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Rain

O Alquimia da Entrega e o Peso da Verdade

A manhã em Konoha nasceu tingida por uma névoa perolada, filtrando a luz solar de modo que ela incidisse suavemente sobre as tatames do quarto de Itachi. O silêncio, que outrora fora uma muralha de segredos entre os dois, agora parecia uma manta confortável. Shisui ainda dormia, sua respiração rítmica soprando contra a nuca de Itachi. Para o herdeiro dos Uchiha, acordar naquela posição — envolto pelos braços de outro homem, sentindo o calor direto da pele contra a sua — ainda era uma experiência que oscilava entre o estranhamento e uma nova forma de segurança.

Itachi abriu os olhos e encarou a parede de madeira. Ele se sentia diferente. A descoberta da noite anterior não fora apenas física; fora uma quebra de paradigma. Durante anos, ele acreditara que sua anatomia era um instrumento defeituoso para o prazer, uma ferramenta que funcionava para a guerra e para a procriação, mas que permanecia muda diante da intimidade. Saber que Shisui conseguira extrair dele uma resposta genuína, sem o teatro meticuloso que ele encenava para satisfazer as expectativas sociais, trazia um alívio que beirava o espiritual.

No entanto, o peso da realidade externa logo começou a se infiltrar no quarto. O nome de Fugaku ressoava em sua mente como um trovão distante. Seu pai aceitara o relacionamento sob a condição de que a linhagem e a dignidade do clã não fossem maculadas. Para Fugaku, o amor entre eles era uma concessão política e pessoal, algo que deveria ser administrado com a frieza de um tratado de paz. Se ele soubesse das fragilidades de Itachi, do desinteresse pelo toque e da complexidade daquela união, ele veria apenas fraqueza onde havia, na verdade, uma coragem absurda.

Shisui se mexeu, despertando. Seus olhos negros encontraram os de Itachi, e um sorriso preguiçoso e honesto surgiu em seus lábios.

— Você está acordado há muito tempo? — perguntou Shisui, a voz rouca pelo sono, enquanto enterrava o rosto no ombro de Itachi.

— O suficiente para pensar no quanto o mundo lá fora parece barulhento em comparação a este quarto — respondeu Itachi, permitindo-se, pela primeira vez, não se afastar do contato.

Shisui suspirou, apertando-o levemente.

— Eu estava com medo de que, ao amanhecer, você se arrependesse. De que a descoberta de ontem fizesse você se sentir... exposto demais.

Itachi virou-se lentamente no abraço, ficando de frente para Shisui. O rosto do homem à sua frente era um mapa de lealdade. Shisui não o via como o "prodígio Itachi" ou o "assassino da ANBU". Ele o via como a alma complexa e fragmentada que ele realmente era.

— Eu me sinto exposto — confessou Itachi, a voz baixa — mas não é um sentimento ruim. É como se eu tivesse tirado uma armadura que nem sabia que estava usando. Mas, Shisui... a raiva que você sentiu... ela passou?

Shisui ficou sério por um momento. Ele se lembrou da dor lancinante de descobrir que Itachi fingira prazer durante anos. A sensação de ser um violador ainda deixava um gosto amargo em sua boca, mas a transparência da noite anterior começara a curar aquela ferida.

— A raiva nunca foi de você, Itachi. Foi de mim mesmo, por não ter percebido. E foi do mundo que te obrigou a achar que precisava mentir para ser amado. Eu ainda me sinto mal por cada vez que te toquei e você só queria que acabasse. — Shisui tocou o rosto de Itachi com as costas dos dedos. — Mas ver você ontem... ver que você realmente estava lá, comigo... isso mudou tudo.

— Eu não quero mais mentir — disse Itachi, com uma determinação que raramente mostrava fora do campo de batalha. — Nem sobre o que sinto, nem sobre o que não sinto. Se o toque for demais, eu direi. Se eu preferir apenas o seu silêncio, eu direi.

— É tudo o que eu sempre quis — Shisui sorriu, mas logo sua expressão vacilou. — Mas e quanto ao resto? Fugaku tem nos pressionado. Ele quer que você comece a pensar no futuro do clã. Ele ainda espera que esse nosso "arranjo" não interfira nas obrigações de sucessão.

Itachi sentiu o frio característico da responsabilidade Uchiha.

— Meu pai vê o corpo humano como um recurso. Ele não entende a assexualidade ou a sensibilidade sensorial. Para ele, o sexo é uma função biológica necessária. A ideia de que seu filho não sente prazer nisso seria vista como uma patologia ou uma desonra.

— Nós não precisamos contar a ele os detalhes — ponderou Shisui —, mas precisamos decidir como vamos viver. Eu não vou te forçar a ter uma vida sexual ativa só para manter as aparências de um casal "normal". Se passarmos o resto da vida apenas dormindo abraçados ou conversando sob o luar, eu serei o homem mais feliz de Konoha.

