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Pacto de sangue

O Gosto Amargo da Devoção

A noite em Musutafu nunca era realmente silenciosa, mas no esconderijo improvisado nos limites da zona industrial, o som do mundo parecia abafado por camadas de poeira e segredos. Dabi estava sentado em uma poltrona puída, as chamas azuis de sua individualidade dançando fracamente nas pontas dos dedos, apenas o suficiente para iluminar a penumbra. Ele observava a porta, os sentidos aguçados pela natureza predatória de sua linhagem vampírica e pelo instinto territorial de um alfa.

Quando a janela rangeu, ele não se moveu. Ele conhecia aquele ritmo. O bater de asas, o pouso leve, o cheiro de ozônio e algo muito mais doce que intoxicava seus pulmões.

Hawks entrou, as penas vermelhas desgrenhadas e o uniforme de herói levemente chamuscado. Ele soltou um suspiro longo, fechando a janela atrás de si e desabando contra a parede antes de deslizar até o chão. O sorriso brincalhão que ele ostentava para as câmeras durante o dia havia desaparecido, restando apenas a exaustão de um ômega que carregava o peso de dois mundos nos ombros.

— Você está atrasado, passarinho — comentou Dabi, a voz rouca cortando o silêncio.

Hawks soltou uma risada seca, sem abrir os olhos.

— Sabe como é, Dabi... Ser um herói de dia e um traidor à noite consome bastante tempo na agenda. A Comissão está cada vez mais exigente.

Dabi levantou-se, seus movimentos fluidos e predatórios. Ele cruzou o espaço entre eles em passos silenciosos, parando diante de Hawks. O cheiro do loiro estava diferente hoje; sob o aroma habitual de brisa e liberdade, havia o toque metálico de sangue e o odor ácido do medo suprimido.

— Você está ferido — afirmou o vampiro, ajoelhando-se entre as pernas de Hawks.

— Apenas um arranhão de um vampiro de baixo nível que não sabia com quem estava mexendo — Hawks abriu um dos olhos, o dourado brilhando na escuridão. — Mas admito que a regeneração está lenta hoje. Acho que estou precisando de um... incentivo.

Dabi estreitou os olhos, a mandíbula tensionada. Ele levou a mão ao pescoço de Hawks, afastando a gola do uniforme. A pele ali era pálida e macia, pulsando com a vida que Dabi tanto cobiçava e, ao mesmo tempo, protegia ferozmente.

— O acordo era que eu ajudaria você a limpar as ruas desses parasitas em troca do seu sangue — disse Dabi, os dedos traçando a linha da mandíbula de Hawks. — Mas parece que você transformou isso em algo muito mais perigoso.

— E você não? — Hawks inclinou a cabeça, expondo a garganta, um gesto de submissão que só um ômega confiante faria para seu alfa. — Você poderia ter me matado na primeira noite na Liga. Poderia ter me entregue para o Shigaraki. Mas aqui estamos nós, em um esconderijo fedorento, agindo como um casal de fugitivos.

Dabi não respondeu. Em vez disso, ele se aproximou, sentindo o calor emanando do corpo de Hawks. O vínculo entre eles, forjado no fogo da infiltração e selado pelo sangue, era uma anomalia que nenhum dos dois sabia explicar, mas que ambos temiam perder. Para o mundo, eram inimigos mortais. Para a Liga, Dabi era o carrasco e Hawks o peão. Mas, entre aquelas quatro paredes, eles eram apenas dois seres quebrados tentando encontrar um equilíbrio impossível.

— Beba — sussurrou Hawks, a voz perdendo o tom de brincadeira. — Eu sinto sua fome daqui, alfa. Está me deixando nervoso.

Dabi rosnou baixo, um som que vibrou no peito de Hawks. Ele não precisou de outro convite. Seus caninos se alongaram e, com uma delicadeza que contrastava com sua aparência brutal, ele cravou os dentes na veia jugular de Hawks.

O impacto foi imediato. O sangue de Hawks não era apenas sustento; era pura energia, carregada com a essência de um ômega poderoso. Para Dabi, era como beber luz solar líquida. Ele sentiu a força retornar aos seus membros, a queimação constante de suas cicatrizes diminuindo enquanto a conexão entre eles se aprofundava.

Hawks soltou um gemido baixo, as mãos agarrando os ombros de Dabi, as unhas cravando-se no tecido da jaqueta de couro. Suas penas vibraram, uma resposta instintiva ao ato de ser marcado e alimentado ao mesmo tempo.

— Devagar... — arquejou Hawks, a cabeça pendendo para trás. — Você vai acabar me secando, seu monstro ganancioso.

Dabi se afastou, limpando o canto da boca com o polegar. Seus olhos, antes azul-gelo, agora brilhavam com uma intensidade avermelhada. Ele observou os dois pequenos furos no pescoço de Hawks fecharem-se lentamente, a regeneração acelerada pelo contato com o alfa.

— Seu sangue tem um gosto diferente hoje — comentou Dabi, sentando-se nos calcanhares. — Você está escondendo algo. Mais do que o normal.

Hawks soltou um suspiro pesado e ajeitou a roupa, tentando recuperar a compostura. Ele evitou o olhar de Dabi por um momento, focando em uma pena solta no chão.

