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Passo A Passo

O Peso da Gravidade e o Ritmo do Pulso

O silêncio na Sala 4 da Academia de Artes de Seul nunca fora tão denso, mas, pela primeira vez em meses, não era um silêncio de guerra. Era a calmaria que precede a fusão.

Park Jimin estava parado no centro do linóleo, as sapatilhas de meia ponta gastas marcando o chão que já conhecia cada uma de suas frustrações. Ao seu lado, Jeon Jungkook ajustava a fita nos pulsos, o olhar fixo no próprio reflexo. A luz amarelada do fim de tarde entrava pelas janelas altas, banhando a poeira que dançava no ar e iluminando as tatuagens que subiam pelo braço de Jungkook como raízes de uma árvore indomável.

— Sem música primeiro — disse Jimin, a voz suave, mas carregada de uma autoridade que ele não precisava mais forçar. — Eu quero sentir a transferência de peso no segundo refrão. Se você entrar um milésimo de segundo atrasado, a minha lombar vai pagar o preço.

Jungkook soltou um riso anasalado, mas não havia escárnio nele. Ele caminhou até Jimin, parando a uma distância que, semanas atrás, faria o loiro recuar três passos por puro instinto de preservação.

— Eu não vou te deixar cair, Jimin. Já te disse isso. Você é quem precisa parar de tentar se segurar no ar. Confia no pivô.

Jimin assentiu, respirando fundo. Eles se posicionaram.

O ensaio começou no silêncio, apenas com o som rítmico de suas respirações e o atrito das solas contra o piso. Jimin iniciou a sequência de contemporâneo, seu corpo movendo-se como água — fluído, gracioso, mas com uma força oculta. Jungkook orbitava ao seu redor, trazendo a energia do hip-hop, os movimentos mais quebrados, mais pesados, mas que agora, milagrosamente, encontravam os vãos da dança de Jimin.

Eles não eram mais dois solistas tentando brilhar sozinhos. Eram um sistema binário.

Quando chegou o momento da transição mais complexa, Jimin girou em um *pirouette* triplo e, sem hesitar, lançou-se para trás. O vácuo atrás dele era assustador, mas, antes que a gravidade pudesse reclamar seu corpo, as mãos de Jungkook estavam lá. Firmes. Quentes.

Jungkook o aparou pela cintura, girando-o no ar com uma facilidade que desafiava a lógica. Jimin sentiu o calor do corpo do outro através da regata fina, o cheiro de metal e sabonete cítrico inundando seus sentidos. Por um segundo, o mundo parou. Não havia bolsa de estudos, não havia Professor Kang, não havia rivalidade. Havia apenas a pressão dos dedos de Jungkook em sua pele e a batida frenética de dois corações tentando encontrar o mesmo compasso.

— Viu? — sussurrou Jungkook contra a nuca de Jimin, enquanto o colocava delicadamente de volta no chão. — Eu te peguei.

Jimin se virou, o rosto corado não apenas pelo esforço físico. Ele olhou nos olhos escuros de Jungkook e viu algo ali que o deixou sem fôlego. Não era mais a agressividade de antes; era uma admiração crua, uma fome que ia além da técnica.

— De novo — murmurou Jimin, a voz falhando levemente. — Com a música agora.

Jungkook caminhou até o sistema de som. A batida experimental começou — um violoncelo melancólico que era subitamente interrompido por batidas graves e sintetizadores industriais. Era a música deles. O caos e a ordem.

Desta vez, a conexão foi elétrica. Cada toque, cada troca de olhar, parecia carregar uma voltagem que ultrapassava o limite profissional. Jimin se movia com uma liberdade que nunca se permitira antes. Ele não estava mais preocupado com a perfeição da linha de seus pés; ele estava preocupado em como seu corpo respondia ao de Jungkook.

Em um momento da coreografia, eles deveriam ficar frente a frente, as mãos espalmadas umas contra as outras sem se tocarem de fato. Mas a tensão estava tão alta que Jimin fechou o espaço. Seus dedos se entrelaçaram aos de Jungkook, a pele suada criando uma aderência que parecia fundi-los.

Jungkook o puxou para perto, os corpos colados da base do ventre ao peito. A música atingiu o clímax, e eles se moveram como um único ser. Jungkook levantou Jimin em um *lift* que não estava ensaiado daquela forma — mais alto, mais íntimo —, e Jimin arqueou as costas, os braços abertos para o teto, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente livre.

Quando a música finalmente morreu em um eco persistente, eles não se soltaram.

Jungkook mantinha Jimin suspenso contra seu peito, as mãos descendo lentamente das costelas para o quadril do loiro. Jimin apoiou as mãos nos ombros largos de Jungkook, as pontas dos dedos roçando a pele exposta perto da gola da camiseta.

