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Peão todo tatuado

O Som dos Pneus na Brita

O ronco de um motor potente ecoou pelo vale, quebrando o silêncio da tarde na fazenda. Um SUV preto de luxo, coberto pela poeira avermelhada da estrada, surgiu na curva que levava à entrada principal da sede. Ricardo, que estava com o braço apoiado no ombro de Andressa, estreitou os olhos azuis, um sorriso de canto surgindo entre a barba curta e bem aparada.

— Olha eles aí — comentou Rick, a voz grave ressoando com satisfação. — O coronel finalmente deu as caras.

O veículo parou com precisão diante da escadaria de pedra. A porta do motorista se abriu e Guilherme Alencar saltou, ostentando seus 1,93m de postura militar. O corpo malhado sob a camiseta polo escura denunciava os anos de BOPE, e o olhar verde, embora sério e fechado para o mundo, brilhou ao ver o melhor amigo. Do outro lado, Letícia saiu com a elegância que só ela tinha. A pele branquíssima contrastava com os cabelos pretos longos e ondulados, e o short de alfaiataria deixava claro que os 33 anos e a maternidade precoce só tinham lhe feito bem.

— Se demorassem mais meia hora, eu mandava a cavalaria buscar vocês, seu rabugento! — Rick desceu os degraus aos grandes passos, encontrando Guilherme no meio do caminho para um abraço de irmãos, daqueles com tapas fortes nas costas.

— O trânsito na saída do Rio tava um inferno, meu irmão — Guiga respondeu, soltando um riso raro. — E a Lê resolveu que precisava parar em três postos diferentes.

— Não começa, Guilherme! — Letícia se aproximou, abraçando Rick e depois voando para os braços de Andressa. — Amiga, que saudade! Você tá cada dia mais deusa, como é que pode?

— Olha quem fala, né, Lê? — Dêssa riu, apertando a amiga. — Sete anos é sacanagem. Entrem logo, a casa é de vocês.

Enquanto os adultos se cumprimentavam com a euforia de quem recuperava o tempo perdido, a porta traseira do SUV se abriu lentamente. Kaelton desceu com uma preguiça calculada, esticando o corpo de 1,87m. Ele vestia uma regata preta que deixava as tatuagens nos braços à mostra e o cabelo preto ondulado estava preso em um coque despojado, com as laterais raspadas bem baixinhas. Ele tirou os óculos escuros, revelando os olhos puxados herdados da mãe, mas com uma intensidade que era pura audácia.

Luanara, que observava tudo da varanda enquanto segurava o pequeno Rafiki, sentiu o coração dar um solavanco estranho. A última imagem que tinha de Kael era de um menino de doze anos, magricela e implicante. O homem que caminhava em direção à casa agora era... outra coisa. Completamente outra coisa.

Kael subiu os degraus e parou diante de Rick e Dêssa.

— E aí, tio Rick. Tia Dêssa — ele cumprimentou com a voz agora grossa, um timbre de barítono que fez Lua arrepiar. Ele deu um abraço respeitoso nos donos da casa. — A fazenda continua foda pra caralho.

— Cresceu, hein, moleque? — Rick deu um soco leve no ombro de Kael. — Tá quase da minha altura. Mas abaixa a bola que aqui quem manda ainda sou eu.

Kael deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que as mães avisam para as filhas tomarem cuidado.

— Com certeza, tio.

Foi então que o olhar de Kael subiu para a varanda e encontrou Luanara. O tempo pareceu dar um estalo. Ele se lembrava de uma menina de dez anos, de tranças e dentes de leite. A garota à sua frente era uma visão. O cabelo loiro caía em ondas douradas sobre os ombros, e o corpo, mesmo sob um vestido leve de verão, tinha curvas que faziam a mente de Kael trabalhar rápido demais.

— Puta que pariu... — ele murmurou, baixo o suficiente para que só ele ouvisse, antes de recompor a postura marrenta. — E aí, Lua? Quanto tempo.

Luanara sentiu as bochechas esquentarem, uma reação que ela odiava, pois sua pele branquinha entregava tudo. Ela desceu os degraus devagar, sentindo o peso de Rafiki no colo.

— Oi, Kael. É... faz muito tempo mesmo — ela disse, tentando manter a voz firme, mas o "dengo" natural de sua fala estava lá. — Você mudou bastante.

— Você também — ele respondeu, os olhos escuros percorrendo o rosto dela com uma audácia que a deixou desconcertada. — Tá mais bonita que as fotos que a minha mãe mostrava.

— Deixa de ser safado, Kaelton! — Letícia interveio, rindo e puxando Luanara para um abraço. — Meu céu, como você está linda! Uma boneca. E esse pinguinho de gente aqui?

Rafiki, que até então estava quieto observando os estranhos, esticou os braços para a irmã e gritou:

— Nana! Nana!

