Voltar ao resumo

por que voce me trata assim

O Eco do Silêncio e as Cartas Não Lidas

O relógio de parede na pequena cozinha da casa dos Williams parecia bater mais alto do que o normal, preenchendo o vazio que a morte de Hannah havia deixado. Anna, agora com quase dez anos, sentava-se à mesa de madeira descascada, segurando um lápis que já estava quase no fim. Diante dela, um caderno de escola servia de confidente.

A casa ainda cheirava levemente ao perfume de lavanda que sua mãe tanto gostava, mas o brilho nos olhos da menina havia sido substituído por uma maturidade precoce e dolorosa. Ela aprendeu a cozinhar o básico, a lavar suas próprias meias e a manter a casa em ordem, tudo para que sua tia Mila não tivesse ainda mais trabalho quando passasse por ali.

O som da chave girando na fechadura interrompeu seus pensamentos. Era Mila. Ela entrou carregando uma sacola pequena e um sorriso cansado, aquele tipo de sorriso que as pessoas usam para esconder que o mundo está pesado demais sobre seus ombros.

— Anna, querida? — chamou Mila, deixando as chaves sobre o aparador. — Trouxe um pouco de pão fresco e alguns ovos. Como foi seu dia na escola?

Anna fechou o caderno rapidamente e forçou um sorriso doce, levantando-se para abraçar a tia.

— Foi bom, tia Mila. Eu ajudei a professora a organizar a biblioteca — respondeu a menina, sentindo o cheiro de sabão em pó que sempre emanava das roupas da tia. — E a senhora? Os meninos deram muito trabalho hoje?

Mila suspirou, sentando-se por um momento na cadeira que antes pertencia a Hannah.

— Você sabe como são quatro rapazes, Anna. É uma guerra constante por atenção e comida. Eu gostaria tanto que você viesse morar conosco de vez, sabe que meu coração dói em te deixar aqui sozinha à noite.

— Eu estou bem, tia — interrompeu Anna, com uma voz suave, mas firme. — Eu gosto de cuidar das coisas da mamãe. Aqui eu sinto que ela ainda está por perto. E eu não quero ser mais um peso na sua mesa.

Mila sentiu um nó na garganta. Era injusto que uma criança tão pequena tivesse que pensar em ser um "peso". Ela acariciou o rosto de Anna, notando como ela se parecia cada vez mais com a irmã falecida, exceto pelos olhos, que carregavam uma sombra de ressentimento que Hannah nunca possuiu.

— Você nunca seria um peso, meu anjo. Aquele homem... — Mila hesitou, referindo-se a Liam sem citar seu nome, como se a simples menção pudesse contaminar o ar. — Ele deveria estar enviando o que prometeu. A justiça é lenta, mas ele tem obrigações.

Anna desviou o olhar. O nome do pai era como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar.

— Ele não vai mandar nada, tia. Ele tem a "outra" família agora. Ele tem o filho que sempre quis.

— Não fale assim, Anna. Você é filha dele tanto quanto qualquer outra criança.

— Não para ele — sussurrou a menina. — Para ele, eu e a mamãe fomos apenas um erro que ele apagou com dinheiro e mentiras.

Enquanto isso, a quilômetros dali, em uma mansão cercada por muros altos e jardins impecáveis, a realidade era outra. Liam Williams estava sentado em seu escritório de carvalho, observando o filho pequeno, Leo, brincar com um carrinho eletrônico caro sobre o tapete persa.

Liam agora era um homem de sucesso estrondoso. Seus investimentos haviam triplicado, e sua nova esposa, uma mulher que sempre frequentou a alta sociedade, exigia um padrão de vida que ele ostentava com orgulho. Para o mundo exterior, Liam era o exemplo do homem que venceu na vida.

O telefone sobre a mesa vibrou. Era seu advogado.

— Sim? — atendeu Liam, sem tirar os olhos do filho.

— Sr. Williams, recebi outra notificação da assistência social sobre o caso da sua... outra filha. A tia dela está pedindo uma revisão da pensão alimentícia, ou ao menos um auxílio para os custos básicos.

Liam franziu a testa, sentindo uma irritação imediata.

— Eu já disse que não quero me envolver nisso agora. Hannah escolheu viver aquela vida simples, e eu segui em frente. Se eu começar a mandar dinheiro, elas nunca vão me deixar em paz. Além disso, Leo tem uma viagem para a Suíça no próximo mês, e os custos da escola particular subiram.