— O que foi isso? — perguntou Jimin, a respiração ofegante batendo no pescoço de Jungkook.

— Isso foi a gente parando de brigar com a dança — respondeu Jungkook, a voz rouca, vibrando contra o peito de Jimin. — E começando a fazer o que a gente realmente quer fazer desde o primeiro dia.

Jungkook o colocou no chão, mas não recuou. Ele encurtou a distância, encurralando Jimin entre seu corpo e o espelho frio. O contraste entre o calor de Jungkook e o gelo do vidro fez Jimin soltar um suspiro trêmulo.

— E o que a gente quer fazer, Jungkook? — desafiou Jimin, embora soubesse a resposta. Seus olhos caíram para o piercing no canto dos lábios do moreno, uma obsessão silenciosa que ele cultivava há semanas.

Jungkook sorriu, um sorriso lento e perigoso que não tinha nada de acadêmico.

— Você é muito inteligente, Park. Tenho certeza de que já calculou todas as probabilidades.

— O cálculo diz que isso é um erro — disse Jimin, mesmo enquanto suas mãos subiam para a nuca de Jungkook, os dedos se perdendo nos fios pretos e úmidos. — Diz que somos opostos. Que vamos nos destruir se chegarmos perto demais.

— Então vamos explodir — murmurou Jungkook, inclinando-se até que suas testas se encostassem. — Eu prefiro o incêndio do que esse seu gelo eterno.

Antes que Jimin pudesse formular qualquer contra-argumento técnico, Jungkook selou seus lábios aos dele.

Não foi um beijo delicado, como os movimentos de ballet que Jimin tanto prezava. Foi um beijo de hip-hop: agressivo, rítmico, cheio de urgência e improviso. Jungkook o beijava como se estivesse tentando reivindicar cada nota da música que eles haviam dançado, e Jimin respondeu com a mesma intensidade, sua língua encontrando a de Jungkook em uma batalha de vontades que logo se transformou em rendição.

Jimin soltou um gemido baixo quando sentiu a mão de Jungkook subir por baixo de sua regata, a palma quente encontrando a pele sensível de suas costas. Era como se a conexão que haviam construído na dança tivesse finalmente encontrado sua voz. Cada movimento, cada provocação, cada queda... tudo os levara até aquele momento, contra o espelho da Sala 4.

Jungkook se afastou apenas alguns milímetros, seus lábios ainda roçando os de Jimin.

— Ainda acha que somos artisticamente inviáveis? — perguntou ele, o polegar acariciando a mandíbula de Jimin.

Jimin riu, uma risada leve e genuína que fez seus olhos se transformarem em dois pequenos riscos de lua.

— Acho que você é um idiota que não sabe contar quatro tempos — disse Jimin, puxando Jungkook pela gola para outro beijo. — Mas acho que eu não quero dançar com mais ninguém.

— Ótimo — respondeu Jungkook, selando o pacto com uma mordida leve no lábio inferior de Jimin. — Porque eu não vou te dar escolha.

Eles ficaram ali por muito tempo, entre beijos e sussurros, enquanto a luz do sol desaparecia e as sombras da sala se tornavam longas. A apresentação de gala ainda estava por vir, e a pressão pela bolsa de estudos não havia sumido. Mas, pela primeira vez, o peso da gravidade não parecia algo a ser vencido.

Para Jimin e Jungkook, a gravidade era o que os mantinha exatamente onde deveriam estar: um nos braços do outro, em uma sincronia que, finalmente, era perfeita em sua imperfeição.

— Vamos de novo? — perguntou Jungkook, afastando-se relutante para pegar a garrafa de água.

Jimin ajeitou o cabelo, o rosto iluminado por um brilho que nenhuma técnica clássica poderia ensinar.

— A sequência final? — Jimin sorriu, posicionando-se.

— Não — disse Jungkook, ligando a música novamente. — Do início. Eu quero ver se você consegue manter esse ritmo agora que não tem mais medo de mim.

Jimin arqueou a sobrancelha, o desafio brilhando em seus olhos.

— Eu nunca tive medo de você, Jeon. Eu só tinha medo de como você me faz sentir.

Jungkook parou, observando-o com uma intensidade que faria qualquer outro dançarino tremer.

— E como você se sente agora?

Jimin esperou a batida do violoncelo começar. Ele olhou para o próprio reflexo, e depois para o de Jungkook, vendo como as duas silhuetas se completavam.

— Eu me sinto pronto para o show — respondeu Jimin.

E, quando a música explodiu, eles não apenas dançaram. Eles incendiaram a sala, um passo de cada vez.