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Oliver x ∆lice

Sombras de Papel e Sussurros Escuros

Os corredores da Paper School estavam mergulhados em um silêncio incomum, quebrado apenas pelo eco abafado de passos apressados. As paredes feitas de folhas pautadas pareciam vibrar com uma tensão invisível. Oliver caminhava com as mãos nos bolsos da bermuda branca, exibindo aquele sorriso despreocupado que sempre irritava os professores e deixava os outros alunos em estado de alerta.

Em sua boca, havia um pedaço de sabonete de lavanda que ele mastigava distraidamente, como se fosse o doce mais refinado do mundo. Seus longos cabelos brancos balançavam suavemente perto dos tornozelos, presos no habitual rabo de cavalo baixo com laço escuro. O braço esquerdo, terminado naquele lápis apontado de grafite escuro, balançava em ritmo cadenciado.

Edward e Zip haviam ficado para trás, rindo de alguma pegadinha idiota perto dos armários do segundo andar, mas Oliver tinha outro destino em mente. Seus passos o levaram para a ala mais isolada e temida do colégio: o corredor que levava diretamente aos aposentos de ∆lice.

A porta diante dele parecia sugar a luz ao redor. Havia marcas de garras recortadas na moldura de papelão grosso e fitas de advertência rasgadas pelo chão. Qualquer outro estudante teria dado meia-volta e corrido para salvar a própria pele. Oliver, no entanto, apenas deu uma risadinha baixa, engoliu o restante da espuma aromática e empurrou a pesada porta preta.

— ∆lice? — chamou ele em tom cantante, enfiando a cabeça para dentro da escuridão. — Você está aí dentro, princesa dos rabiscos?

Nenhuma resposta veio de imediato, exceto por um murmúrio distante, semelhante ao farfalhar de centenas de páginas sendo viradas ao mesmo tempo por um vento inexistente. O quarto era um abismo de sombras. As janelas estavam cobertas por camadas espessas de papel escuro e manchas grossas de tinta negra pingavam de cantos indistintos.

Oliver deu alguns passos cautelosos para frente. Ele conhecia aquele espaço tão bem quanto os próprios cadernos, mas a ausência total de iluminação tornava qualquer movimento arriscado.

— Vamos lá, não precisa se esconder — insistiu ele, tateando o ar com a ponta de grafite do braço esquerdo. — Eu trouxe aquela folha especial que você queria ver.

Foi nesse instante que sua bota preta bateu violentamente contra algo rígido e pesado no assoalho — talvez uma pilha esquecida de livros velhos ou uma escultura torta de papel machê. O impacto desequilibrou o garoto por completo. Oliver projetou o corpo para a frente, tentou firmar os pés, mas tropeçou nos próprios passos e caiu com força no piso frio.

O estalo seco da queda ecoou pelas paredes. A cabeça de Oliver latejou com o choque leve contra o chão e, por alguns instantes, sua visão se tornou turva e giratória. A escuridão ao redor pareceu se fechar sobre seus olhos como uma cortina espessa de nanquim. O ar ficou rarefeito e ele piscou várias vezes, tentando dissipar as manchas escuras que dançavam em sua mente.

Gradualmente, o torpor começou a ceder, mas a atmosfera no quarto havia mudado drasticamente.

Um som rítmico e arrastado quebrou a quietude: o raspar de unhas compridas contra o papel. O ar ficou pesado, frio e impregnado com o cheiro inconfundível de tinta fresca e perigo. Oliver ergueu as pálpebras devagar, apoiando-se com o braço de lápis para levantar o tronco.

Diante dele, envolta em uma névoa sombria, erguia-se a silhueta colossal de ∆lice.

Ela não estava em sua forma mais contida. A criatura diante de Oliver era pura imponência demoníaca, com garras afiadas que pareciam capazes de cortar o próprio tecido da realidade escolar, cabelos que se estendiam como tentáculos de tinta preta e olhos vermelhos brilhantes que cortavam o breu como duas brasas vivas. Uma coroa irregular repousava sobre sua cabeça espectral.

