Oliver!!:3
Entre Cordas e Papel Rasgado
O gosto amargo de borracha sintética e couro misturava-se de forma desagradável com o resíduo químico do sabonete que Oliver ainda tinha na garganta antes de apagar. A boca ardia, esticada de maneira implacável pela esfera vermelha que preenchia quase toda a sua cavidade bucal, forçando sua mandíbula a permanecer aberta em um ângulo doloroso. Fios espessos de saliva escorriam sem controle pelos cantos de seus lábios pálidos, pingando lentamente sobre a superfície gélida de metal onde ele se encontrava estirado de bruços, completamente imobilizado.
As cordas grossas que Edward havia usado estavam impecavelmente atadas, cruzando-se em nós complexos que pressionavam seus ombros para trás e prendiam seus braços firmemente contra a coluna. Até mesmo seu braço esquerdo — a longa haste de grafite e madeira afiada — fora envolvido por voltas e mais voltas de sisal pesado, anulando qualquer possibilidade de ele usá-lo como arma ou alavanca. Suas pernas compridas, com as meias brancas agora manchadas de poeira do chão daquele laboratório esquecido da Paper School, estavam travadas com correias de ferro nos tornozelos.
Oliver soltou um rugido abafado, debatendo-se com tanta força que o metal da mesa rangeu num lamento estridente. Seus chifres negros bateram contra a superfície dura e a grande mecha rebelde de seu cabelo branco chicoteou de um lado para o outro.
— Mmmff! Mmm-rrrgh! — os sons saíam deformados, úmidos e completamente ininteligíveis através do bloqueio da mordaça.
A alguns passos dali, Edward apenas ajustava os óculos sobre a ponta do nariz triangular, segurando uma pequena chave inglesa com a mão enluvada. O rapaz inventor mantinha um sorriso sereno, quase acadêmico, observando a frustração do amigo como se estivesse apenas monitorando uma reação química que seguia exatamente o planejado.
— Calminha, Oliver — disse Edward, aproximando-se sem a menor pressa, batendo a ponta da ferramenta metálica contra a borda da mesa com um som oco. — Gastar energia agora só vai fazer suas articulações doerem mais tarde. E você sabe muito bem como eu odeio quando minhas cobaias estragam a integridade dos materiais antes do teste principal terminar.
Oliver arregalou os olhos vermelhos, chispando puro ódio. Suas pupilas tremiam enquanto ele tentava erguer o queixo molhado, emitindo outro murmúrio furioso que soava como uma promessa de despedaçar Edward no momento em que colocasse as mãos nele.
Edward simplesmente riu baixo, uma risadinha seca e abafada, estendendo o indicador e repousando-o com calma sobre a bola vermelha que tapava a boca de Oliver, empurrando-a levemente para dentro apenas para arrancar mais um arquejo desesperado e sufocado do valentão.
— Shh... — Edward sussurrou, colocando o outro dedo diante dos próprios lábios. — Guarde a voz, amigão. Porque o segundo ato está prestes a começar.
Como se o destino respondesse à provocação meticulosamente calculada de Edward, passos rápidos e descompassados começaram a ecoar do lado de fora, no corredor escuro e silencioso daquela ala abandonada da escola.
***
Zip estava furiosa, mas, acima de tudo, inquieta.
Ela já havia revirado os armários do corredor principal, olhado atrás da sala de música e até espiado no pátio onde os alunos mais fracos costumavam se esconder de suas pegadinhas habituais. Nada. Nenhum sinal de Oliver. E isso não fazia o menor sentido. Eles tinham planos para aterrorizar os novatos antes do sinal tocar novamente, e Oliver jamais perderia uma oportunidade dessas sem um bom motivo. A única pista que ela encontrara minutos antes fora uma barra de sabonete azul pela metade, abandonada de forma descuidada no chão de cerâmica, com marcas de mordidas frescas.
— Aquele idiota... — murmurou Zip para si mesma, ajustando as asas pontiagudas de papel nas costas e balançando a cauda em um ritmo impaciente. — Onde é que ele se meteu? Se ele foi devorar produtos de limpeza no porão sem mim, eu juro que quebro aquele lápis dele em dois.
Seus passos a levaram cada vez mais fundo nas entranhas da escola, onde a iluminação falhava com frequência, piscando em lâmpadas fluorescentes que zumbiam como mosquitos elétricos. Ela parou diante de uma porta de madeira pesada, com uma placa de metal torta onde se lia apenas "Almoxarifado B". A porta estava entreaberta, deixando escapar uma fresta mínima de luz alaranjada e um cheiro estranho de poeira antiga misturada a metal enferrujado.
Com uma carranca decidida, Zip empurrou a porta com o pé, pronta para despejar uma torrente de insultos.
— Ei, cabeça de vento! Você por acaso esqueceu que nós tínhamos—
A frase morreu instantaneamente em sua garganta.
