procurando esperança
O Sangue da Vingança e o Peso da Herança
O silêncio em Berk durou pouco. Stoico mal tivera tempo de processar o calor do corpo de seu filho em seus braços quando a fumaça branca, impiedosa e gélida, o envolveu novamente. Em um piscar de olhos, o Grande Salão sumiu. O cheiro de hidromel e o som da fogueira foram substituídos pelo estalar de eletricidade estática. Ele estava de volta àquela sala sombria, diante da tela negra que agora pulsava com uma luz azulada e doentia.
— Não... de novo não! — Stoico rugiu, socando a poltrona macia. — Eu já vi o bastante! Eu já vi minha família ser destruída!
A tela não respondeu aos seus gritos. Em vez disso, a imagem voltou a se formar. O pátio de concreto estava mergulhado em uma penumbra cinzenta. O corpo do Stoico do futuro jazia imóvel, a cabeça em uma poça de sangue escuro que se misturava à poeira. A poucos metros, Soluço estava caído, desmaiado, o coto de sua perna direita amarrado com um pedaço de pano sujo que os mascarados deixaram para trás como uma piada cruel, apenas para que ele não sangrasse até a morte rápido demais. Eles queriam que ele vivesse o suficiente para sentir a dor.
O grupo de agressores já havia partido, rindo e carregando os poucos suprimentos que Stoico e Soluço haviam lutado tanto para conseguir.
— Deixem o lixo aí — a voz do líder ecoou na gravação enquanto eles se afastavam. — Se as sombras não o pegarem, a infecção o fará.
Stoico, na sala de projeção, sentiu o estômago revirar. Ele queria desviar o olhar, mas seus olhos estavam colados na figura do filho. Foi então que ele viu movimento nas sombras dos prédios em ruínas.
Cinco figuras surgiram. Elas se moviam com uma cautela treinada, armas improvisadas em punho. Stoico reconheceu os rostos, embora estivessem mais velhos, sujos e endurecidos. Perna de Peixe carregava uma mochila médica; Melequento segurava um machado de incêndio; os gêmeos, Cabeça Quente e Cabeça Dura, tinham lanças feitas de vergalhões. E à frente deles, com uma besta em punho e o olhar de uma loba, estava Astrid.
— Soluço! — O grito de Astrid foi um sussurro desesperado.
Ela correu até ele, caindo de joelhos no asfalto. Perna de Peixe foi direto para o ferimento na perna, soltando um som abafado de horror.
— Eles o mutilaram, Astrid... e o Stoico... — Perna de Peixe checou o pulso do líder viking no chão e balançou a cabeça, os olhos marejados. — Ele se foi.
Astrid não chorou. Pelo menos, não ali. Ela segurou o rosto de Soluço entre as mãos, ignorando o sangue que manchava suas vestes.
— Acorda, Soluço! Por favor, volta para mim! — ela implorava, a voz falhando.
Stoico sentiu um aperto no peito ao ver a conexão entre os dois. Não era apenas amizade; era o tipo de laço que ele tivera com Valka. Um amor forjado no fogo e na perda.
A cena saltou no tempo. Agora, eles estavam dentro de um abrigo improvisado, um porão fortificado com chapas de metal. Soluço estava sentado em uma maca, o rosto pálido e encovado. Onde antes havia seu pé, agora havia apenas bandagens limpas, mas o vazio era evidente. Ele olhava para o nada, com uma expressão que Stoico nunca vira em seu filho: um ódio frio e absoluto.
— Você não pode ir, Soluço — disse Perna de Peixe, tentando trocar os curativos. — Você mal consegue se equilibrar em uma muleta, quanto mais caçar aqueles homens. A infecção quase te matou.
— Eles mataram meu pai — a voz de Soluço era um sussurro gélido que arrepiou a espinha do Stoico que assistia. — Eles o espancaram até a morte enquanto eu assistia. Eu vou matá-los. Cada um deles.
— Nós vamos cuidar disso, cara — Melequento interveio, soando estranhamente sério. — Mas você precisa se recuperar. Se você sair assim, vai ser um suicídio.
— Eu não me importo — rebateu Soluço, tentando se levantar e caindo de volta, soltando um gemido de dor lancinante.
Astrid entrou na sala, dispensando os outros com um olhar. Ela se aproximou de Soluço e colocou a mão em seu ombro. Por um momento, o ódio nos olhos dele vacilou.
