Primordiais
O Peso das Primeiras Sementes
O Salão da Existência parecia mais frio naquela tarde eterna, embora as estrelas continuassem sua dança indiferente sobre o chão de vidro. Tristeza, a Guardiã das Coisas Perdidas, não estava em seu habitual silêncio contemplativo. Ela segurava seu livro contra o peito, mas suas mãos tremiam, e seus olhos, que guardavam a memória de todas as lágrimas, estavam fixos em Amor com uma intensidade cortante.
— É fácil para você, não é? — A voz de Tristeza ecoou, carregada de uma fadiga que parecia mais antiga que o próprio tempo.
Os outros Primordiais, que descansavam após o recente esforço para despertar o universo da apatia, pararam o que estavam fazendo. Ódio, recostado em uma coluna de sombra, estreitou os olhos. Esperança e Alegria trocaram olhares apreensivos.
Amor, que naquele momento assumia a forma de um jovem com um rosto que irradiava uma paz quase irritante, virou-se devagar.
— Do que você fala, minha irmã?
— Falo da adoração — disse Tristeza, dando um passo à frente, suas vestes de neblina arrastando-se pelo chão. — Falo dos templos, das canções, dos poemas que os mortais escrevem em seu nome. Eles o procuram como se você fosse a única razão para respirar. Eles o chamam de bênção, de luz, de salvação. E a mim? Eles me chamam de maldade. De castigo. Eles passam a vida correndo para os seus braços e fugindo da minha sombra, como se fôssemos opostos que nunca deveriam se tocar.
Amor não respondeu de imediato. Ele apenas sustentou o olhar dela, um pequeno e gentil sorriso brincando em seus lábios mutáveis.
— Você não entende, Amor — continuou ela, a voz subindo de tom. — Você conhece apenas os começos. Você está lá quando os olhos se cruzam pela primeira vez, quando as mãos se tocam, quando as promessas são feitas sob o luar. Você colhe os sorrisos e a euforia. Mas sou eu quem fica para trás quando o seu "elo" se rompe. Sou eu quem segura a mão da mãe que enterra o filho, do amante que foi esquecido, do velho que olha para a cadeira vazia. Eu carrego o lixo emocional que os seus vínculos deixam para trás. Você é o banquete, Amor, mas eu sou o jejum que sobra depois que a mesa é limpa.
Um silêncio pesado caiu sobre o círculo. Ódio soltou um bufo baixo, mas não interrompeu. Ele parecia curioso para ver como o gêmeo reagiria.
Amor suspirou. O sorriso não desapareceu, mas tornou-se algo mais profundo, algo que Tristeza, em sua indignação, interpretou como condescendência.
— Você acredita que eu não conheço a dor deles, Tristeza? — perguntou Amor suavemente.
— Eu acredito que você a ignora para continuar sorrindo — disparou ela. — Você é o Coração da Existência, mas talvez seja um coração que não tem cicatrizes, apenas batidas novas.
Amor caminhou até ela. Ele era um pouco mais baixo naquela forma, mas sua presença parecia preencher o espaço entre as estrelas.
— Venha comigo — disse ele.
— Para onde?
— Para onde o tempo se dobra sobre a carne — respondeu Amor. — Passe um único dia ao meu lado entre eles. Não como a Guardiã das Coisas Perdidas, mas como minha sombra. Veja o que eu vejo. Sinta o que eu sinto. Se, ao final do dia, você ainda acreditar que eu não conheço a dor, eu entregarei meu título a você e me retirarei para o silêncio de Solidão.
Tristeza hesitou, mas o orgulho ferido falou mais alto.
— Aceito. Quero ver como você mantém esse sorriso quando a realidade bater à sua porta.
Eles partiram no instante seguinte. Para os Primordiais, atravessar o véu entre o Salão e o mundo físico era como atravessar uma cortina de chuva.
A primeira parada foi uma pequena praça em uma cidade vibrante. O sol brilhava e o ar estava cheio do perfume de flores e pão fresco. Amor apontou para um banco onde dois jovens estavam sentados, as mãos entrelaçadas, os rostos iluminados por uma descoberta mútua.
— Veja — disse Amor. — O nascimento de um vínculo. Sinta a vibração.
Tristeza sentiu. Era doce, quase enjoativo de tão puro. A esperança deles era uma luz dourada que cegava.
— É disso que eu falo — murmurou ela. — Sol e sorrisos. Onde estou eu aqui?
— Espere — sussurrou Amor.
Tristeza olhou para o irmão e, pela primeira vez, notou algo estranho. Enquanto os jovens sorriam, os olhos de Amor estavam fixos em um ponto invisível no futuro. O rosto dele estremeceu. Por um breve segundo, a pele dele pareceu ficar cinza, e um espasmo de agonia cruzou suas feições antes de ele retomar a compostura.
— O que foi isso? — perguntou ela, confusa.
— Vamos continuar — disse ele, sem explicar.