— A Comissão está desconfiada — confessou ele finalmente. — Eles acham que eu estou me aproximando demais de você. Não da Liga, Dabi. De você especificamente. Eles notaram que os vampiros que eu caço são sempre aqueles que cruzam o seu caminho ou que tentam te desafiar.

— Eles são espertos — disse Dabi com sarcasmo. — Talvez mais espertos que você, se acha que pode manter esse jogo por muito mais tempo.

— Eu sei o que estou fazendo — rebateu Hawks, recuperando um pouco de sua faísca habitual. — Mas a pressão está aumentando. Eles querem resultados. Querem a sua cabeça em uma bandeja, ou a do Shigaraki. Se eu não entregar algo grande logo, eles vão me retirar da missão. E se eles fizerem isso...

— Você perde a proteção deles e eu perco a minha fonte — completou Dabi, a voz fria, embora o aperto em seu peito dissesse o contrário.

— Não é só pelo sangue e você sabe disso — Hawks se inclinou para frente, reduzindo a distância entre eles até que suas testas se tocassem. — Você é um péssimo mentiroso, Dabi. Eu sinto o seu cheiro. Eu sinto a sua possessividade. Você não me quer por perto apenas para não passar fome.

Dabi fechou os olhos, lutando contra o impulso de puxar o ômega para mais perto e escondê-lo do resto do mundo. Ele odiava o quanto Hawks o conhecia. Odiava como aquele passarinho barulhento tinha conseguido perfurar as camadas de ódio e apatia que ele construíra ao longo de anos.

— O que você quer de mim, Hawks? — perguntou Dabi em um sussurro. — Quer que eu fuja com você? Que abandonemos a guerra? Você é o Herói Número Dois. Eu sou um assassino em massa. Não existe um "felizes para sempre" para nós.

— Eu quero tempo — disse Hawks, a voz embargada. — Apenas mais um pouco de tempo antes que tudo desabe. Antes que eu tenha que escolher um lado e você tenha que tentar me matar.

Dabi segurou o rosto de Hawks com ambas as mãos, as palmas calejadas e marcadas por grampos metálicos.

— Eu não vou te matar — declarou o alfa com uma convicção absoluta. — Se alguém tentar tocar em você, seja a Comissão ou a Liga, eu vou queimar este mundo até as cinzas. Você é meu, passarinho. E eu protejo o que é meu.

Hawks sorriu, um sorriso triste e genuíno que nunca chegava às câmeras.

— Isso soou quase romântico, se a gente ignorar a parte do "queimar o mundo".

— Não se acostume — resmungou Dabi, embora tenha puxado Hawks para um beijo lento, com sabor de ferro e promessas quebradas.

O beijo era desesperado, uma tentativa de ancorar um ao outro em meio ao caos iminente. As mãos de Hawks subiram para a nuca de Dabi, puxando-o para mais perto, querendo fundir suas peles, querendo que aquele momento durasse para sempre. O cheiro de alfa de Dabi — fumaça, pinho e poder — envolvia Hawks, acalmando seus instintos de ômega e fazendo-o esquecer, por um breve instante, que ele era um espião e Dabi um vilão.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Dabi encostou a testa no ombro de Hawks, permitindo-se um momento de fraqueza.

— Você precisa ir — disse Dabi. — O sol vai nascer em algumas horas. Se virem você saindo daqui...

— Eu sei — interrompeu Hawks, levantando-se com relutância. Ele limpou a poeira das calças e invocou algumas de suas penas, que flutuaram ao seu redor como guardiões silenciosos. — A próxima reunião da Liga é em três dias. Tente não incendiar nada importante até lá.

— Não prometo nada — respondeu Dabi, voltando para a sombra da poltrona.

Hawks caminhou até a janela, mas parou antes de saltar. Ele olhou por cima do ombro, os olhos dourados brilhando com uma determinação feroz.

— Dabi.

— O quê?

— Se as coisas ficarem feias... se eles descobrirem... procure por mim no antigo armazém no porto. O código é o de sempre.

Dabi assentiu silenciosamente. Ele observou Hawks saltar para a noite, as asas vermelhas cortando o céu escuro como uma cicatriz de sangue.

Sozinho novamente, o vampiro alfa recostou-se na poltrona. O gosto do sangue de Hawks ainda estava presente em sua língua, um lembrete constante do pacto que haviam feito. O que começara como uma necessidade biológica e estratégica havia se transformado em uma corrente que o prendia ao herói de uma forma que ele nunca imaginou ser possível.

Ele sabia que a guerra entre vampiros e caçadores estava chegando a um ponto de ruptura. Sabia que a farsa de Hawks não duraria para sempre. Mas, enquanto sentisse o calor daquele sangue correndo em suas veias e a marca invisível do ômega em sua alma, Dabi lutaria contra o destino.

— Queime o mundo, é? — murmurou para si mesmo, um sorriso sombrio surgindo em seus lábios. — Se for por você, passarinho... eu guardo o primeiro fósforo.

Lá fora, o primeiro lampejo de luz do amanhecer começou a tingir o horizonte. Para a maioria, era o início de um novo dia. Para Dabi e Hawks, era apenas o começo de mais uma contagem regressiva para o desastre que, inevitavelmente, os uniria ou os destruiria de vez.

Dabi fechou os olhos, deixando as sombras o envolverem, enquanto o eco das asas de Hawks ainda ressoava em seus ouvidos, uma canção de ninar para um monstro que tinha encontrado algo — ou alguém — pelo qual valia a pena não morrer.