— Soluço, olhe para mim — ela pediu. — O Stoico morreu para que você vivesse. Se você jogar sua vida fora agora, a morte dele não terá significado nenhum.
— O significado morreu naquele pátio, Astrid — ele respondeu, afastando a mão dela.
A tela escureceu novamente e saltou semanas à frente.
Soluço agora usava uma prótese rudimentar, feita de metal e couro, que Ranguela — o ferreiro do grupo — havia ajudado a construir. Ele e Astrid estavam fora dos muros da zona de quarentena, caminhando por uma floresta morta, onde as árvores pareciam esqueletos retorcidos.
— Soluço, pare! — Astrid exclamou, parando e segurando o braço dele. — Já estamos longe demais. O rastro deles sumiu faz horas. Vamos voltar.
— Eles estão perto, eu sinto o cheiro do cigarro deles — Soluço continuou andando, mancando levemente, mas com uma determinação maníaca.
— Você está sendo egoísta! — gritou ela.
Soluço parou e se virou, os olhos injetados.
— Egoísta? Eles tiraram tudo de mim! Eles tiraram o homem que me ensinou a ser um homem!
Astrid de repente parou, o rosto ficando pálido. Ela se inclinou para o lado e vomitou violentamente em meio às folhas secas. Soluço hesitou, a raiva sendo substituída pela preocupação.
— Astrid? Você está doente? É a água? — Ele se aproximou, tentando ajudá-la.
— Não é a água, Soluço — disse ela, limpando a boca com a manga da jaqueta, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu estou tentando te dizer há dias. Eu estou nervosa, eu estou com medo e eu não consigo parar de passar mal porque... porque eu estou grávida.
O Stoico na sala de projeção sentiu o chão sumir sob seus pés. Um neto. Em meio àquele inferno, havia uma vida nova.
Na tela, Soluço recuou como se tivesse levado um soco.
— O quê? — ele balbuciou.
— É seu, Soluço. Nosso — ela disse, a voz trêmula. — Eu queria te contar em um momento de paz, se é que isso existe mais. Mas você só pensa em sangue. Você só pensa em vingança.
— Por que não me contou antes? — Soluço gritou, a frustração explodindo. — Se eu soubesse, nós nunca teríamos saído! Nós nunca teríamos nos arriscado aqui fora!
— Porque eu sabia que você diria isso! — ela rebateu. — Eu não queria que você ficasse comigo por obrigação ou por medo, eu queria que você escolhesse viver por você!
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, o som do vento uivando entre as ruínas sendo a única trilha sonora. Soluço finalmente baixou a cabeça, os ombros caindo. Ele se aproximou dela e a puxou para um abraço apertado.
— Me desculpa — ele sussurrou no pescoço dela. — Me desculpa, Astrid. Eu fui um idiota. Eu... eu não sabia. Eu vou levar a gente de volta. Eu prometo.
Mas o destino, naquele mundo cruel, não aceitava promessas.
— Que cena emocionante — uma voz arrastada e sarcástica veio de cima de um barranco.
Stoico viu, com horror, o grupo de mascarados cercá-los. Eram os mesmos homens. O líder, com sua máscara de sorriso macabro, saltou para o chão com uma barra de ferro na mão.
— O aleijado voltou para o segundo round? E trouxe a namoradinha?
Soluço tentou sacar sua faca, mas foi atingido por um chute na perna protética que o fez desabar. Dois homens o agarraram e começaram a espancá-lo com uma brutalidade que fez Stoico gritar na sala de cinema. Soluço não tinha forças para lutar; ele era apenas um jovem contra assassinos experientes.
— Pare! Deixem ele em paz! — Astrid gritou, tentando levantar sua besta, mas foi desarmada e jogada no chão por outros três homens.
O líder chutou o rosto de Soluço, quebrando seu nariz. O sangue jorrou, e Soluço tossiu, tentando se manter consciente.
— Vamos acabar com o que começamos — disse o líder, levantando a barra de ferro para esmagar o crânio de Soluço.
— NÃO! — Astrid se jogou sobre o corpo de Soluço, agindo como um escudo humano.
Os homens avançaram sobre ela, puxando-a pelos cabelos, prontos para golpeá-la também.
— PAREM! — Soluço urrou, reunindo cada gota de força que lhe restava para agarrar a bota do líder. — Parem... por favor... ela está grávida!
O movimento parou. O silêncio que se seguiu foi pesado e doentio. O líder olhou de Soluço para Astrid, que estava encolhida, protegendo o ventre com as mãos.