∆lice soltou uma risada baixa, vibrante, que ecoou dentro do peito de Oliver como um trovão distante. Ela se inclinou lentamente sobre ele, o sorriso largo e cheio de dentes afiados revelando uma malícia pura, mas carregada de uma afeição distorcida e intensa que pertencia unicamente aos dois.

— Ora, ora... — murmurou ela, com a voz ressoando em tons duplos, uma mistura de sussurro feminino e eco abissal. — O grande valentão da escola, derrotado pelo próprio chão do meu quarto? Que entrada triunfal, Oliver.

Ela estendeu uma garra longa e tocou delicadamente o queixo do rapaz, fazendo-o erguer o rosto. O choque da queda sumiu instantaneamente da mente de Oliver. No momento em que seus olhos encontraram os dela, o padrão usual de suas íris se desfez por completo. Duas pupilas em forma de coração, rosadas e brilhantes, surgiram em seu olhar, pulsando no ritmo descompassado de sua admiração descarada.

Para qualquer outra criatura viva, aquela visão seria a última memória antes do fim. Para Oliver, porém, ∆lice em sua forma demoníaca era simplesmente a coisa mais fascinante e maravilhosa em toda a Paper School.

— Você devia... colocar um tapete aqui — respondeu ele com a voz um pouco embargada pelo entusiasmo, sem conseguir desviar o olhar nem por uma fração de segundo. — Mas, sinceramente, a vista daqui de baixo compensa qualquer tombo.

∆lice riu novamente, achando graça da reação descarada e rendida dele. Com um movimento ágil e quase imperceptível de suas garras, ela envolveu a cintura de Oliver com suas sombras, erguendo-o do chão sem esforço algum. Num único passo fluído, ela o conduziu até a grande cama instalada no canto do aposento, onde lençóis escuros pareciam dobraduras perfeitas de papel de seda preto.

Com um empurrão suave, ela o fez deitar de costas no colchão. Oliver ajeitou a mecha arrepiada no topo de sua cabeça, os chifres negros contrastando contra os travesseiros enquanto mantinha aquele sorriso travesso nos lábios. Ele viu ∆lice subir lentamente na cama, movendo-se com a elegância predatória que lhe era natural, diminuindo ligeiramente sua escala para caber sobre ele, apoiando as mãos escuras ao lado de seus ombros.

— Você não tem nenhum juízo, sabia disso? — disse ela, inclinando a cabeça de lado, fazendo as mechas pretas caírem como cortinas em volta de ambos, isolando-os do resto do mundo. — Invadir meu quarto no escuro... você parece até que quer ser devorado vivo.

Oliver ergueu a ponta do braço de grafite e deu um leve toque na ponta do nariz afiado dela, sem demonstrar a menor sombra de medo.

— E você fala como se isso fosse uma ameaça de verdade — rebateu ele, rindo baixinho. — Nós dois sabemos que você não conseguiria encontrar outro namorado que aguentasse suas crises de tinta e ainda achasse você a criatura mais incrível desse colégio inteiro.

A garota demônio estreitou os olhos brilhantes, fingindo uma indignação que não conseguiu sustentar. O sorriso dela se alargou, expondo as pontas dos dentes antes de se aproximar ainda mais do rosto dele.

— Você é muito convencido para alguém feito de papel sulfite e grafite, sabia? — sussurrou ela, sentindo o calor característico da respiração dele, que ainda guardava um leve toque de lavanda.

— Sou apenas realista, princesa — provocou Oliver de volta, fechando um pouco os olhos enquanto o brilho de coração em suas pupilas se intensificava. — Agora, vai continuar falando ou vai fazer valer a pena o tombo que eu levei lá na porta?

∆lice não respondeu com palavras. Num gesto decidido e carinhoso, que contrastava totalmente com sua natureza aterrorizante, ela selou a distância entre eles, unindo seus lábios aos dele em um beijo calmo e carregado de intensidade.

Por um instante, o quarto inteiro pareceu prender a respiração. As manchas de nanquim nas paredes cessaram de pingar, e o sussurro constante das sombras acalmou-se, cedendo lugar apenas à presença cúmplice dos dois. Ali, no refúgio mais temido de toda a escola, o caos do lado de fora deixava de existir por completo.

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