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Planos falhos

O Enigma do Chá e o Laço de Mimikyu

O sol começava a se pôr no horizonte de Pallet, pintando o céu com tons de laranja e violeta que rivalizavam com a cor do cabelo de James. No entanto, Jessie não estava admirando a paisagem. Ela estava sentada em um tronco caído, a poucos metros do acampamento improvisado da Equipe Rocket, encarando o vazio com uma intensidade que poderia derreter aço. Em seu colo, Mimikyu estava estranhamente imóvel.

O que mais irritava Jessie não era o fato de o plano ter sido interrompido pelo retorno precoce do pirralho. Não era nem mesmo o fato de James e Meowth estarem, naquele exato momento, discutindo sobre qual peça do robô gigante estava enferrujada. O que realmente a perturbava era o pequeno laço de fita cor-de-rosa, com bordas rendadas, que agora adornava o pescoço do pano surrado de Mimikyu.

Delia Ketchum o havia colocado ali. Com aqueles dedos ágeis e aquele sorriso que parecia emitir luz própria, ela havia olhado para a criatura mais sombria e incompreendida da Equipe Rocket e dito: "Ele só precisa de um pouco de cor para realçar esses olhos misteriosos".

— É tática de guerra, eu já disse! — Jessie disparou de repente, levantando-se e assustando Meowth, que tentava abrir uma lata de comida Pokémon.

— Tática de guerra? — Meowth perguntou, limpando o focinho. — Jessie, você está olhando para esse laço há duas horas com cara de quem viu um Dragonite de pelúcia.

— É uma infiltração psicológica profunda! — Jessie gesticulou dramaticamente, as unhas impecáveis brilhando sob a luz da lua crescente. — Para derrotar o inimigo, eu preciso entender a mente de quem o criou. Delia Ketchum é a arquiteta do pirralho. Se eu... se eu fingir que gosto dela, ela baixará a guarda!

— Mas Jess... — James interveio, aproximando-se com uma chave de fenda na mão — você não parou de falar sobre como o chá dela tinha o equilíbrio perfeito de bergamota. E você até suspirou quando ela elogiou a sua "aura vibrante".

— Eu estava atuando! — gritou Jessie, embora suas bochechas estivessem adquirindo um tom de carmesim que não tinha nada a ver com raiva. — Sou uma mestre do disfarce, uma atriz digna de um prêmio em Lumiose! Aquela mulher é... é apenas um alvo. Um alvo muito gentil, muito atencioso, que tem uma pele invejável para a idade dela e que, por algum motivo, não se assustou com o Mimikyu... mas ainda assim, um alvo!

Mimikyu emitiu um som baixo, um "kyu-kyu" que soava quase como um suspiro satisfeito. Ele parecia gostar do laço. Ele parecia gostar de Delia. Jessie sentiu uma pontada de traição, mas logo a substituiu por uma confusão emocional que ela não sabia nomear.

— Escutem aqui, seus dois patetas — Jessie cruzou os braços, tentando recuperar a compostura. — Amanhã, voltaremos lá. Mas não com o robô. O robô é... muito impessoal. Eu vou voltar como Jessilina. Vou convidá-la para um piquenique. E então, quando ela estiver distraída me ensinando a receita daqueles biscoitos de aveia maravilhosos... bum! Pegamos o Pikachu.

— Um piquenique? — Meowth trocou um olhar preocupado com James. — Jessie, você odeia formigas. E odeia sentar na grama. Você diz que estraga o tecido das suas roupas de grife.

— É um sacrifício necessário pela organização! — Jessie proclamou, embora em sua mente ela já estivesse escolhendo qual toalha de mesa combinaria mais com o jardim da casa dos Ketchum.

— Sei... — murmurou Meowth. — E o fato de você ter passado os últimos dez minutos tentando passar um batom que combine com o avental da Delia também é "sacrifício"?

Jessie lançou um olhar tão gélido para o Pokémon falante que ele quase congelou no lugar.

