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Porque tudo é complicado pra nós?

O Despertar das Máscaras e o Veneno de Seolhee

A manhã na prestigiada Escola de Ensino Médio de Seul não cheirava a café ou a livros novos, mas sim a uma tensão invisível que flutuava pelos corredores de mármore polido. Para Bang Nayumi, aquele ambiente era apenas um tabuleiro de xadrez onde ela preferia ser a peça que ninguém conseguia capturar. Ela caminhava com uma postura impecável, seus 1,60m de altura parecendo muito mais imponentes devido à aura de indiferença que exalava. Seus cabelos ondulados, tão longos que roçavam o final de suas costas, balançavam suavemente a cada passo, e a franja reta emoldurava seu rosto de porcelana, destacando a pequena sarda charmosa ao lado do olho esquerdo. Seus olhos castanhos, levemente puxados, estavam fixos no final do corredor, ignorando os sussurros que a seguiam.

Ao seu lado, suas sete amigas formavam uma barreira quase impenetrável. Soomin e Sora discutiam algo sobre o cronograma de aulas, enquanto Mi-rae ajustava a saia do uniforme com um ar de tédio. Elas eram o único grupo que Nayumi tolerava, as únicas que entendiam que seu silêncio não era falta de conteúdo, mas sim excesso de autodisciplina.

— Olhem só quem resolveu aparecer para iluminar este lugar deplorável com sua frieza habitual — comentou Choi Hana, com um sorriso sarcástico nos lábios, enquanto observava os alunos do terceiro ano se aglomerarem perto da entrada principal.

Nayumi não respondeu. Seus olhos, no entanto, traíram sua indiferença por um milésimo de segundo quando ela avistou o grupo de veteranos. Lá estavam eles: o "Stray Kids", como todos os chamavam. No centro, seu irmão, Bang Chan, exibia um sorriso protetor ao vê-la de longe, mas Nayumi apenas inclinou levemente a cabeça em reconhecimento. Ao lado dele, no entanto, estava a razão de suas noites em claro e de sua máscara de gelo ser tão espessa.

Kim Seungmin.

Com seus 1,90m de altura, ele parecia um gigante esculpido em gelo e perfeição. O uniforme do terceiro ano caía impecavelmente em seus ombros largos. Ele tinha uma expressão ilegível, os olhos escuros e profundos que pareciam atravessar as pessoas. Seungmin era o melhor amigo de seu irmão, o garoto que frequentava sua casa desde que ela era criança, e o homem que agora namorava sua maior inimiga.

Ao lado de Seungmin, pendurada em seu braço como um acessório caro, estava Kang Seolhee. A líder das garotas do segundo ano ostentava um sorriso vitorioso, seus olhos brilhando com uma malícia direcionada especificamente a Nayumi. Seolhee sabia que havia algo entre o silêncio de Nayumi e o olhar de Seungmin, mesmo que nenhum dos dois jamais tivesse admitido.

— Nayumi-ah! — Bang Chan exclamou, aproximando-se do grupo das garotas, sendo seguido pelos outros seis membros. — Você nem passou na cozinha hoje cedo. Saiu antes de eu acordar?

— Eu tinha coisas a fazer, Chan — Nayumi respondeu, sua voz saindo baixa e monótona, desprovida de qualquer emoção. — E você sabe que eu prefiro o silêncio da manhã na escola do que a sua cantoria no chuveiro.

Os meninos riram. Hyunjin passou a mão pelos cabelos longos, enquanto Felix soltava uma de suas risadas profundas que faziam as janelas vibrarem.

— Ela continua afiada como uma navalha — comentou Changbin, cruzando os braços. — Bom ver que nada mudou nas férias.