— Esse é o mestre do caos — Rick apresentou o caçula com orgulho. — Rafiki Lucca. Mas ele só tem olhos para a princesa da casa.

Guilherme se aproximou, olhando para o bebê e depois para Lua.

— Bença, tio Guiga — Lua disse, aproximando-se do padrinho.

— Deus te abençoe, pequena — Guilherme deu um beijo no topo da cabeça de Lua. — Tá enorme. O Rick vai ter que triplicar a munição da espingarda, porque o que vai ter de marmanjo rodeando essa fazenda não tá escrito.

— Já tá tudo carregado, Guiga — Rick respondeu sério, mas com um brilho de aviso nos olhos. — Ninguém encosta no meu anjo.

Andressa percebeu o clima e resolveu aliviar a tensão, passando a mão pela cintura de Rick.

— Vamos entrar, gente. O almoço tá quase pronto e eu mandei preparar aquele churrasco que o meu bem adora. Kael, seu quarto é o mesmo de sempre, no final do corredor à direita. O isolamento acústico foi refeito ano passado, então podem ficar à vontade para ouvir música ou o que quiserem.

Guilherme deu um olhar cúmplice para Letícia, um brilho safado cruzando seus olhos verdes, enquanto apertava a cintura da esposa.

— Isolamento acústico, é? — Guiga sussurrou no ouvido de Lê. — O Rick realmente pensa em tudo. Vou precisar de cada decibel de silêncio com você hoje à noite, coração.

— Para de ser porco, Guilherme — Letícia deu um tapa leve no braço dele, mas sorriu, o desejo faiscando entre os dois. — Estamos na casa dos outros.

— E daí? O Rick sabe como a gente funciona. Ele e a Dêssa não devem ser muito diferentes — rebateu o coronel, olhando para o amigo que já estava subindo as escadas com a mão possessiva na bunda da ruiva.

Luanara subiu para o quarto para trocar a fralda de Rafiki, tentando processar a presença de Kael. Ele era diferente dos meninos da cidade ou dos filhos dos outros fazendeiros. Tinha uma aura de perigo, de algo proibido.

Enquanto isso, Kael levava suas malas para o quarto. Ele passou pelo corredor e viu a porta do quarto de Lua entreaberta. Ele parou por um segundo, observando-a de costas, debruçada sobre o trocador, conversando baixinho com o bebê. O vestido dela subiu um pouco, revelando as coxas grossas e claras. Kael engoliu em seco, sentindo o sangue descer.

— Vai ser um mês longo pra caralho — ele pensou, fechando a porta do próprio quarto e se jogando na cama, já imaginando como faria para ter a loirinha nos seus braços sem que o tio Rick o matasse antes do jantar.

Lá embaixo, na cozinha industrial da fazenda, os funcionários finalizavam os preparativos sob o olhar atento de Dêssa. Ricardo entrou no recinto, dispensando a equipe com um aceno. Ele cercou a esposa contra a bancada de mármore.

— O que foi, meu bem? — ela perguntou, passando os braços pelo pescoço dele.

— Só queria conferir se o meu furacão tá precisando de ajuda — Rick colou o corpo no dela, a ereção nítida marcando o jeans. — A casa tá cheia, mas eu ainda sou o dono dessa fazenda e de tudo que tem nela. Principalmente de você.

— Você é um possessivo do caralho, Ricardo — Dêssa riu, puxando a nuca dele para um beijo quente, com gosto de desejo acumulado. — Mas guarda esse fogo. Temos convidados.

— O Guiga se vira. Ele sabe o caminho da geladeira — Rick murmurou contra os lábios dela, a mão descendo para apertar com força a coxa de Andressa. — Mais tarde, no nosso quarto, eu vou te foder até você esquecer como se chama.

— Promessa é dívida, amor — ela sussurrou, mordendo o lábio inferior dele antes de se soltar, ouvindo os passos de Letícia e Guilherme se aproximando.

O almoço foi servido na varanda gourmet, com vista para o riacho que cortava a propriedade. A conversa fluía entre risadas e histórias antigas. Rick e Guilherme discutiam sobre cavalos e operações táticas, enquanto Dêssa e Letícia atualizavam as fofocas do Rio.

Kael, no entanto, estava em seu próprio mundo. Ele mal tocava na comida, focado em observar Lua. Ela comia de forma delicada, mas ele notava como ela ficava manhosa quando o pai falava com ela, ou como os olhos dela brilhavam quando Rafiki fazia alguma graça no cadeirão.

— Então, Kael — Rick chamou a atenção do rapaz —, ainda tá treinando jiu-jitsu ou virou só marombeiro de Instagram?

— Sigo treinando, tio. Faixa marrom agora — Kael respondeu, voltando a realidade. — O velho ali não me deixa amolecer.