Eles caminharam por hospitais, onde pais seguravam recém-nascidos. Tristeza via a alegria transbordante, mas em Amor, ela via uma tensão constante, como se ele estivesse segurando o peso de uma montanha invisível. Cada vez que um novo amor florescia, Amor parecia levar um golpe físico, um estremecimento que ele escondia com um sorriso rápido e acolhedor.
Ao meio-dia, eles pararam em um cemitério. Um homem idoso estava diante de uma lápide recente. Tristeza preparou-se para agir, sentindo a melancolia familiar a envolver como um manto.
— Aqui é o meu lugar — disse ela. — Este homem pertence a mim agora. O seu amor por ela acabou.
— Acabou? — Amor aproximou-se do homem e colocou a mão sobre o ombro dele. O idoso não sentiu o toque, mas suspirou, uma lágrima escorrendo por seu rosto vincado. — Sinta novamente, Tristeza. Mergulhe no que ele sente.
Tristeza fechou os olhos e conectou-se ao coração do homem. Ela esperava encontrar o vazio cinzento do luto, a poeira das coisas perdidas. Em vez disso, ela foi atingida por uma labareda. O amor do homem pela esposa morta não estava diminuindo; ele estava queimando, vivo, pulsante, desesperado em sua permanência.
— Ele ainda a ama — sussurrou Tristeza, chocada. — Mas ela se foi. Por que o vínculo não quebra?
— Porque eu não permito — disse Amor, e sua voz agora tinha a ressonância de metal batendo em metal. — Tristeza, você acha que eu só cuido dos começos. Mas eu sou o que mantém a ferida aberta. Você é o consolo que vem depois, mas eu sou a razão pela qual o consolo é necessário. Eu sinto o fim de cada um desses laços no momento em que eles nascem.
Tristeza olhou para o irmão, e a compreensão começou a gotejar em sua mente como veneno.
— O que você quer dizer?
— Quando aqueles jovens na praça se tocaram — explicou Amor, sua voz tremendo levemente —, eu não vi apenas o beijo deles. Eu vi o dia, daqui a quarenta anos, em que um deles morrerá de câncer enquanto o outro segura sua mão. Eu senti a agonia daquela despedida futura no exato instante em que o amor deles brotou. Eu sinto o luto de cada mãe no momento em que ela descobre que está grávida. Eu sinto a traição de cada amigo no momento em que a confiança é estabelecida.
Tristeza recuou um passo, horrorizada.
— Você... você sente o fim no começo?
— Sempre — disse Amor. Ele agora parecia exausto, sua forma oscilando para a de um homem velho e curvado. — Para que um amor nasça, eu preciso aceitar a carga de sua morte futura. Eu sou o fiador de cada dívida emocional do universo. Você recebe a conta no final, minha irmã, mas sou eu quem assina o contrato sabendo que o preço será o sangue do meu próprio ser.
Eles se moveram novamente, desta vez para um pequeno quarto de apartamento. Um rapaz estava sentado sozinho, olhando para o celular. Não havia ninguém com ele. Não havia morte, não havia briga. Havia apenas um silêncio sufocante.
— Ele ama alguém que nem sequer sabe seu nome — disse Amor. — Um amor não correspondido. Um vínculo que nunca se completará, mas que se recusa a morrer.
Tristeza aproximou-se do rapaz. A dor dele era aguda, mas era uma dor estática. Não havia o movimento do luto, apenas a erosão lenta da alma. Ela tentou confortá-lo, mas sua essência deslizava por ele sem aderir.
— Eu não consigo ajudá-lo — disse ela, frustrada. — Não há nada "perdido" aqui para eu guardar. Ele não perdeu nada porque nunca teve nada.
— Exatamente — disse Amor, e ele parecia estar sofrendo mais do que o rapaz. — Esta é a dor que você não conhece. A dor do amor que existe no vácuo. Eu carrego esse rapaz em mim todos os dias. Eu sinto a queimação desse afeto inútil, dessa energia que não tem para onde ir e volta para consumir o hospedeiro. Você guarda as histórias que terminaram, Tristeza. Mas eu... eu sou a prisão das histórias que nunca começam e que nunca terminam.
Tristeza olhou para as mãos de Amor. Elas estavam cheias de pequenas rachaduras luminosas, como se ele fosse um vaso de porcelana remendado vezes sem conta.
— Por que você continua? — perguntou ela, sua voz agora um sussurro cheio de reverência e culpa. — Por que incentivar os começos se você sabe que todos eles vão doer em você? Se você enxerga a tragédia antes mesmo da primeira palavra ser dita?
Amor voltou à sua forma jovem, mas o sorriso agora era diferente. Era um sorriso de resistência, uma declaração de guerra contra o niilismo.
— Porque se eu não fizer isso, o universo se torna o que Ódio teme: um vazio sem significado. Se eu parar de plantar as sementes porque sei que as flores vão murchar, não haverá perfume, não haverá cor, não haverá vida. Os mortais são belos justamente porque amam apesar da morte. E eu? Eu sou o Primordial que precisa acreditar no amor mais do que qualquer um deles.
