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Reader x Dobby o elfo doméstico

O Banquete das Sombras e o Brilho das Safiras

A poeira mágica e o cheiro de ozônio deixados pelo confronto com o Comensal da Morte ainda pairavam no ar das cozinhas de Hogwarts, mas a rotina do castelo, implacável como o tempo, exigia que a vida continuasse. S/N estava sentada em um banco de madeira maciça, observando suas próprias mãos. Elas ainda tremiam. A sensação do osso cedendo sob sua força bruta era uma lembrança que a assombrava, misturando-se à culpa de se sentir "perigosa" e ao alívio de ter protegido Dobby.

— A senhorita S/N não deve ficar triste — disse uma voz suave e esganiçada vinda de baixo.

S/N baixou o olhar e encontrou Dobby. Ele estava usando a meia amarela que ela lhe dera, puxada até o joelho, por cima de outras três meias de cores diferentes. O elfo segurava uma bandeja de prata com uma única xícara de chá fumegante e um pratinho de biscoitos amanteigados em formato de estrelas.

— Eu quase o matei, Dobby — sussurrou ela, a voz melodiosa embargada. — Eu não sei controlar... meu pai sempre dizia para eu ter cuidado, que eu era como um hipogrifo em uma loja de cristais.

— O Comensal da Morte era um homem mau, senhorita! — Dobby colocou a bandeja no banco e subiu ao lado dela, com uma agilidade impressionante. — Ele queria machucar os elfos e a senhorita. A senhorita foi corajosa. Dobby nunca viu uma bruxa, ou uma não-bruxa, lutar assim!

S/N deu um sorriso triste e aceitou o chá. Ela era uma romântica incurável, passava as noites lendo romances açucarados da biblioteca, mas nunca se imaginou como a heroína de uma história de ação. Ela se via apenas como a mulher de 34 anos que era grande demais, forte demais e tímida demais.

— Você é muito bondoso, Dobby. Obrigada por cuidar de mim.

Dobby sentiu suas orelhas de morcego esquentarem. Para ele, cuidar de S/N não era uma tarefa, era o ponto alto de seu dia. Ele adorava o modo como ela tratava os outros elfos, como se fossem seus iguais. Ele via como ela ajudava a velha Hokey a carregar os caldeirões mais pesados sem que a elfa precisasse pedir, e como ela sempre deixava um rastro de flores silvestres nos vasos da cozinha para alegrar o ambiente.

— Dobby gosta de cuidar da senhorita S/N — admitiu ele, baixando os grandes olhos verdes. — A senhorita é... diferente de todos os humanos que Dobby conheceu. Até de Harry Potter!

S/N corou, o que em sua pele sempre parecia o desabrochar de uma rosa. Ela era ingênua demais para entender o brilho de adoração quase febril nos olhos do elfo. Para ela, Dobby era um amigo leal, alguém que a aceitava apesar de sua falta de magia.

— Falando em Harry Potter, o lanche da tarde será servido em breve — lembrou S/N, tentando mudar de assunto para disfarçar a timidez. — O Diretor Dumbledore disse que hoje teremos muitos alunos na cozinha por causa do clube de estudos.

As cozinhas de Hogwarts eram um espetáculo à parte. Localizada logo abaixo do Salão Principal, era um vasto salão com o teto sustentado por pilares de pedra e centenas de elfos trabalhando em uma sinfonia de estalos de dedos e tilintar de talheres. Havia quatro mesas de madeira idênticas às lá de cima, onde a comida era montada antes de ser enviada magicamente através do teto.

— Sim, sim! — Dobby saltou do banco. — Winky está tentando organizar as tortas de abóbora, mas ela ainda está muito triste. A senhorita S/N poderia ajudá-la?

S/N levantou-se prontamente. Ela nunca conseguia dizer não a alguém em sofrimento. Encontrou Winky perto de um fogão gigantesco, soluçando baixinho enquanto segurava uma garrafa de cerveja amanteigada vazia.

— Oh, Winky, querida — disse S/N, ajoelhando-se para ficar na altura da elfa. — Deixe-me ajudar com as tortas. Por que você não vai até o meu quarto? Eu deixei um pouco de lã macia lá, talvez você possa fazer um bordado?

Winky olhou para ela com olhos marejados e inchados.

— A senhorita humana é muito boa... mas Winky é uma elfa ruim, Winky foi demitida...

— Você não é ruim, Winky. Você só precisa de tempo. — S/N a envolveu em um abraço gentil, tomando o cuidado extremo para não apertar demais e machucá-la com sua força descomunal.

Enquanto Winky se afastava, S/N começou a trabalhar. Ela pegou uma bandeja de prata que normalmente exigiria dois elfos para carregar e a levantou com uma mão só, enquanto com a outra organizava as tortas com uma delicadeza que contrastava com seu poder físico.