Seungmin permanecia em silêncio. Ele não desviou o olhar de Nayumi por um segundo sequer. Havia uma tensão elétrica entre eles, algo que Seungmin tentava rotular como "preocupação de irmão mais velho postiço", mas que queimava em seu peito de uma forma que ele não conseguia explicar. Ele a queria longe, para sua própria paz de espírito, mas ao mesmo tempo, sentia uma necessidade absurda de estar no campo de visão dela.

— Oppa, vamos? — Seolhee interrompeu, apertando o braço de Seungmin e lançando um olhar de desprezo para Nayumi. — Temos que organizar a reunião do conselho, e eu não aguento mais o cheiro de... infantilidade deste corredor.

Nayumi soltou um riso curto, quase imperceptível, mas carregado de sarcasmo.

— O cheiro de perfume barato realmente deve estar incomodando você, Seolhee. Talvez deva tentar algo menos desesperado da próxima vez.

As amigas de Seolhee, que estavam logo atrás, arfaram em uníssono. Min Yoora, que era obcecada por Bang Chan, deu um passo à frente, mas foi contida pelo olhar gelado de Nayumi.

— Como você ousa falar assim com a Seolhee? — disparou Han Eunji, a seguidora fiel de Hyunjin. — Você é apenas a irmãzinha do Chan que se acha superior porque não abre a boca.

— Se eu não abro a boca, Eunji, é porque não encontrei ninguém aqui com um QI alto o suficiente para valer o gasto do meu oxigênio — Nayumi rebateu, ajustando a alça de sua mochila. — Vamos, meninas. O ar está ficando pesado.

— Nayumi, espere — disse Seungmin. Sua voz era profunda, autoritária, e fez a garota parar no lugar.

Ela se virou lentamente, encontrando os olhos dele. Seungmin deu um passo à frente, soltando-se sutilmente do aperto de Seolhee, o que não passou despercebido por ninguém.

— Tome cuidado nos corredores do bloco C — ele disse, a voz num tom que apenas ela e os mais próximos podiam ouvir. — Eu vi o Myung-dae te procurando.

O nome de Jeon Myung-dae fez as amigas de Nayumi trocarem olhares preocupados. Myung-dae era do terceiro ano, um garoto rico, influente e perigosamente obcecado por Nayumi. Ele não aceitava o fato de ter sido rejeitado por uma caloura de forma tão humilhante no semestre passado.

— Eu sei me cuidar, Seungmin — Nayumi respondeu, sustentando o olhar dele. — Mas obrigada pela "preocupação". Guarde-a para quem realmente precisa, como sua namorada. Ela parece estar prestes a ter um aneurisma.

Sem esperar resposta, Nayumi deu as costas e seguiu em direção à sua sala, acompanhada por seu séquito de sete amigas. Seungmin ficou parado, observando o movimento dos cabelos dela até que ela desaparecesse na curva do corredor.

— Seungmin! Você ouviu como ela me tratou? — Seolhee reclamou, puxando-o novamente. — Por que você ainda fala com essa garota estranha? Ela é assustadora e mal-educada.

— Ela é irmã do Chan, Seolhee — Seungmin respondeu friamente, seus olhos perdendo o pouco de brilho que tinham. — É meu dever garantir que ela não se meta em problemas. Agora, vamos. Tenho aula de física.

Enquanto isso, no bloco C, a atmosfera era bem diferente. Jeon Myung-dae estava encostado nos armários, ladeado por seus dois cães de guarda, Lim Joo-won e Baek Hyun-woo. Ele segurava uma rosa vermelha, cujas pétalas ele arrancava uma a uma com um sorriso psicótico.

— Ela passou pelo corredor principal — informou Hyun-woo, guardando o celular. — Estava com as amigas e com o grupo do Bang Chan. Seungmin falou com ela.

Myung-dae parou de arrancar as pétalas. Seus olhos brilharam com uma fúria contida.

— Seungmin... — ele sibilou o nome como se fosse veneno. — Ele acha que, por ser amigo do irmão dela, tem algum direito. Mas Nayumi será minha. Ela só não percebeu ainda que o gelo dela precisa de um fogo como o meu para derreter.