— O visual é parte fundamental do disfarce, Meowth. Se eu não estiver impecável, ela vai suspeitar. Delia é uma mulher de discernimento. Ela notou minha sofisticação imediatamente. Não posso decepcionar... quer dizer, não posso estragar o personagem!

A noite passou devagar para Jessie. Enquanto James e Meowth roncavam, ela ficou acordada, olhando para as estrelas. Por que o rosto de Delia não saía de sua cabeça? Por que a sensação da mão dela sobre a sua, naquele momento breve na sala de estar, parecia mais real do que todas as medalhas e elogios que ela já recebeu de Giovanni?

— Ela é a mãe do pirralho — Jessie sussurrou para si mesma, ajeitando o cobertor. — Ela é o inimigo. Ela é... tão gentil que dói.

No dia seguinte, o sol mal havia nascido quando Jessie já estava pronta. Desta vez, ela usava um conjunto azul-celeste, com um chapéu de palha adornado com flores silvestres. Ela carregava uma cesta de vime que, secretamente, continha uma rede eletrificada dobrada no fundo, mas por cima havia sanduíches de pepino cuidadosamente cortados (que ela mesma preparou, apesar de ter quase queimado os dedos).

— Fiquem aqui — ordenou ela aos companheiros. — Se virem o pirralho, deem um jeito de distraí-lo. Eu cuido da Delia.

Caminhar até a residência Ketchum parecia diferente desta vez. O coração de Jessie batia num ritmo frenético, algo que ela costumava sentir apenas antes de uma grande explosão ou de um roubo bem-sucedido. Mas isso era... diferente. Era uma antecipação nervosa.

Ao chegar na cerca branca, ela viu Delia cuidando do jardim. O Mr. Mime estava ao lado dela, usando um pequeno chapéu de sol e regando as flores com uma precisão robótica.

— Jessilina! — Delia exclamou, levantando-se e limpando as mãos no avental. O sorriso dela era tão caloroso quanto o sol da manhã. — Que surpresa maravilhosa! Eu estava justamente pensando se você voltaria para buscar seu guarda-chuva.

— Oh, o guarda-chuva! — Jessie riu, uma risada que soou um pouco mais aguda do que o planejado. — Sim, que cabeça a minha. Mas, na verdade, eu vim porque me senti mal por ter saído tão apressada ontem. Eu trouxe... um lanche. Para agradecer a hospitalidade.

Delia inclinou a cabeça, os olhos brilhando.

— Que gesto adorável. Mimey, veja só, temos uma convidada para o café da manhã no jardim!

— Mime-mime! — O Pokémon barreira fez uma reverência, embora ainda olhasse para a cesta de Jessie com uma pitada de desconfiança.

Elas se sentaram sob a sombra de uma grande árvore. Jessie abriu a cesta, exibindo os sanduíches. Delia parecia genuinamente impressionada.

— Você mesma fez? Estão lindos.

— É... bem, a etiqueta exige que uma consultora saiba lidar com todas as formas de apresentação — mentiu Jessie, sentindo um calor estranho no peito ao receber o elogio.

— Sabe, Jessilina — começou Delia, pegando um sanduíche —, eu não recebo muitas visitas que não sejam os amigos do Ash. É revigorante conversar com uma mulher tão... independente. Você viaja muito, não é?

— O tempo todo — Jessie respondeu, e por um momento, a máscara de vilã escorregou. — Às vezes é cansativo. Estar sempre em movimento, sempre tentando alcançar algo que parece estar logo além do alcance...

— Eu entendo — Delia disse suavemente, colocando a mão sobre a de Jessie novamente. — Mas você tem um brilho nos olhos que me diz que você não desiste fácil. Eu admiro isso. É uma força que poucas pessoas possuem.

Jessie congelou. Aquilo não estava no roteiro. Delia deveria estar falando sobre o Pikachu, sobre as rotas de viagem do Ash, sobre qualquer coisa que pudesse ser usada como informação de inteligência. Em vez disso, ela estava olhando para Jessie como se visse algo valioso dentro dela. Algo que nem a própria Jessie acreditava que existia.

— Você... você admira isso? — Jessie perguntou, a voz quase falhando.

