Onde os olhos vêem o coração não toca onde eu errei? Onde foi o erro? Porque isso ?
O Labirinto das Expectativas e a Prova de Fogo
O fim de semana passou como um borrão de luzes de cinema e conversas que não precisavam mais de códigos. No entanto, a segunda-feira de manhã na escola sempre tinha uma maneira cruel de trazer todos de volta à terra firme. O corredor do segundo andar, o mesmo onde tudo começara com um bilhete amassado, parecia mais estreito do que o normal, como se as paredes tivessem ouvidos e as frestas dos armários guardassem novos segredos prontos para vazar.
Ele estava encostado em seu armário, observando o fluxo de alunos. Quando a viu dobrar o corredor, sentiu aquele solavanco familiar no peito. Ela não estava correndo hoje; caminhava com uma calma nova, embora seus dedos estivessem brincando nervosamente com a alça da mochila.
— Bom dia — disse ele, descolando-se do metal azul e indo ao encontro dela.
— Bom dia — respondeu ela, abrindo um sorriso que desarmou qualquer resquício de cansaço matinal que ele pudesse ter. — Pronta para o interrogatório?
— Eu nasci pronto. Mas acho que o público está mais interessado na prova de química do que em nós hoje.
Ela riu, balançando a cabeça negativamente enquanto ajeitava os óculos.
— Você subestima o poder do tédio adolescente. Olhe para a esquerda, perto do bebedouro.
Ele olhou. Um grupo de garotas do primeiro ano cochichava descaradamente enquanto apontava para as mãos deles, que agora se buscavam e se entrelaçavam com naturalidade.
— Deixe que olhem — disse ele, aproximando-se mais, diminuindo a distância entre seus ombros. — Eles precisam de algo para escrever nos diários.
— O problema não são as garotas do primeiro ano — murmurou ela, diminuindo o tom de voz ao passarem pela porta do refeitório. — É o peso da expectativa. Agora que "somos um casal", parece que todo mundo está esperando que a gente faça algo digno de um filme para provar que o mal-entendido realmente acabou.
— E o que seria digno de um filme? — perguntou ele, divertido. — Uma serenata no meio do pátio? Ou eu carregar seus livros enquanto luto contra um vilão imaginário no corredor?
— Não dê ideias — avisou ela, embora estivesse sorrindo. — Só sinto que o mal-entendido foi o que nos uniu aos olhos deles, e agora que não há mais mistério, as pessoas estão tentando inventar novos problemas para nós.
Eles pararam em frente à sala de aula. O sinal tocou, aquele som estridente que parecia ecoar dentro do peito, mas antes de entrarem, ele segurou a mão dela com um pouco mais de força.
— Escuta — disse ele, a expressão tornando-se séria. — O mal-entendido foi apenas o empurrão. O que temos agora é real. Se alguém tentar inventar outra história sobre a garota do terceiro ano ou sobre qualquer outra pessoa, a gente já sabe o que fazer.
— Perguntar um ao outro primeiro — repetiu ela, lembrando-se da promessa feita sob a luz do pôr do sol na semana anterior.
— Exatamente.
A aula de química foi uma tortura de silêncio e fórmulas, mas o verdadeiro desafio surgiu no intervalo. Enquanto caminhavam para a figueira, o refúgio que agora parecia o único lugar seguro, foram interceptados pela melhor amiga dela, que parecia estar prestes a explodir com alguma informação.
— Vocês não têm noção do que está circulando agora! — exclamou a amiga, bloqueando o caminho com os braços cruzados.
— O que foi agora? — perguntou ela, sentindo um cansaço preventivo. — Outra garota do terceiro ano apareceu do nada?
— Pior — disse a amiga, baixando o tom de voz para um sussurro conspiratório. — Aquele garoto do time de basquete... o que senta na frente na aula de história? Ele está dizendo por aí que você — ela apontou para ele — só entregou aquele bilhete porque perdeu uma aposta no vestiário.
