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Passeio

Entre Segredos de Família e Aromas de Lavanda

O sol já estava alto no céu quando o grupo se reuniu novamente na clareira aos pés da colina. O calor suave da manhã começava a dissipar o frescor do orvalho, e o clima de tranquilidade ainda pairava no ar. Amora caminhava saltitante, segurando a mão de Scorpio, enquanto Sadi, Flora e a pequena Sofia os observavam com sorrisos cúmplices.

— Pela cara da Amora, a torta não estava apenas comestível, estava divina — comentou Sadi, cruzando os braços e encostando-se no tronco de um carvalho antigo.

— Estava perfeita! — exclamou Amora, soltando a mão de Scorpio por um momento para abraçar Sofia e Sadi. — Mon amou me contou que vocês ajudaram. Obrigada, de verdade. O gosto do caramelo com aquela pitada de canela... eu nunca comi nada igual.

Sofia deu uma risadinha, ajustando o laço em seu cabelo que combinava com o tom alaranjado de sua aura.

— O Scorpio quase queimou o dedo tentando provar o ponto do açúcar às cinco e meia da manhã — revelou a irmã caçula, lançando um olhar travesso para o irmão. — Eu tive que assumir o controle da espátula por um tempo.

— Ei! Eu estava sob pressão — defendeu-se Scorpio, sentindo as bochechas esquentarem levemente. — Mas valeu a pena. Ver o sol nascer com você, Amora, foi o melhor plano que já tive.

Flora, que até então estava em silêncio observando as flores silvestres que cresciam ao redor, aproximou-se com um olhar pensativo.

— O bosque está especialmente vibrante hoje — disse ela, passando a mão pelas pétalas de uma lavanda silvestre. — Parece que a natureza está celebrando o momento de vocês. Mas agora que o café da manhã oficial acabou, o que faremos com o resto desse dia maravilhoso?

Amora olhou para Scorpio, seus olhos brilhando com uma ideia súbita.

— Que tal irmos até o riacho de cristal? — sugeriu ela. — Lila me disse ontem que as ninfas da água deixaram algumas pedras lunares perto da margem. Poderíamos fazer piquenique parte dois, ou apenas relaxar sob as árvores choronas.

— É uma ótima ideia — concordou Scorpio. — Mas antes, eu preciso passar em casa para deixar a mochila e pegar algumas toalhas. Sofia, você vem com a gente ou vai ficar com a Flora?

Sofia olhou para Flora e Sadi, sentindo-se parte do grupo das "grandes".

— Eu quero ir para o riacho! — exclamou a menina. — Mas a Sadi prometeu que me ensinaria aquele truque de fazer pequenas chamas coloridas com a ponta dos dedos.

Sadi sorriu, bagunçando o cabelo de Sofia.

— Promessa é dívida, pequena. Podemos praticar no caminho para o riacho. Mas nada de incendiar as moitas de amora, ou a Flora nunca mais fala com a gente.

O grupo começou a caminhar em direção à vila, seguindo a trilha familiar. Enquanto Scorpio e Amora seguiam um pouco mais à frente, sussurrando entre si e trocando olhares apaixonados, as outras três vinham logo atrás. Flora caminhava com uma graça natural, quase como se flutuasse sobre a grama, enquanto Sadi tentava manter uma postura descolada, apesar de estar claramente se divertindo com as perguntas incessantes de Sofia.

— Sadi, é verdade que o Scorpio era muito chorão quando era bebê? — perguntou Sofia, baixando o tom de voz para o irmão não ouvir.

Sadi soltou uma gargalhada curta.

— Ele não era chorão, Sofia. Ele era... intenso. Uma vez, ele tentou fazer um bolo de lama para a nossa mãe e acabou entupindo a pia da cozinha inteira. Ele ficou sentado no chão da cozinha chorando porque o "bolo" não tinha crescido.

— Eu ouvi isso! — gritou Scorpio de longe, sem se virar, o que arrancou risos de todos.

Ao chegarem na casa de Scorpio e Sofia, o ambiente ainda guardava o aroma doce da torta de maçã. Scorpio subiu rapidamente para organizar as coisas, enquanto os outros esperavam no jardim. Amora sentou-se em um banco de madeira, observando as borboletas que pareciam seguir Flora por onde quer que ela fosse.

— Flora — chamou Amora suavemente —, você acha que o equilíbrio do bosque está mudando? Senti algo diferente hoje de manhã, algo mais... antigo.

Flora parou de observar as flores e olhou para a amiga com seriedade.

— Você tem uma intuição aguçada, Amora. O bosque responde aos sentimentos. O que vocês sentiram na colina foi uma pureza que raramente se vê. O amor e a amizade genuína alimentam as raízes dessas árvores. Não é uma mudança ruim, é apenas o mundo respirando com vocês.

Sadi, que estava sentada no gramado ensinando Sofia a concentrar energia nas palmas das mãos, interveio:

— Eu também senti. É como se o ar estivesse mais denso, mas de um jeito bom. Como se estivéssemos protegidos.

Scorpio voltou, trazendo uma mochila menor com toalhas e algumas frutas frescas que havia pego na fruteira.

— Tudo pronto. Vamos? — perguntou ele, estendendo a mão para Amora se levantar.

