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Prato Principal

O Gosto Metálico do Silêncio

O kit de primeiros socorros parecia ridiculamente pequeno nas mãos grandes de Rody. Ele estava ajoelhado entre as pernas de Vincent, uma posição que, em qualquer outro contexto, seria carregada de uma intimidade que Rody jamais se permitiria imaginar. Mas ali, sob a luz fria e oscilante da luminária de mesa, era apenas uma cena de crime sendo remediada por mãos trêmulas.

O dólmã branco de Vincent estava arruinado. O sangue já não apenas manchava o tecido, mas o encharcava, tornando a fibra pesada e grudenta. Rody pegou uma tesoura do kit e, com movimentos bruscos, começou a cortar o tecido ao redor do ferimento. Ele evitava olhar diretamente para o rosto de Vincent, mas podia sentir o olhar do chef queimando o topo de sua cabeça.

— Você está tremendo, Rody — observou Vincent. A voz dele estava mais fraca, mas o tom de deboche ainda persistia, como um veneno que se recusa a ser diluído. — Onde está toda aquela coragem de alguns minutos atrás? Onde está o homem que decidiu me marcar como gado?

— Cale a boca, Vincent. Eu estou tentando não deixar você sangrar até a morte no seu tapete caro — rosnou Rody, a voz saindo mais grossa do que o habitual.

Ele finalmente expôs a ferida. O corte era feio, profundo e irregular, as bordas de carne aberta ainda pulsando levemente. Rody sentiu uma onda de náusea. Ele não era um médico; ele era apenas um garçom que gostava de cães e de sorrir para os clientes. Ver o interior de um ser humano — especialmente do homem que ele agora sabia ser um monstro — era demais.

— Use o antisséptico — instruiu Vincent, sua respiração tornando-se um pouco mais curta quando Rody hesitou. — E não hesite. Se você for gentil agora, só vai prolongar a minha dor. E eu sei que você não quer ser gentil comigo.

Rody pegou o frasco de álcool. Ele olhou para Vincent, encontrando aqueles olhos escuros e insondáveis. Por um segundo, a raiva por Manon, a dor da traição e o choque da descoberta se fundiram em um único impulso sombrio.

— Você tem razão. Eu não quero ser gentil.

Rody derramou o líquido diretamente sobre o corte aberto.

Vincent arqueou as costas, os dedos cravando-se nos braços da poltrona de couro com tanta força que as juntas ficaram brancas. Um som gutural, metade gemido e metade rosnado, escapou de sua garganta, mas ele não desviou o olhar de Rody. Ele absorveu a dor como se fosse um banquete, as pupilas dilatando até que quase não houvesse mais cor em seus olhos.

— Isso... — Vincent arquejou, o suor frio brotando em sua testa — ... foi quase satisfatório.

— Você é doente — sussurrou Rody, começando a limpar o excesso de sangue com gazes. — Você a matou e agora está aqui, sentindo prazer com isso? O que há de errado com você?

— O que há de errado comigo? — Vincent soltou uma risada seca que se transformou em uma careta. — Eu sou um artista, Rody. Eu busco a perfeição. O sabor absoluto. Manon... ela era doce, mas era uma doçura vazia. Ela não tinha a substância que eu procurava. Mas você...

Vincent estendeu a mão ilesa e, antes que Rody pudesse reagir, tocou o rosto do garçom. Seus dedos estavam gelados, mas o toque parecia queimar a pele de Rody.

— Você tem um fogo que eu não esperava. Um sabor amargo, forte, persistente. Você é o prato principal que eu nunca soube que queria preparar.

Rody afastou a mão dele com um tapa, o som ecoando na sala.

— Não me toque. Nunca mais me toque. Eu só estou fazendo isso porque... porque eu não posso ser como você. Eu não posso deixar alguém morrer, mesmo um lixo como você.

— Mentira — sibilou Vincent, inclinando-se para frente, ignorando a dor aguda no ombro que o movimento causava. — Você voltou porque não consegue ir embora. Você sente isso, não sente? O fio que nos une agora. Você poderia ter discado 190. Poderia ter corrido para a rua e gritado por socorro. Mas você está aqui, ajoelhado aos meus pés, cuidando de mim.

Rody sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele queria negar. Queria dizer que era apenas o choque, que seu cérebro estava em curto-circuito. Mas a verdade era que, enquanto limpava o sangue de Vincent, uma parte distorcida de sua mente estava fascinada pela vulnerabilidade do homem que sempre pareceu intocável. Vincent, o grande chef, o homem frio e calculista, estava sangrando por causa dele. E essa percepção trazia um tipo de poder que Rody nunca experimentara.

— Eu vou enfaixar isso e depois vou embora — disse Rody, ignorando as provocações. — E amanhã...

— Amanhã você virá trabalhar — interrompeu Vincent. — Você chegará no horário, limpará as mesas, servirá o vinho e sorrirá para as senhoras ricas como o bom garçom que você é.

— Você está louco se acha que eu vou voltar para este lugar!

— E o que você vai fazer? — Vincent arqueou uma sobrancelha, a palidez dando-lhe um ar quase espectral. — Vai contar para a polícia sobre Manon? Onde estão as provas, Rody? Os papéis que você viu... eu posso queimá-los em segundos. O sangue no chão? É o meu sangue, derramado por você. Se a polícia entrar por aquela porta agora, o único criminoso com provas contra si é você.

Rody parou de enrolar a gaze. Ele olhou para as próprias mãos, ainda sujas com o vermelho escuro de Vincent. A armadilha estava armada, e ele tinha caminhado direto para o centro dela.

