Voltar ao resumo

Paixão ardente

Labirinto de Possessão

A luz pálida da manhã londrina filtrava-se pelas persianas entreabertas, desenhando listras de ouro e cinza sobre a pele nua de Emily. Ela ainda estava envolta no paletó de Scott, o tecido caro carregando o aroma dele — uma mistura inebriante de sândalo, tabaco de luxo e o cheiro metálico da chuva que ainda impregnava o ar. Scott não se movera. Ele permanecia como uma estátua de mármore vivo, os olhos verdes agora fixos na silhueta da cidade que despertava lá fora, mas sua mão nunca parava o carinho rítmico nos cachos dela.

— No que você está pensando? — sussurrou Emily, a voz ainda rouca pelo uso excessivo e pelo sono que teimava em não vir.

Scott suspirou, o peito largo subindo e descendo contra as costas dela. Ele apertou o abraço, como se temesse que ela pudesse evaporar com a névoa matinal.

— No fato de que o mundo lá fora vai exigir que eu seja o homem que eles conhecem — disse ele, a voz vibrando profundamente. — O homem frio, o negociador implacável. Mas aqui dentro, nestas quatro paredes, eu sou apenas o homem que pertence a você. E eu odeio ter que abrir aquela porta.

Emily virou-se nos braços dele, ignorando o modo como o paletó escorregava por seu ombro, revelando a curva delicada de sua clavícula. Ela tocou o queixo dele, forçando-o a olhar para ela.

— Você não precisa ser apenas uma coisa ou outra, Scott. O homem que o mundo teme é o mesmo que me protege. Eu amo as duas versões, porque ambas fazem parte do que você é.

Scott segurou o pulso dela, trazendo a mão de Emily para seus lábios. Ele beijou a palma de sua mão com uma reverência que quase a fez chorar.

— Você me humaniza, Emily. E isso é perigoso no meu mundo.

— Então seja perigoso — retrucou ela, um brilho desafiador voltando aos seus olhos castanhos. — Mas guarde a sua doçura apenas para mim.

Ele sorriu de lado, aquele meio sorriso que raramente chegava aos olhos com outras pessoas, mas que para ela era como o sol rompendo as nuvens. Ele a levantou do colo, colocando-a de pé no tapete persa. A diferença de altura era, como sempre, impressionante. Scott se levantou logo em seguida, a nudez de seu torso musculoso sendo um lembrete vívido da intensidade da noite anterior. As marcas de unhas leves em seus ombros eram troféus que ele carregava com orgulho.

— Tome um banho — ordenou ele, retomando aquele tom de autoridade que a fazia estremecer. — Vou pedir que tragam café e algo para você comer. Depois, preciso que você vá para casa e descanse. Tenho reuniões o dia todo, mas passarei para te buscar às oito.

Emily arqueou uma sobrancelha, as mãos na cintura, o paletó de Scott batendo no meio de suas coxas.

— Outra ordem, Sr. Scott? Achei que tínhamos estabelecido que eu não sigo regras.

Scott deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela até que seus narizes quase se tocassem. Ele inclinou-se, sussurrando contra os lábios dela.

— Não é uma regra, Emily. É um desejo. E você sabe o quanto eu sou persuasivo quando quero que meus desejos sejam atendidos.

Ela riu, um som cristalino que preencheu o escritório sombrio.

— Tudo bem. Mas eu quero o café mais forte que você conseguir encontrar.

Enquanto a água quente do chuveiro anexo ao escritório relaxava seus músculos, Emily não conseguia deixar de pensar na complexidade da relação deles. Scott era um homem de sombras, envolvido em negócios que ela preferia não questionar profundamente, e ela era a mulher que, por algum milagre ou maldição, havia encontrado a chave de seu coração blindado. O romance deles era sombrio, sim; era possessivo, intenso e, às vezes, assustador. Mas era a única coisa que a fazia se sentir verdadeiramente viva.

Ao sair do banho, enrolada em um roupão de seda branca que Scott mantinha ali, ela o encontrou já vestido com uma nova camisa social, desta vez branca, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes. Ele estava ao telefone, falando em um tom baixo e ameaçador com alguém.

— Eu não me importo com as desculpas — dizia Scott, os olhos verdes gélidos. — Se o carregamento não estiver no porto até o meio-dia, você descobrirá exatamente o quão pouco eu prezo pela sua vida profissional. Fui claro?

Ele desligou o aparelho sem esperar resposta e, no momento em que seus olhos encontraram os de Emily, o gelo derreteu instantaneamente.