O caminho para o riacho de cristal era mais longo e passava por uma parte da floresta onde as árvores eram tão altas que as copas se entrelaçavam, criando um túnel verde natural. A luz do sol filtrava-se entre as folhas em feixes dourados, criando um efeito mágico no chão coberto de musgo.

— Olhem! — apontou Sofia, correndo à frente. — As flores de luz!

Pequenas flores azuladas que brilhavam levemente mesmo durante o dia estavam espalhadas pela margem do caminho. Amora se ajoelhou para ver uma de perto.

— Elas só abrem quando sentem que quem passa por aqui está em paz — explicou Amora, olhando para Scorpio com carinho. — Acho que estamos fazendo um bom trabalho hoje.

— Você sempre traz paz, Amora — disse Scorpio, aproximando-se e depositando um beijo rápido em sua bochecha. — Eu sou apenas o cara que traz a torta de maçã.

— E que torta! — brincou Sadi, passando por eles. — Mas andem logo, se demorarmos muito as pedras lunares vão desaparecer com o reflexo do sol forte.

Quando finalmente chegaram ao riacho de cristal, a visão era de tirar o fôlego. A água era tão límpida que se podia ver cada seixo colorido no fundo. Pequenas cachoeiras formavam uma melodia constante e relaxante. Lila já estava lá, sentada em uma pedra grande no meio da água, com os pés mergulhados e um livro nas mãos.

— Finalmente! — disse Lila, fechando o livro e acenando. — Achei que o piquenique na colina tivesse virado um acampamento de três dias.

— Culpa do Scorpio, que é um romântico incurável — provocou Sadi, tirando as botas e preparando-se para entrar na água.

— Oi, Lila! — Amora correu para a beira do riacho. — Você conseguiu ver as pedras lunares?

Lila apontou para uma pequena enseada onde a água era mais calma. Lá, sob a superfície, algumas pedras emitiam um brilho perolado suave, mudando de cor conforme a água passava por elas.

— Elas são lindas — sussurrou Sofia, aproximando-se com cautela. — Posso pegar uma?

— Só se você pedir permissão para a água, Sofia — orientou Flora, aproximando-se da menina. — Lembre-se do que ensinei sobre o respeito aos elementos.

Sofia fechou os olhos, murmurou algo inaudível e, após um momento, mergulhou a mão pequena na água fria, retirando uma pedra que brilhava em tons de lavanda e laranja.

— Ela escolheu você — sorriu Amora. — Combina com as suas cores.

Enquanto as meninas se divertiam na beira do riacho, Scorpio e Sadi sentaram-se em um tronco caído para observar.

— Você mandou bem hoje, Scorpio — disse Sadi, em um tom mais baixo, longe dos ouvidos dos outros. — Sofia estava radiante por ajudar, e a Amora... bom, ela parece estar flutuando de felicidade.

— Eu só queria que ela soubesse o quanto é importante — respondeu Scorpio, observando Amora rir enquanto tentava equilibrar-se em uma pedra molhada. — Às vezes o dia a dia é tão corrido que a gente esquece de parar e olhar o sol nascer.

— É — concordou Sadi, olhando para o horizonte. — Mas ter amigos que acordam às cinco da manhã para fazer caramelo ajuda bastante.

— Com certeza ajuda.

A tarde passou entre mergulhos refrescantes, conversas sobre sonhos e planos para o futuro. Flora colheu algumas ervas para chás medicinais, enquanto Lila lia trechos de seu livro em voz alta para quem quisesse ouvir. Scorpio e Amora acabaram se afastando um pouco, sentando-se sob a sombra de um salgueiro chorão cujos ramos tocavam a superfície da água.

— Mon amou — começou Amora, encostando a cabeça no peito dele —, obrigada por ser meu porto seguro. Hoje foi um dia que eu vou guardar em um potinho no meu coração.

— Eu que agradeço por você existir, Amora — disse Scorpio, abraçando-a com força. — Enquanto eu tiver fôlego e maçãs na dispensa, eu vou fazer de tudo para te ver sorrir assim.

O sol começou a descer, pintando o céu com tons de violeta e carmesim. Era o fim de um dia perfeito, mas o início de muitas outras memórias que aquele grupo, unido por laços de sangue e de alma, continuaria a construir.

— Vamos, pessoal! — chamou Flora. — A noite está chegando e eu prometi à mãe da Sofia que a levaríamos de volta antes das estrelas aparecerem.

— Ah, já? — reclamou Sofia, guardando sua pedra lunar no bolso do avental.

— Amanhã tem mais, pequena — prometeu Sadi, colocando-a nos ombros para a caminhada de volta.

Enquanto caminhavam de volta para a vila, Scorpio olhou para trás uma última vez, vendo o reflexo da lua começando a aparecer na água do riacho. Ele sentiu uma mão pequena e macia entrelaçar-se na sua. Era Amora, caminhando ao seu lado, silenciosa e plena.

— Tchau, troço — sussurrou Scorpio para si mesmo, usando a gíria que tanto gostavam, sentindo que, naquele momento, o mundo estava exatamente onde deveria estar.

E assim, sob o manto protetor da floresta e o brilho das primeiras estrelas, o grupo seguiu para casa, levando consigo o calor de um amanhecer compartilhado e a doçura de uma torta que, muito mais do que açúcar e frutas, levava o ingrediente mais poderoso de todos: o amor.