O silêncio que se seguiu foi pesado, cortado apenas pelo som distante de uma bola de borracha batendo no asfalto. Ela sentiu um frio na barriga, uma pontada daquela insegurança que ainda morava em algum lugar profundo de sua mente. Ela olhou para ele, esperando uma reação, um sinal de que aquilo era apenas mais uma ficção de corredor.
Ele, no entanto, apenas soltou uma risada seca e balançou a cabeça, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
— Uma aposta? — perguntou ele. — Eles estão ficando sem criatividade. Estão reciclando roteiros de filmes dos anos noventa.
— É sério! — insistiu a amiga, parecendo genuinamente preocupada. — Estão dizendo que a aposta era ver se você conseguia fazer a "garota mais difícil da escola" se apaixonar em menos de uma semana usando táticas poéticas.
Ela sentiu o aperto em seu coração. "A garota mais difícil". Era assim que a viam? Ou era assim que ele a via antes de tudo começar? Ela soltou a mão dele por um reflexo involuntário, as velhas defesas subindo como muros de concreto entre eles.
— Ei — disse ele, percebendo o afastamento dela imediatamente. — Você não vai acreditar nisso, vai? Olhe para mim.
— Eu... eu não sei — respondeu ela, a voz subindo de tom pela ansiedade. — É o tipo de coisa idiota que garotos fazem, não é? Para provar algo uns aos outros?
— Não esse garoto — afirmou ele, dando um passo à frente, ignorando a presença da amiga que observava tudo como se fosse o clímax de um drama televisivo. — Você leu o bilhete. Você estava comigo na sorveteria. Você realmente acha que tudo aquilo, cada palavra sobre o microscópio e a biblioteca, foi por causa de uma aposta?
— As pessoas são boas em mentir — sussurrou ela, desviando o olhar para as raízes da figueira. — Às vezes, as mentiras mais bonitas são as que mais queremos acreditar.
— Mas eu sou péssimo nisso — rebateu ele, a voz firme. — Lembra? Eu levei dois anos para te entregar um pedaço de papel. Se fosse uma aposta de uma semana, eu teria falhado miseravelmente há muito tempo.
Ela parou, processando as palavras. A lógica dele era impecável, mas o medo era uma emoção barulhenta que costumava abafar a razão.
— Por que as pessoas não podem simplesmente nos deixar em paz? — perguntou ela, sentindo os olhos arderem.
— Porque a nossa verdade é mais interessante do que o que eles têm para fazer no intervalo — disse ele, sem se importar com quem estava ouvindo. — E porque eles não sabem o que é ficar até as oito da noite em uma biblioteca discutindo literatura clássica e sabendo que aquele é o melhor momento do dia.
Ele se virou para a amiga, que parecia um pouco arrependida por ter despejado o boato com tanta pressa.
— Diga a quem quer que tenha inventado isso que, se fosse uma aposta, eu já teria perdido — disse ele —, porque eu não ganhei nada além da chance de ser eu mesmo perto dela. E isso não é um prêmio de aposta, é sorte.
A amiga piscou, surpresa com a intensidade da resposta, e saiu de fininho, provavelmente para espalhar a nova versão da história, que agora tinha um herói muito mais decidido.
Ele voltou sua atenção para ela. Ela ainda estava com os braços cruzados, mas a postura estava relaxando, os ombros descendo alguns centímetros.
— Desculpa — disse ela, baixinho, chutando uma pedrinha. — Eu prometi que perguntaria a você primeiro, mas eu entrei em pânico. A ideia de ser um "projeto" ou uma "aposta" me assustou.
— É normal — respondeu ele, aproximando-se até que suas testas quase se tocassem, criando um espaço só deles no pátio barulhento. — Foram anos construindo essas defesas para não se machucar. Elas não vão cair em uma semana. Mas eu estou aqui para ajudar a derrubar cada tijolo, se você deixar.
— Eu deixo — disse ela, finalmente sorrindo de novo. — Mas você tem que admitir que "a garota mais difícil da escola" é um título interessante para se ter no currículo. Dá uma certa autoridade.
— É um título mentiroso — brincou ele, voltando a segurar a mão dela. — Você não é difícil. Você é apenas preciosa demais para ser entregue a qualquer um que não saiba a diferença entre um microscópio e um telescópio.
