Poliana
O Pincel e a Bagunça
A luz da manhã entrava pelas janelas altas do casarão, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Para Luísa, aquele silêncio sempre fora um refúgio, uma barreira que ela construiu para se proteger do mundo exterior. Mas, desde a chegada de Poliana e, mais recentemente, do pequeno Caio, o silêncio do casarão D’Ávila nunca mais foi o mesmo. Tinha um novo som: o arrastar de cadeiras, o riso abafado e, ocasionalmente, o estrondo de algo quebrando.
Luísa estava em seu ateliê, tentando se concentrar em uma tela que permanecia em branco há dias. O pincel estava parado em sua mão, suspenso pela dúvida. Ela pensava no abraço de Caio na noite anterior. Como um menino tão pequeno podia carregar uma dor tão pesada? E como ela, que sempre se orgulhou de ser racional e prática, se permitiu amolecer tanto por causa de um par de olhos castanhos e chorosos?
A porta do ateliê — um lugar que costumava ser estritamente proibido — foi aberta com um rangido hesitante.
— Tia Luísa? — A voz de Poliana ecoou, doce e cautelosa.
Luísa suspirou, pousando o pincel.
— Entre, Poliana. O que foi agora?
A menina entrou, trazendo consigo o pequeno Caio. O menino estava com o rosto sujo de chocolate e segurava um aviãozinho de papel que parecia ter passado por uma guerra. Atrás deles, Nanci apareceu com um pano de prato na mão, parecendo exausta.
— Dona Luísa, eu juro que tentei segurar, mas o menino é um foguete! — desculpou-se a governanta. — Ele cismou que o avião dele precisa de "combustível de cor".
Caio deu um passo à frente, ignorando a tensão no rosto da tia. Ele olhou para as tintas espalhadas sobre a mesa de madeira com uma fascinação quase religiosa.
— Eu não quero quebrar nada, eu juro — disse Caio, com aquela seriedade que só as crianças de cinco anos possuem. — Mas meu avião é triste, Luísa. Ele é branco. Eu quero que ele seja igual aos quadros do papai.
Luísa sentiu uma fisgada no peito. Augusto, seu irmão, amava cores vibrantes. Seus quadros eram explosões de vida, o oposto exato das paisagens melancólicas e cinzentas que Luísa preferia pintar.
— Caio, este é o meu local de trabalho. Não é lugar de brincadeira — Luísa tentou manter a voz firme, mas a imagem do menino rabiscando as fotos da mãe com giz preto na noite anterior ainda estava fresca em sua mente.
— Deixa ele, Tia Luísa! — Poliana interveio, aproximando-se da tia com aquele olhar de quem estava prestes a sugerir uma rodada do Jogo do Contente. — Podemos ficar muito contentes porque o Caio quer expressar o que sente através da arte! Imagina que lindo o avião dele levando as cores da nossa família para o céu?
Luísa olhou de Poliana para Caio. O menino tinha uma mancha de tinta guache azul na bochecha — provavelmente de algum projeto escolar — e um brilho de expectativa nos olhos que ela não tinha coragem de apagar.
— Só um pouco — cedeu Luísa, apontando para um banco. — Sente-se ali. Vou pegar umas tintas que não mancham tanto. E Poliana, ajude-o a não fazer uma tragédia no meu tapete.
— Eba! — Caio deu um pulinho, correndo para o banco. — Eu vou pintar o motor de vermelho pra ele voar bem rápido!
Enquanto as crianças se acomodavam, Luísa se viu fazendo algo que não fazia há anos: compartilhando seu espaço sagrado. Ela observava Caio mergulhar o dedo na tinta — ignorando completamente o pincel que ela lhe oferecera — e carimbar o papel com entusiasmo.
— Tia Luísa — disse Caio, enquanto espalhava um amarelo berrante pelas asas de papel —, você acha que lá no céu tem tinta?
O movimento da mão de Luísa parou.
— Por que você quer saber isso, Caio?
— Porque se o papai tiver tinta, ele pode pintar as nuvens pra eu saber qual é a dele. Às vezes eu olho pra cima e todas as nuvens são iguais. É difícil achar ele — explicou o menino, com uma naturalidade que partiu o coração de todos na sala.
Nanci, que ainda estava à porta, limpou uma lágrima discreta no avental e se retirou para a cozinha. Poliana abraçou o primo de lado.
— Eu acho que ele usa as cores do pôr do sol, Caio — disse Poliana. — Sabe quando o céu fica bem laranja e rosa? Deve ser o seu pai e a minha mãe brincando de pintar.
