onde meu coração encontrou voce
O Tempero da Saudade e o Brilho de Ongi
O silêncio do quarto era tão profundo que Alyssa podia ouvir o próprio sangue pulsando nas veias, agora em um ritmo muito mais calmo e preenchido. O peso do corpo de Jungkook sobre o dela, o calor da pele dele e o cheiro de sabonete misturado ao perfume amadeirado eram as únicas âncoras de que ela precisava para se sentir humana novamente. Entretanto, o estômago dela, negligenciado por dias de café preto e sanduíches rápidos, deu um sinal de vida ruidoso, quebrando a atmosfera solene.
Jungkook soltou uma risadinha baixa, o som vibrando contra o pescoço de Alyssa.
— Parece que alguém aqui tem um inquilino reclamando — brincou ele, levantando o rosto para encará-la com aqueles olhos amendoados cheios de adoração.
Alyssa corou, escondendo o rosto no ombro dele por um momento antes de rir também.
— Já que você falou em comer... — Ela se afastou um pouco, olhando para ele com um brilho travesso que ele não via há meses. — Vamos levantar, porque eu estou morrendo de fome! O cheiro daquela comida que você preparou está me torturando desde que entrei por aquela porta.
Jungkook relutou em soltá-la, mas a perspectiva de vê-la se alimentando e recuperando as energias falou mais alto.
— Suas ordens são um prazer, patroa — disse ele, dando-lhe um último beijo rápido na ponta do nariz antes de se levantar e oferecer a mão para ajudá-la.
Eles voltaram para a sala, envoltos em roupões confortáveis que Jungkook havia deixado separados. A mesa, posta diante da janela com vista para a orla de Busan, parecia um cenário de filme. Ele havia preparado um *Japchae* impecável e um filé ao molho de vinho que derretia na boca.
— Meu Deus, Jungkookie... — murmurou ela após a primeira garfada. — Eu tinha esquecido qual era o gosto de uma comida de verdade.
— Eu notei — respondeu ele, a expressão suavizando enquanto servia o vinho favorito dela. — Você está tão focada em cuidar dos outros e da cafeteria que esqueceu de cuidar da pessoa mais importante. Mas eu estou aqui agora. Beba, coma e relaxe.
O jantar foi preenchido por conversas leves e risadas. Eles brindaram à *Ongi*, ao sucesso da inauguração e ao fato de estarem juntos. O vinho ajudou a soltar a tensão remanescente nos músculos de Alyssa, mas também acendeu um fogo diferente. A cada troca de olhares, a cada vez que Jeon passava o polegar pelos lábios dela para limpar uma gota de molho, a eletricidade entre eles aumentava.
Quando terminaram, ele não permitiu que ela tocasse na louça. Jungkook a puxou pela mão, guiando-a de volta ao quarto. O desejo, que havia sido apenas aplacado momentos antes, retornou com uma força renovada, alimentado pela saudade de meses de privação.
Desta vez, não havia a urgência desesperada do primeiro encontro, mas sim uma exploração lenta e torturante. Jungkook a deitou na cama, ajoelhando-se entre suas pernas. Suas mãos, grandes e habilidosas, traçaram o contorno de seu corpo por cima do roupão, antes de deslizá-lo para fora dos ombros dela.
— Eu senti falta de cada detalhe — sussurrou ele, a voz descendo uma oitava. — Do modo como sua pele arrepia quando eu sopro aqui... — Ele depositou um beijo úmido atrás da orelha dela, descendo para a curva do pescoço.
Alyssa soltou um gemido baixo, as mãos perdidas nos cabelos negros e macios dele.
— Você não tem ideia do quanto eu sonhei com isso, Jeon.
Os toques dele eram possessivos, mas carregados de uma ternura infinita. Ele a beijava como se estivesse tentando memorizar o sabor de sua alma. A ponta de seus dedos percorria as coxas de Alyssa, subindo lentamente, provocando suspiros que ecoavam pelo quarto silencioso. Quando seus corpos se uniram novamente, foi um encaixe perfeito, uma dança de ritmos conhecidos e descobertas novas. O suor brilhava na pele sob a luz da lua, e a cada movimento, a saudade era substituída por uma satisfação profunda, até que ambos se perdessem no ápice do prazer, exaustos e finalmente completos.
A manhã seguinte em Busan nasceu com um céu azul límpido e o som reconfortante das ondas. Jungkook cumpriu sua promessa. Ele preparou um café da manhã reforçado e, logo depois, convenceu Alyssa a sair.
O condomínio onde moravam tinha acesso direto a uma parte mais reservada da praia. Mesmo sendo um dos homens mais famosos do mundo, ali, com a segurança mantendo uma distância discreta e estratégica, ele se sentia apenas um homem comum. Usando bonés e óculos escuros, eles caminharam pela areia molhada, de mãos dadas.
— Olhe para esse mar, Alyssa — disse ele, parando para observar o horizonte. — Às vezes, durante a turnê, eu olhava para o oceano de outros países e tentava imaginar se as ondas que eu via eram as mesmas que chegariam até você aqui.