— Por que você quer que eu fique? — perguntou Rody, a voz baixa e quebrada. — Se você sabe que eu te odeio, por que me manter por perto?

Vincent soltou um suspiro longo, fechando os olhos por um momento enquanto a adrenalina começava a baixar, deixando apenas a exaustão.

— Porque o ódio é um tempero muito mais interessante do que a lealdade, Rody. E porque, pela primeira vez em anos, eu sinto que alguém realmente me viu. Não o chef premiado. Não o homem de negócios. Mas o que eu realmente sou. E você não desviou o olhar.

Rody terminou de prender a gaze com fita adesiva. Ele se levantou, a diferença de altura tornando-se novamente um fator de intimidação. Ele olhou de cima para Vincent, que parecia pequeno e frágil na poltrona, apesar da aura de perigo que ainda o cercava.

— Eu não desviei o olhar porque queria ver o monstro que tirou ela de mim — disse Rody com firmeza. — E agora que eu vi, eu não vou esquecer.

— Ótimo — murmurou Vincent, recostando a cabeça no couro da cadeira. — Não esqueça. Deixe que isso te consuma. Deixe que isso mude o modo como você respira, o modo como você cozinha, o modo como você me olha.

Rody pegou sua jaqueta que estava jogada em um canto. Ele caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. O silêncio do restaurante lá fora parecia uma fera à espreita.

— Vincent?

— Sim, Rody?

— Se você tentar qualquer coisa... se você chegar perto de mim com uma daquelas facas... eu não vou errar o pescoço da próxima vez.

Vincent soltou um riso curto, que terminou em um suspiro de dor.

— Eu não esperaria nada menos de você.

Rody saiu da sala, fechando a porta atrás de si. Ele atravessou o salão do La Gueule de Saturne, as sombras das mesas parecendo mãos estendidas tentando segurá-lo. Ele destrancou a porta da frente e saiu para a noite chuvosa de Paris.

O ar frio atingiu seu rosto, mas não trouxe o alívio que ele esperava. O cheiro de Vincent ainda estava em suas roupas. O sangue de Vincent ainda estava sob suas unhas.

Ele começou a caminhar, sem rumo, as luzes da cidade borradas pelas lágrimas que ele se recusava a deixar cair. Ele deveria estar horrorizado. Ele deveria estar planejando sua fuga da cidade. Mas, em vez disso, sua mente repetia incessantemente o momento em que Vincent se apoiou nele, o calor do corpo do chef contra o seu, a vulnerabilidade misturada com a malícia.

Era um slow burn de um tipo diferente. Não era o calor suave de um romance que floresce, mas a queima lenta de um incêndio florestal que consome tudo o que encontra pela frente, deixando apenas cinzas e terra queimada.

Em seu apartamento pequeno e abafado, Rody não conseguiu dormir. Ele lavou as mãos repetidamente, esfregando a pele até ficar em carne viva, mas a sensação do toque de Vincent não desaparecia. Ele se olhou no espelho, vendo o reflexo de um homem que não reconhecia mais. O "golden retriever" tinha ido embora. No seu lugar, havia alguém que tinha provado a violência e, para seu horror absoluto, não tinha achado o gosto totalmente repulsivo.

Enquanto isso, no restaurante, Vincent permanecia na poltrona. A dor em seu ombro era uma pulsação constante, um lembrete físico da existência de Rody. Ele olhou para o chão, onde a garrafa de vinho quebrada ainda jazia entre os cacos de vidro e as manchas de sangue.

Ele nunca tinha tido muito apetite por comida comum. Tudo sempre lhe parecia insosso, cinzento, sem vida. Mas agora, ele sentia uma fome voraz. Não por carne, mas pela alma de Rody. Ele queria ver até onde aquele jovem de coração puro poderia ser corrompido. Ele queria ver o momento exato em que a luz nos olhos de Rody se apagaria, substituída pela mesma escuridão que habitava seu próprio peito.

— Coma ou seja comido, Rody — sussurrou Vincent para o vazio da sala. — E eu estou ansioso para ver quem terá a última mordida.

Na manhã seguinte, o sol nasceu cinzento sobre Paris. Rody chegou ao restaurante dez minutos antes do seu turno. Suas olheiras eram profundas, e seus movimentos eram rígidos. Ele não cumprimentou os outros funcionários. Ele apenas pegou seu avental e começou a polir as taças de cristal.

Quando Vincent saiu de sua sala, com o braço em uma tipóia escondida sob um casaco preto elegante, seus olhos imediatamente encontraram os de Rody no salão.

Não houve palavras. Não houve desculpas ou explicações. Apenas um aceno de cabeça imperceptível de Vincent e um aperto mais forte de Rody no pano que segurava.

O jogo havia recomeçado. Mas agora, as regras tinham mudado. O predador tinha sido ferido pela presa, e a presa tinha descoberto que tinha dentes. E no ambiente abafado e luxuoso do La Gueule de Saturne, o cheiro de traição estava prestes a ser substituído por algo muito mais inebriante e perigoso: a obsessão.

Rody serviu a primeira mesa do dia com um sorriso mecânico, mas sua mente estava na sala dos fundos, no homem que o observava pelas sombras. Ele sabia que Manon merecia justiça. Mas, enquanto observava Vincent de longe, uma parte sombria de si mesmo sussurrou que talvez, apenas talvez, a justiça não fosse o que ele realmente buscava.

Talvez ele estivesse apenas esperando pela próxima vez em que o vidro quebraria.

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