— É — murmurou Caio, parecendo satisfeito com a explicação. — É isso mesmo.
O clima de tranquilidade, porém, durou pouco. Como era típico de Caio, a introspecção logo deu lugar à sua energia caótica. Em dez minutos, o avião não era apenas colorido; ele estava encharcado de tinta, e Caio agora tentava "pintar" o próprio braço para parecer um super-herói.
— Caio! Pare com isso agora! — Luísa levantou-se, recuperando sua postura de autoridade. — Eu disse que não era para fazer bagunça. Olhe o seu estado!
— Eu sou o Homem-Pintura! — gritou o menino, pulando do banco e correndo pelo ateliê. — Ninguém pode me pegar!
— Caio, volta aqui! — Poliana ria enquanto tentava cercar o primo.
O menino passou por baixo da mesa de Luísa, esbarrou em um pote de água e, por um milagre, não derrubou a tela principal. Luísa sentia o sangue subir às bêmporas. A paciência era uma virtude que ela ainda estava aprendendo a exercitar com aquela nova configuração familiar.
— Caio Augusto D’Ávila! — O uso do nome completo funcionou como um freio de mão. O menino parou instantaneamente, com a mão suja de verde estendida no ar, a poucos centímetros de uma cortina de veludo. — Para o banheiro. Agora. Nanci!
— Já vou, Dona Luísa! — a voz da governanta veio do corredor.
Caio baixou a cabeça, o lábio inferior começando a tremer.
— Eu só estava brincando…
— Brincadeiras têm limites, e você sabe disso — disse Luísa, aproximando-se e pegando-o pela mão (com cuidado para não se sujar tanto). — Você prometeu que se comportaria.
— Você vai me colocar de castigo? — perguntou ele, a voz pequena. — Não vai me deixar ir no ensaio com o Tio Marcelo?
Luísa suspirou, olhando para o desastre de tinta no chão. Ela deveria estar furiosa. Mas, ao olhar para o menino, ela viu o medo genuíno de ser rejeitado novamente. Cada erro, na cabeça de Caio, era um passo mais próximo de ser "devolvido" ou abandonado como a mãe fizera.
— Você vai para o banho. E depois, vai ajudar a Nanci a limpar este chão — sentenciou Luísa. — Se você limpar tudo e pedir desculpas, poderá ir ao ensaio.
Os olhos de Caio brilharam.
— Eu limpo! Eu limpo tudo com a língua se precisar!
— Com o pano, Caio. Use o pano — corrigiu Luísa, contendo um sorriso que insistia em aparecer.
Depois que Nanci levou o pequeno furacão para o andar de cima, Poliana ficou para trás, observando a tia.
— O que foi, Poliana? Por que está me olhando assim?
— Nada, tia. É que o seu Jogo do Contente está melhorando muito.
— Eu não estou jogando jogo nenhum — retrucou Luísa, voltando para sua tela, embora seu tom não tivesse nenhuma amargura.
— Está sim. Você ficou contente porque o Caio se sentiu em casa o suficiente para fazer bagunça. Antes ele ficava só quietinho no canto, com cara de bravo. Bagunça é sinal de que ele não tem mais medo de você.
Luísa não respondeu, mas as palavras da sobrinha ficaram ecoando em sua mente.
Mais tarde, na Escola Ruth Goulart, o clima era de expectativa. Marcelo estava no palco, organizando as crianças para o ensaio geral. Ele viu Caio chegar, de mãos dadas com Poliana, e notou que o menino ainda tinha um rastro de tinta verde atrás da orelha que o banho de Nanci não conseguiu remover.
— Tudo bem por aqui, campeão? — perguntou Marcelo, descendo do palco.
— Tudo! — Caio exclamou, recuperando sua confiança habitual. — Eu pintei um avião supersônico hoje. A Luísa deixou.
Marcelo olhou para Luísa, que estava parada à porta da sala, observando tudo com os braços cruzados. Ele caminhou até ela.
— Ele me contou que teve uma "sessão de artes" no seu ateliê. Fiquei surpreso. Achei que aquele lugar fosse solo sagrado.
— E é — respondeu Luísa, sem desviar o olhar de Caio, que agora estava correndo em círculos ao redor de um Igor visivelmente irritado. — Mas as paredes deste casarão andavam muito cinzas, Marcelo. Augusto sempre dizia que eu levava a vida a sério demais.