— Claro. O mundo pode ser duro para mulheres como nós. Mas olhe para você, com seu Pokémon único e seu estilo impecável. Você é uma inspiração.

Nesse momento, Mimikyu saiu de trás de Jessie e aproximou-se de Delia. Ele inclinou a cabeça, o laço rosa ainda firme em seu pescoço. Delia soltou uma risadinha e acariciou o topo da cabeça de pano do Pokémon.

— E vejo que ele ainda está usando o laço. Ficou perfeito, não acha?

— Ficou... — Jessie desviou o olhar, sentindo uma lágrima traidora ameaçando surgir. — Ficou ridículo. Ele é um Pokémon de medo e sombras, não uma boneca de porcelana.

— Ah, mas todos precisam de um pouco de carinho, Jessilina. Até as sombras.

Jessie sentiu um nó na garganta. Ela olhou para a cesta. A rede eletrificada estava ali, apenas esperando para ser usada. O Pikachu estava provavelmente treinando nos fundos da casa ou dormindo lá dentro. Era a oportunidade perfeita. Bastava um sinal, e James e Meowth viriam correndo.

Mas ela não conseguia se mexer.

— Delia... por que você é tão legal comigo? — A pergunta escapou antes que Jessie pudesse filtrá-la. — Você nem me conhece. Eu poderia ser... qualquer pessoa. Eu poderia ser uma vilã perigosa enviada para roubar tudo o que você tem!

Delia riu, uma risada suave que parecia desarmar todas as defesas de Jessie.

— Oh, Jessilina. Eu já vivi o suficiente para saber quem é perigoso e quem é apenas alguém tentando encontrar seu lugar. Você tem um coração bom, mesmo que tente escondê-lo atrás de grandes chapéus e palavras difíceis. Eu sinto essas coisas.

Jessie sentiu o peso do mundo em seus ombros. Ela era uma membra de elite da Equipe Rocket. Ela tinha um histórico de crimes (e falhas espetaculares). Ela deveria estar rindo na cara daquela mulher ingênua enquanto fugia com o rato elétrico.

Mas, em vez disso, ela se viu pegando mais um sanduíche e contando para Delia sobre uma vez que ela tentou ser enfermeira Pokémon — omitindo, é claro, a parte em que ela não passou nos testes e acabou se tornando uma ladra. Delia ouvia com atenção absoluta, rindo nos momentos certos e oferecendo palavras de conforto.

Horas se passaram. O sol já estava alto no céu quando um grito vindo dos arbustos quebrou o feitiço.

— Jessie! O que está esperando?! O sinal! Cadê o sinal?! — A voz de Meowth era audível para qualquer um num raio de dez metros.

James apareceu logo atrás, tropeçando em um galho.

— É agora? Vamos lançar a rede? Eu já preparei o motor!

Jessie levantou-se num salto, o rosto alternando entre o pânico e a fúria. Delia olhou para os arbustos, confusa.

— Seus amigos? — perguntou ela, inclinando a cabeça.

— Eu... eu... — Jessie gaguejou. Ela olhou para Delia, que ainda sorria, e depois para os dois patetas que acabavam de arruinar seu "disfarce".

— Jessilina? — Ash apareceu na porta dos fundos, com o Pikachu no ombro. — O que está acontecendo? Meowth? James?

— Equipe Rocket! — Ash gritou, entrando em posição de batalha. — Eu sabia que era você! O que fez com a minha mãe?

— Pika-pi! — Pikachu soltou faíscas, pronto para atacar.

Jessie olhou para Delia. A mulher não parecia assustada. Ela parecia... triste? Não, ela parecia estar esperando por uma explicação.

— Ash, espere! — Delia levantou-se e colocou-se entre o filho e Jessie. — Ela não fez nada. Estávamos apenas tomando chá.

— Mas mãe, eles são ladrões! Eles tentam roubar o Pikachu toda semana! — Ash protestou, confuso.

Jessie sentiu o orgulho ferido, mas havia algo mais profundo doendo. Ela olhou para o laço no pescoço de Mimikyu. Ela olhou para a cesta de piquenique.

