quando o silencio encontra voce
— Estamos passando por uma turbulência, coloquem os cintos — diz a aeromoça sentando às pressas em um dos assentos enquanto afivela o cinto. Em questão de segundos, o avião começou a chacoalhar como nunca antes. No mesmo instante olho para a mamãe que estava tentando me passar tranquilidade pelo olhar, mas acontece que ela estava muito nervosa, era evidente. — Vai ficar tudo bem, filho. É só uma turbulência. — Onde está o papai? — digo com um certo desespero. A minha mãe estava muito nervosa, mais que o normal. Nunca a vi assim. — Ele já está vindo, filho. Só foi ao banheiro. — Eu vou atrás dele então. Tiro o cinto e tento me levantar, mas sou impedido pela mamãe. — Fique aqui, príncipe. O seu pai vai voltar logo, logo. Assim que ela termina de falar sinto o avião descendo cada vez mais. É possível ouvir gritos desesperados, máscaras de oxigênio caindo, pessoas rezando... Não consigo entender o que há de errado. Era apenas uma turbulência... — Sente-se, Jimin, por favor... — diz mamãe tentando sorrir, mesmo morrendo de medo. Faço o que ela pede e, no mesmo instante, sinto sua mão sobre a minha. Junto minhas forças e a encaro. — Nós vamos morrer, mamãe? Meus olhos vacilam e se enchem de lágrimas. — Não importa o que aconteça... continue vivendo. — Mas eu não sei viver sem vocês. Ela sorri. Um sorriso pequeno. Trêmulo. — Você é o meu anjo, Jimin... E essa foi a última coisa que ouvi. Segundos depois, um barulho ensurdecedor tomou conta de tudo. Então... A minha visão ficou completamente escura. ... Três anos depois São exatamente seis horas da manhã na Coreia do Sul e Park Jimin já está de pé. Novamente, não teve uma boa noite de sono. Naquele momento, tomava café da manhã enquanto conversava ao telefone. — Tio Park, eu já deixei claro que não sinto mais vontade de administrar as empresas. Eu não me sinto feliz nem motivado para fazer isso. — Jimin, eu entendo. Mas os seus pais sempre sonharam com você administrando as empresas e dando continuidade ao legado deles. — Você já falou isso dezenas de vezes, tio Park. Eu estou esgotado. Eu nunca quis trabalhar nessa área. Todos sabem disso! É possível escutar o tio respirando fundo através da ligação. Não era a primeira vez que tinham aquela conversa. E certamente não seria a última. — O que acha de tirar férias? Você viaja, relaxa e pode voltar mais tranquilo. Depois decide se quer ou não assumir o cargo. Jimin respira fundo. A sugestão o faz pensar por alguns segundos. — Eu... não sei se consigo voar novamente, tio. — Jimin, já se passaram três anos. Você ficou todo esse tempo vivendo como um zumbi. Eu sei que está sendo difícil, mas você conhece os seus pais. Sabe muito bem que eles não gostariam de te ver desse jeito. Jimin não protesta. Apenas escuta. — Procure um lugar para viajar e me avise. Eu assumirei as empresas por enquanto para que você possa descansar. Agora preciso desligar. Fique em casa hoje e resolva tudo sobre essa viagem. A ligação é encerrada antes mesmo que Jimin consiga responder. Park Jimin encara o telefone por alguns segundos. O silêncio da casa parecia maior do que o normal. Sem pensar muito, vai até a cozinha, abre um armário e pega um pequeno frasco de comprimidos. Restavam apenas três. Fecha os olhos por um instante antes de engolir um deles com um gole de café já frio. Em seguida, seu olhar cai sobre o porta-retratos apoiado na bancada. Fazia três anos. — Será que eu deveria mesmo tirar férias? Pergunta para si mesmo enquanto passa delicadamente os dedos pela fotografia. Jimin tenta, a todo custo, se distrair. Tenta assistir televisão. Desliga. Tenta ler. Fecha o livro no meio do capítulo. Olha a paisagem pela janela. Quando já não aguentava mais pensar no que o tio havia dito, resolveu pesquisar alguns destinos na internet. Nada chamava sua atenção. Horas e mais horas diante da tela. Nada. Quando já estava prestes a fechar o notebook, um anúncio chamou sua atenção. Programa de voluntariado para profissionais da saúde — Sucre, Bolívia. Franziu levemente a testa e clicou no link. Centro para Crianças e Adolescentes com Deficiência. Jimin percorreu a tela com os olhos, lendo cada linha com atenção. Voluntariado de três meses. Atuação ao lado de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Pela primeira vez naquele