— Ele tinha razão — Marcelo sorriu, aproximando-se um pouco mais dela. — Você está fazendo um bom trabalho, Luísa. Com a Poliana e com o Caio. Eu sei o quanto é difícil para você abrir mão do controle.
— Eu não abri mão de nada. Ele ainda vai ter que me explicar por que tentou pintar a cortina de verde — ela disse, mas o brilho em seus olhos denunciava que a irritação era apenas fachada.
O ensaio começou. As crianças formaram uma fila para cantar uma música suave sobre gratidão. Caio estava no centro, esforçando-se para seguir os passos, embora sua coordenação motora de cinco anos o fizesse parecer um pequeno pinguim desajeitado.
No meio da música, Igor, que não perdia uma oportunidade, sussurrou alto o suficiente para os que estavam perto:
— Sua dancinha é feia. Sua mãe ia ter vergonha de você.
Caio parou imediatamente. O sorriso desapareceu. Seus punhos se fecharam. Marcelo, atento, fez menção de intervir, mas algo o deteve. Ele olhou para Luísa.
Luísa não esperou. Ela caminhou com passos firmes até a beira do palco.
— Igor Medeiros — a voz dela soou como um chicote, fria e autoritária.
O menino parou a provocação na hora, arregalando os olhos.
— Sim, Dona Luísa?
— Na minha família, nós valorizamos a educação e o respeito. Se eu ouvir você dirigir mais uma palavra ofensiva ao meu sobrinho, eu pessoalmente terei uma conversa muito séria com seus pais e com a diretora Ruth. Ficou claro?
Igor engoliu em seco, ficando pálido.
— Sim, senhora. Desculpa.
Luísa então olhou para Caio. O menino a encarava com uma mistura de choque e admiração. Ninguém nunca o tinha defendido daquele jeito — com a força de um leão, mas sem perder a elegância.
— Continue o ensaio, Caio — disse ela, o tom suavizando apenas para ele. — Você está indo muito bem.
O menino deu um sorriso radiante, limpou o nariz na manga da camiseta (para o horror estético de Luísa) e voltou a cantar com mais força do que nunca.
Ao final do ensaio, enquanto as crianças pegavam suas mochilas, Caio correu para Luísa e a abraçou pelas pernas, quase a derrubando.
— Você foi igual a uma super-heroína, Luísa! Você fez o Igor ficar mudo!
— Eu apenas coloquei as coisas em seus devidos lugares — ela respondeu, retribuindo o abraço de forma breve, mas firme. — Agora vamos. Nanci fez lanche.
Enquanto caminhavam para a saída, Marcelo acompanhou-os até o carro.
— Luísa, espera — chamou ele.
Ela parou e se virou.
— Eu queria te convidar para… bem, para tomarmos um café depois que você deixar as crianças. Precisamos conversar sobre o próximo evento da escola.
Luísa hesitou. Ela viu Poliana e Caio já entrando no carro, cochichando e rindo. O mundo ao seu redor parecia estar ganhando cores que ela não conseguia mais ignorar.
— Pode ser, Marcelo. Mas não hoje. Hoje eu prometi ao Caio que o ajudaria a terminar de pintar aquele avião. Ele disse que o motor precisa de "fogo azul".
Marcelo riu, balançando a cabeça.
— Fogo azul, claro. Prioridades.
— Exatamente — Luísa deu um meio sorriso. — Até amanhã, Marcelo.
O carro partiu, deixando Marcelo parado no estacionamento, observando-os ir embora. Ele sabia que o caminho para curar as feridas de Caio — e as de Luísa — ainda seria longo. Haveria mais explosões, mais saudades da mãe que partiu e mais aviões de papel amassados. Mas, enquanto houvesse tinta no ateliê e alguém disposto a defender aquele menino com unhas e dentes, o silêncio do abandono não teria mais espaço naquele casarão.
Dentro do carro, Caio já planejava sua próxima travessia.
— Luísa, você acha que se a gente amarrar muitos balões no meu avião, ele chega até a nuvem do papai?
Luísa olhou pelo retrovisor, encontrando o olhar esperançoso do sobrinho.
— Eu acho que, se você continuar desenhando com tanta vontade, Caio, você pode chegar a qualquer lugar que quiser.
Poliana sorriu, encostando a cabeça no ombro do primo. Ela sabia que o Jogo do Contente tinha acabado de ganhar um novo e importante jogador. E, pela primeira vez em muito tempo, a trilha sonora da família D’Ávila não era feita de soluços escondidos, mas de planos mirabolantes e cores que se recusavam a desbotar.