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Quando o ciúme encontra a timidez

Além das Páginas e do Cloro

A rotina de Luke, antes um ciclo previsível de sombras e silêncio, havia sofrido uma alteração química irreversível. Nas duas semanas que se seguiram ao primeiro encontro na biblioteca, o "lugar de Luke" deixara de ser um esconderijo para se tornar um ponto de encontro. Ocupar a mesa dos fundos agora não era mais um ato de desaparecimento, mas um prelúdio para a chegada de Julian, que sempre trazia consigo o cheiro fresco de cloro e uma energia que parecia iluminar as estantes empoeiradas.

Luke estava sentado em sua posição habitual, mas seus olhos não conseguiam se fixar no livro de Biologia Celular. Ele olhava para o relógio de parede a cada trinta segundos. Julian estava cinco minutos atrasado. "Ele deve ter desistido", pensou Luke, a velha insegurança apertando seu peito. "Por que ele continuaria vindo? Ele já aprendeu o básico. Ele tem amigos melhores, festas, treinos... ele tem o mundo inteiro."

— Desculpa! O treino de hoje foi intenso, o treinador resolveu que precisávamos de mais dez tiros de cem metros antes de sairmos — disse uma voz ofegante, interrompendo o fluxo de pensamentos autodepreciativos de Luke.

Luke levantou a cabeça. Julian estava ali, o cabelo loiro ainda úmido, vestindo um casaco do time que parecia grande demais, mas que nele ficava perfeito. Ele sorria, embora parecesse exausto.

— Tudo bem — respondeu Luke, sentindo o alívio lavar sua ansiedade. — Eu achei que você tivesse... esquecido.

— Esquecer? — Julian puxou a cadeira, sentando-se com um suspiro de cansaço. — Luke, essas horas aqui são a única parte do meu dia em que eu não sinto que estou sendo cronometrado. Eu não esqueceria.

Luke sentiu o calor subir pelas bochechas e rapidamente ajeitou os óculos, tentando se concentrar no material didático.

— Hoje temos que revisar a parte de equilíbrio químico — disse Luke, a voz um pouco trêmula. — É um pouco abstrato, mas se você entender a lógica das proporções, fica fácil.

— Equilíbrio — repetiu Julian, olhando fixamente para Luke em vez de olhar para o livro. — É, eu definitivamente preciso de mais disso na minha vida.

Eles mergulharam nos estudos. Luke explicava com sua paciência característica, usando guardanapos de papel para desenhar diagramas quando o livro falhava em ser claro. Julian ouvia com uma atenção que poucas pessoas dedicavam a Luke. Ele não apenas ouvia para passar na prova; ele ouvia porque parecia fascinado pela maneira como o cérebro de Luke funcionava.

— Sabe — disse Julian, girando uma caneta entre os dedos —, vai ter uma competição intercolegial de natação neste sábado. Aqui na nossa escola.

Luke parou de escrever. Ele sabia das competições, é claro. A escola ficava um caos, cheia de gente de fora, barulho e agitação. Eram dias em que ele costumava ficar trancado em seu quarto, lendo ou jogando.

— Ah, legal. Espero que você ganhe — murmurou Luke, voltando a atenção para o papel.

— Eu queria que você fosse — disparou Julian.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que Luke podia ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes acima deles. Ele finalmente ergueu os olhos, encontrando a expressão expectante de Julian.

— Eu? Na arquibancada? — Luke soltou uma risada nervosa. — Julian, eu não sou exatamente o tipo de pessoa que frequenta eventos esportivos. Eu provavelmente seria esmagado pela multidão ou morreria de tédio... ou de pânico.

— Eu sei que não é a sua praia — Julian inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre eles na mesa. — Mas seria importante para mim. Todo mundo vai estar lá gritando meu nome porque eu sou o "capitão", mas eu queria saber que tem alguém lá que me conhece de verdade. Alguém que sabe que eu odeio Química e que eu fico nervoso antes de pular na água.

Luke sentiu um nó na garganta. Ele nunca tinha pensado que Julian pudesse se sentir sozinho no meio de tanta popularidade.

— Eu não sei, Julian... As pessoas vão falar. Vão perguntar o que o "garoto da biblioteca" está fazendo lá.

— Deixa que falem — Julian deu de ombros, um brilho desafiador nos olhos. — Eu não me importo com o que eles pensam. E você também não deveria. Você é mais interessante do que todos eles juntos.

Luke desviou o olhar, o coração batendo forte. O convite parecia um passo gigantesco para fora de sua zona de conforto. Era um convite para entrar no mundo de Julian, um lugar onde as luzes eram fortes demais e o volume era alto demais. Mas, ao olhar para a mão de Julian descansando perto da sua sobre a mesa, Luke sentiu que talvez, apenas talvez, valesse a pena o risco.