— Ela te odeia, cara — Joo-won comentou, rindo sem humor. — Ela literalmente disse que preferia lamber o chão do refeitório do que sair com você.

Myung-dae agarrou o colarinho de Joo-won, batendo-o contra o armário com força.

— Ela está apenas jogando difícil. É o mistério dela. E eu adoro um mistério. Quando eu a pegar, ela vai implorar para estar ao meu lado.

Ele soltou o amigo e jogou o que restava da rosa no chão, pisoteando-a com seu sapato de marca.

Dentro da sala de aula do primeiro ano, Nayumi sentou-se em sua mesa habitual, perto da janela. Ela abriu seu caderno e começou a desenhar padrões abstratos, tentando ignorar o aperto em seu peito. Ver Seungmin com Seolhee era como receber pequenas facadas constantes, mas ela era mestre em esconder sua dor. Ninguém sabia. Nem Chan, que contava tudo para ela; nem suas amigas, que achavam que ela era incapaz de amar.

— Você está bem? — sussurrou Park Soomin, sentando-se na mesa à frente.

— Por que não estaria? — Nayumi respondeu sem levantar os olhos.

— Seungmin parecia... diferente hoje. O jeito que ele olhou para você quando a Seolhee começou a falar. Ele não gosta dela tanto quanto finge, Nayu.

— Isso não é problema meu, Soomin. Ele fez a escolha dele. Ele prefere o barulho de uma garota fútil ao silêncio de alguém que realmente o conhece. E eu prefiro ficar sozinha a ser a segunda opção de qualquer pessoa.

— Você é tão teimosa — suspirou Soomin.

— Eu sou realista — corrigiu Nayumi, finalmente levantando os olhos castanhos e focando no pátio lá fora, onde o sol começava a brilhar com força.

A aula começou, mas a mente de Nayumi estava longe. Ela pensava no aviso de Seungmin. Myung-dae era um problema que ela teria que resolver logo, antes que ele se tornasse uma ameaça real. Mas, mais do que isso, ela pensava no toque de Seungmin no braço de Seolhee e em como ela desejava, no fundo de sua alma trancada, que aquele toque fosse direcionado a ela.

O sinal para o intervalo finalmente tocou, ecoando como um trovão pelos corredores. Nayumi se levantou, guardando suas coisas com movimentos lentos e precisos.

— Vamos ao refeitório? — perguntou Yoon Areum, aproximando-se com um sorriso doce.

— Vão na frente — disse Nayumi. — Preciso passar na biblioteca para devolver um livro. Encontro vocês em dez minutos.

As meninas assentiram e saíram. Nayumi caminhou calmamente, apreciando os poucos momentos de solidão. No entanto, ao dobrar o corredor que levava à biblioteca, ela sentiu uma mão forte agarrar seu pulso e puxá-la para dentro de uma sala de limpeza vazia.

Ela estava pronta para desferir um golpe na garganta do agressor, sua frieza transformando-se em instinto de sobrevivência, mas parou quando sentiu o cheiro familiar de sândalo e hortelã.

A luz fraca da sala revelou a silhueta alta de Seungmin. Ele a havia prensado contra a porta fechada, suas mãos espalmadas na madeira, uma de cada lado da cabeça de Nayumi. A diferença de altura era gritante; ela mal chegava ao peito dele.

— O que você pensa que está fazendo, Seungmin? — ela perguntou, sua voz saindo mais trêmula do que pretendia.

— Eu te disse para não andar sozinha — ele sussurrou, a voz rouca e carregada de uma tensão que ele não conseguia mais esconder. — Myung-dae está vigiando cada passo seu. Por que você nunca me escuta?

— Porque você não é meu dono, nem meu irmão — Nayumi rebateu, tentando empurrá-lo, mas ele era como uma parede de pedra. — Volte para sua namorada e me deixe em paz.