Eles finalmente chegaram à figueira e se sentaram. O resto do intervalo passou entre trocas de fatias de maçã e planos para o próximo fim de semana, mas a paz durou pouco. No final do dia, enquanto guardavam os livros nos armários azuis, um grupo de garotos do time de basquete passou por eles, rindo e fazendo comentários audíveis sobre "o mestre da sedução" e "apostas garantidas".
Ele sentiu o sangue ferver. Ele não se importava com o que diziam dele — já fora chamado de nerd, de quieto, de invisível —, mas odiava o modo como ela encolhia os ombros cada vez que uma risada ecoava, como se estivesse tentando se tornar menor para não ser vista.
— Já chega — murmurou ele, fechando o armário com um estrondo metálico.
— Não — disse ela, segurando o braço dele pelo tecido do moletom. — Não vale a pena. Eles só querem uma reação.
— Vale sim. Se a gente não parar isso agora, eles vão transformar o que sentimos em uma piada pública para os próximos meses.
Ele caminhou até o centro do corredor, onde o grupo de garotos estava reunido perto da escada principal. O silêncio se espalhou conforme os outros alunos percebiam que o "garoto do bilhete" estava prestes a confrontar o "atleta popular".
— Ei! — chamou ele, a voz firme e clara, ecoando pelo teto alto da escola.
O garoto do time de basquete, o suposto autor do boato, virou-se com um sorriso presunçoso, rodeado por seus amigos.
— E aí, Romeu? Como vai a aposta? Já pode coletar o dinheiro ou precisa de mais um bilhete romântico?
— Não houve aposta nenhuma — disse ele, parando a poucos metros do outro, mantendo o contato visual. — E se você tiver um pingo de respeito por si mesmo, vai parar de inventar histórias sobre pessoas que você mal conhece apenas para se sentir importante no vestiário.
— Ah, qual é! Todo mundo sabe como funciona o ensino médio — zombou o garoto, abrindo os braços. — Você era o nerd solitário e ela era a esquisita que mora na biblioteca. É o roteiro perfeito para uma brincadeira.
Ela se aproximou, parando ao lado dele. Todos esperavam que ela estivesse chorando ou escondida atrás dele, mas ela estava com o queixo erguido e os olhos brilhando com uma coragem que surpreendeu a todos.
— Engraçado você falar de roteiros e de como o ensino médio funciona — disse ela, a voz calma, mas cortante como vidro. — Porque o seu comportamento me parece o clichê mais sem graça de todos. O atleta que não tem nada melhor para fazer do que tentar diminuir o que é real porque não consegue ter algo assim para si mesmo.
Alguns alunos ao redor soltaram um "uau" abafado. O garoto do basquete perdeu o sorriso presunçoso, o rosto ficando levemente vermelho.
— Escuta aqui, garota... — começou ele, dando um passo à frente, mas foi interrompido.
— Não — prosseguiu ela, sem recuar um milímetro. — Você acha que o que temos é uma piada porque você não entende o que é ter uma conexão que não dependa de plateia. Você não entende que um bilhete de papel escrito à mão vale mais do que qualquer status que você ache que tem nesse corredor.
Ele olhou para ela com uma admiração renovada. Ela não precisava que ele a defendesse; ela era perfeitamente capaz de lutar suas próprias batalhas. Ele apenas colocou a mão no ombro dela, mostrando que eram uma frente única.
— O mal-entendido da semana passada foi resolvido — declarou ele para o corredor inteiro, que agora parecia prender a respiração. — O que vocês estão tentando fazer agora é apenas maldade gratuita. E não vai funcionar. Porque nós sabemos quem somos e o que aconteceu naquela biblioteca.
Eles se viraram e começaram a caminhar em direção à saída, deixando o grupo de garotos sem palavras e o corredor em um silêncio absoluto de choque. Foi a primeira vez que os boatos foram silenciados não pelo tempo, mas pela verdade dita em voz alta.