— É bom mesmo — disse Guilherme, servindo-se de mais uísque. — No meu teto não mora vagabundo. O moleque é bom, Rick. Tem um soco pesado.

— Quero ver isso amanhã no treino — Rick desafiou. — E você, Lua? Vai mostrar a chácara pro Kael mais tarde? Ele não lembra de nada.

Lua sentiu o olhar de Kael queimar sobre ela.

— Posso mostrar, papai. Se ele quiser...

— Eu quero — Kael interrompeu, rápido demais. — Quero ver tudo o que essa fazenda tem de melhor.

O tom de voz dele levava um duplo sentido que não passou despercebido por Guilherme, que arqueou uma sobrancelha, nem por Rick, que estreitou os olhos. Mas antes que o clima pesasse, Rafiki resolveu que era hora de jogar o purê de batata no chão e gritar "Nana", dissipando a tensão com a fofura de bebê.

Após o almoço, enquanto os casais se recolhiam para um "descanso" que todos sabiam envolver os quartos com isolamento acústico, Lua e Kael ficaram sozinhos na varanda.

— Então, "Nana" — Kael zombou de leve, encostando-se na pilastra de madeira. — Vai me mostrar o riacho ou vai ficar aí me encarando com esses olhos de boneca?

— Eu não estou te encarando — ela mentiu, ajeitando o cabelo. — E não me chama de Nana, só o meu irmão pode.

— Ah, é? E como eu devo te chamar? — Ele deu um passo em direção a ela, invadindo o espaço pessoal.

Lua sentiu o cheiro de perfume amadeirado e o calor que emanava do corpo dele. Ela teve que olhar muito para cima para encarar o rosto liso e bem desenhado de Kael.

— Lua. Me chama de Lua.

— Lua... — ele repetiu, a voz descendo uma oitava, soando quase como uma carícia. — Combina com você. Brilhante e intocável. Mas eu sempre preferi a noite, sabe? É nela que as coisas interessantes acontecem.

Ela engoliu em seco, sentindo um frio na barriga.

— Vamos logo, Kael. Antes que o sol baixe demais.

Eles começaram a caminhar em direção às cocheiras. O silêncio entre eles era carregado. Kael observava o rebolado natural de Lua, o modo como o quadril dela se movia. Ele sentia uma vontade absurda de puxar aquela loirinha para trás de um daqueles arbustos e descobrir se ela era tão doce quanto parecia.

— Você ainda monta? — ele perguntou, tentando manter a conversa num nível civilizado.

— Todos os dias. É o meu lugar favorito no mundo. O papai me deu uma égua árabe, a Serena. Ela é linda.

— Quero ver. E quero ver se você aguenta uma corrida.

— Você é muito convencido, sabia? — Lua parou e o encarou, as mãos na cintura, o que só serviu para destacar ainda mais suas curvas. — Só porque é grande e forte, acha que manda em tudo.

Kael deu uma risada curta, uma risada rouca que vibrou no peito de Lua.

— Eu não acho que mando em tudo, loirinha. Eu só sei o que eu quero. E geralmente, eu consigo o que eu quero.

Ele se aproximou mais um pouco, o corpo de atleta quase encostando no dela. Lua não recuou. Havia um desafio ali, uma faísca que tinha sido acesa no momento em que ele desceu daquele carro.

— E o que você quer, Kael? — ela perguntou, a voz saindo mais manhosa do que pretendia.

Kael levou a mão ao rosto dela, o polegar roçando de leve o lábio inferior de Lua. O contato elétrico fez ambos prenderem a respiração.

— Por enquanto? — ele sussurrou, os olhos fixos na boca dela. — Quero ver se o seu beijo é tão viciante quanto o seu cheiro.

Antes que Lua pudesse responder, ou antes que Kael pudesse avançar, o som de um cavalo relinchando alto nas cocheiras os trouxe de volta à realidade. Lua se afastou rapidamente, o coração batendo na garganta.

— A... a Serena está inquieta. Vamos.

Kael sorriu, a expressão de predador voltando ao rosto. Ele a seguiu, sabendo que aquele mês na Fazenda Frassetti seria muito mais interessante do que ele tinha imaginado. O jogo estava apenas começando, e ele não tinha a menor intenção de perder.

Enquanto isso, no andar de cima da sede, os gemidos abafados pelas paredes grossas indicavam que os donos da casa e seus convidados estavam aproveitando muito bem a privacidade. Ricardo tinha Andressa contra a porta do quarto, as pernas dela entrelaçadas na cintura dele, enquanto Guilherme fazia Letícia ver estrelas, provando que, apesar dos anos, a paixão entre aqueles casais só aumentava com o isolamento e o ar puro do campo.

A noite estava apenas começando a cair, e com ela, os segredos e desejos daquela fazenda começavam a florescer sob a luz da lua.