— É verdade, pirralho! — Jessie gritou, recuperando sua postura dramática, embora houvesse um tremor em sua voz. — Tudo isso foi um plano brilhante para nos infiltrarmos! Eu seduzi sua mãe com minha beleza e intelecto para que ela revelasse todos os seus segredos!

— Você... o quê? — Ash piscou, processando a informação.

— Mas... — Jessie continuou, apontando o dedo para o alto — eu decidi que este lugar é entediante demais para o meu talento! O chá estava morno e os sanduíches... bem, os sanduíches estavam ótimos porque eu os fiz, mas a companhia é... é...

Ela olhou para Delia. As palavras "horrível" ou "insuportável" ficaram presas em sua garganta.

— A companhia é aceitável! — Jessie finalizou, virando as costas. — Vamos, James! Meowth! Não temos tempo a perder com gente tão... comum!

— Mas e o Pikachu? — James perguntou, sem entender a mudança repentina.

— Esqueça o Pikachu por hoje! — Jessie o agarrou pela gola e começou a arrastá-lo. — Tenho uma consulta de massagem marcada e não vou me atrasar por causa de um rato amarelo!

Mimikyu seguiu Jessie, mas antes de desaparecer na floresta, ele parou e olhou para Delia uma última vez. O Pokémon fantasma fez um pequeno gesto com a cabeça, quase como um agradecimento.

— Esperem! — a voz de Delia ecoou.

Jessie parou, mas não se virou. Ela não podia se virar. Se visse o rosto de Delia agora, ela sabia que começaria a chorar ou, pior, pediria para ficar para o jantar.

— Jessilina! — Delia chamou. — Você esqueceu o seu guarda-chuva de novo! E... leve os biscoitos que sobraram!

Jessie sentiu algo ser colocado em sua mão livre por Mr. Mime, que havia corrido até ela. Era um pacote embrulhado em papel pardo, ainda morno.

— Vamos logo! — Jessie gritou, correndo para a floresta com James e Meowth em seu encalço.

Longe da casa, escondidos na densa folhagem, o trio parou para recuperar o fôlego. James e Meowth olhavam para Jessie com expressões de puro choque.

— Jessie... o que foi aquilo? — Meowth perguntou, limpando o suor da testa. — Você desistiu? Assim?

— Eu não desisti de nada! — Jessie exclamou, abrindo o pacote de biscoitos e pegando um. — Eu apenas percebi que... que uma abordagem direta é melhor. Amanhã usaremos o robô.

— Você está comendo os biscoitos da mãe do pirralho — observou James, apontando para a mão dela.

— Eles são o combustível para a minha maldade! — Jessie retrucou, embora estivesse saboreando cada migalha. — E não ousem tocar neles! São todos meus!

Ela se sentou no chão, abraçando os próprios joelhos. James e Meowth se afastaram um pouco, dando-lhe espaço. Jessie olhou para Mimikyu, que estava sentado ao seu lado, ainda com o laço rosa.

— Ela é louca, Mimikyu — Jessie sussurrou, tão baixo que apenas o Pokémon podia ouvir. — Ela é completamente louca por achar que eu tenho um coração bom.

Mimikyu emitiu um som suave e encostou a cabeça no braço de Jessie.

— Mas... — Jessie suspirou, fechando os olhos e sentindo o gosto doce do biscoito de aveia — talvez ela tenha razão sobre o laço. Combinou com você.

Naquela noite, Jessie não sonhou com a captura do Pikachu ou com a promoção de Giovanni. Ela sonhou com um jardim ensolarado, o cheiro de chá de ervas e uma voz gentil que a chamava de "vibrante". E, pela primeira vez em muito tempo, a vilã mais temida de Kanto dormiu com um sorriso que não tinha nada de malicioso.

Afinal, ser "vibrante" era muito mais cansativo do que ser má, mas, de alguma forma, parecia valer muito mais a pena. Principalmente se houvesse biscoitos envolvidos. E, talvez, apenas talvez, um pouco de amizade.