— Eu... eu vou tentar — disse Luke, a voz quase um sussurro.

Julian abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que fazia Luke sentir que tinha acabado de resolver a equação mais difícil do universo.

— Isso é tudo que eu peço.

O restante da semana passou em um borrão de ansiedade para Luke. Ele se pegou olhando para o complexo esportivo da escola com um misto de pavor e curiosidade. Na sexta-feira, eles não estudaram. Julian estava muito inquieto para se concentrar em fórmulas, então eles apenas conversaram sobre coisas triviais: música, filmes antigos e o fato de Luke ter uma coleção de edições raras de ficção científica.

No sábado de manhã, Luke acordou querendo desistir. Ele vestiu seu moletom cinza habitual, o mais discreto que possuía, e caminhou até a escola. O som dos apitos e da música alta já podia ser ouvido do estacionamento.

Ao entrar no ginásio da piscina, o calor úmido e o cheiro forte de cloro o atingiram como uma parede física. A arquibancada estava lotada. Ele se sentiu minúsculo, um átomo perdido em uma reação caótica. Ele tentou se espremer em um canto no topo, longe do centro das atenções, esperando passar despercebido.

As provas começaram. Luke não entendia muito de natação, mas conseguia sentir a tensão no ar. Quando anunciaram os 100 metros nado livre masculino, o ginásio pareceu explodir.

— E na raia quatro, o capitão da casa, Julian Thorne! — anunciou o locutor.

Julian saiu do vestiário e caminhou até o bloco de partida. Ele parecia diferente ali. Não era o garoto que tropeçava em termos químicos na biblioteca; era um atleta focado, os músculos dos ombros tensos, a expressão séria. Antes de subir no bloco, Julian fez algo que Luke não esperava. Ele olhou para a arquibancada. Seus olhos percorreram as fileiras de pessoas frenéticas até que, por um milagre estatístico, eles pararam exatamente onde Luke estava.

Julian deu um pequeno aceno de cabeça, quase imperceptível para qualquer outra pessoa, mas que para Luke foi como um grito. Ele estava lá. Ele tinha sido visto.

O apito soou e Julian mergulhou.

Luke se viu levantando, o livro que trouxera para se proteger esquecido no colo. Ele observou a forma como Julian cortava a água com uma eficiência brutal. A cada braçada, a multidão gritava mais alto, mas Luke estava em silêncio, maravilhado. Ele entendeu agora o que Julian quis dizer sobre a piscina ser o seu refúgio. Ali, Julian era puro movimento e propósito.

Julian venceu por uma fração de segundo. Ao emergir e olhar para o placar, ele socou a água, comemorando. Seus companheiros de equipe pularam na piscina para abraçá-lo. O ginásio estava em êxtase.

Luke sentiu que sua missão estava cumprida. Ele começou a se retirar, querendo sair antes que a multidão o sufocasse, mas uma mão segurou seu braço.

— Ei, Luke! Onde você vai?

Era um dos amigos de Julian, o mesmo que tinha sido rude na biblioteca. Luke congelou, esperando o pior.

— Eu... eu só estava indo embora — gaguejou Luke.

— Cara, o Julian não parou de perguntar se você tinha vindo — disse o garoto, surpreendentemente amigável. — Ele quer que você vá lá embaixo depois da premiação.

— Tem certeza? — perguntou Luke, incrédulo.

— Absoluta. Vem, eu te ajudo a descer.

Luke foi guiado através da massa de alunos até a área restrita perto da piscina. Ele se sentia um peixe fora d'água, mas a curiosidade era maior que o medo. Quando Julian o viu, ele se desvencilhou dos repórteres do jornal da escola e caminhou em direção a Luke, pingando água no chão de azulejos.

— Você veio — disse Julian, ofegante, um sorriso vitorioso no rosto.

— Eu disse que tentaria — respondeu Luke, tentando não focar no fato de que Julian estava apenas de sunga e com uma toalha pendurada no pescoço. — Você foi incrível, Julian. De verdade.

— Foi a sua presença — brincou Julian, embora houvesse uma nota de sinceridade em sua voz. — Eu bati meu recorde pessoal. Acho que a Química está me dando sorte.

— Ou talvez seja apenas o seu esforço — disse Luke, sorrindo de volta.

Alguns alunos e atletas ao redor começaram a cochichar, olhando para a dupla improvável. Luke sentiu a familiar pontada de desconforto, a vontade de se esconder atrás de sua franja castanha. Mas Julian, percebendo a mudança de humor de Luke, deu um passo à frente, bloqueando a visão dos curiosos.