Quando cruzaram o portão da escola e sentiram o vento fresco da tarde, ela soltou um longo e trêmulo suspiro de alívio.
— Isso foi... a coisa mais assustadora que eu já fiz — disse ela, sentindo as mãos finalmente começarem a tremer.
— Você foi incrível — disse ele, parando e olhando para ela com um sorriso radiante. — "O atleta que não tem nada melhor para fazer". Eu quase bati palmas, juro.
— Eu estava morrendo de medo por dentro — confessou ela, rindo nervosamente enquanto caminhavam para longe do prédio. — Mas eu percebi que, se eu não falasse nada, eu estaria dando a eles o direito de definir quem somos. E eu não quero que ninguém, além de nós dois, escreva a nossa história.
Ele a puxou para um abraço rápido, mas cheio de significado, ali na calçada.
— Eu acho que agora eles vão finalmente nos deixar em paz — disse ele contra o cabelo dela. — Eles perceberam que o "nerd" e a "esquisita" não são alvos fáceis.
— Ou vão inventar que somos agentes secretos em uma missão de contraespionagem — brincou ela, recuperando o fôlego. — Do jeito que essa escola funciona, nada me surpreenderia.
— Se formos agentes secretos, espero que a nossa próxima missão envolva o dobro de calda de chocolate — respondeu ele, fazendo-a rir de verdade.
Eles começaram a caminhar em direção à casa dela, mas o trajeto foi interrompido por um pequeno desvio. Ele a levou até uma praça que ficava no caminho, um lugar com bancos de madeira e árvores antigas que raramente era frequentado pelos alunos da escola deles. Sentaram-se em silêncio por um momento, observando o movimento da rua.
— Sabe — começou ele, pegando um pequeno caderno da mochila —, eu escrevi outra coisa ontem à noite.
Ela sentiu o coração acelerar, mas desta vez não era de medo.
— Outro bilhete sem nome? — ela provocou.
— Não. Este tem nome, sobrenome e endereço. — Ele entregou a ela uma folha arrancada com cuidado. Não era um texto longo como o primeiro, mas uma lista de itens numerados com sua caligrafia firme.
1. O jeito que você morde a ponta da caneta quando está tentando entender uma equação de física. 2. A maneira como você defende seus livros como se fossem tesouros. 3. O fato de que você é a única pessoa que me faz querer escrever em vez de apenas observar. 4. Como você não recuou hoje no corredor.
Ela terminou de ler e sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, dissipando qualquer frio que o boato da aposta tivesse deixado. Eram fatos. Fatos que ninguém poderia transformar em uma brincadeira de vestiário.
— Isso é... muito melhor do que qualquer aposta — sussurrou ela, dobrando o papel.
— É a prova — disse ele. — Para os dias em que o corredor parecer barulhento demais ou quando você duvidar se eu realmente te vejo. Guarde essa lista. Ela é a minha verdade absoluta.
Ela guardou o papel no bolso mais seguro de sua mochila, ao lado do primeiro bilhete que iniciara toda a confusão.
— Eu também tenho uma lista para você — disse ela, aproximando-se. — Mas ainda está em rascunho.
— Pode começar a ditar. Eu sou um excelente ouvinte.
— Item número um — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele. — O fato de que você não desistiu de mim, mesmo quando eu fui uma idiota e acreditei em uma fofoca de banheiro.
— Eu nunca desistiria de você por causa de um mal-entendido — prometeu ele. — Nem por causa de cem deles.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando o sol se pôr. O amanhã traria novas aulas e possivelmente novos cochichos, mas algo havia mudado fundamentalmente. O labirinto de expectativas da escola não parecia mais tão assustador. Eles tinham a verdade um do outro, e isso era o suficiente para guiar qualquer caminho.
Enquanto caminhavam os últimos metros até a casa dela, ela percebeu que o romance de escola, que começara com um erro e um bilhete anônimo, havia se transformado em algo sólido. Ela entrou em casa e, antes de dormir, pegou uma caneta. Ela tinha uma lista para terminar, e desta vez, não haveria mal-entendido no mundo capaz de apagar as palavras que ela estava prestes a escrever.