A imagem diante de seus olhos fez com que todo o sangue parecesse sumir de seu rosto de papel. A arrogância habitual de Zip esvaiu-se num piscar de olhos, substituída por um choque tão profundo que seus joelhos quase cederam.
No centro da sala escura e abarrotada de caixas, iluminada apenas por uma lâmpada pendurada por um fio descascado, estava Oliver. O maior valentão da escola, o rapaz temido que zombava de todos sem piedade, estava estirado sobre uma fria mesa de dissecação. As cordas afundavam em suas roupas, seus braços estavam vergonhosamente amarrados às suas costas, e sua boca aberta era dominada por uma tira de couro grosso com uma esfera escarlate reluzente de saliva, impedindo qualquer articulação.
— O-Oliver...? — balbuciou ela, dando um passo trôpego para trás, os olhos dilatados pelo horror da cena grotesca. — O que... o que diabos é isso?!
Ao ouvir a voz da amiga, a cabeça de Oliver disparou para o lado. Os olhos dele encontraram os dela com uma urgência aterrorizada. Ele começou a se debater violentamente, as correntes nos pés chacoalhando, a garganta emitindo grunhidos desesperados:
— Mmmph! Nnnoo! Hhh-run! Mmmff-out!
Ele não estava pedindo socorro para si mesmo; estava mandando ela correr. Mas o aviso chegou tarde demais.
Uma sombra deslocou-se suavemente da escuridão logo atrás da porta que Zip acabara de abrir. Não houve barulho de sapatos contra o concreto, apenas a frieza repentina de uma presença que se aproximava com precisão cirúrgica.
Antes que a garota pudesse sequer virar a cabeça para a saída, um hálito gélido tocou a lateral de seu pescoço.
— Você demorou mais do que eu calculei, Zip — sussurrou Edward diretamente em seu ouvido.
O som daquela voz conhecida, mas tingida por um tom sinistro e desprovido de qualquer calor amigável, fez o corpo de Zip congelar por completo. Um calafrio violento desceu por sua espinha, travando seus músculos em um estado de paralisia pura. Seus pulmões esqueceram como puxar o ar.
Ela tentou girar o corpo, tentou puxar as garras para se defender, mas Edward agiu em uma fração de segundo. Com um movimento incrivelmente rápido e calculado, ele envolveu os ombros dela por trás com uma braçadeira de couro reforçado, puxando-a contra o próprio peito enquanto aplicava um golpe certeiro na parte de trás dos seus joelhos.
Zip tombou sem equilíbrio, soltando um arquejo assustado. Ao olhar para cima, tudo o que encontrou foi a silhueta de Edward pairando sobre ela. O reflexo da lâmpada branca nos óculos redondos ocultava completamente seus olhos, deixando à mostra apenas um sorriso afiado, largo e perturbadoramente pontiagudo.
Um riso baixo, quase abafado, escapou da garganta de Edward enquanto ele segurava os pulsos dela com uma força descomunal que ela nunca imaginara que ele tivesse.
— Não precisa ficar com ciúmes do Oliver — disse Edward, com uma calma enervante enquanto estalava os nós dos dedos da outra mão. — Eu reservei um lugar especial para você. Exatamente onde você sempre pertenceu: junto com ele.
***
O metal da mesa emitiu um rangido agonizante quando o peso de Zip foi arremessado sem delicadeza por cima de Oliver.
Oliver soltou um urro surdo e sufocado através da mordaça quando o corpo dela colidiu contra suas costas amarradas. As tiras de couro que já o prendiam foram reforçadas em questão de minutos, enquanto Edward trabalhava com uma eficiência assustadora, enrolando cordas ainda mais grossas ao redor do torso de ambos, entrelaçando Zip diretamente sobre Oliver de modo que seus peitos e barrigas ficassem pressionados um contra o outro, costas com costas, em um emaranhado de nós impossível de desatar.
— Tire as mãos de mim, seu quatro-olhos desgraçado! — berrou Zip, debatendo-se com unhas e dentes, tentando usar a cauda para chicotear o rosto de Edward. — Quando eu me soltar daqui, eu vou arrancar cada pedaço de papel do seu corpo e jogar na privada! Eu vou—
Suas ameaças foram bruscamente interrompidas.
Com uma frieza mecânica, Edward agarrou Zip pelo queixo com uma das mãos, apertando suas bochechas até forçar seus lábios a se separarem. Com a outra mão, ele retirou de um bolso do jaleco um segundo arnês idêntico ao de Oliver: tiras de couro preto e uma bola escarlate brilhante e imensa.
— Vamos economizar suas promessas vazias para depois — disse ele em tom doce e zombeteiro.
— N-não! Saia de perto de m— mmph!