— Ei — disse Julian em voz baixa, apenas para Luke ouvir. — Obrigado por sair do seu esconderijo por mim. Eu sei o quanto isso foi difícil.

— Valeu a pena — admitiu Luke, surpreso com a própria coragem. — Ver você lá... foi como ver uma daquelas reações de alta energia que a gente estudou. Tudo pareceu fazer sentido.

Julian riu, um som quente que abafou o barulho ao redor.

— Você não consegue evitar as metáforas científicas, não é?

— É o meu sistema operacional — deu de ombros Luke, ajustando os óculos.

— Pois eu gosto do seu sistema operacional — afirmou Julian. — Escuta, o time vai comemorar em uma lanchonete aqui perto. Eu sei que você odeia multidões, então o que você acha de a gente pular a festa e ir para algum lugar mais calmo? Eu estou morrendo de fome e adoraria um hambúrguer sem ter dez pessoas gritando no meu ouvido.

Luke piscou, processando o convite. Julian estava escolhendo a companhia dele em vez da glória da comemoração com o time.

— Você faria isso? — perguntou Luke. — Seus amigos não vão ficar bravos?

— Eles têm uns aos outros — disse Julian, pegando sua mochila. — E eu só quero conversar com o meu professor de Química favorito. Topa?

Luke olhou para o ginásio barulhento e depois para Julian, que o olhava com uma expectativa suave.

— Topo. Mas sob uma condição.

— Qual?

— Nada de falar sobre elementos químicos por pelo menos uma hora. Meu cérebro precisa de um descanso.

Julian soltou uma gargalhada e passou o braço pelos ombros de Luke, conduzindo-o para fora do ginásio.

— Fechado, Luke. Promessa de atleta.

Enquanto caminhavam pelo estacionamento, o sol da tarde começando a se pôr, Luke percebeu que a sua invisibilidade tinha realmente ficado para trás. Ele não era mais apenas uma sombra na biblioteca. Ele era Luke, o garoto que gostava de ficção científica, que via o mundo em fórmulas e que, surpreendentemente, era o melhor amigo do capitão do time de natação.

Eles encontraram uma lanchonete pequena e quase vazia a algumas quadras da escola. Sentados em uma cabine de couro vermelho, com o som de uma jukebox antiga ao fundo, o mundo parecia perfeitamente equilibrado.

— Sabe, Luke — disse Julian, após devorar metade de um hambúrguer —, antes de te conhecer, eu achava que a minha vida era completa. Eu tinha os esportes, as notas na média, a popularidade... Mas parecia que eu estava apenas seguindo um roteiro.

Luke ouvia atentamente, mexendo em suas batatas fritas.

— E agora? — perguntou ele.

— Agora — Julian fez uma pausa, olhando para Luke com uma intensidade que o fez perder o fôlego por um segundo —, parece que eu estou finalmente prestando atenção nos detalhes. Você me ensinou que as coisas invisíveis, como os átomos ou... bem, como você se sentia, são as que realmente mantêm tudo unido.

Luke sentiu uma emoção estranha e profunda. Pela primeira vez em sua vida, ele não queria ser invisível. Ele queria ser visto, especialmente se os olhos que o observassem fossem os de Julian.

— Acho que nós dois aprendemos algo um com o outro — disse Luke suavemente. — Você me mostrou que o mundo lá fora não é tão assustador quanto eu pensava. Desde que você tenha alguém para te ajudar a navegar por ele.

Julian estendeu a mão sobre a mesa, e desta vez, ele não parou perto da mão de Luke. Ele cobriu a mão de Luke com a sua, um gesto simples, mas carregado de significado.

— Eu não vou a lugar nenhum, Luke. A menos que você queira que eu vá.

Luke não puxou a mão. Em vez disso, ele entrelaçou seus dedos nos de Julian, sentindo o calor da pele do outro contra a sua.

— Eu não quero que você vá — respondeu Luke, sua voz firme e cheia de uma nova certeza.

Ali, entre o cheiro de fritura e a luz suave da lanchonete, a química entre os dois deixou de ser uma teoria nos livros para se tornar a realidade mais vibrante de suas vidas. O nerd e o popular, o silêncio e o som, o átomo e a energia. Eles eram a prova viva de que, às vezes, as misturas mais improváveis resultam nas reações mais bonitas.

E enquanto a noite caía sobre a cidade, Luke soube que este era apenas o começo de uma jornada que nenhum livro de ciências poderia jamais prever. Eles tinham o seu próprio equilíbrio, e por enquanto, isso era tudo o que importava.