Pelos pampas
Entre o Dever e o Desejo da Pampa
O sol se punha atrás das coxilhas, tingindo o céu do Rio Grande com matizes de violeta e laranja, como se o próprio sangue dos combatentes estivesse sendo derramado sobre as nuvens. Na estância de Bento Gonçalves, o silêncio da tarde era apenas quebrado pelo som dos cascos dos cavalos e pelo farfalhar do vento nos campos.
Capitão Corte Real observava o horizonte da varanda, sentindo o peso da farda e a confusão que lhe habitava a alma. Ele era um homem de palavra, um soldado imperial, e estava noivo de Rosário. No entanto, a imagem da moça pálida e melancólica, que parecia viver em um mundo de sombras desde que fora salva, não preenchia o vazio em seu peito. Rosário era um dever; Joana, porém, era a vida.
Joana, a irmã de criação do Caramuru que resgatara Rosário, era o oposto da fragilidade. Criada entre os ideais farroupilhas, ela carregava a força da terra e a doçura do mel silvestre. Desde que chegara à estância, Joana se tornara sua confidente, a única pessoa capaz de entender as contradições de um capitão imperial que se via encantado pela bravura dos rebeldes e pela beleza de uma mulher que não lhe pertencia.
— O capitão parece perdido em pensamentos — disse uma voz suave, mas firme, às suas costas.
Corte Real virou-se e sentiu o coração falhar uma batida. Joana estava ali, com os cabelos levemente desgrenhados pelo vento e os olhos brilhando com aquela inteligência que tanto o cativava.
— Às vezes, Joana, o campo de batalha é mais simples do que o que carregamos aqui dentro — respondeu ele, levando a mão ao peito.
Ela se aproximou, apoiando-se no parapeito de madeira. O cheiro de alfazema e terra molhada que emanava dela era inebriante.
— O senhor fala de Rosário? — perguntou ela, com uma nota de hesitação. — Ela é minha melhor amiga. Devo muito ao meu irmão por tê-la trazido de volta à vida, mas... sinto que o senhor não a olha como um homem olha para a mulher que ama.
Corte Real suspirou, aproximando-se um passo. A distância entre eles era agora perigosamente curta.
— Eu não a amo, Joana. O compromisso é uma âncora, mas meu coração... meu coração navega em águas muito mais turbulentas.
— E onde esse coração deseja ancorar? — sussurrou ela, desafiando-o com o olhar.
— Aqui — disse ele, a voz rouca. — Em ti.
O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Joana não recuou. Ela, que acreditava nos ideais de liberdade e na força do povo gaúcho, via naquele capitão inimigo o único homem capaz de domar sua natureza indômita. Sem dizer uma palavra, Corte Real estendeu a mão e tocou o rosto dela, sentindo a pele quente e macia.
— Isso é loucura — murmurou Joana, embora suas mãos estivessem agora agarrando a gola da farda dele. — Sou irmã de um Caramuru, vivo na estância de Bento... e o senhor é o Capitão do Império.
— Neste momento, não há Império e não há República — declarou ele, antes de selar seus lábios nos dela.
O beijo foi uma explosão de sentimentos contidos. Havia a urgência da guerra, o desespero de um amor proibido e a entrega total. Corte Real a puxou para mais perto, sentindo as curvas do corpo de Joana contra o seu. Ela correspondeu com uma intensidade que o surpreendeu, as mãos subindo pelos seus ombros, perdendo-se em seus cabelos.
Com um movimento ágil, ele a conduziu para dentro, para a penumbra de um dos quartos mais afastados da casa principal, onde apenas a luz da lua que começava a surgir entrava pelas frestas das janelas.
— Tem certeza? — perguntou ele, a respiração ofegante, enquanto suas mãos desfaziam os laços do corpete de Joana.
— Nunca tive tanta certeza de nada em minha vida — respondeu ela, ajudando-o a retirar a farda pesada. — Quero ser tua, Corte Real. Não por contrato ou dever, mas porque minha alma te escolheu.
Quando as roupas caíram ao chão, restou apenas a verdade nua entre eles. A pele de Joana brilhava como seda sob a claridade lunar. Corte Real a deitou suavemente sobre a cama, percorrendo cada centímetro de seu corpo com beijos lentos e famintos. Ele a adorava como se ela fosse uma divindade da pampa, e ela gemia baixo, chamando seu nome entre suspiros.
As mãos do capitão, calejadas pelo manejo da espada, eram agora surpreendentemente delicadas ao explorarem as coxas firmes de Joana. Ela arqueou o corpo quando ele encontrou seu centro, sentindo uma onda de prazer que a fez perder o fôlego.
— Tu és magnífica — sussurrou ele contra o seu pescoço.
— E tu... tu és meu — declarou ela, puxando-o para cima de si.
O encontro de seus corpos foi uma dança de força e entrega. Corte Real entrou nela com uma lentidão que era quase uma tortura deliciosa, sentindo o calor apertado de Joana envolvê-lo. Eles se moviam em um ritmo ancestral, uma cadência que ignorava os canhões e as fronteiras políticas. Joana cravava as unhas nas costas dele, buscando âncora enquanto o prazer subia como uma maré incontrolável.
— Mais... — pediu ela, a voz sumindo em um gemido.
Ele acelerou o passo, o suor brilhando em seus corpos unidos. O mundo lá fora desapareceu. Não havia mais Rosário, não havia mais o General Neto ou o Imperador. Havia apenas o som das respirações entrecortadas e o impacto de dois corações que batiam como um só.
Quando o ápice chegou, foi como uma explosão de luz. Joana gritou o nome dele, abafando o som no ombro do capitão, enquanto ele se derramava nela, sentindo uma plenitude que nunca conhecera.
Ficaram abraçados por muito tempo, enquanto a respiração voltava ao normal. O cheiro do amor e da noite preenchia o quarto.
— O que faremos agora? — perguntou Joana, a cabeça repousada no peito dele.
Corte Real beijou o topo da cabeça dela, apertando-a em seus braços.
— Eu não sei, Joana. Mas uma coisa eu te garanto: eu não posso mais casar com Rosário. Não depois de saber o que é estar verdadeiramente vivo em teus braços.
— Ela vai sofrer — disse Joana, com uma ponta de tristeza. — Mas seria um crime maior mentir para ela.
— Sim — concordou ele. — Seremos honestos, custe o que custar. Eu enfrentaria mil exércitos por ti, Joana.
Ela sorriu, um sorriso doce e vitorioso, e se aninhou mais profundamente no calor do homem que, contra todas as probabilidades, havia se tornado seu destino. Naquela noite, nas sombras da estância, a guerra deu trégua para que o amor pudesse, ao menos por algumas horas, ser o único soberano.