dia, um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Fonoaudiologia. Fazia anos que não ouvia essa palavra sem sentir um aperto no peito. A profissão havia sido o sonho da sua vida. Formou-se com orgulho, imaginando os pais na primeira fila da cerimônia de formatura. Mas, depois do acidente, nunca teve coragem de exercer a profissão. Era como se todos os planos tivessem morrido junto com eles. Ainda assim... Algo naquela proposta parecia diferente. Talvez três meses do outro lado do mundo não fossem suficientes para curar sua dor. Mas, quem sabe, fossem suficientes para lembrá-lo de quem ele era antes dela. Sem pensar duas vezes, clicou em "Inscrever-se". Ao finalizar o cadastro, recostou-se na cadeira e deixou escapar um suspiro. Restava apenas esperar pela resposta. ... Três dias se passaram. Jimin sempre foi uma pessoa extremamente ansiosa e, desde a morte dos pais, tudo piorou. Por esse motivo, praticamente não saiu de casa durante aqueles dias. Passava horas encarando a caixa de e-mails, aguardando ansiosamente pela resposta do projeto. Às 15h30, sentado na cadeira de pijama, abraçado às próprias pernas e encarando seriamente a tela do notebook, finalmente recebeu a mensagem que tanto esperava. Ele havia sido aceito. Além da experiência profissional, sua longa trajetória apoiando projetos sociais fortaleceu sua candidatura. O projeto começaria em cinco dias. Considerando que levaria cerca de um dia e meio para chegar à Bolívia, precisava se apressar. Gostaria de conhecer um pouco da cidade antes de iniciar o voluntariado e também organizar a nova moradia. Park poderia fazer apenas uma ligação e alguém resolveria tudo para ele. Hospedagem. Passagens. Transporte. Mas queria fazer tudo sozinho. Queria viver aquela experiência por completo. Depois de algumas horas de pesquisa, alugou um pequeno apartamento em Sucre, a capital constitucional da Bolívia. O prédio era simples. Ficava em um bairro humilde, a apenas dez minutos da ONG. Era exatamente o que procurava. Também comprou sua passagem. No dia seguinte sairia para comprar roupas, malas e tudo o que ainda faltava para a viagem. No dia seguinte, Park passou boa parte do tempo no shopping. Comprou roupas, malas e diversos itens de viagem. Deixou tudo organizado. A ideia de conhecer um lugar novo e pessoas novas o animava. Sempre sonhou em viver uma rotina comum. Longe de reuniões. Executivos. Jantares de negócios. Mas, por outro lado, seu coração acelerava sempre que lembrava que precisaria entrar em um avião novamente. Sabia que não conseguiria enfrentar trinta horas de voo acordado. Por isso, pediu ao psiquiatra uma medicação que o faria dormir durante praticamente toda a viagem. Quando o dia finalmente chegou, despachou as malas, fez o check-in e se despediu do tio, que parecia feliz em vê-lo finalmente animado com alguma coisa. Assim que entrou no avião e se acomodou no assento, tomou o remédio. Apagou poucos minutos depois. ... Horas depois — Senhor... A voz da aeromoça parecia distante. Ela o chacoalhava delicadamente. — Senhor, precisamos que desembarque. Já chegamos ao destino. A aeromoça sorriu, visivelmente aliviada quando ele finalmente abriu os olhos. — Ah... oi... o que houve? — Desculpe acordá-lo, senhor. Já fazem alguns minutos que chegamos à Bolívia. — Sério? Mil perdões. Eu acabei me medicando e apaguei completamente. Vou sair agora mesmo. Levantou-se às pressas. — Senhor, espere! — Pode falar? — O senhor dormiu por praticamente trinta horas. Não se alimentou nem bebeu água. Deixe-me servir uma refeição antes de ir. — Mas a aeronave não precisa ser liberada? Perguntou sem querer atrapalhar o trabalho da equipe. Apesar disso... Sua barriga roncava. — Ainda tenho trinta minutos para finalizar tudo. Se o senhor comer nesse tempo, não teremos problemas. Jimin sorriu. — Então eu prometo comer em dez minutos. Depois da refeição, pegou as malas e entrou em um táxi. Quarenta minutos depois, finalmente chegou ao apartamento onde passaria os próximos três meses. Foi até a sacada. Respirou fundo. O ar parecia mais leve. Ou talvez fosse apenas a sensação de estar, pela primeira vez em três anos, longe de tudo o que o fazia sofrer. Olhou para as ruas de Sucre iluminadas pelo fim da tarde. Sorriu de canto. "Então... é aqui que vou recomeçar." Mal sabia ele que, a apenas dez minutos dali, existia alguém que mudaria sua vida para sempre.