— O café está na mesa — disse ele, apontando para uma pequena mesa lateral onde uma bandeja de prata repousava com frutas, pães e uma cafeteira fumegante.

Emily aproximou-se, servindo-se.

— Problemas no trabalho? — perguntou ela, tentando parecer casual.

Scott caminhou até ela, parando às suas costas e abraçando sua cintura, enterrando o rosto em seu pescoço úmido.

— Apenas pessoas incompetentes tentando testar os limites do meu império. Nada com que você deva se preocupar.

— Eu me preocupo com você, Scott. Não com o seu império.

Ele a virou para si, segurando seu rosto com as duas mãos.

— Eu sei. E é por isso que eu faria qualquer coisa para manter você segura. Mesmo que isso signifique manter você longe de certas partes da minha vida.

— Você sabe que eu não gosto de ser mantida no escuro — lembrou ela, os olhos castanhos fixos nos dele.

— O escuro é onde eu vivo, Emily. Eu só quero que você seja a luz que me puxa de volta. Não quero que as sombras te manchem.

Emily suspirou, sabendo que aquela era uma batalha que não venceria hoje. Scott era protetor ao extremo, uma característica que ela achava tanto irritante quanto profundamente sedutora. Ela terminou seu café em silêncio, sentindo o olhar dele queimando sobre ela a cada segundo. Era como se ele estivesse tentando memorizar cada detalhe dela para aguentar as horas em que estariam separados.

— Preciso ir — disse ela finalmente, deixando a xícara de lado. — Tenho minhas próprias coisas para resolver.

Scott a acompanhou até a porta privativa do escritório. Antes de deixá-la sair, ele a prensou contra a madeira da porta, um último beijo possessivo que a deixou sem fôlego.

— Oito horas, Emily. Não se atrase.

— Eu nunca me atraso para você, Scott.

***

O dia passou como um borrão para Emily. Ela tentou se concentrar em seu trabalho como curadora de arte, mas as imagens da noite anterior e a sensação das mãos de Scott em seu corpo continuavam voltando para assombrá-la. Havia algo de perigosamente viciante nele. Ele era como uma droga que ela sabia que poderia destruí-la, mas que ela não tinha a menor intenção de parar de usar.

Às sete e meia, ela já estava pronta. Escolhera um vestido de renda preta que era, ao mesmo tempo, elegante e provocante. Seus cachos estavam soltos, emoldurando seu rosto de forma selvagem, e ela aplicara um batom vermelho escuro que sabia que Scott adoraria tirar.

Exatamente às oito horas, o som de um motor potente ecoou na rua de seu apartamento. Ela olhou pela janela e viu o Aston Martin preto estacionado. Scott não subiu; ele apenas esperou, encostado no carro, parecendo um deus moderno em seu terno sob medida.

Emily desceu, sentindo o coração acelerar. Quando ela saiu do prédio, Scott se endireitou, seus olhos verdes percorrendo o corpo dela com uma fome que não havia diminuído com o tempo.

— Você está tentando me matar antes do jantar? — perguntou ele, a voz rouca, enquanto abria a porta do carro para ela.

— Apenas garantindo que sua atenção continue exatamente onde deve estar — respondeu ela, deslizando para o banco de couro.

Scott entrou no lado do motorista e, antes de dar a partida, inclinou-se sobre o console, segurando a nuca dela.

— Minha atenção nunca sai de você, Emily. Às vezes, eu gostaria que saísse, para que eu pudesse ter um momento de paz. Mas você está tatuada na minha mente.

Ele a beijou com uma intensidade que prometia que a noite seria longa. Scott dirigiu até um restaurante exclusivo, escondido em um beco de paralelepípedos em Mayfair. O lugar era frequentado apenas pela elite que valorizava a privacidade acima de tudo.

Durante o jantar, a tensão entre eles era quase palpável. Eles conversavam sobre arte, sobre política e sobre o futuro, mas o subtexto de cada palavra era o desejo. Scott observava o modo como ela comia, o modo como seus lábios se moviam, o modo como ela ria. Ele era um predador, e ela era a única presa que ele nunca desejou devorar completamente, preferindo mantê-la viva e vibrante ao seu lado.

— Scott, olhe — sussurrou Emily de repente, apontando discretamente para uma mesa no canto oposto.

Um homem de meia-idade, com um olhar nervoso, estava sentado com dois guarda-costas. No momento em que ele viu Scott, empalideceu visivelmente.

— É ele, não é? O homem do carregamento — deduziu Emily.

A expressão de Scott endureceu. O calor que ele sentia por Emily foi momentaneamente substituído pelo frio glacial de seus negócios.