— Mas senhor, legalmente...

— Resolva isso — interrompeu Liam com frieza. — Diga que meus rendimentos estão comprometidos. Invente algo. Eu não vou sustentar o passado enquanto meu futuro está aqui na minha frente.

Ele desligou o telefone e sorriu para Leo.

— Quer ir dar uma volta no carro novo do papai, campeão? — perguntou ele, ignorando completamente o fato de que, naquele exato momento, sua filha primogênita estava dividindo um único pão com a tia para garantir que haveria café da manhã no dia seguinte.

De volta à pequena casa britânica, o anoitecer trouxe o frio típico da região. Mila já havia partido, precisando cuidar de seus próprios filhos, mas prometeu voltar logo cedo. Anna estava sozinha novamente.

Ela foi até o quarto da mãe. Tudo estava exatamente como Hannah havia deixado. Anna abriu a gaveta do criado-mudo e tirou de lá uma pequena caixa de metal. Dentro, havia fotos antigas de quando Liam ainda fingia ser um pai presente, antes da doença, antes da traição se tornar pública.

— Por que, mamãe? — perguntou Anna para o vazio. — Por que ele nos deixou quando você mais precisava?

Ela se lembrava das noites em que Hannah chorava baixinho no banheiro, tentando esconder a dor da leucemia e a dor do abandono. Lembrava-se de ter ouvido a mãe implorar ao telefone por um auxílio para os remédios, apenas para ser ignorada por Liam, que na época já desfrutava de sua nova fortuna.

Anna guardou as fotos. Ela não chorou. O choro havia secado há muito tempo, transformando-se em uma determinação silenciosa. Ela não seria como a mãe, uma vítima da bondade excessiva. Ela seria forte.

Naquela noite, Anna teve um sonho. Ela estava em um campo de flores brancas, e sua mãe estava lá, radiante e saudável. Hannah pegava sua mão e apontava para o horizonte.

— Não guarde o veneno no coração, minha pequena — dizia a voz de Hannah no sonho. — O sol sempre nasce, mesmo depois da noite mais longa.

Anna acordou com o rosto molhado. Pela primeira vez em meses, ela sentiu uma ponta de esperança, mas não era a esperança de que o pai voltasse. Era a esperança de que ela mesma pudesse construir um futuro onde o nome "Williams" não significasse dor, mas superação.

Na manhã seguinte, um envelope foi passado por baixo da porta. Anna o recolheu. Não era dinheiro, nem uma carta de desculpas. Era uma notificação judicial informando que o processo de pensão havia sido arquivado por falta de "comprovação de necessidade imediata", uma manobra clara dos advogados caros de Liam.

Mila chegou pouco depois e viu o papel nas mãos da sobrinha.

— Oh, Anna... eu sinto muito. Eu vou tentar falar com o padre, talvez a paróquia possa ajudar com as contas de luz este mês.

Anna olhou para a tia e, pela primeira vez, não baixou a cabeça.

— Não, tia Mila. Não peça ajuda por causa dele.

— Mas querida, como vamos fazer?

— Eu vou crescer — disse Anna, e havia um fogo novo em seus olhos azuis. — Eu vou estudar, vou trabalhar e vou cuidar da senhora e da memória da mamãe. Ele pode ficar com o dinheiro dele. Ele pode ficar com a família perfeita dele. Um dia, ele vai perceber que a única coisa que o dinheiro não compra é o que ele jogou fora aqui.

— Você é tão jovem para carregar esse peso... — lamentou Mila, abraçando a menina.

— O peso me fez forte, tia. Ele acha que nos venceu porque tem milhões. Mas ele é pobre, tia. Ele é o homem mais pobre que eu já conheci.

Enquanto as duas se abraçavam na cozinha humilde, a quilômetros dali, Liam Williams sentia um calafrio repentino enquanto assinava um cheque de alto valor para um novo iate. Ele olhou para o lado, sentindo por um breve segundo um vazio inexplicável, um eco de uma risada de criança que ele optou por esquecer. Mas o sentimento passou rápido, sufocado pelo som do papel sendo rasgado e pelo ego que o cegava.

O recomeço de Anna estava apenas começando, não com a ajuda do pai, mas apesar dele. E no silêncio daquela casa britânica, uma nova força florescia, pronta para enfrentar o mundo, um dia de cada vez.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.