Dobby a observava de longe, encostado em uma pilha de sacos de farinha. Ele sentia um aperto estranho no peito, algo que ele não sabia nomear. Ele queria dar presentes a ela, queria vê-la sorrir daquele jeito doce que fazia seus olhos brilharem. Ele se lembrou de que S/N adorava artesanato e coisas azuis, da cor das safiras.

— Dobby precisa de algo especial — sussurrou para si mesmo.

Ele sabia que nos jardins de Hogwarts, perto da Floresta Proibida, cresciam flores que brilhavam como joias sob a luz da lua, mas o lugar era perigoso. Havia boatos de que criaturas antigas, não catalogadas pelos bruxos modernos, espreitavam por lá.

A tarde passou em um borrão de limpeza e preparação. S/N esfregou o chão de pedra até que ele brilhasse como um espelho, cantando uma melodia suave que aprendeu nos seus tempos de babá. Os elfos paravam por instantes para ouvi-la, encantados pela pureza de sua voz. Até mesmo alguns alunos que desceram para buscar um lanche extra, como Neville Longbottom e Luna Lovegood, ficaram parados à porta, observando a cena.

— Você canta muito bem — disse Luna, aproximando-se com seu jeito etéreo. — Parece o som de um seminviso chamando seu par.

S/N quase deixou cair o balde de água.

— Oh! Eu... eu não sabia que alguém estava ouvindo. Desculpe!

— Não peça desculpas pela beleza — respondeu Luna, sorrindo antes de pegar uma maçã e sair saltitando.

S/N sentiu o coração disparar. A ansiedade sempre a fazia pensar que as pessoas a julgariam, mas Hogwarts estava se provando um lugar de aceitação.

À noite, após o jantar ter sido servido e as cozinhas estarem finalmente silenciosas, S/N retirou-se para seu pequeno quarto anexo à despensa. Ela adorava aquele lugar; era aconchegante, cheio de livros de romance e pequenos vegetais que ela cultivava em vasos.

Ela estava prestes a abrir seu livro favorito quando ouviu um arranhar suave na porta.

— Dobby? — perguntou ela, abrindo-a.

O elfo estava lá, mas ele parecia exausto. Suas roupas estavam sujas de terra e ele tinha um pequeno corte na orelha esquerda. Em suas mãos, ele segurava uma coroa trançada de flores azuis luminescentes que pareciam feitas de cristal líquido.

— Dobby! O que aconteceu? Você está machucado! — S/N o puxou para dentro, o rosto transbordando preocupação.

— Dobby buscou um presente para a senhorita S/N — disse ele, entregando a coroa com as mãos trêmulas. — São Flores de Safira. Elas só crescem onde a magia da terra é mais forte. Dobby teve que fugir de um barrete vermelho, mas Dobby conseguiu!

S/N pegou a coroa, sentindo a energia mágica vibrar em seus dedos. Ela olhou para o ferimento de Dobby e sentiu uma onda de carinho e tristeza.

— Por que você faria algo tão perigoso por mim, Dobby? Eu sou apenas uma faxineira... um aborto.

Dobby deu um passo à frente e, pela primeira vez, tomou a iniciativa de segurar a mão de S/N. Sua mão era minúscula comparada à dela, mas o toque era firme.

— A senhorita S/N não é "apenas" nada! — exclamou ele, com os olhos verdes brilhando de uma forma que S/N finalmente começou a notar como algo além de amizade. — A senhorita é a pessoa mais gentil que Dobby já conheceu. A senhorita deu uma meia para Dobby sem que ele pedisse. A senhorita lutou por Dobby. Para Dobby... a senhorita é mais preciosa que qualquer tesouro de Gringotes.

S/N sentiu um nó na garganta. Ela era boba para sentimentos românticos, sempre achando que o amor era algo que acontecia apenas nos livros, mas o que via em Dobby era tão real que a encantava.

— Dobby... eu não sei o que dizer.

— Não diga nada — pediu o elfo, timidamente. — A senhorita pode... usar a coroa?

S/N colocou a coroa de flores azuis sobre seus cabelos. No mesmo instante, as flores brilharam intensamente, iluminando o quarto com uma luz suave. Ela se olhou no pequeno espelho e, pela primeira vez em sua vida adulta, ela não viu uma mulher desajeitada. Ela viu alguém que poderia ser amada.

— Obrigada, meu querido Dobby.

Ela se inclinou e beijou o topo da cabeça dele, sentindo os vários gorros de lã. Dobby fechou os olhos, sentindo que poderia flutuar.

No entanto, o momento de paz foi interrompido por um grito lancinante que veio das masmorras, ecoando através das tubulações. Era um som que não era humano, nem de elfo. Era algo antigo e faminto.

— O que foi isso? — S/N levantou-se, sua força física reagindo instantaneamente, os músculos ficando tensos.