— Sim. Ele não deveria estar aqui. Ele deveria estar resolvendo o problema que criou.

— Não faça nada aqui — pediu Emily, tocando a mão dele por cima da mesa. — Por favor. Esta noite é nossa.

Scott olhou para a mão pequena dela sobre a sua, o contraste entre a pele delicada de Emily e a sua própria mão grande e calejada. Ele respirou fundo, forçando-se a relaxar os ombros.

— Você tem razão. Ele não vale o estrago da nossa noite. Mas ele saberá que eu o vi.

Scott levantou o copo de uísque na direção do homem, um gesto simples que carregava uma ameaça de morte. O homem quase derrubou sua própria bebida e saiu do restaurante apressadamente, seguido por seus seguranças.

— Você é assustador quando quer — comentou Emily, voltando a comer sua sobremesa.

— Eu sou o que preciso ser para manter o mundo em ordem, Emily. O meu mundo, pelo menos.

Depois do jantar, eles não voltaram para o apartamento dela. Scott a levou para sua própria residência, uma cobertura que ignorava o Rio Tâmisa. O lugar era minimalista, decorado em tons de cinza, preto e vidro, refletindo a personalidade de seu dono.

Assim que a porta se fechou, todas as formalidades foram descartadas. Scott a empurrou suavemente contra a parede de vidro, a cidade de Londres brilhando atrás dela como um tapete de diamantes.

— Eu passei o dia inteiro pensando em como o seu corpo se sentiu contra o meu naquela mesa de escritório — confessou ele, as mãos subindo pelas coxas dela, levantando a bainha do vestido de renda. — Eu não conseguia me concentrar em nada que não fosse o som dos seus gemidos.

— Então pare de falar e faça algo a respeito — desafiou ela, envolvendo as pernas na cintura dele.

Scott a carregou para o quarto vasto, onde a luz da lua era a única iluminação. Ele a deitou na cama de lençóis de seda preta, desfazendo-se de suas roupas com uma urgência controlada. Quando ele se posicionou sobre ela, Emily sentiu a força bruta de sua presença, a massa muscular de seu peito pressionando seus seios.

— Você é minha, Emily — disse ele, a voz soando como um comando e uma oração ao mesmo tempo. — Diga de novo.

— Eu sou sua — sussurrou ela, as unhas cravando-se nas costas dele enquanto ele entrava nela em um movimento fluido e profundo. — E você é meu. Para sempre.

O ato de amor entre eles era uma batalha e uma celebração. Cada estocada de Scott era carregada de uma possessividade que exigia tudo dela, e Emily entregava tudo de bom grado, encontrando prazer na submissão que só ele conseguia extrair dela. Eles se moviam em sincronia, dois seres quebrados que encontraram a cura um no outro, em meio ao caos de suas vidas.

As horas passaram em um turbilhão de sensações. Ofegos, palavras sussurradas no escuro, o atrito da pele suada. Quando o ápice finalmente os atingiu, foi como uma explosão de cores no meio da escuridão. Scott desabou sobre ela, escondendo o rosto em seus cachos, enquanto Emily o abraçava com toda a sua força, sentindo as batidas frenéticas do coração dele contra o seu.

Mais tarde, enquanto o silêncio voltava a reinar no quarto, Scott se apoiou em um cotovelo, observando-a. Emily estava quase adormecendo, a expressão serena e exausta.

— Eu nunca pensei que poderia sentir isso por alguém — admitiu ele, a voz baixa e vulnerável. — Esse medo de perder você, essa necessidade constante de ter você por perto. Isso me torna fraco, Emily.

Ela abriu os olhos, encontrando o olhar dele.

— Não é fraqueza, Scott. É o que nos torna reais. Se não sentíssemos isso, seríamos apenas sombras vagando pela cidade.

Ele beijou a testa dela, puxando o cobertor para cobri-los.

— Então eu aceito ser fraco, desde que seja com você.

Emily fechou os olhos, sentindo o calor do corpo dele e a segurança de seus braços. Ela sabia que o mundo lá fora continuaria sendo perigoso, que os negócios de Scott trariam tempestades e que o amor deles seria testado repetidamente. Mas, enquanto estivessem juntos, nenhuma sombra seria escura o suficiente para apagar a luz que eles haviam encontrado um no outro.

Lá fora, Londres continuava seu ritmo frenético, alheia ao drama e à paixão que se desenrolavam naquela cobertura. E, dentro daquele refúgio de seda e segredos, Scott e Emily finalmente encontraram o descanso que tanto buscavam, unidos por um laço que nem o tempo, nem a escuridão, seriam capazes de romper.