Itachi sentiu um nó na garganta. Ele nunca entendeu por que Shisui, tão vibrante e cheio de vida, escolhera alguém tão "vazio" de impulsos como ele.

— Por que, Shisui? — perguntou Itachi, os olhos brilhando com uma vulnerabilidade rara. — Por que você aceita tão pouco de mim, quando poderia ter alguém que respondesse ao seu fogo com a mesma intensidade?

Shisui segurou o rosto de Itachi com as duas mãos, obrigando-o a olhar em seus olhos.

— Porque o que você chama de "pouco" é, para mim, o tesouro mais valioso. Eu não amo a sua resposta física, Itachi. Eu amo a sua mente. Amo a forma como você protege o que acredita. Amo o jeito que você olha para o corvos e a maneira como você se preocupa com o Sasuke. O sexo é apenas uma das muitas linguagens que os humanos usam. Se você não fala essa língua fluentemente, nós inventamos o nosso próprio dialeto. Você não é quebrado, Itachi. Você é apenas... sutil.

As palavras de Shisui agiram como um bálsamo. Itachi fechou os olhos, absorvendo a aceitação. Por um longo tempo, eles ficaram assim, apenas existindo um para o outro, longe das intrigas do clã e das exigências de Fugaku.

Contudo, a rotina de um shinobi não permitia isolamentos prolongados. Uma batida firme na porta de correr interrompeu o momento.

— Itachi-sama? — A voz de um servo do clã ecoou do corredor. — Seu pai solicita sua presença imediata na sala de reuniões. Shisui-san também é esperado.

Os dois se entreolharam. O dever chamava, e com ele, a máscara que precisavam usar diante do patriarca.

Eles se vestiram em silêncio, mas desta vez o silêncio era cúmplice. Itachi vestiu sua túnica de gola alta, escondendo as marcas da noite anterior, enquanto Shisui ajustava seu protetor de testa. Antes de saírem, Shisui parou Itachi, segurando-o pelo pulso.

— Lembre-se — sussurrou Shisui —, você não deve nada a ninguém além da sua verdade.

Itachi assentiu, a expressão voltando à neutralidade estoica que o mundo conhecia.

A sala de reuniões estava pesada com o cheiro de chá velho e pergaminhos antigos. Fugaku estava sentado à cabeceira, a postura rígida como uma estátua de pedra. Seus olhos, severos e analíticos, percorreram os dois jovens quando eles entraram e se ajoelharam em sinal de respeito.

— Vocês estão atrasados — disse Fugaku, a voz profunda vibrando no peito de Itachi. — Espero que o tempo que passam juntos não esteja afetando a disciplina de seus treinamentos.

— De forma alguma, pai — respondeu Itachi, a voz firme e desprovida de emoção. — Estávamos apenas discutindo estratégias para a próxima patrulha.

Fugaku bufou, um som que poderia ser interpretado como desdém ou aceitação relutante.

— O conselho está inquieto, Itachi. A situação com a Vila da Névoa está se degradando, e o clã Uchiha precisa mostrar força. Eu permiti este relacionamento entre vocês dois porque acredito que a união de dois prodígios fortalece a linhagem, mas não se esqueçam das suas prioridades. Itachi, você é o herdeiro. Sua conduta deve ser irrepreensível.

Shisui sentiu uma pontada de irritação, mas manteve a cabeça baixa. Ele sabia o quanto aquelas palavras feriam Itachi, mesmo que o outro não demonstrasse.

— Eu entendo, pai — disse Itachi.

— Além disso — continuou Fugaku, fixando o olhar em Shisui —, espero que você esteja cuidando bem do meu filho. Um Uchiha deve ser completo em todos os aspectos da vida. Um homem que não encontra satisfação em seu próprio lar é um homem distraído no campo de batalha.

O comentário foi como um golpe direto no estômago de Shisui. O subtexto era claro: Fugaku esperava que a relação sexual deles fosse tão vigorosa quanto suas habilidades com a espada. Ele media o valor de Itachi pela sua capacidade de ser um "homem completo" nos moldes patriarcais.

Shisui sentiu a mão de Itachi, escondida pelas dobras da túnica, tocar levemente a sua. Era um sinal silencioso de "não reaja".

— Itachi é a pessoa mais focada que conheço, senhor — respondeu Shisui, com uma polidez gélida. — Nossa conexão apenas aumenta nossa determinação em proteger o clã.

Fugaku pareceu satisfeito com a resposta, embora seus olhos ainda guardassem uma desconfiança inerente. Ele os dispensou após dar as ordens para a missão do dia, mas a sombra daquela conversa permaneceu com eles enquanto caminhavam pelos jardins do complexo.