Os homens trocaram olhares por trás das máscaras. Havia uma regra não escrita, mesmo entre os monstros daquele novo mundo. Matar um guerreiro era uma coisa; extinguir uma linhagem antes mesmo de ela nascer trazia uma superstição que até os mais cruéis temiam.
O líder baixou a barra de ferro. Ele se inclinou, ficando cara a cara com o Soluço ensanguentado.
— Você tem sorte, garoto — disse ele, a voz abafada pelo filtro da máscara. — O mundo já está morto o suficiente. Não precisamos de mais fantasmas de crianças nos perseguindo.
Ele se levantou e sinalizou para seus homens recuarem.
— Mas ouça bem. Se eu vir o seu rosto de novo, se você chegar a um quilômetro do nosso território, eu não vou apenas te matar. Eu vou garantir que você assista enquanto eu arranco essa criança de dentro dela. Nunca mais apareçam na nossa frente.
Os mascarados desapareceram na floresta como sombras de pesadelo.
Soluço e Astrid ficaram sozinhos no chão frio. Astrid soluçava, o corpo tremendo de choque. Soluço, com o rosto desfigurado e a alma quebrada, rastejou até ela, envolvendo-a com seus braços feridos.
— Eu sinto muito... eu sinto muito... — ele repetia, a voz sendo abafada pelo choro dela.
Na sala de projeção, a tela brilhou intensamente antes de se apagar por completo.
Stoico estava parado, as mãos apoiadas na tela agora fria. Suas lágrimas haviam secado, substituídas por uma determinação que queimava como fogo de dragão em suas veias. Ele vira o fim de sua linhagem ser ameaçado pela sua própria sede de vingança. Vira o filho que ele amava se tornar um homem movido pelo ódio, quase destruindo a única coisa boa que restava naquele mundo.
A névoa branca começou a girar ao seu redor novamente.
— Stoico de Berk — a voz onipresente ecoou. — Você viu o preço do ódio. Você viu o custo da negligência. O futuro que você viu é apenas uma possibilidade. Mas lembre-se: um líder não protege apenas com o machado, mas com a sabedoria de saber quando guardá-lo.
O mundo girou.
Stoico abriu os olhos. Ele estava sentado em sua cadeira no Grande Salão. O calor da fogueira era real. O barulho das conversas era real.
Ele olhou para o lado. Soluço estava sentado em um banco próximo, desenhando em seu caderno de couro, alheio ao horror que o pai acabara de testemunhar. Ele ainda tinha os dois pés. Ele ainda tinha a inocência no olhar, mesmo que tingida pela insegurança de não se sentir um "viking de verdade".
Stoico levantou-se. Seus ossos não doíam como no futuro, mas sua alma pesava uma tonelada. Ele caminhou até Soluço. O menino encolheu os ombros, esperando uma crítica sobre seus desenhos ou sobre sua falta de músculos.
— Soluço — disse Stoico, a voz firme, mas carregada de uma ternura que surpreendeu a todos no salão.
— Sim, pai? — Soluço fechou o caderno rapidamente.
Stoico colocou a mão gigantesca no ombro do filho, sentindo a fragilidade e a força que ali residiam.
— Amanhã, nós vamos começar a treinar. Mas não apenas para lutar contra dragões ou homens. Vamos treinar para sobreviver. E eu vou te ouvir, filho. Vou ouvir suas ideias, suas invenções... tudo.
Soluço piscou, confuso.
— Sério? O senhor não está com febre, está?
Stoico soltou uma risada curta, uma risada que carregava o alívio de quem acabara de escapar da forca.
— Não, meu filho. Eu só percebi que o futuro é um lugar perigoso demais para eu enfrentar sozinho. E eu preciso que você esteja pronto. Não para se vingar por mim, mas para viver por si mesmo.
Stoico olhou para a porta do salão, para a escuridão da noite de Berk. Ele sabia que, em algum lugar, em algum tempo, o apocalipse poderia estar espreitando. Mas, desta vez, ele não seria pego de surpresa. Ele seria o escudo. Ele seria o pai que Soluço precisava para que aquele jovem na tela nunca tivesse que existir.
E, enquanto abraçava o filho novamente, Stoico fez uma promessa silenciosa à memória de Valka e ao neto que ele vira apenas em um vislumbre de dor: o pé de Soluço permaneceria no chão de Berk, e a esperança nunca seria cortada por facão algum.