Num empurrão certeiro e impiedoso, a esfera de borracha deslizou para dentro da boca de Zip. A garota engasgou pelo choque repentino da invasão, sentindo a língua ser esmagada contra o assoalho da boca enquanto a esfera preenchia todo o espaço disponível. Com movimentos rápidos e treinados, Edward puxou a tira de couro por trás da nuca dela, afivelando-a no último furo e trancando o fecho com um clique metálico definitivo.
Zip arregalou os olhos em puro desespero. O gosto salgado do próprio medo misturava-se ao plástico grosso. Ela tentou cuspir a mordaça, forçando o queixo, mas a tira estava tão esticada que afundava nas maçãs do seu rosto, impedindo qualquer movimento mandibular. Um fino filete de saliva logo começou a escorrer, espelhando exatamente a situação humilhante em que Oliver já se encontrava.
— Mmmff! Hrrnggh! — Zip contorceu-se inteira, a cabeça sacudindo em protesto mudo, os laços da mordaça puxando seus cabelos.
Abaixo dela, Oliver tentava a todo custo elevar os ombros para aliviar o peso que esmagava seus braços atados, mas tudo o que conseguia era esfregar o rosto molhado contra o metal enferrujado, emitindo sons de agonia furiosa em resposta aos protestos abafados da amiga.
Edward deu três passos para trás, cruzou os braços sobre o peito e inclinou ligeiramente a cabeça, apreciando a composição como um pintor diante de sua obra de arte mais inspirada.
— Vejam só vocês dois — zombou ele, caminhando em círculos lentos ao redor da mesa. — Os grandes terrores da Paper School. Os implacáveis valentões que passam o dia quebrando os lápis dos outros e rindo no fundo da sala. Onde foi parar toda aquela pose agora, hm?
Oliver lançou-lhe um olhar que prometia morte lenta, cuspindo sons distorcidos contra a esfera:
— Mmm-ggh! Dd-ward! Kk-lll you!
— O que disse, Oliver? — Edward aproximou o ouvido, fingindo grande esforço para escutar. — Quer outro pedaço de sabão? Receio que a cozinha esteja fechada para o jantar hoje.
Zip continuava a espernear, batendo os pés descalços contra a borda inferior da estrutura de metal. O barulho oco dos impactos pareceu chamar a atenção do inventor. Edward parou bruscamente ao lado dos pés dela, olhando para baixo com uma expressão curiosa e pensativa.
Sem dizer uma única palavra, Edward abaixou-se lentamente.
Zip congelou instantaneamente ao notar a aproximação inusitada, interrompendo seus movimentos enquanto os olhos se arregalavam até o limite.
Edward segurou suavemente a curva dos tornozelos da garota com uma mão enluvada, impedindo-a de se mover. Então, de maneira vagarosa e completamente desprovida de vergonha, inclinou o corpo e repousou a lateral do próprio rosto contra os peitos dos pés dela, sentindo a textura fina do papel e a rigidez do pânico que emanava de sua pele. O contato durou apenas alguns segundos angustiantes, mas para Zip pareceu uma eternidade congelada no tempo, um gesto bizarro e humilhante que ela não conseguia processar ou repelir.
Oliver percebeu a cena pelo canto do olho e debateu-se com fúria renovada, sacudindo a mesa inteira e soltando rugidos estrangulados:
— HHH-RRRGH! GET-OFF! MMMM-FFF!
Edward finalmente ergueu o rosto, com uma expressão quase entediada, soltando uma risada curta pelo nariz enquanto limpava uma poeira invisível de suas bochechas.
— Tão previsíveis... — comentou ele em voz baixa, dando as costas aos dois e caminhando em direção à saída da sala.
Ao alcançar a porta, ele parou com a mão estendida sobre o interruptor de luz. O brilho da lâmpada descascada projetava uma sombra longa de sua silhueta magra contra o chão empoeirado.
— Vocês deveriam descansar um pouco — disse Edward, sem se dar ao trabalho de virar o rosto para trás. — A noite vai ser bastante longa por aqui, e nós ainda temos muitos experimentos para conduzir amanhã cedo. Tentem não se morder aí em cima.
Com um estalo seco, o interruptor foi desligado.
A escuridão total engoliu a sala instantaneamente, deixando apenas a respiração entrecortada e desesperada dos dois prisioneiros ecoando no vazio.
O som da pesada porta de madeira batendo contra o batente reverberou pelo cômodo, seguido pelo estalo metálico e definitivo de uma tranca correndo pelo lado de fora. Passos lentos e ritmados afastaram-se pelo corredor até sumirem completamente no silêncio da Paper School.
No breu impenetrável do almoxarifado, restaram apenas Oliver e Zip. Presos um contra o outro, amarrados em nós apertados demais para ceder e silenciados pelas mesmas esferas de borracha que continuavam a sufocar suas palavras, os dois antigos algozes compartilhavam o calor desconfortável de seus corpos imobilizados e o som rítmico de suas salivações pesadas, incapazes de fazer qualquer coisa além de esperar pelo que Edward planejara para o amanhecer.