— Vem de baixo — disse Dobby, sua expressão mudando de adoração para um medo profundo. — Das câmaras mais profundas, onde nem mesmo os elfos de Hogwarts ousam ir.

— Tem alguém lá? Algum aluno? — S/N já estava pegando seu pesado casaco de lã e um esfregão de ferro que ela usava para as limpezas mais brutas.

— Dobby não sabe, mas Dobby sente uma escuridão... uma magia muito velha.

S/N olhou para Dobby. Ela estava apavorada, seu coração batia como um tambor de guerra. Mas ela se lembrou de que era forte. Ela se lembrou de que não podia deixar ninguém sofrer.

— Vamos, Dobby. Precisamos ver o que é.

— A senhorita S/N tem certeza? É perigoso!

— Eu tenho você comigo, não tenho? — ela sorriu, um sorriso doce, mas determinado, que deu ao elfo toda a coragem de que ele precisava.

Eles saíram do quarto e atravessaram a cozinha silenciosa. Os outros elfos estavam escondidos em seus cestos de dormir, tremendo. S/N e Dobby seguiram o som, descendo por escadarias de pedra que ficavam cada vez mais frias e úmidas.

Eles chegaram a uma porta de ferro maciço que estava entreaberta. Lá dentro, o cenário era de horror. Um Trasgo da Floresta, muito maior do que os comuns e coberto por uma pele cinzenta, estava encurralando uma pequena figura: era Winky. A elfa devia ter vagado até ali em busca de um lugar escuro para chorar e acabou despertando a criatura.

O trasgo ergueu uma clava feita de ossos gigantes, pronto para esmagar a pequena elfa.

— NÃO! — gritou S/N.

Ela não pensou. Com a força de dez cavalos, ela correu pelo chão de pedra e saltou. No ar, ela brandiu o esfregão de ferro como se fosse uma espada de lenda. O impacto do metal contra o crânio do trasgo soou como um sino de igreja batendo em uma parede de rocha.

A criatura cambaleou, soltando um urro de dor que sacudiu as paredes.

— Dobby, tire Winky daqui! — ordenou S/N, sua voz agora firme.

— Mas e a senhorita?

— Eu seguro ele! Vá!

Dobby estalou os dedos, aparatando ao lado de Winky e desaparecendo com ela em um turbilhão de magia.

S/N ficou sozinha com o monstro. O trasgo, enfurecido, investiu contra ela. S/N desviou com uma agilidade surpreendente. Ela agarrou uma corrente de ferro que pendia do teto e, usando todo o seu peso e força bruta, a puxou, fazendo com que uma parte do teto de pedra desabasse sobre a criatura.

O trasgo foi soterrado pelos escombros, ficando imobilizado. S/N ofegava, o suor escorrendo por seu rosto, a coroa de flores azuis ainda brilhando em sua cabeça, embora um pouco torta.

Dobby reapareceu segundos depois. Ele correu até ela, examinando-a em busca de ferimentos.

— A senhorita está bem? A senhorita é... a senhorita é incrível!

S/N caiu sentada no chão frio, a adrenalina começando a baixar e a tremedeira da ansiedade voltando com força total.

— Eu... eu acho que vou desmaiar, Dobby.

— Dobby não vai deixar a senhorita cair — disse ele, abraçando-a com força.

Naquela noite, após serem encontrados pelo Professor Snape — que olhou para o trasgo derrotado e para a faxineira com uma expressão de choque — e levados para a ala hospitalar por precaução, S/N e Dobby ficaram sozinhos novamente.

Winky estava segura e dormindo sob o efeito de uma poção. S/N estava deitada em uma das camas, e Dobby estava sentado ao pé dela.

— S/N? — chamou ele baixinho.

— Sim, Dobby?

— O amor dos humanos... aquele dos livros que a senhorita lê... ele é assim? Proteger um ao outro do perigo?

S/N pensou por um momento, olhando para o teto alto da ala hospitalar. Ela pensou na coroa de flores, na meia amarela, no modo como o coração dela se aquecia quando via o elfo.

— Eu acho que sim, Dobby. Eu acho que o amor é querer que o outro esteja seguro, não importa o que aconteça. É dar presentes e ficar perto quando o mundo parece assustador.

Dobby sorriu, um sorriso que iluminou todo o seu rosto.

— Então Dobby acha que ama a senhorita S/N. Do jeito dos elfos e do jeito dos humanos.

S/N sentiu o rosto queimar, mas desta vez ela não escondeu a face. Ela esticou a mão e acariciou a bochecha áspera do elfo.

— Eu também acho que amo você, Dobby. Do meu jeito bobo.

Eles ficaram ali, em silêncio, enquanto a lua de Hogwarts observava através das janelas. Eles sabiam que o mundo lá fora era cheio de preconceitos, mas ali, naquela pequena bolha de cuidado mútuo, eles eram apenas duas almas que tinham finalmente encontrado o seu lugar.