Seungmin aproximou o rosto do dela, seus narizes quase se tocando. Nayumi conseguia sentir o calor que emanava dele, um contraste absurdo com a frieza que ambos ostentavam para o mundo.

— Você acha que eu quero estar aqui? — ele perguntou, os olhos fixos nos lábios dela por um breve segundo antes de voltarem para os olhos castanhos puxados. — Você acha que é fácil para mim ver você andando por aí como se nada te atingisse, sabendo que tem um psicopata atrás de você?

— Eu não pedi sua proteção — ela sibilou, o coração martelando contra as costelas. — E eu certamente não preciso de um herói que volta para os braços da Seolhee assim que sai de perto de mim.

Seungmin soltou um riso amargo, encostando a testa na dela por um breve momento. Foi um contato elétrico, proibido, que fez o mundo lá fora desaparecer.

— Você é a garota mais difícil que eu já conheci, Bang Nayumi. E a mais irritante.

— Então me solte.

Ele não soltou. Pelo contrário, aproximou-se ainda mais, o cheiro dele invadindo todos os sentidos de Nayumi, desarmando suas defesas.

— Eu sinto algo quando olho para você — ele confessou em um sussurro tão baixo que ela quase achou ter imaginado. — Algo que me irrita, que me tira o sono. Eu não sei o que é, e eu odeio não ter o controle de mim mesmo.

Nayumi sentiu uma lágrima solitária ameaçar escapar, mas ela a engoliu. Ela não podia ser fraca. Não agora.

— O que você sente é culpa, Seungmin. Culpa por saber que ela é uma pessoa horrível e você continua com ela por conveniência. Agora, saia da minha frente antes que alguém nos veja e eu tenha que lidar com o drama da sua namorada.

Seungmin a encarou por mais alguns segundos, uma luta interna visível em suas feições esculpidas. Lentamente, ele se afastou, dando espaço para ela respirar.

— Não ande sozinha, Nayumi. Estou falando sério. Se Myung-dae tocar em um fio de cabelo seu, eu não vou responder por mim, e nem o Chan vai conseguir me impedir.

Ele abriu a porta e saiu primeiro, verificando o corredor antes de desaparecer na direção oposta ao refeitório. Nayumi ficou ali, no escuro da sala de limpeza, com as pernas trêmulas e o coração em frangalhos.

Ela limpou o canto do olho esquerdo, bem ao lado da pequena pintinha, e respirou fundo. Recompôs sua máscara de frieza, ajeitou o uniforme e saiu da sala com a cabeça erguida.

O jogo havia começado, e as peças estavam se movendo de forma perigosa. Entre a obsessão de Myung-dae, o ódio de Seolhee e o sentimento confuso de Seungmin, Nayumi sabia que o ensino médio estava prestes a se tornar um campo de batalha. E ela, como sempre, pretendia ser a única sobrevivente.

Ao chegar ao refeitório, ela viu Seolhee rindo alto com suas amigas, enquanto os meninos do Stray Kids conversavam sobre o próximo jogo de basquete. Seungmin estava lá, sentado ao lado de Seolhee, sua expressão novamente fria e distante, como se o encontro na sala de limpeza jamais tivesse acontecido.

Nayumi sentou-se com suas amigas, pegando sua maçã e ignorando o olhar de Myung-dae, que a observava de uma mesa distante com um sorriso predatório.

— Demorou — comentou Sora, digitando furiosamente em seu tablet. — Aconteceu alguma coisa?

— Apenas o lixo habitual do corredor — Nayumi respondeu, dando uma mordida na maçã. — Nada que eu não consiga descartar.

Mas, por dentro, ela sabia que Kim Seungmin não era algo que ela pudesse simplesmente descartar. Ele era o veneno e o antídoto, e o capítulo 20 ainda estava muito longe para que ela pudesse encontrar qualquer tipo de paz.