— Elas traziam minhas mensagens — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu vinha aqui às vezes, à noite, só para sentir o vento e imaginar que você estava do outro lado.
O almoço foi um evento familiar. Jungkook havia reservado um espaço privativo em um restaurante tradicional de frutos do mar para eles e os pais de Alyssa. Dona Helena e Seu Antônio estavam radiantes. A dinâmica entre Jeon e os sogros era de puro carinho; ele os tratava com o respeito de um filho, e eles o viam como o porto seguro que sua filha precisava.
— Você precisa vir mais vezes, meu filho — disse Seu Antônio, dando um tapinha no ombro de Jungkook. — A Alyssa fica com a cabeça nas nuvens quando você está longe, mas agora parece que ela finalmente pisou no chão.
— Eu farei o meu melhor, senhor — prometeu Jungkook, trocando um olhar cúmplice com Alyssa.
O restante do final de semana foi um borrão de felicidade doméstica. Eles ficaram "agarradinhos" no sofá assistindo a filmes que não terminavam de ver, testando novas misturas de grãos de café para a cafeteria — onde Jungkook insistiu em ser o provador oficial — e simplesmente existindo no mesmo espaço. Foi o bálsamo de que Alyssa precisava para enfrentar a reta final da inauguração.
No entanto, a realidade dos ídolos é implacável. Na madrugada de segunda-feira, o alarme tocou às três da manhã. O voo de volta para o encerramento da turnê não esperaria.
O clima no apartamento era de uma melancolia suave. Alyssa o ajudou a fechar a mochila, com o coração apertado.
— É só mais um pouco, meu amor — disse ele, segurando o rosto dela entre as mãos na porta de saída. — Eu vou terminar os shows e volto direto para a inauguração. Eu não perderia isso por nada no mundo.
— Promete? — perguntou ela, com os olhos marejados.
— Eu prometo.
A separação foi dolorosa, mas Alyssa agora tinha o "tanque cheio" de amor para aguentar os últimos preparativos.
As semanas seguintes foram um caos organizado. A *Ongi* estava pronta. O letreiro em neon com o nome da cafeteria brilhava suavemente na fachada, e o interior exalava o calor que ela tanto planejou, com móveis de madeira clara e muitas plantas.
O dia da inauguração chegou. A cafeteria estava cheia de amigos, alguns clientes locais que acompanharam a reforma e, claro, os pais de Alyssa. Mas, conforme as horas passavam, o assento reservado na mesa dos fundos permanecia vazio.
Alyssa olhava para o relógio a cada cinco minutos. Ela sabia que os voos podiam atrasar, que a segurança era complicada, mas uma parte dela temia que ele não conseguisse chegar a tempo.
— Ele vai vir, querida — disse Dona Helena, apertando a mão da filha.
Já era final da tarde, e o sol começava a se pôr em Busan, tingindo o céu de laranja e rosa, as cores da logomarca da cafeteria. De repente, três vans pretas com vidros escurecidos pararam em frente ao estabelecimento.
O coração de Alyssa saltou.
A porta da cafeteria se abriu e um grupo de homens usando máscaras e bonés entrou de forma coordenada. O burburinho no local cessou por um instante. O homem à frente tirou os óculos escuros e a máscara, revelando o sorriso de coelho mais famoso do mundo, embora parecesse exausto da viagem transatlântica.
— Eu disse que não perderia por nada — anunciou Jungkook, a voz projetada para que ela ouvisse acima do som ambiente.
Mas ele não estava sozinho. Logo atrás dele, um a um, os outros membros do grupo revelaram seus rostos, sorrindo e cumprimentando os presentes com a elegância que lhes era peculiar.
— Viemos pelo café gratuito! — brincou Jin, fazendo todos rirem e quebrando a tensão do momento.
— E para apoiar a mulher que mantém nosso *maknae* na linha — completou RM, aproximando-se para cumprimentar Alyssa com um aceno respeitoso.
Alyssa estava em choque, as mãos trêmulas enquanto Jungkook caminhava até ela e a envolvia em um abraço apertado, ignorando as câmeras dos celulares que começavam a surgir.
— Você trouxe todos eles... — sussurrou ela contra o peito dele.
— Eles não me deixariam vir sozinho depois que contei sobre o seu bolo de rolo brasileiro que você prometeu adaptar para o cardápio — ele riu, beijando a testa dela. — Parabéns, meu amor. A *Ongi* é linda. Exatamente como você.
Naquela noite, a cafeteria não foi apenas um negócio que se iniciava; foi o palco de um reencontro que Busan jamais esqueceria. Entre o aroma de café fresco e o som das risadas dos meninos, Alyssa olhou para o colar de flor de cerejeira em seu pescoço e sorriu. O mundo de Jeon Jungkook era vasto e barulhento, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, ele era apenas o seu porto seguro, finalmente em casa.