada trepidar contra o concreto do chão com batidas secas. O suor frio começou a brotar em sua testa pálida, fazendo com que alguns fios de sua franja colassem na pele.
Aquele objeto... ele odiava aquilo mais do que qualquer coisa no mundo. Estar preso já era ruim, mas estar silenciado daquela forma era um pesadelo sufocante.
— Olha só quem resolveu voltar para o mundo dos despertos — soou a voz debochada à sua frente.
Oliver ergueu os olhos com fúria flamejante. Edward estava sentado ali, rodando uma chave de fenda entre os dedos longos, com uma expressão absolutamente tranquila no rosto, ajustando seus óculos com a outra mão.
— Hmph! Mmm-mrrgh! Mmph-aah! — Oliver rugiu contra a mordaça, as veias de seu pescoço saltando pela força que fazia para tentar articular palavras inteligíveis.
Seus olhos fuzilavam Edward. Se olhares pudessem queimar, o inventor teria virado cinzas naquele exato instante.
— Não precisa gastar a sua garganta, Oliver — disse Edward, levantando-se da banqueta e caminhando calmamente ao redor da cadeira. — Você sabe tão bem quanto eu que essa mordaça é feita para não deixar escapar nada além de murmúrios patéticos. E, sinceramente? É até relaxante ver você quieto por alguns minutos. Você fala demais quando estamos planejando pegadinhas.
Oliver continuou a se retorcer, o peito subindo e descendo com rapidez descompassada. A respiração saía ofegante e ruidosa pelo nariz, única via de ar disponível. Ele tentou cuspir a esfera de borracha, contraindo os músculos da garganta, mas as tiras de couro estavam apertadas com perfeição sádica. A saliva acumulada começou a escorrer pelo canto de sua boca, molhando a borracha vermelha e pingando sobre a gola da sua camisa preta.
Edward parou bem diante dele, inclinando-se para ficar na mesma altura dos olhos aterrorizados e furiosos de Oliver.
— Você deve estar se perguntando o porquê de tudo isso, não é? — perguntou Edward com uma sobrancelha arqueada. — Pois bem. Considere isso uma pequena intervenção científica. Primeiro: eu precisava testar a eficácia da nova fórmula do meu sedativo em um organismo que ingere toxinas diariamente, como você e suas loucuras gastronômicas de sabão e aço. E devo dizer... funcionou perfeitamente. Três segundos cravados até a perda total de consciência motora.
Oliver sacudiu a cabeça bruscamente de um lado para o outro, os chifres pretos cortando o ar em protesto silencioso. Seus dentes tentavam ranger contra o plástico da bola, e seus olhos imploravam por libertação ao mesmo tempo em que prometiam vingança sangrenta.
— Segundo — continuou Edward, erguendo o dedo indicador —, você estragou o meu protótipo de lançador de papel na semana passada quando decidiu usá-lo para atirar pedras na janela da sala dos professores. Eu disse para não mexer naquilo, mas você nunca escuta ninguém, não é?
— Mmmph! Nh-nnngh! — protestou Oliver, forçando as cordas do braço direito até que sua pele ardesse pelo atrito.
— Pois é. Agora você é meu ouvinte cativo — disse Edward, com um sorriso satisfeito cruzando os lábios. — E você vai ficar exatamente aí, amarradinho e de boca fechada, até eu terminar de recalibrar todas as minhas ferramentas. A Zip nem desconfia onde você está. Aliás, ela achou que você tinha ido matar aula no telhado como sempre faz.
O desespero de Oliver aumentou ao ouvir aquilo. Zip não viria resgatá-lo. Ele estava completamente à mercê do amigo cientista, preso em uma cadeira dentro de uma oficina fechada, incapaz de lutar, incapaz de gritar, e tendo seu maior ponto fraco explorado sem piedade.
Edward estendeu a mão e deu dois tapinhas leves na bochecha de Oliver, que rosnou por trás da bola de borracha, tentando inutilmente morder os dedos do agressor.
— Bom garoto — zombou Edward, afastando a mão e voltando para sua bancada de trabalho. — Agora relaxe. Quanto mais você se debate, mais essa correia aperta contra sua mandíbula. Respire fundo pelo nariz e aproveite o silêncio. Você raramente tem a chance de ficar quieto.
Oliver fechou os olhos com força por um momento, sentindo as lágrimas de raiva e frustração arderem nos cantos de suas pálpebras. O som metálico das ferramentas de Edward começou a ecoar pela garagem silenciosa.
Ele era o valentão da Paper School, o garoto intocável que ria do medo dos outros nos corredores. Mas ali, sob a luz amarela da lâmpada, indefeso e amordaçado pelas mãos de seu próprio melhor amigo, Oliver sabia que a tarde seria muito, muito longa.