Ele deu um passo em direção ao centro do quarto, e por um momento, a luz que emanava dele foi tão intensa que Tristeza teve que desviar o olhar.
— Se o próprio Amor deixar de acreditar no amor por causa da dor — continuou ele —, então a Tristeza vencerá, o Ódio consumirá tudo e a Esperança se apagará. Meu sorriso não é uma máscara de ignorância, minha irmã. É o meu escudo. Eu sorrio para que eles tenham coragem de começar. Eu sorrio para que a dor deles tenha um lugar para descansar quando se tornar insuportável.
Tristeza sentiu uma lágrima escorrer por seu próprio rosto — uma lágrima que não era de um mortal, mas dela mesma.
— Eu chamei você de injusto — disse ela, caindo de joelhos diante dele. — Eu disse que você não conhecia a dor. Mas você... você sangra antes mesmo da ferida ser aberta.
Amor ajoelhou-se ao lado dela e a envolveu em um abraço. O calor que emanava dele era reconfortante, mas sob o calor, Tristeza sentiu as cicatrizes. Milhares delas. Milhões. Cada uma representando um vínculo que ele ajudara a criar, sabendo que terminaria em lágrimas.
— Nós somos dois lados da mesma moeda, Tristeza — sussurrou ele em seu ouvido. — Você é a Guardiã das Coisas Perdidas. Mas eu sou o Elo que tornou essas coisas valiosas o suficiente para serem lamentadas. Sem mim, você não teria nada para guardar. E sem você... eu não teria descanso, pois a dor dos meus vínculos nunca teria um fim.
Eles voltaram ao Salão da Existência quando as estrelas estavam em seu ponto mais alto. Os outros irmãos ainda estavam lá. Ódio olhou para eles, percebendo imediatamente a mudança na postura de Tristeza. Ela não carregava mais o livro com indignação; ela o segurava como se fosse um tesouro sagrado.
Tristeza caminhou até o centro do salão e olhou para todos.
— Eu estava errada — declarou ela, sua voz clara e firme. — Eu pensei que carregava o fardo mais pesado por ser aquela que presencia o fim. Mas eu apenas recolho as cinzas.
Ela olhou para Amor, que estava parado à beira do abismo, observando o mundo com seu sorriso paciente e melancólico.
— Amor é quem carrega o fogo — continuou Tristeza. — E o fogo queima muito antes de se tornar cinzas. Ele é o mais corajoso de nós, pois ele escolhe o sofrimento todos os dias, em cada batida de coração, apenas para que a existência continue a ter um sentido.
Ódio soltou um suspiro longo, descruzando os braços. Pela primeira vez, ele não fez um comentário sarcástico. Ele apenas acenou levemente para o gêmeo, um reconhecimento silencioso entre dois guerreiros que conheciam o preço da batalha.
Esperança aproximou-se de Amor e pegou sua mão.
— Você está cansado, meu irmão? — perguntou ela.
Amor olhou para ela, e por um breve instante, a máscara de serenidade caiu, revelando a exaustão cósmica de quem sustenta a rede de afetos de um universo inteiro.
— Sempre — admitiu ele. — Mas veja... — Ele apontou para baixo, para a pequena cidade onde o artista voltara a pintar, onde o idoso no cemitério encontrava forças para levantar, e onde o rapaz no quarto decidia, finalmente, sair de casa. — Eles ainda estão tentando. E enquanto eles tentarem, eu terei forças para sorrir.
Tristeza abriu seu livro em uma página nova. Ela não escreveu sobre perdas ou mortes. Ela escreveu sobre o que aprendera naquele dia.
"O Amor não é a ausência da dor", escreveu ela com sua tinta feita de sombras e estrelas. "O Amor é a decisão de carregar a dor do futuro para que o presente possa florescer. Ele é a ferida que aceita ser aberta, para que o Elo nunca seja quebrado."
Amor sentiu a ressonância das palavras da irmã em seu próprio peito. As rachaduras em suas mãos brilharam intensamente antes de se fecharem um pouco mais. Ele não estava curado — ele nunca estaria, enquanto houvesse vida —, mas ele não estava mais sozinho em seu segredo.
Ele olhou para Tristeza e ofereceu-lhe um sorriso. Desta vez, Tristeza não viu apenas a beleza. Ela viu o sacrifício. E ela sorriu de volta, um sorriso melancólico e sábio, reconhecendo que, no grande tecido da existência, o fio dourado do Amor e o fio negro da Tristeza estavam tão intrinsecamente ligados que era impossível dizer onde um terminava e o outro começava.
E assim, os Primordiais continuaram sua vigília. O mundo lá embaixo continuava a amar e a sofrer, a rir e a chorar. E no centro de tudo, o Elo Entre Todas as Coisas continuava a tecer seus fios, sabendo exatamente o preço de cada um deles, e pagando-o com um sorriso que desafiava a própria eternidade.