— Ele nunca vai entender, não é? — perguntou Shisui, quando estavam longe o suficiente para não serem ouvidos.

— Ele não precisa entender — respondeu Itachi, parando sob a sombra de uma grande cerejeira. — Ele vê o mundo através do Sharingan, Shisui. Ele vê o fluxo de chakra, vê as ilusões, vê o poder. Mas ele esqueceu como ver o que está escondido no coração.

Itachi olhou para as próprias mãos.

— Ontem, quando você me tocou... quando eu finalmente senti algo que não era fingimento... eu percebi que o poder que meu pai tanto preza é vazio. Ele quer que eu seja um herdeiro perfeito, mas a perfeição é uma mentira que eu não consigo mais sustentar.

Shisui aproximou-se, ficando a poucos centímetros de Itachi. O aroma de flores de cerejeira misturava-se ao cheiro metálico das armas que carregavam.

— Então não seja perfeito — disse Shisui suavemente. — Seja apenas você. Com suas aversões, com sua calma, com seu jeito único de amar. Se Fugaku quer um soldado, ele terá um soldado. Mas o homem que eu amo não pertence a ele. Pertence a si mesmo.

Itachi olhou para Shisui e, por um breve momento, a máscara de gelo derreteu por completo.

— Eu quero tentar de novo — sussurrou Itachi.

Shisui inclinou a cabeça, confuso.

— Tentar o quê?

— A intimidade — explicou Itachi, as bochechas pálidas ganhando um leve tom rosado. — Mas sem a pressão de ontem. Eu quero descobrir o que mais existe nesse dialeto que você mencionou. Eu quero saber se posso sentir prazer apenas em ver você sentir, ou se existem outras formas de toque que eu ainda não explorei.

Shisui sentiu o coração acelerar. Não era o desejo físico que o movia naquele momento, mas a admiração pela coragem de Itachi em enfrentar seus próprios limites.

— Nós faremos isso no seu ritmo — prometeu Shisui. — Podemos levar anos, Itachi. Podemos levar uma vida inteira para descobrir cada centímetro desse mapa.

— Eu tenho paciência — disse Itachi, um leve sorriso brincando em seus lábios. — Como shinobi, aprendemos que a espera é uma virtude.

Eles seguiram para a missão, dois vultos negros saltando pelos telhados de Konoha. Para o mundo, eram os Uchiha lendários, armas de guerra letais. Mas, entre eles, havia uma nova fragilidade que os tornava mais fortes do que qualquer jutsu.

Naquela noite, após retornarem da patrulha, exaustos e sujos de terra, eles não buscaram o ato sexual. Em vez disso, Shisui preparou um banho quente para Itachi. Ele lavou o cabelo longo e escuro do companheiro com uma delicadeza que beirava o ritualístico. Itachi sentou-se na água fumegante, fechando os olhos enquanto as mãos de Shisui massageavam seu couro cabeludo.

— Isso é bom? — perguntou Shisui.

— Sim — respondeu Itachi. — É calmo. Não há ruído.

Shisui continuou, descendo as mãos para os ombros de Itachi, desfazendo os nós de tensão acumulados pela conversa com Fugaku e pela missão. Ele não procurava nada além de proporcionar conforto. E, para Itachi, esse era o maior prazer de todos: ser cuidado sem que nada lhe fosse exigido em troca.

Depois do banho, eles se deitaram. Itachi, desta vez, foi quem buscou o contato. Ele deitou a cabeça no peito de Shisui, ouvindo o coração do outro bater.

— Shisui — chamou Itachi no escuro.

— Sim?

— Eu acho que estou começando a entender por que você gosta de me ver sem roupas.

Shisui riu baixinho, acariciando o braço de Itachi.

— E por que seria?

— Porque não há nada para esconder. Nem armas, nem símbolos de clã, nem expectativas. É a única forma de sermos verdadeiramente honestos um com o outro.

— Exatamente — concordou Shisui. — A nudez não é sobre sexo, Itachi. É sobre transparência.

Itachi suspirou, sentindo o peso do sono chegar. Pela primeira vez em anos, ele não sentia a necessidade de monitorar seus próprios pensamentos ou de preparar uma resposta para o dia seguinte. Ele estava seguro. Ele era amado não pelo que podia oferecer fisicamente, mas pela essência que Shisui conseguira enxergar através das sombras.

A jornada deles estava apenas começando. Haveria desafios, haveria a incompreensão de Fugaku e as pressões de um clã à beira do colapso. Mas, naquele pequeno santuário de lençóis e silêncio, Itachi Uchiha descobrira que não precisava ser um homem comum para ter um amor extraordinário. Ele precisava apenas ser Itachi, o homem que encontrara sua voz no toque mais leve e sua paz no coração de quem nunca desistiu de decifrá-lo.